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28 março 2009

A inovação científico-tecnológica e os desafios do nosso tempo



“O estado da economia demanda ação pronta e ousada, e agiremos – não apenas para criar emprego, mas para construir novos alicerces para o crescimento. Construiremos estradas e pontes, as redes elétricas e digitais que alimentam o nosso comércio e nos unem. Recolocaremos a ciência no lugar que lhe é devido, e usaremos as magias da tecnologia para melhorar a qualidade do atendimento de saúde e reduzir os seus custos. Convocaremos o sol, a terra e o vento para abastecer os nossos carros e as nossas fábricas. E transformaremos as nossas escolas e universidades para responder aos desafios de uma nova era. Tudo isto podemos fazer. Tudo isto iremos fazer!”

Barack H. Obama[1]



Palavras inspiradoras são as de Barack Obama, grande candidato a farol-guia do mundo em crise. Mas chegarão para nos levar a porto seguro? A julgar pelo recente livro de Judy Estrin [2], discursos inspiradores de grandes líderes são um ótimo princípio para instilar confiança na comunidade e exortá-la a responder aos desafios do momento. Esses são conhecidos de todos, e ao contrário do que muitos pensam não se resumem à crise económica global. São muito maiores os desafios da sustentabilidade da nossa existência, no uso de recursos naturais e seus impactos no planeta que nos acolhe ainda. Mais prementes são os desafios da produção de energias limpas e o controle das alterações climáticas. Para a autora (tal como para Obama), o símbolo do desenvolvimento sustentável teria um potencial catalizador de inovação científica e tecnológica no século XXI, comparável ao que o programa espacial
norte americano teve no sistema de pesquisa e inovação daquele país nas duas décadas após a segunda guerra mundial, levando à consumação definitiva da liderança global dos EUA.

Mas haveria algo errado com o sistema de inovação científico-tecnológica para que os EUA e o mundo pareçam tão atrasados na luta contra os desafios que há tanto tempo se anunciam? O que houve, principalmente nas duas últimas décadas, foi um sistema demasiadamente focado na eficiência e na produtividade em decorrência das pressões da sociedade e de seus líderes. Segundo Estrin, um sistema desse tipo funciona esgotando a energia dos indivíduos em atividades produtivas, não sobrando aquela essencial para a atividade criativa, o verdadeiro pilar da inovação científica e tecnológica. É então importante que a mensagem que chega dos líderes seja de um outro tom, inspiradora e que estimule a inovação. Mas uma sociedade no caminho da inovação depende acima de tudo de indivíduos com determinadas capacidades, que seriam as de: questionar, ser aberto a novas ideias, correr riscos, ser perseverante e autoconfiante. Será possível uma educação para a inovação? Aqui, J. Estrin critica o sistema educativo atual dizendo que ele produz indivíduos com capacidade de seguir manuais de instruções, mas não de questionar e muito menos enquadrar devidamente as questões. A saída para as próximas gerações é, não tanto ensinar inovação como disciplina na escola mas alterar o modo como se lecionam todas as disciplinas, incentivando o questionamento das matérias e os debates em que a criança ou adolescente seja protagonista. Assim se despertam as capacidades de liderança necessárias para uma atividade criativa. A educação dentro da família teria um papel tão ou mais importante, no sentido de permitir à criança ter a autoconfiança necessária para, ao longo de sua vida, questionar de forma construtiva entidades que representem o poder do conhecimento autoritário, sejam parentes, professores, orientadores ou superiores hierárquicos.

Essa empresa, a da promoção da inovação para atender aos desafios da nossa era, extravasa o papel das universidades como instituições promotoras de ciência e inovação, pois é na verdade um projeto de sociedade. À semelhança dos mecenas da Itália renascentista, o Estado, fundações e indivíduos filantrópicos têm papel essencial na promoção da criatividade e da inovação. Sem o investimento incondicional na educação e nas carreiras de jovens com potencial inovador, claramente não será possível vencer os desafios da nova era. O apoio a museus, exposições interativas e atividades curriculares que estimulem a curiosidade e perspectivem uma carreira de exploração científica são também imprescindíveis para aguçar o espírito inovativo.

A cumplicidade da imprensa nesse empreendimento é essencial. Um exemplo que vale recordar, de Portugal, é o concurso Ciência Viva que leva jovens em idade universitária a instituições de pesquisa como o Centro Espacial Europeu e o carinho que esse tipo de iniciativas desfruta na mídia local [ver 3]. Quantas vezes esse carinho é dedicado pela grande mídia brasileira a programas de interação entre jovens e pesquisadores em grandes centros de ciência no Brasil. O que ficou por exemplo da expedição espacial brasileira, divulgada no meio de várias polêmicas que apenas realçaram o seu lado negativo? Quantos jovens terão ficado inspirados pelos textos escritos e lidos na imprensa, naquele ano de 2006? Muitos terão ficado maravilhados com o feito do astronauta Pontes, mas com certeza não através da contribuição de muita da imprensa escrita.

É necessário um novo ambiente na nossa sociedade que acarinhe a boa ciência e a tecnologia realmente inovadoras. As grandes questões do nosso tempo e do nosso futuro deveriam dominar a mídia, de forma mais inspiradora e menos conspiradora, constituindo um verdadeiro ideal de nação e de mundo. Infelizmente, tanto por culpa da imprensa como de nossos líderes, grandes questões são abordadas de forma burocrática e desestruturada, não permitindo ao público ter uma noção de rumo. Um bom exemplo é a autossatisfação da nação brasileira com a autossuficiência no abastecimento de petróleo e a liderança mundial na produção de biocombustíveis. Se esses feitos da tecnologia brasileira são sem dúvida invejáveis, parece faltar alguém que pergunte: biocombustíveis para hoje, e o que para daqui a 20-50 anos? Poucos alertam para o caráter paliativo desses feitos pois nem os combustíveis fósseis nem os biocombustiveis são sustentáveis a longo prazo para suprir o consumo brasileiro e mundial.

Parafraseando Obama, convoquemos o sol, a terra e o vento para garantir a nossa sobrevivência, mas é bom ter cuidado com a terra pois apenas o sol e o vento são absolutamente renováveis. E o uso destes depende absolutamente de indivíduos inovadores inspirados e motivados por sociedades estimulantes. A desculpa de que o Brasil é um país ainda emergente, afogado em problemas civilizacionais muito mais básicos, não será suficiente para explicar às próximas gerações por que motivo o país não foi protagonista nas grandes revoluções do século XXI. Esperemos que não seja por falta das palavras: “Sim, nós podemos” mudar o Brasil e o mundo! Rumo a um porto seguro que sirva de base para explorar outros destinos.


1. Tradução própria de extrato do discurso de posse do presidente dos Estados Unidos da América Barack H. Obama, em 20 de Janeiro de 2009.
2. Estrin, Judy (2008). Closing the Innovation Gap: Reigniting the spark of creativity in a global economy. McGraw-Hill, 300p. [
http://www.theinnovationgap.com/]
3. Teresa Firmino (2006). Concurso do Ciência Viva: Desafios de física levaram duas alunas a centro de testes de satélites. Jornal Público, Quinta-feira 16 de Março de 2006. Matéria completa reproduzida no blog
Ciência e Ideias.

Texto de candidatura ao Curso de pós-graduação lato sensu em jornalismo científico do Labjor-UNICAMP.

26 setembro 2007

Amores expressos

Dezesseis escritores brasileiros embarcaram cada um para um canto do mundo. Na volta cada um escreverá sua história de amor. É o projeto "Amores expressos", que criou grande bafafá no meio literário e agora está em curso.

Cada um dos escritores mantém um blogue em que conta suas histórias. Ainda não consegui ler muito, a não ser o do Bernardo Carvalho que foi o primeiro que descobri. Além de serem belos escritores, acompanhar as aventuras é de certa forma participar da gênese de futuras obras literárias.

Veja aqui o site do projeto.

23 setembro 2007

Sem rede de segurança

Quando criança, Maria Bethânia queria ser trapezista. A lembrança está no final do filme "Maria Bethânia, pedrinha de Aruanda", de Andrucha Waddington. "Acabei não indo para a escola de circo, mas no fundo é esse o meu ofício", ela reflete enquanto contempla um picadeiro vazio. "Sem rede".

Quem já a acompanhou palco adentro sabe. E quem viu o filme andou junto, sentiu a tensão, a intensidade da oração em busca de força e concentração, a coragem para correr e mergulhar nos brados amantes da multidão. O sorriso que rasga o rosto de lado a lado não é simpatia, não é teatro, não é triunfo. É a energia que ela recebe e transborda. E é a música que aflora, não cabe só na voz.

A lição maior é avançar pela vida sem rede de segurança. Não importa se há um deus (ou muitos), nem seu nome: a vida vale muito mais se a gente enxerga o sagrado das coisas. Entrar num rio e parar diante de uma cachoeira, admirar a força sem combatê-la, fazer parte. Estar junto com quem se ama. Tudo sagrado.

A foto eu peguei aqui.

13 setembro 2007

29 agosto 2007

A Herança de Eça


Por Henrique Guimarães

Dia desses, fui ao cinema assistir ao “Primo Basílio”, de Daniel Filho. O filme até que é bom, principalmente se comparado aos últimos filmes a que assisti do diretor, além do que as atuações de Débora Falabella e Glória Pires, como a dupla antagonista feminina, é brilhante. Porém, apesar de muito elogiada, a transposição do romance de Eça de Queirós, da Lisboa do século XIX, para a São Paulo do fim dos anos 50, tira do filme uma das melhores características da literatura queirosiana: o mergulho crítico na sociedade lisboeta do século retrasado.

O público de 300.000 espectadores em duas semanas, obviamente garantido pelo elenco global, já garante a “O Primo Basílio” uma das melhores bilheterias do ano. Mas, ao mesmo tempo, não é nem um pouco garantido que haja um aumento na leitura dessas obras que põem em questão a família, a religião e os bons costumes, com a categoria desse mestre, que era Eça de Queirós.

Eça de Queirós é, junto com Machado de Assis, no Brasil, um dos mais brilhantes e geniais herdeiros da herança realista deixada por Flaubert, em língua portuguesa. Junto com outros portugueses muito conhecidos no Brasil, como Luís de Camões, Fernando Pessoa e José Saramago, Eça nos orgulha de sermos lusófonos, principalmente por sua literatura crítica, densa e possuidora de um ritmo muito característico.

“O Primo Basílio” não é a primeira experiência brasileira de adaptação da obra de Eça. Em 1988, a mesma obra foi adaptada para televisão, assim como em 2001 “Os Maias” que, pelo sucesso, merece uma análise mais profunda.

A série “Os Maias”, adaptada por Maria Adelaide Amaral e dirigida por Luiz Fernando Carvalho é uma, rara, tentativa bem-sucedida de adaptação do maior romance de Eça para televisão, que incluía também o enredo de outro romance do autor, “A Relíquia”. Muito bem dirigida, “Os Maias” também contou com excelentes atuações, destacando-se Walmor Chagas, como o patriarca da família Maia, Fábio Assunção – de atuação irregular na recente adaptação de “O Primo Basílio”, como o próprio – nesse caso como o protagonista Carlos Eduardo, e, por fim, Selton Mello, como João da Ega, o auter-ego de Eça. Com certeza, quem leu o livro, se identificou com a belíssima representação da Lisboa do século XIX, e mesmo aqueles que disseram sentir falta do Embaixador Steinbroken, ficaram estarrecidos com Dâmaso Salcede, na pele de Otávio Müller.


Portanto, para quem teve o prazer de ler os romances de Eça de Queirós, pode analisar as adaptações citadas, no caso de “Os Maias”, disponível em dvd. Para quem nunca leu Eça, está perdendo tempo, seja para mergulhar num mundo distinto do atual, ou para se surpreender com a pertinência de algumas críticas de Eça àquele período, que se encaixam perfeitamente nos dias de hoje.

16 março 2007

O problema da imprensa com a ciência...

...está bem explícito no texto que George Monbiot escreveu no Guardian de 13 de Março de 2007. Deixo um excerto do artigo que pode ser lido na integra aqui.

...Cherry-pick your results, choose work which is already outdated and discredited, and anything and everything becomes true. The Twin Towers were brought down by controlled explosions; MMR injections cause autism; homeopathy works; black people are less intelligent than white people; species came about through intelligent design. You can find lines of evidence which appear to support all these contentions, and, in most cases, professors who will speak up in their favour. But this does not mean that any of them are correct. You can sustain a belief in these propositions only by ignoring the overwhelming body of contradictory data. To form a balanced, scientific view, you have to consider all the evidence, on both sides of the question....

Sem mais comentários.


19 fevereiro 2007

É carnaval

A foto acima, de Tuca Vieira, eu surrupiei da galeria de musas do UOL

Adoro carnaval.
Adoro o surreal das notícias, discussões sobre o que é afinal a nudez total, volumes de silicone, o drama dos carros alegóricos pifados, a filosofia que encontra voz nos samba-enredos. E os clichês - a alegria, o dia em que a faxineira é rainha, naqueles dias tudo pode etc.
Tendo a ficar caseira, preguiça de enfrentar congestionamentos e coisa e tal. Mas faço planos, desta vez é pra valer: ano que vem vou agitar um programa carnavalesco.
Então fico em casa, vejo desfiles, leio jornal, armo um carnaval particular com um sambinha na vitrola (perdoem a palavra anacrônica, mas tão mais bonita que os equivalentes modernos).
Meu amigo Rafa outro dia me lembrou de uma experiência carnavalesca que tive na Califórnia, se não me engano em 2000. Ele viveu a aventura pela minha descrição e guardou na memória até hoje. Fui procurar meu texto e eis, abaixo.
Ler me deu vontade de pular carnaval, para celebrar ser esta a minha terra.


Carnaval de primeiro mundo

A juventude de Monterey se concentrava numa esquina, em plena celebração de Mardi gras. Moças escassamente vestidas, todos com colares de contas coloridas de plástico. Parecia ser o acontecimento do ano.

A programação incluía eventos diversos: desfiles, danças, música. Chegamos por volta das dez da noite e encontramos os dois bares com música ao vivo lotados, com filas na entrada. A maior parte dos foliões estava simplesmente de pé na rua, jovens pelo visto satisfeitos por estarem apinhados. Como regem as leis locais, não bebiam nem ouviam música. Só estavam ali, compartilhavam animação. Acima das cabeças surgiam filmadoras, tudo era registrado.

Um dos bares — campeão de fila — ficava no segundo andar, com uns janelões-vitrines que davam para a tal esquina. De lá surgiu a grande sensação: moças celebravam a vitória de ter conseguido entrar e na vitrine levantavam camiseta e sutiã. O público na rua delirava com a peitaria e atirava seus colares de contas (pagamento?), que elas tentavam pegar debruçando-se pra fora da janela já com os peitos guardados. As câmeras de vídeo todas acionadas.

A atração durou quem sabe uns vinte minutos. Enquanto todos admiravam o espetáculo, uma tropa de choque esperava, na beira da multidão. Dois carros de polícia um atrás do outro, de cada lado um policial a pé com seu cachorro, ladeados por policiais a cavalo. Atrás, um carro de bombeiros. Posicionados, prontos para impedir maiores manifestações da população desvairada.

Com certeza influenciadas pela presença da lei, duas moças acharam por bem resolver suas diferenças no tapa. Sobrou bota prum lado, jaqueta pro outro. Formou-se uma roda em volta, igualzinho acontecia na escola. Elas se puxavam os cabelos, trocavam sopapos. Os policiais, finalmente com motivo para ação, intervieram e recolheram as desordeiras. Com os alto-falantes do carro de polícia avisaram para a multidão retirar-se, liberar a rua. A turba ignorou, embevecida ainda com o show da vitrine; grande decepção quando as moças foram substituídas por um policial de costas para a janela, com sua lanterna apoiada no ombro apontando pra dentro.

A tropa da rua então avançou. Com o fim do show erótico, a atração passou a ser a ação policial. O clima ficou tenso e quando começaram a chover garrafas sobre a coluna da ordem, meus amigos decidiram pela retirada.

Eu corria sério risco de ficar ali boquiaberta, até me cair uma garrafa na cabeça ou ser detida como desordeira.


18 fevereiro 2007

Onde está Monbiot?

Tell people something they know already and they will thank you for it.
Tell them something new and they will hate you for it.

George Monbiot


Tenho verificado ultimamente que as afirmações acima são largamente verdadeiras. Elas servem para introduzir George Monbiot, britânico, activista, ambientalista, jornalista e professor universitário. Venho seguindo a sua coluna semanal do The Guardian, desde que li “Manifesto for a new world order” (The New Press, 2003). Os seus textos são admiráveis pela riqueza e clareza informativas, de fontes diversas, compondo artigos de opinião bem fundamentados que considero exemplos do tipo de jornalismo reflexivo que me interessa ler e ouvir. Podem ser lidos aqui.

Acabo de ler “Heat: how to stop the planet burning”, (Penguin Books, 2006) o mais recente livro de Monbiot sobre o que podemos e devemos fazer para evitar as consequências mais catastróficas do aquecimento global.

Hoje, após anos de dúvida e negação, parece consensual que o aquecimento global por ação humana é um fato real e mensurável. Mesmo alguém muito distraído terá notado a reverberação pela imprensa do último relatório do Painel Intergovernamental para as Mudanças Climáticas (IPCC), que pode ser consultado aqui.


Heat
é um manifesto para a mudança baseado numa pesquisa bibliográfica sólida. A pesquisa mais recente sugere que se a concentração de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera se mantiver nos níveis atuais, a temperatura global aumentará cerca de 2 graus centígrados (relativamente ao séc.
XIX). Este é o limiar acima do qual se prevê a ruptura do equilíbrio nos grandes ecossistemas: em vez de absorver CO2, a moribunda floresta amazónica começará a libertar milhões de toneladas do composto. Longe dali, à medida que gelos imemoriais começarem a derreter, o solo libertará gases que aumentarão o efeito de estufa. As alterações climáticas terão entrado num processo de retro-alimentaçao positiva que conduzirá ao descontrolo do clima que hoje conhecemos.

Para evitá-lo, Monbiot afirma que devemos evitar que o aquecimento global ultrapasse aquele “limiar crítico”. É possível que já tenhamos ultrapassado o ponto de não retorno. Mas Monbiot escreve-nos “com um espítito otimista”.

E a ameaça é tão óbvia que não vale mais perder tempo combatendo os argumentos dos mais cépticos!

Após dois capítulos introdutórios, Monbiot começa a desenrolar aquele que é o primeiro e único documento, até ao momento, que avança propostas concretas sobre como mudar as nossas vidas para salvar o clima do planeta. Isto, sem esquecer os custos de tamanha tarefa, claro! Só por este motivo, já teria valido a pena ter lido o livro.

O que fazer então?

Necessitamos de uma redução global de 60% nas emissões para evitar atingir o limiar crítico. O que significa que, em média, as nações mais ricas terão de cortar as emissões em 90%. No Reino Unido, será necessário passar de 2.6 toneladas de CO2 emitidas anualmente per capita para 0.33 toneladas. Se à primeira vista parece impossível, Monbiot trata de convencer-nos que uma nação industrial de tamanho médio como o Reino Unido “pode ser descarbonizada e permanecer uma economia moderna ". Como? Primeiro, todos os cidadãos do planeta devem ter o mesmo direito a emitir de gases que produzem efeito de estufa, o que equivale a adotar um racionamento global per capita em conjunto com um mercado de emissões de carbono. Para tornar o sistema de racionamento realizável, os governos precisam investir pesadamente em infraestruturas energéticas alternativas. Isso significa redesenhar sistemas de transporte para nos curar da nossa (tóxico-)dependência do uso individualista do automóvel, promover a transição para sistemas de energia renovável e centrais de gás natural com tecnologias de captura e armazenamento de carbono, e uma nova rede de energia que permita aproveitar a energia produzida por turbinas eólicas instaladas nas plataformas continentais marinhas e energia solar produzida no... Sahara! Monbiot explica-nos como tudo isto será tecnologicamente e economicamente possível, desde que os governos estejam dispostos a fazer a sua parte. Mas não existem governos sem seus eleitores. NÓS!

Além de alterações na matriz energética, é preciso melhorar a eficiência do uso da energia a vários níveis. Uma área com grande espaço para ganhos de eficiência é a da construção de edifícios e habitações. Quem já não ouviu falar de edifícios inteligentes? Pois é necessário investir para os construir e Monbiot faz propostas concretas que mais uma vez se aplicam ao Reino Unido, onde a demanda de energia residencial entre 1990 e 2003 subiu mais do dobro da média nacional. Monbiot apresenta soluções engenhosas para cortar as emissões de carbono, mas preservando, em grande parte, o confortável estilo de vida ocidental. Com a importante excepção de uma extravagância bem carbonada de que tanto gostamos: VOAR! Um vôo Nova Iorque–Londres produz mais gás com efeito de estufa por passageiro que a totalidade da quota anual individual do sistema de racionamento de emissões de carbono. "O crescimento na aviação e a necessidade de combater o aquecimento global não são compatíveis." Um corte nas emissões de 90% significa o fim das viagens para fazer compras em Nova Iorque ou safaris no Quénia. A alternativa é acreditarmos "que estas atividades se justificam apesar do sacrifício da biosfera e das vidas dos mais pobres". Sim, porque os primeiros que sofrerão com o aquecimento global (e já sofrem!) são as populações do Bangladesh ou de muitas regiões de África. Será que a fome e a guerra de etíopes e sudaneses valem o sacrifício do nosso confortável desperdício de energia?

O problema é que parece que vivemos num estado de negação da catástrofe que poderá um dia cair-nos em cima. Apesar de toda a informação que circula, quem se preocupa? Onde estão as grandes manifestações de ativistas? Monbiot afirma que a juventude, filha daquela que vivia em manifestações nos anos 70 e 80, vive hoje demasiado...endividada! Apesar disso Monbiot pretende acordar-nos e persuadir-nos de que vale a pena combater o aquecimento global. Ou, pelo menos, que “todos fiquemos de cama, de tão deprimidos, reduzindo assim o consumo de combustíveis fósseis".

Heat é ao mesmo tempo um “manifesto e um exercício intelectual”. Pela impressionante combinação de detalhes práticos e pensamento criativo, é um documento único e é o único documento do momento que pode servir de guia para a ação. Monbiot conclui que “é possível salvar a biosfera” mas temos de estar preparados para aceitar que limitar a nossa liberdade de poluir significa uma mudança nas nossas vidas.

Mas atenção, a receita de Monbiot não é diretamente transponível para países em desenvolvimento ou emergentes como o Brasil. Esses necessitam de encontrar as suas próprias soluções, com certeza baseadas nos princípios gerais encontrados em Heat. Onde está o Monbiot brasileiro?

Heat: leitura agradável e acessível ao público em geral. Obrigatório neste ano de 2007. Para ler, reflectir e AGIR, com coerência!


17 fevereiro 2007

Procura-se!

Esta semana descobri um livro lindo, que recomendo a quem queira presentear crianças. Procura-se - Galeria de animais ameaçados de extinção é uma coletânea, produzida pela Companhia das Letrinhas, de textos sobre animais brasileiros em perigo, inicialmente publicados na Ciência Hoje das Crianças.

Cada texto é de um autor diferente, e traz uma ficha técnica sobre o animal e um texto com curiosidades e informações diversas - além de uma foto e uma lindíssima ilustração de Mario Bag.

08 fevereiro 2007

Folha fantástica!

Títulos para a posteridade, da Folha de S.Paulo, de quinta-feira, 8 de Fevereiro de 2007:

Comissão em SP reconhece um feto como preso político. (capa)
Reconhecido como vítima de tortura, feto busca reparação. (A10)

Aquecimento global...? Neotenia? Não, não, sossegue, hum... não comece já a imaginar o feto no tribunal, ou buscando seu torturador nas ruas de S.Paulo. Hum...mas leia a explicação aqui.

You might say that - I couldn't possibly comment.

Gripe das aves levanta vôo!


The British outbreak, on a large turkey farm in eastern England, follows repeated insistence by British officials that the nation's wild birds do not have the virus, even though an infected dead swan turned up in Scotland last April. But there is a chance that surveillance is missing the virus.

Pequeno excerto de um artigo da revista britânica New Scientist, a propósito do surto de gripe das aves detectado numa exploração aviária no Reino Unido. Ler a matéria completa aqui.

Em relação à última frase do excerto, Francis Urquhart, o político britânico da genial e renomada série da BBC, House of Cards, diria:

"You might say that - I couldn't possibly comment."


05 fevereiro 2007

Animais em perigo

Tigres, orangotangos, bacalhaus, tartarugas marinhas... são alguns dos animais que correm sério risco de extinção pelo mundo afora. Perdê-los pode ter importância estética, ecológica, afetiva ou culinária - conforme o caso e o ponto de vista.

O jornal britânico The Guardian acaba de publicar uma lista de animais com um resumo do que os ameaça. O que me chamou a atenção é que a matéria traz, a cada caso, dicas do que cada um de nós pode fazer para ajudar na preservação de cada uma das espécies.

Confesso que ainda não li tudo - ponho aqui como lembrete para mim mesma (assim que tiver um tempinho...), que compartilho com quem quiser.

17 janeiro 2007

Malária de volta à Europa?

Um especialista do Centro de Malária e Doenças Tropicais admitiu hoje que em Portugal, e noutros países europeus, existe o risco de ressurgimento de doenças tropicais, como a malária, devido às alterações climáticas.
...
Após a descoberta de mosquitos transmissores do parasita da malária na Baviera, no Sul da Alemanha, vários meios de comunicação social daquele país alertaram para a possível propagação de doenças tropicais [na Europa].

Leia o artigo completo na edição eletrónica do jornal Público.

Lá diz o sábio ditado popular que não há nada como um dia após o outro,
para ver o mundo rolar,
cima virar baixo,
Europa, África,
e os pólos, centro.

12 janeiro 2007

Embates na natureza

Aranha disfarçada de flor.
Abelha vai buscar pólen
e vira almoço


07 dezembro 2006

Aves da Mata Atlântica


Será lançado hoje em São Paulo o livro acima, na livraria Cultura do Shopping Villa Lobos. Ainda não vi o livro, mas as fotos de Edson Endrigo são sempre lindas e revelam aos olhos esses animais que encantam tanta gente mas são tão difíceis de ver... A riqueza da Mata Atlântica é imensa e merece ser explorada.


05 novembro 2006

Ciência e Saúde com poesia

Quem lê as colunas de Drauzio Varella na Folha de São Paulo já sabe o que esperar desta coletânea de ensaios que acaba de sair pela Companhia das Letras. Quem não lê, terá o prazer adicional da surpresa.

A maravilha desses textos é que eles são absolutamente informativos a respeito de temas científicos e médicos, mas são também muitas vezes de um lirismo que embala a alma.

"A vida na Terra é um rio que começou a correr há quase 4 bilhões de anos, e chegou até você e eu no meio de uma diversidade espetacular: leões, mosquitos, coqueiros, bactérias, algas marinhas e dezenas de milhões de outras espécies". Assim começa o livro, e é por esse rio que Drauzio Varella nos conduz ao longo das mais de trezentas páginas que se seguem.

Alguns textos são cheios de poesia, outros mais pragmáticos descrevem mazelas de saúde e afins. Todos aumentam nosso conhecimento sobre o mundo, sobre o nosso dia-a-dia, sobre o funcionamento do corpo humano. E muito mais.

Tive a sorte de organizar o volume, o que quer dizer que li e reli todos os textos. O mundo ficou mais claro, e seus mistérios mais bonitos. Junto minha voz à do autor: "Com todo o respeito pelos que acreditam ter sido o homem criado por um sopro transcendental, a visão de que a vida surgiu aleatoriamente, há quase 4 bilhões de anos, a partir de moléculas capazes de fazer cópias de si mesmas e que, através da seleção natural, formaram seres tão díspares quanto bactérias, árvores e mamíferos encerra mais mistério e poesia."

Como este texto tem a ver com o tema em discussão na Roda de Ciência, por favor deixe comentários aqui.

01 novembro 2006

1421

Finalmente foi publicado no Brasil o livro 1421 – O ano em que a China descobriu o mundo (Ed. Bertrand Brasil). Da autoria de um oficial reformado da marinha britânica, Gavin Menzies, a obra revoluciona o que se pensava saber sobre as viagens marítimas do séc XV. Para aguçar o apetite basta dizer que talvez não tenha sido james Cook o primeiro a chegar até à Austrália, nem Pedro Álvares Cabral o primeiro a navegar até ao Brasil e muito menos Colombo até...onde mesmo? É muito provável que os chineses tenham chegado primeiro, nas suas viagens de exploração e descoberta ao redor do mundo, entre 1421 e 1423. A Revista Época poupa-me o trabalho de vos contar mais detalhes da investigação detetivesca de Gavin Menzies, publicando este mês uma excelente matéria sobre o livro que pode ser lida aqui.

Já tinha lido o livro há algum tempo, na sua edição lusitana (Dom Quixote, 2004) e é pena que apenas agora esteja disponível no Brasil, sendo o tema relevante para a sua história. O livro poderá ser polémico, mas com certeza fascinante. No final, aceitando a hipótese de 1421, fica a pergunta de como o mundo teria sido diferente se a China não tivesse resolvido abandonar as Viagens devido a várias fatalidades que atingiram o império logo após a armada ter zarpado.

É que a China do então imperador Zhu Di não parecia ter intenção de colonizar, o seu fim era o conhecimento do mundo à sua volta e o estabelecimento de uma rede de comércio mundial mais ou menos “livre”. Pois eu diria que já vamos com quase seis séculos de atraso!

15 outubro 2006

II Mostra de Ciência no Cinema em Campinas

O Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor), a Faculdade de Educação (FE) e o Museu Exploratório de Ciências da Unicamp convidam para a II Mostra de Ciência no Cinema, entre os dias 16 e 22 de outubro. Neste ano, a Mostra acontecerá em três locais na cidade de Campinas, cada qual com suas sessões: no Museu de Imagem e do Som (MIS), na NanoAventura e no Planetário do Parque Taquaral. A mostra faz parte das atividades da III Semana Nacional de Ciência e Tecnologia e vai abordar questões ligadas à biotecnologia como clonagem humana, melhoramentos genéticos, da transformação do corpo, entre outros. Após cada sessão, haverá um espaço para discussão, com um palestrante convidado. Contamos com a sua participação!

Confira a programação:

Museu de Imagem e do Som (MIS)
De 17 a 19 de outubro
Rua Regente Feijó, 859 - Centro
Sessões às 16h30

*Dia 17 (Terça-feira): Tudo sobre minha mãe. Palestrante convidada: Carolina Cantarino (Labjor-Unicamp).
*Dia 18 (Quarta-feira): A batalha dos vegetais. Palestrante convidada: Susana Dias (Olho/Labjor-Unicamp).
*Dia 19 (Quinta-feira): Código 46. Palestrante convidada: Germana Barata (Labjor- Unicamp).

NanoAventura
De 16 a 20 de outubro
Localizada no antigo Observatório a Olho Nu (Obonu)/ Unicamp
Sessões às 17hs
*Dia 16 (Segunda-feira): Curandeiro da Selva. Palestrante convidada: Senilde Guanaes (Faculdade de Jaguariúna)
*Dia 17 (Terça-feira): Código 46. Palestrante convidada: Marta Kanashiro (CteMe/Labjor-Unicamp).
*Dia 18 (Quarta-feira): Os doze macacos. Palestrantes convidados: Wagner Geribello (PUC-Campinas) e Cristina Bruzzo (Olho/FE-Unicamp).
*Dia 19 (Quinta-feira): A batalha dos vegetais. Palestrante convidada: Flávia Natércia (Labjor-Unicamp).
*Dia 20 (Sexta-feira): Tudo sobre minha mãe. Palestrante convidado: Wencesláo Machado de Oliveira Júnior (Olho/FE-Unicamp).

Planetário/Taquaral
De 21 e 22 de outubro
*Dia 21 (Sábado):
14hs - X-Men 2. Palestrante convidado: Gazy Andraus (ECA-USP).
17hs - A mosca. Palestrante convidado: Edgar Franco (PUC-Minas Gerais).
*Dia 22 (Domingo):
14hs - A batalha dos vegetais. Palestrante convidado: Elenise Andrade (Olho/FEUnicamp).
17hs - Código 46. Palestrante convidado: Antonio Carlos Amorim (Olho/FE-Unicamp).

20 agosto 2006

Calder no Brasil

Adoro móbiles.

Agora, os do Calder... são um deleite total. São delicados, flutuam de uma forma que parece mágica. Giram, espiam, envolvem. Posso ficar muito tempo olhando, uma conversa.

Como não sou entendida em arte, nas vezes em que vi esses móbiles me limitei a olhar extasiada. E empurrar com a pontinha do dedo nas ocasiões mais especiais, contribuir praquele movimento. Nunca questionei, será arte ou será brinquedo? Quem era esse homem que ganhava a vida fazendo isso?

Agora tenho uma nova perspectiva graças ao livro Calder no Brasil, organizado por Roberta Saraiva e publicado pela Cosac Naify, que será lançado na Pinacoteca de Estado de São Paulo no próximo sábado, dia 26 de agosto. Mas o livro não vem sozinho. A ocasião marca também a abertura de uma exposição de obras de Calder elaborada a partir do trabalho da organizadora do livro.

O livro reúne um texto escrito por Roberta, que pesquisou as passagens de Calder pelo Brasil. O contato do artista norte-americano com este país durou de 1939 a 1975. Adorou o Rio de Janeiro, sobretudo o samba. Fez exposições, fez amigos, foi bem recebido, foi a festas, vendeu trabalhos. Influenciou e foi influenciado.

Essas influências e as discussões que rodearam aquela inusitada expressão artística aparecem em textos da época recolhidos por Roberta. Há diversos, deliciosos, escritos pelo crítico de arte Mário Pedrosa. Aparecem também, entre outros, Jean-Paul Sartre, Henrique Mindlin, Fernando Sabino, Carlos Drummond de Andrade e Ferreira Gullar.

Vale a pena ler o livro antes de ir à exposição. Ou, melhor, sentar nalgum banco da Pinacoteca para ler. Nada mais delicioso do que acompanhar as análises de como Calder utilizava o espaço e inventou uma arte que envolve também o tempo, podendo espiar para fora do livro e ver um móbile flutuar logo ali. Contando sua história também.

O lançamento do livro e abertura da exposição são no dia 26 de agosto, das 11 às 14h.
A exposição fica na Pinacoteca até 15 de outubro.
De terça a domingo, das 10 às 18h.
Praça da Luz, 2 - São Paulo