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31 março 2009

O menino Darwin

O escritório onde Darwin trabalhava tinha equipamentos modestos se comparados à parafernália de um laboratório atual. Microscópios de cobre, lupas, tubos de ensaio, livros. Mas a ferramenta mais importante não aparece na foto: a curiosidade.

Entre aulas e leituras, tenho a impressão de ter convivido longamente com Charles Darwin, e de quase conhecê-lo. Claro, o meu Darwin é com certeza diferente do das outras pessoas. É dele que falo aqui. Do menino de 10 anos que contava flores no jardim, como conto aqui, do jovem que se deslumbrou na viagem à América do Sul e do homem que se manteve maravilhado pela vida afora.

Para mim, é da atenção que ele prestou a tudo o que era da natureza que vêm suas grandes contribuições à ciência. Como, senão, explicar a diversidade dos temas que abarcou? O livro Darwin's Garden - Down House and the Origin of Species, por Michael Boulter (que deve sair no Brasil ainda este ano) traz belos relatos. Conta dos besouros que Darwin coletava, da revisão taxonômica de cracas que empreendeu como maneira de dominar a variabilidade entre espécies, dos pombos que criava e nos quais admirava as fantásticas plumagens, das minhocas de seu jardim cuja população estimou, assim como seu efeito sobre a terra remexida. Nesse livro aprendi também que ele deu atenção às plantas carnívoras do gênero Drosera, sobre as quais inferiu (corretamente) que capturavam insetos para suprir uma deficiência de nitrogênio no solo. E foi também pioneiro em estudar a psicologia do ponto de vista do desenvolvimento, ao observar atentamente o crescimento de um de seus filhos. Tudo isso detalhado com minúcias e publicado (veja aqui).

Essa curiosidade e a propensão a maravilhar-se está nas crianças - Darwin sabia e envolvia os filhos pequenos em seus experimentos, em brincadeiras como espalhá-las pelo jardim para desvendar os voos das abelhas. Se mais pessoas mantivessem a chama acesa, talvez a história da ciência fosse mais coalhada de lampejos.


Aproveito o ensejo para recomendar o novo livro do Marcelo Leite: Darwin, para a coleção Folha Explica. O livro começa com a polêmica atual entre criacionismo e evolução, na qual ambas disciplinas disputam a cadeira de ciência. Controvérsia que, desconfio, causaria desgosto ao velho Charles. Marcelo Leite parece concordar, mais adiante escreve: "Seria um despropósito, no entanto, interpretar sua obra e seu pensamento como peças de propaganda ateísta, como até hoje - 150 anos depois de Origem das espécies - alguns fundamentalistas ainda a avaliam. Para sustentar sua interpretação da natureza, Darwin poderia tanto acreditar como não acreditar em Deus, pois a rigor essa questão é irrelevante para seu pensamento".

Marcelo Leite foi bem sucedido no desafio de resumir a vida e da obra de Darwin no pouco espaço que a coleção exige. Não posso deixar, porém, de gritar com o espinho que ele deixa no final, quando chega ao que considera maus usos das ideias evolucionistas. "O caráter um tanto tosco de iniciativas como a sociobiologia dos anos 1970 [...] de fato não autoriza entusiasmo para com essa perspectiva. O que ele chama de tentativas canhestras - me refiro unicamente ao marco fundador da sociobiologia, o livro de E.O. Wilson de 1975 - não tiveram nada de tosco. Wilson fez naquele momento a primeira demonstração de sua capacidade ímpar (até darwiniana) de reunir ideias e sintetizá-las num corpo teórico coerente. Sim, a organização social dos animais é resultado de uma imensa conjunção de fatores biológicos que incluem ecologia, fisiologia, genética de populações e mais.

Não vejo bem a discordância entre o que Wilson discutiu em seu livro (na pequena fração que dedica às pessoas) e o trabalho de Peter Singer que Marcelo Leite sintetiza ao fim do livro: existe natureza humana, saber mais sobre ela ajuda a lidar com ela, e ela não justifica ações condenáveis por serem naturais.


Outra dica: a revista Pesquisa de março traz artigos por quatro pesquisadores que comentam a influência das ideias de Darwin em suas respectivas áreas de pesquisa. São eles Mario de Pinna, do Museu de Zoologia da USP, Cesar Ades, da Psicologia da USP, Alysson Muotri, da Universidade da Califórnia em San Diego e Ana Carolina Regner, da Filosofia da Unisinos.


Tirei a imagem daqui, a fotografia é da exposição Darwin em Chicago, a mesma que esteve no Brasil e sobre a qual escrevi na revista Pesquisa.


Este texto é parte da discussão de março no roda de ciência.
Comentários, por favor, aqui.

23 setembro 2008

Tecnologia versus ciência

As ferramentas de que cientistas hoje dispõem chegam a parecer ficção científica. Na semana passada estive no congresso de genética, em Salvador, e me maravilhei com lindas imagens de embriões em que as células nas quais determinado gene estava em ação emitiam um brilho verde. Ou de outras cores. E muito mais que evoca as maravilhas que a tecnologia faz pela ciência.

Estava preparada para isso, mas não para algo que para mim se tornou o grande tema involuntário do congresso: a tecnologia atrapalha a ciência.

A revelação veio logo na sessão de abertura, nas palavras do homenageado Fábio de Melo Sene (discordo do Carlos. Achei o discurso inspirador e me comovi com a reunião familiar que o congresso promoveu num momento que costuma ser formal e pomposo). Pesquisador da USP de Ribeirão Preto, Sene dedicou sua vida a estudar a evolução de drosófilas. As pobres moscas são tão conhecidas em laboratórios e fruteiras que muita gente nem se dá conta de que existem inúmeras espécies de drosófilas na natureza, sujeitas à seleção natural e tudo. Nos seus estudos, como entender a evolução exige, Sene reuniu ecologia, geomorfologia, zoologia, biogeografia, etc.

Formou pesquisadores, ajudou a desenvolver o campo da evolução na biologia brasileira. Até que, nas palavras dele, a genética de populações entrou em crise "devido ao caos dos marcadores moleculares que inviabilizaram o enfoque em populações". Ou seja, segundo ele as pessoas passaram a seqüenciar DNA loucamente e deixaram de pensar. Passaram a limitar-se a revisões da classificação dos seres vivos e submergiram numa confusão conceitual, sem saber a diferença entre padrões e processos evolutivos. Ele lamentou que ainda agora o ensino de evolução nos cursos de biologia é muito deficiente.

No dia seguinte entrevistei o Philip Hanawalt, norte-americano da universidade Stanford que teve e tem um papel central nos estudos sobre reparo de DNA. Qual não foi a minha surpresa quando ele contou que já lhe aconteceu de ser procurado por aluno que queria simplesmente clonar um gene - sem saber por que nem ter um questionamento científico. Ele me disse que muitas das descobertas mais importantes saíram de uma boa idéia e um experimento simples, com pouca tecnologia. E é isso que ensina aos alunos: formule a pergunta que quer responder e pense na maneira mais simples de ir atrás da resposta.

Ao longo dos três dias de congresso ouvi a mesma queixa várias vezes, de pessoas diversas, de maneira independente. A tecnologia ajuda, não há dúvida. Mas há que saber usá-la, quando usá-la e por quê. A máquina mais espantosa já feita ainda está dentro do crânio de quem escreve e de quem lê blogues.

Peguei o pensador do Rodin aqui.

Este texto é parte da discussão de setembro no roda de ciência.
Comentários aqui, por favor.

01 agosto 2008

Semana da amamentação - blogagem coletiva

Quando, semana passada, comentei um artigo que falava de amamentação, não sabia que a Semana Mundial da Amamentação estava próxima. Começa hoje.

Fiquei sabendo ao abrir a Folha de S.Paulo hoje de manhã e ver que no Brasil, as crianças ganham amamentação exclusiva por dois meses em média. Os dados estão no relatório da Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde da Criança e da Mulher (PNDS), promovido em 2006 pelo Ministério da Saúde, que promove esta semana uma campanha pela amamentação.

Dois meses é pouco. A Organização Mundial da Saúde recomenda que nos primeiros seis meses de vida o leite materno seja a única fonte de amamentação. A partir daí começam as papinhas, mas o ideal é manter alguma amamentação até os dois anos de idade. Haja peito...

Além das vantagens de saúde, ouvi recentemente que bebês amamentados têm paladar mais diverso. Foi no meu podcast favorito, The naked scientists. Um estudo na Dinamarca (veja aqui) demonstrou que sabores do que a mãe come realmente passam para o leite. Isso pode ter grande influência em aumentar o repertório do paladar do bebê. Parece que crianças restritas a leite industrializado mais tarde se tornam mais frescas para comer...

Agora fiquei sabendo, pelo "uma malla pelo mundo", que o blogue "síndrome de estocolmo" está promovendo hoje uma blogagem coletiva sobre amamentação. Fica aqui a referência.

19 julho 2008

Carvão para o Uruguai

Hoje a Folha de S.Paulo deu que o governo brasileiro permitiu a construção de uma usina a carvão no Rio Grande do Sul, para gerar energia para o Uruguai. Andei vendo uns vídeos arrepiantes sobre usinas a carvão nos Estados Unidos (a da foto é na Alemanha, tirada do Wikimedia) e fiquei de cabelos em pé com a notícia.

Os vídeos (em inglês) divulgados pelo terra são trechos do documentário "Burning the future: coal in America" (Queimando o futuro: carvão nos Estados Unidos), cujo site traz um monte de informações (que não tive tempo de ler...).

O que vi já basta para assustar. Responsáveis por um quarto das emissões de gás carbônico do mundo, os Estados Unidos tiram metade de sua energia do carvão. A extração do minério é terrivelmente destruidora (explosões espetaculares que transformam topos de montanhas em um tanto de entulho) e insalubre. Como se não bastasse, as drásticas mudanças na conformação do terreno acabam causando enchentes e outros transtornos ambientais para quem vive em torno.

Há um tal carvão limpo, mas a limpeza se refere a menos partículas metálicas jogadas ao ar. O gás carbônico, ou CO2, um dos responsáveis pelas mudanças climáticas globais, continua lá. Edison Lobão, ministro das Minas e Energia, afirma que a usina que será construída em território brasileiro usará tecnologia 40% mais cara que reduz as emissões de
CO2.

Reduz? Em tempos onde são necessárias medidas drásticas para tentar minimizar nosso impacto sobre a Terra, é hora de construir novas usinas para queimar combustíveis altamente poluentes? Carvão é dos que mais emitem
CO2, reduzir não significa que será pouco. Além disso, o investimento será mesmo feito?

Jogo as dúvidas aqui na torcida para que alguém que sabe mais do que eu sobre o assunto apareça para me esclarecer. Por enquanto (romântica?), sonho em ter minha casa e meu carro revestidos por painéis solares, quem sabe uns cataventos nas encostas... É hora de investir em desenvolver tecnologias realmente limpas, em vez de despejar dinheiro para afundar o mundo de vez.

01 julho 2008

Mais ciência no parque: células-tronco e mídia

No próximo domingo (6 de julho), às 11, o assunto científico que mais despertou polêmica nos últimos tempos será alvo de um debate na programação cultural da exposição Revolução Genômica. A geneticista Mayana Zatz, da Universidade de São Paulo (USP), e a jornalista Cristiane Segatto, da revista Época, conversarão sobre “Células-tronco embrionárias e mídia”.

Em 29 de maio deste ano, numa decisão histórica, o Supremo Tribunal Federal (STF) finalmente autorizou o prosseguimento desse tipo de estudo no Brasil. (Ouça aqui entrevistas que fiz naquela semana com a Mayana Zatz e a vereadora Mara Gabrilli no programa de rádio "Pesquisa Brasil", uma parceria entre a revista Pesquisa e a rádio Eldorado AM)

O debate, com entrada franca, será no Pavilhão Armando de Arruda Pereira, antiga sede da Prodam, no Parque do Ibirapuera (portão 10), em São Paulo, onde, até 13 de julho, está em cartaz a mostra científica. A programação cultural da mostra Revolução Genômica está a cargo da revista Pesquisa FAPESP. A cobertura completa das palestras pode ser acompanhada no site da revista
.

A geneticista Mayana Zatz é pró-reitora de Pesquisa da USP e coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano da USP. Preside a Associação Brasileira de Distrofia Muscular. É professora de genética do Departamento de Genética e Biologia Evolutiva do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. Atua na genética de doenças neuromusculares e pesquisas com células-tronco. Teve participação ativa na luta pela aprovação das pesquisas com células-tronco embrionárias, com inúmeras idas a Brasília para falar do tema para juízes e deputados.

Especializada na cobertura de tema científicos, a jornalista Cristiane Segatto trabalha na revista Época desde o lançamento do semanário, em 1998. É uma das repórteres mais premiadas na cobertura de assuntos médicos. No ano passado, venceu o Prêmio INCA – Ary Frauzino 2007 com a matéria “As mil faces do câncer”, publicada em 08/01/2007.

27 junho 2008

Blogues em português - pra quê?

A internet cada vez mais transborda de informação. Há quem tenha opinião sobre tudo, que explique tudo, exponha fatos sobre tudo. Tal enchente acaba tornando mais difícil pesquisar.

Com a limitação de tempo que impede a maior parte das pessoas de acompanhar os desdobramentos de discussões e assuntos - virtuais ou reais - neste mar virtual, às vezes me parece que quem se aventura a escrever está fadado a falar sozinho. É um pouco o que tem acontecido na
roda de ciência.

Fiquei pensando. Qual é a importância de existir uma blogosfera científica em português? Respondo no que me diz respeito: é um ponto de encontro. Muitos pontos de encontro. Para quem ganha o pão de cada dia divulgando ciência, é precioso.

No
ciência em dia encontro um colega mais experiente, com quem aprendo tanto concordando como discordando. Encontro também seus visitantes, alguns deles pesquisadores de destaque. Lá conheci o geneticista Marcelo Nóbrega, da Universidade de Chicago, e o físico Osame Kinouchi, da USP de Ribeirão Preto, que (esporadicamente) mantém o blogue Semciência e entra na roda.

No
Ecce Medicus encontro um médico que gosta de pensar e discutir ciência e prática médica, sempre alerta a idéias e artigos interessantes.

No
Brontossauros em meu jardim encontro o biólogo Carlos Hotta, que por enquanto resiste à minha curiosidade de saber mais sobre o que ele faz durante a semana mas não perco as esperanças.

E por aí vai. Não vou puxar o saco de todo mundo, só umas pinceladinhas para pôr aqui um pouco da diversidade que me encanta e me ajuda no meu trabalho. Fico curiosa para saber o que cada um encontra na sua blogosfera particular.

Isto é parte da discussão atual no
roda de ciência.
Comentários, por favor, aqui.

Tirei a bela foto
daqui.

18 junho 2008

Ciência sem roda

O João Carlos acaba de pôr a roda de ciência de volta em movimento. Fica aqui o aviso e minha torcida de que ela não acabe como esse moinho português.

17 junho 2008

Milho e memes

Andei lendo as reflexões recentes do Jean-Claude Bernardet sobre o livro O dilema do onívoro, de Michael Pollan. Para quem gosta de pensar, vale a pena matutar sobre como o milho acabou por nos domesticar, o que isso tem a ver com as idéias do filósofo Edgar Morin e com os memes de Richard Dawkins.

10 novembro 2007

Oceanos alterados

Para começar a falar sobre os mares do planeta, tema da discussão deste mês no roda de ciência, dou a palavra a Kenneth Weiss e Usha McFarling. E arregalo os olhos diante das imagens de Rick Loomis. A aterradora série de reportagens Oceanos alterados, publicada no ano passado pelo Los Angeles Times, valeu à equipe o prestigioso prêmio de jornalismo Pulitzer de 2007. Prêmio para lá de merecido. Dou aqui uma palhinha à guisa de isca. O conjunto é longo mas vale a pena.

Na primeira parte, "Uma maré primordial de toxinas", uma erva-daninha marítima - na verdade uma bactéria - se espalha com velocidade espantosa e se prende às redes dos pescadores. É a erva-de-fogo, e quem se aproxima sente a pele queimar, os olhos incharem, a garganta fechar-se. Terrível para os pescadores na costa da Austrália e também para pesquisadores que tentam descobrir de onde vem tamanha toxicidade e se expõem aos vapores sufocantes. A erva-de-fogo não é novidade, não surgiu do nada. O que espanta é a densidade que atinge - conseqüência do desequilíbrio ecológico que tem origem no uso dos mares pelo homem. E esse não é, nem de longe, o único exemplo.

Leões-marinhos magros, desorientados e com convulsões têm aparecido nos centros de atendimento de mamíferos marinhos na Califórnia. Muitos morrem, apesar dos esforços dos veterinários. "Sentinelas sob ataque" mostra o que acontece com os predadores maiores depois de comer peixes que se alimentaram de algas tóxicas que proliferaram de maneira anormal. E não são só os leões-marinhos que correm perigo. Também somos predadores do topo da cadeia alimentar.

E não adianta virar vegetariano. A maré periodicamente traz à costa da Flórida uma profusão de peixes mortos e algas tóxicas que atacam o sistema respiratório de quem passa por perto. O jeito é tapar o nariz e trancar-se em casa, como mostra "Marés escuras, ventos nefastos". E os sintomas não param em falta de ar, tosse e inchaço nos olhos. Há quem sofra também conseqüências neurológicas, como formigamentos e dificuldade em caminhar. Se continuar assim, os paraísos na Terra deixarão de ser à beira-mar.

E se poluição química assusta, o lixo que bóia não assalta só os olhos sensíveis. Em "Praga de plástico sufoca os mares" aves marinhas morrem vítimas do que achavam ser comida. Plástico não desaparece. Cada saco, brinquedo ou garrafa que conquistou os mares nos últimos 50 anos ainda bóia por aí. Em pedacinhos menores, talvez, mas não menos nocivos. Há quem se dedique a limpar mares e praias. O trabalho de Sísifo, que na mitologia grega rolava uma pedra montanha acima, era moleza.

E ainda contamos com os mares para suavizar os efeitos dos gases estufa que soltamos na atmosfera. O oceano de fato absorve gás carbônico, mas há limites. E conseqüências. Uma é o aumento da acidez da água marinha, que chega a corroer as conchas de moluscos - que têm ali sua única morada. É "Um desequilíbrio químico" que está perto de um ponto de quebra devastador. Não só para o próprio oceano. Quando as águas marinhas chegarem ao ponto de liberar gases em vez de absorvê-los, as mudanças climáticas podem atingir força inesperada.


Este texto é parte da discussão de novembro do roda de ciência.
Comentários aqui, por favor.


11 agosto 2007

O pensamento, um sextante

Banner do blogue da Escola da Ponte


A edição de junho da revista piauí trouxe um belo texto do Tom Zé que me remeteu à discussão de julho do roda de ciência: ensino básico, curiosidade e criatividade. Tom Zé conta suas experiências infantis de aprendizado: “Mais prazer tive ao aprender a amarrar o sapato. Amarrar sapato é uma coisa complicada, mas você pode se aproximar dela lentamente. Uma hora você vê o laço dado, outra hora alguém lhe dá uma primeira lição, ou seja, a primeira dobra do laço. Noutro dia você é capaz de pensar na segunda lição. A vantagem é que você sempre pode ver o sapato amarrado por alguém, para você comparar. E foi aprendendo essas coisinhas que percebi que o ato de pensar seria uma maneira de eu me mover dentro do mundo. Um sextante.”

É isso que falta. Aproveitar a curiosidade que toda criança tem e canalizá-la para um aprendizado mais amplo que transcenda o cotidiano. A discussão no roda
aqueceu alguns ânimos, mas não saiu do tradicional. Fui então procurar entender porque a experiência portuguesa da Escola da Ponte não se dissemina. Adianto desde já que não achei a resposta e torço para que entendidos passem por aqui com suas valiosas experiências.

A Escola da Ponte fica em Vila das Aves, no norte de Portugal (veja também na wikipedia), onde funciona desde 1976 – lá se vão trinta anos. Não há salas de aula separadas, há espaços comuns de aprendizado. Não há professores, ninguém que se apresente diante do grupo como portador único da sabedoria. As 220 crianças que ali estudam desenvolvem seus projetos de forma independente e solidária, e têm acesso indiscriminado aos 39 orientadores educativos. No início as crianças aprendem a trabalhar juntas, a gerir seu tempo e avaliar o que sabem. Aliás, a avaliação é assim: quando uma criança julga que sabe o assunto, põe seu nome na lista “Eu já sei” e um professor (ops, orientador) mais entendido avaliará o aprendizado da forma que julgar mais adequada. Por aí vai.

Mas o Brasil é o Haiti e é a Suécia, já disse o João Carlos. Como pensar em projetos de ensino que atravessem os abismos que separam regiões e classes sociais neste país? Eu não sei, mas aposto como o José Pacheco, fundador da Escola da Ponte, tem uma resposta. Para começar, um dos princípios básicos de seu projeto educacional é que cada criança é diferente das outras. Com potencial e dificuldades únicas. Daí o tratamento individual que cada estudante recebe dos orientadores educativos.


E mais, o Brasil não está parado. “Está a acontecer uma reforma silenciosa no Brasil, que tem um potencial humano tremendo e por isso é que venho viver no Brasil, para me afastar da Escola da Ponte e para participar desta transformação das escolas que, discretamente, clandestinamente, vem ocorrendo”, disse Pacheco numa entrevista. Por enquanto só há um exemplo notório: a Escola Municipal Desembargador Amorim Lima, no bairro paulistano do Butantã, que em 2004 começou a derrubar as paredes que dividiam salas de aula. Desejo longa vida à escola, e que a idéia pegue.

(Leia mais sobre a escola Amorim Lima aqui e aqui)


Este texto é parte de uma discussão no blogue roda de ciência.

Por favor, comentários aqui.


05 maio 2007

O que são raças?

Falar em raças humanas arrepia a gente. Lembra racismo, eugenia, discriminação, desigualdade social. Daí a necessidade de organizar o pensamento. A meu ver racismo e raça são duas discussões diferentes. Neste caso, se existem raças, é uma questão biológica e não social.

Li recentemente um artigo de Sérgio Pena, da UFMG, e Maria Cátira Bortolini, da UFRGS, ambos geneticistas. Eles apresentam uma análise genética muito interessante da população brasileira, um amálgama de origens africanas, européias e indígenas. Mas discordo de vários aspectos e um deles é a ausência de definição de raças.

Uma fonte de confusão é a dificuldade em distinguir aspectos biológicos e sociológicos. Não é a biologia, mas as oportunidades sociais, que fazem com que poucos negros cheguem ao topo da escala social brasileira. Isso diz muito sobre injustiça social, mas nada sobre a existência de raças.

O artigo dos geneticistas mostra que é possível distinguir geneticamente grupos continentais - africanos, europeus e ameríndios, no caso. Para mim, essas são as raças. O brasileiro é uma mistura, tudo bem, mas isso não prova a inexistência dessas raças originais.

É comum o argumento de que são poucos os genes responsáveis pela cor da pele, portanto desimportantes. Desimportantes por quê? São responsáveis por características que se diferenciaram nos grupos continentais devido a pressões ambientais diversas ao longo do processo evolutivo. São desimportantes sim em conferir mais ou menos valor às pessoas, mas aí entramos no âmbito social.

A edição de abril da revista Pesquisa Fapesp veio recheada com raças, do ponto de vista biológico e social. Muito do que acho sobre o assunto já escrevi neste mesmo blogue, não repetirei. De lá para cá, pouco mudou no meu pensamento. Mas li mais e vi a palestra do Sérgio Pena, e aprendi uma coisa: no Brasil já não faz sentido falar em raças. Mesmo do ponto de vista médico, que em muitos casos deve levar em conta diferenças genéticas pois geram fisiologias distintas, neste país a miscigenação já não permite associar aparência física a características genéticas.

Mas mais uma vez, isso não quer dizer que raças não existam! Eu acho que existem e ainda bem.


Este texto integra a discussão de maio do roda de ciência.
Por favor, comentários aqui.


26 abril 2007

O problema é nosso

Mais uma vez vai chegando o fim da vigência de um tema no roda de ciência e não consegui participar. Juro que não é de propósito! Hoje finalmente consegui me pôr a par da discussão, mas continuo de certa forma paralisada. A mesma paralisia, me parece, que impede que cada um - eu inclusive - incorpore ao seu modo de vida a consciência de que nós (eu, você e os outros) contribuímos para a devastação do mundo e agora temos que ir atrás de remediar o malfeito.

O problema é que a tarefa parece hercúlea, tão grande que não se sabe por onde começar. Daí a paralisia. Então esperemos que os governos decidam o que fazer, enquanto lemos os jornais - na melhor das hipóteses.

A imprensa tem acompanhado o assunto de perto, afinal não se pode ficar de fora do assunto do momento. Costumo ler a Folha de S. Paulo e praticamente todos os dias a página de ciência traz algo sobre mudanças climáticas. São estudos que demonstram que o aquecimento global já chegou, são discussões, são políticas. Mas fico sempre vazia depois da leitura. Acho que é o problema costumeiro em divulgação de ciência: as informações vêm de cima, de longe. O cientista - e quem dirá seu conhecimento - está muito longe de cada um de nós. Não envolve, portanto.

Como fazer para incluir todos e qualquer um nessa discussão, como participantes ativos? Não sei a resposta, pergunto aqui para que me ajudem a pensar. Vejo na televisão algumas campanhas nesse sentido. Como a da ONG Greenpeace, que conclui uma sucessão aterrorizante de imagens de devastação com declarações como: "A sua geração não queria mudar o mundo? Parabéns, vocês conseguiram". No alto de seu site, uma foto de floresta destruída. Com o cursor do mouse ("rato", dirão o Caio e o João - e concordo que é muito melhor) o internauta pode "fazer algo". Uma apresentação inteligente. Mas não basta brincar com fotografias nem dar dinheiro ao Greenpeace.

Talvez museus de ciências, daqueles interativos, possam fazer algo. Usar os modelos e o conhecimento acumulado em brincadeiras-simulações que mostrem às crianças (e seus pais) atitudes pequenas e grandes que podem fazer diferença no dia-a-dia. Será que estão fazendo isso? Vou perguntar ao Marcelo Knobel, físico e divulgador de ciência que está percorrendo os Estados Unidos com uma bolsa da fundação Eisenhower para pesquisar em que pé está a cultura científica por lá (acompanhe seu diário de viagem).

Está lançado o desafio: como criar um debate e uma participação reais que envolvam a sociedade mundial?



Em termos de políticas de governo, li nalgum lugar que a China (acho) vai fazer umas cidades planejadas ecológicas. Reconstruir o mundo é complicado, mas que tal estipular regras para tudo o que for feito de novo respeite o ambiente? Novas casas e prédios deveriam ser obrigados a usar a tecnologia mais moderna de economia de recursos, fontes alternativas de energia, tratamento de efluentes, sei lá mais o quê. Não parece tão difícil.


Este texto é parte da discussão sobre aquecimento global no roda de ciência.
Por favor deixe comentários aqui.

28 fevereiro 2007

Muitos credos, uma só busca

A discussão de fevereiro no Roda de ciência mostrou que quando o assunto é ciência e religião, há uma tendência forte de se polarizar e escolher campos. Mas não precisa ser assim. Acabo de ler The Creation, de Edward O. Wilson, onde ele defende justamente que religiosos e não religiosos podem ter muitas diferenças, mas as semelhanças são muito mais importantes.

Há quem acredite que Deus – ou alguma divindade – fez o mundo; há quem defenda que a ciência já conseguiu explicar muito do processo evolutivo e não resta dúvida: o mundo não foi criado como ele é hoje. Ao contrário, quem vê o mundo com olhos científicos não tem dúvidas de que ele passou por milhões de anos de evolução em que formas de vida mais e mais complexas foram surgindo conforme pressões do meio ambiente.

O grito de Wilson em The Creation é simples: não importa como o mundo surgiu. O que importa é para onde ele vai. E do jeito que vamos, vai para o brejo (metafórico, porque os brejos naturais também caminham para o cadafalso). E se não concordamos sobre quem fez o mundo, restam poucas dúvidas (5%, segundo o relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática) sobre quem é responsável por sua destruição: nós mesmos – e isto não é metáfora, eu e você estamos incluídos nesse “nós”, por mais consciência ecológica que tenhamos. E se não é ainda, nosso objetivo deve ser um só: preservar este planeta.

The Creation é uma carta para um pastor batista – o ramo da fé que fez parte da infância do próprio Wilson. Seu texto é sucinto, poético e envolvente. E convincente. Através de exemplos e explicações sobre a natureza, o autor deixa claro para qualquer leigo que o funcionamento da natureza é complexo e depende de interações tão inúmeras que não há como assumirmos o controle. E mais: afirma que espécies que consideramos insignificantes, como bactérias ou insetos, podem cumprir papéis tão essenciais que sua extinção causa desequilíbrios fatais ao ecossistema no qual vivem. Mas se o ser humano se extinguisse, os ecossistemas naturais não sofreriam nada com isso. Muito pelo contrário.

Para ajudar a salvar um mundo natural que sequer conhecemos (ele estima que 80% das espécies ainda estejam por descobrir, mas se não fizermos nada metade dos seres vivos terrestres estarão extintos até o fim deste século), Wilson invoca o fascínio natural que temos pela natureza. Segundo ele toda criança é um explorador, um naturalista, um selvagem no bom sentido. Se estimularmos isso em nossas crianças, elas podem tornar-se advogados, médicos ou engenheiros. Mas serão naturalistas, e isso é o que importa.

E ao endereçar seu texto a um pastor, prega uma união que transcenda credos: “...nossas diferenças metafísicas têm efeito mínimo sobre a conduta de nossas vidas. Meu palpite é que eu e você somos mais ou menos igualmente éticos, patrióticos e altruístas. Somos produtos de uma civilização que surgiu tanto da religião como do Iluminismo baseado em ciência. Não teríamos problemas em participar do mesmo júri, lutar as mesmas guerras, santificar a vida humana com a mesma intensidade. E com certeza também repartimos um amor pela Criação”.

Quando, ainda menino, se apaixonou pela natureza, Wilson enveredou pelo estudo da evolução e deixou a religião para trás. Tornou-se um biólogo de grande renome e dedica sua vida a entender e proteger a natureza. Através do convite ao pastor, ele inclui nesse caminho aqueles que não acreditam na teoria da evolução. E é um convite que pode render frutos. Na semana passada saiu no Estadão (ver aqui no Jornal da Ciência on-line) uma entrevista com Paulo Barreto, do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), em que afirma que o discurso religioso tem mais impacto do que o científico, quando se trata de defender o meio ambiente.

Demo-nos as mãos. Somos todos irmãos neste mundo.


A foto acima, do cerrado no Parque Nacional de Emas, é de Frans Lanting, que ilustra também a capa de The Creation. Suas fotos são absolutamente deslumbrantes, vale visitar seu site.


Este texto é parte da discussão de fevereiro no Roda de ciência. Comentários aqui, por favor.


P.S. Depois de escrever este texto descobri que o livro de Wilson será publicado no Brasil pela Companhia das Letras, mas a data é ainda incerta.

25 fevereiro 2007

Ode a Damásio e o conceito de DEUS


O corpo e a mente na origem da consciência coletiva de...DEUS

Noto a seguinte citação do filósofo francês do séc. XVII Mallebranche, no livro do neurocientista português António Damásio “Feeling of what happens: body and emotion in the making of consciousness” (Harcourt Brace, 1999), publicado no Brasil com o título “O mistério da Consciência: do corpo e das emoções ao conhecimento de si" (Companhia das Letras, 2000):

É através da luz e de uma ideia clara que a mente vê a essência das coisas, números, e extensões. É através de uma ideia vaga ou através do sentimento que a mente julga a existência de criaturas e que conhece a sua própria existência.

Lendo e ouvindo o conhecimento da ciência nascente de Damásio, refinando empiricamente o pensamento de filósofos como Aristóteles, Demócrito e Descartes, entre outros, tomo consciência mais profunda do que era uma verdade intuitiva. Não existe separação entre corpo e mente, entre corpo e a alma das emoções e dos sentimentos. Um é produto do outro e vice-versa, num processo de conhecimento integrado do indivíduo, e de homeóstase do seu meio interior, e deste feito indivíduo para conhecer o meio exterior.

Milhões de enervações energizadas levam constantemente informações de todo o corpo a centros de processamento que aferem o estado do corpo. Esse estado do corpo é reproduzido sob a forma de uma consciência básica do indivíduo, a consciência de si próprio. São alterações neste estado que provocam estados de EMOÇÃO, reações básicas e inatas, que têm papel fundamental na sobrevivência do indivíduo. Estas EMOÇÕES podem parecer conscientes ou inconscientes para o indivíduo, ser processadas, memorizadas e usadas a qualquer momento, sob a forma de SENTIMENTO, existindo este já independentemente do estímulo original. Exemplo: quando sofremos uma queimadura, produz-se uma EMOÇÃO que nos leva a reagir instintivamente; essa EMOÇÃO será armazenada sob uma forma de consciência estendida, o SENTIMENTO, que poderá ser ativado sempre que pensarmos em queimadura. Esse SENTIMENTO poderá futuramente ser ativado de forma voluntária ou involuntária. Damásio mostra-nos como essas consciência básica e estendida são o fundamento de uma estrutura de consciência superior, que compreende a razão, inteligência e criatividade. Que sendo fundamental à consciencia de si, essa EMOÇÃO e SENTIMENTO estão sempre presentes nas manifestações da consciência superior.

Mallebranche, como outros antes e depois dele, parecia já intuir que embora o ser humano tome consciência superior do mundo através de sistemas de armazenamento e organização de informação e do seu processamento criativo e racional, a consciência, a razão e a criatividade são co-adjuvadas e guiadas pela emoção, como forma primeira de percepção, e pelo sentimento como forma mais avançada de processamento, mimético ou criativo, da memória das emoções. Onde isto me leva? A estabelecer uma analogia que me conduz ao conceito de DEUS, e à conclusão da sua existência.


O conceito de DEUS

DEUS existe? Estendendo livremente o pensamento de Mallebranche e a ciência de Damásio, DEUS existe como produto daquela visão mais esfumada da realidade, do seu processamento e transformação criativa. Como a ciência procura ser o produto mais representativo da consciência superior, razão e criatividade, DEUS e o seu sub-produto civilizacional, a religião, resultam da produção de um sentimento criativo de DEUS, talvez processamento da emoção com funções homeostáticas que Damásio tão bem descreve, transportadas para um contexto coletivo de construção civilizacional. Qual a sua origem? Por complexo que seja desvendar a história, algumas pistas podem ser buscadas no processo de construção de coletivos humanos gradualmente mais alargados. Deixo Damásio e procuro agora inspiração em Jared Diamond (de "Germs, guns and Steel" – Norton & Co. 1999; no Brasil, "Armas, germes e aço" – Record 2001).

Diamond apresenta-nos a ideia de como a religião organizada (diferente da espiritualidade típica de indivíduos ou de pequenos grupos, que precede a religião) acompanhou o crescimento e estruturação das sociedades humanas, desde o bando, tribo, 'régulados' até às grandes civilizações-estado. O título do capítulo onde o tema é abordado é interessante e revelador: "From egalitarianism to kleptocracy". A hipótese discutida é a de que o poder secular de reis e o divino dos sacerdotes foram no início formas de transferência de poder do indivíduo, integrado em pequenos grupos aparentados (bando, tribo), para entidades representativas do interesse coletivo (?) para resolução de disputas em grupos grandes de indivíduos largamente não-aparentados e desconhecidos ('régulados' e estados). E isto porque no início da nossa existência como espécie, não éramos socialmente muito diferentes de chimpanzés, vivendo em pequenos grupos cujos indivíduos não hesitavam em matar qualquer indivíduo estranho ao grupo. Diamond discute evidências (baseadas em populações da Nova Guiné) de que, no início da formação de sociedades mais abrangentes, seria comum encontrar indivíduos desconhecidos tentando encontrar laços de parentesco entre si, mesmo que afastados. Poderiam demorar horas, até decidirem se deviam matar-se ou não! Conseguem imaginar? Bárbaro, mas delicioso! Bom, resumindo, existe uma tendência apoiada por fatos históricos de que quanto maior a organização política e religiosa de uma sociedade, levando a uma maior identificação do indivíduo com o coletivo, maior o sucesso dessas sociedades ao longo da história da humanidade. Daí se poder pôr a hipótese de as tendências à religião ou outras formas de poder organizado terem resultado de um processo seletivo. Faz sentido embora, como qualquer outro fato histórico, seja difícil de provar de forma completamente científica.

Onde entraria Damásio nesta história? A ciência e religião como corpos de conhecimento humano têm necessariamente uma génese comum, mas talvez com objetivos distintos, num contexto evolutivo. São transposições para uma esfera coletiva de algo que já se manifesta no indivíduo. O conceito de DEUS seria análogo à emoção, que desempenha um papel homeostático, que nem sequer precisa ser notado conscientemente pelo indivíduo. A religião representaria então a transposição do SENTIMENTO de DEUS, advindo da EMOÇÃO, para a esfera coletiva de organização associada à ordem social. Para isso teria sido necessário inscrever o conceito de DEUS na cultura, representando-o na linguagem simbólica, dando-lhe forma, doutrina, corpo e espírito. Nesse sentido, DEUS e a religião tornaram-se omnipresentes na maior parte das civilizações humanas, de forma que até quem rejeita o conceito e as suas manifestações reais não se liberta da sua influência. A cultura como forma de memorização coletiva, um cérebro que complementa o indivíduo, e o enforma, de forma a que ele se crie sob a memória da história das civilizações. É desta forma eficiente que nos podemos transformar e evoluir mais rápido que qualquer outra forma de vida no planeta. Mesmo que as bactérias, se tivermos em conta a evolução cultural.

DEUS existe como o AMOR e o MEDO, as ESPÉCIES e sua origem pela EVOLUÇÃO ou a RELATIVIDADE. Isto é, como conceito, como forma de compreender e produzir o mundo em que vivemos. Tal como a emoção e o sentimento são essenciais para e evolução da inteligência superior, evoluida apenas nos humanos, DEUS e a religião têm acompanhado a ciência na evolução construída das civilizações humanas. Podemos argumentar sobre as diversas origens materiais deste conceitos, mas seria ilusório apoiar a imaterialidade de apenas alguns deles. Como Damásio nos ensina, não há como fugir da materialidade na produção de CONSCIÊNCIA.

DEUS existe para além da nossa consciência coletiva histórica? Não sei, como o Freud do texto do Rogério Silva, não penso nisso. Decidi que a minha consciência, seja básica, estendida ou superior, não pode debruçar-se seriamente sobre o assunto. No entanto, tenho aprendido a respeitar, e até admirar, aquelas consciências iluminadas (no sentido de Mallebranche) que o conseguem. Desde que todos tenhamos plena consciência de que a humanidade ultrapassou, em alguns lugares mais que noutros, um certo ponto da sua ainda jovem história. Assim, devemos aceitar e aprofundar a pluralidade de formas de consciência humana, entender os seus mecanismos e contextos de funcionamento, compreender que embora indissociáveis na construção da natureza humana, não devem ser confundidas. Penso que esta visão leva ao pluralismo de Isaiah Berlin, mantendo a clareza tantos dos conceitos como do entendimento da sua função.

As religiões têm capacidade de evoluir, acompanhando a ciência na sua busca de falsificação/corroboração da matéria. Isso tem-se verificado em alguns casos, como a aceitação da teoria da Evolução por parte da Igreja de Roma. Esse processo é lento porque existe uma inércia inata na evolução dos paradigmas, que também é comum à ciência. A religião deveria voltar às suas origens, buscando aquilo que ainda não pode ser abordado pela ciência da matéria, e aí procurar e satisfazer a necessidade do conceito de DEUS.


Apophenia

...
Vejo luz. Um caminho com atalhos e desvios que desemboca num outro que ladeia um vale apertado, onde se acoita um rio estrondoso. À luz da lua plena, noto pequenas criaturas deslizando pelas bermas dos caminhos em direção às margens húmidas dos riachos e do rio. Umas de um lado, outras do outro, daquele rio, assim separadas, se juntam aquelas e aqueloutras em orgias nupciais, apartadas. O tempo passa, as paisagens ligeiramente alteradas, pelos climas mudantes, às vezes aquelas se juntam àqueloutras em um grande bacanal. Enevoada, a visão daquele espectáculo assombroso de caudas entrelaçadas em extase não me deixa perceber exatamente por onde atravessam umas e outras, nem onde se encontram. Apenas vejo que o rio corre mais estrondosamente sobre aquele vale, às vezes. Vejo a luz, mas não consigo ver nitidamente o passado, entender a sucessão dos tempos na vida daquelas criaturas de assombração.

A luz esvai-se. Estou num quarto escuro, talvez da próxima vez dure mais tempo e consiga ver algo mais. Não desisto... A minha pesquisa encontra-se num momento chave, um monte de indícios permitem-me pintar um cenário provável, mas uma questão ainda me incomoda. Temo que dependa daquelas visões de sonho para encontrar uma solução. Sei que as emoções resultantes são uma forma de concentrar e expelir tensão acumulada, reforçando a minha paixão e perseverança no tema. Metafísica, uma certa religiosidade incidindo na forma como um dia (e até hoje!) transmitirei a minha percepção daquele mundo, real e imaginário, ao meu semelhante. Isso não transparecerá nunca nos artigos científicos que publiquei desde então. O equilíbrio, sanidade e discernimento mantêm-se intatos...

...
As vozes ecoam no auditório. Gospel, cânticos em Brooklyn, Nova Iorque. Algo de simples mas revelador se passa ali. Não sei a que propósito, penso que a Ciência como corpo de percepção e organização de conhecimento não é capaz de produzir aquele tipo de significados, de sentido, de reunião e pacificação das almas. Histórias religiosas são ali partilhadas, mas isso não me incomoda como nalgumas celebrações católicas me incomodara desde a infância.
“Yeah baby, Alleluiah!” Toco na sua mão, entrelaçando-a na minha. É negra, enrugada pela idade, bela e reconfortante, produz um efeito em mim como só a beleza africana é capaz. Ecos da marimbada de negros indivíduos em êxtase que presenciei aos três anos de idade. Existem ali mãos de todas as cores que se entrelaçam, mas aquela foi, por uns instantes, só minha!

...
Os batuques de Adnan e Stuart, ressoam na noite de Berkeley, California. Não há nenhum negro ali, exceto eu. Sem necessitar de aditivos químicos, entro em transe, imitando o que ficou gravado no corpo-mente dos meus três anos de idade. As endorfinas produzidas pelos limites físicos da exaustão fazem ver que posso ser ou sentir qualquer coisa, sempre que quiser. É só voltar às minhas origens africanas.

...
O sol estende o seu ardor sobre montanhas de pedregulhos fumegantes. O Lada do nosso guia e motorista Sacha desloca-se com seus pneus gastos, ao longo da estrada deserta e da canícula. No final da nossa expedição, ainda uma viagem agora aos desertos daquele país estranho e empobrecido pelos filhos de Estaline, mas ainda muito, muito belo. Os monges não nos querem deixar entrar no mosteiro cravado na rocha, daquelas terras desérticas do sul da Geórgia, próximo da fronteira com o Azerbaijão. Entramos depois de alguma insistência dos nossos amigos, e de alguns laris para ajudar a vida simples e austera do mosteiro.... Esculpidos na rocha, mal se notando que o são, os aposentos para os hóspedes em retiro religioso, alguns em isolamento total, remetem-nos para outros tempos pouco representados no meu imaginário. Penso nos primórdios da busca por um sentido para o mundo e para vida, a génese da busca pelo conceito de Deus e, em última análise, do poder da ciência. Estes homens representam-se apenas a eles próprios, com ou sem religião, voluntários numa viagem de busca de si próprios e da natureza humana. Que filosóficas visões resultarão de tão prazerosa jornada, penosa aos olhos do homem comum. Artes de criação, como terão sido um dia as diversas criações humanas de DEUS. Percebo pela primeira vez que, também eu, sou um religioso sem religião.

...
V. afirmou que acredita em duendes... “V.!!!” - retorqui-lhe eu - “Olha que assim não chegas ao mestrado, pelo menos sob a minha orientação!”. Rimos todos! Por mais firme que seja, e serei[!], com a necessidade de rigor, clareza e concisão, na produção de conhecimento científico, espero que a V. continue a acreditar em duendes ou em qualquer outra entidade que, embora não tão nítida, lhe proporcione uma vida inspirada e um pouco mais iluminada. Sinceramente!

...
O neurocientista António Damásio mudou-se recentemente da universidade do estado de Iowa para a Califórnia para dirigir o Instituto do Cérebro e da Criatividade da University of Southern Califórnia. Se quiserem podem ouvir uma das suas últimas conferências (Princeton University, 16/10/2006) aqui.


Deixe o seu comentário no Roda de Ciência.


11 fevereiro 2007

Cada um faz, cada um conta

Respondo aqui à proposta da Lucia Malla, de refletir sobre o que cada um de nós faz para contribuir para que este mundo se sustente - conosco e nossos conterrâneos (no sentido amplo de Terra) animais e vegetais em cima dele.

Aqui vão três manias minhas que, espero, são uma pequena contribuição.

- Evito desperdícios. De comida, de energia, de água... A sociedade consumista infunde nas pessoas um descaso pelo uso de recursos. Deixar a luz do quarto ligada enquanto vê novela na sala, afinal que diferença faz na conta que virá no fim do mês? Tratar objetos como descartáveis. Deixar a água correndo enquanto escova os dentes andando pela casa. Tudo pequenas bobagens, mas que multiplicadas pelos milhões e milhões de pessoas com os quais dividimos o planeta, têm dimensões incomensuráveis. Refleti um pouco sobre isso no
primeiro texto que pus neste blogue, lá se vai mais de um ano.

- Papel, como a gente gasta! Na verdade tem a ver com o item anterior, mas como desperdiçamos muito sem nem pensar, opto por mais destaque. No meu trabalho a impressora imprime dos dois lados do papel, basta a gente "pedir". Foi a primeira coisa que verifiquei quando cheguei, e imprimo sempre dos dois lados. Para espanto dos colegas, que nunca viram tal coisa - e grande parte reclama que não gosta de ler em papel impresso dos dois lados. Não sou de fazer campanhas e manifestos, então fico na minha. Finalmente, semana passada duas pessoas me pediram que mostrasse como fazer. Uma pequena vitória, mas tão pequena.


- Sempre que possível, uso transporte público. Em algumas situações considero mais fácil, embora tenha seus desconfortos. Claro que não é bom tomar chuva no ponto de ônibus, não ter onde sentar, ter que carregar minhas coisas... mas pelo menos não me preocupo se vão roubar meu carro, nem noto o trânsito, posso ler no caminho... e poluo menos, e gasto menos combustível, e contribuo menos para o caos urbano! Claro que tem horas que não dá, que transporte público causa transtornos incontornáveis em nossas vidas ocupadas. Aí é usar discernimento. Este é mais um tema de que tenho mania e já causou muito debate neste blogue, veja
aqui, aqui e aqui.


07 fevereiro 2007

Aqui vai o poema blind men and the elephant, que mencionei nos comentários do roda de ciência. as guerras teológicas são cegas e a guerra entre a ciência e a teologia também me parece seguir o mesmo rumo!

THE BLIND MEN AND THE ELEPHANT

John Godfrey Saxe's ( 1816-1887) version of the famous Indian legend,

It was six men of Indostan,
To learning much inclined,
Who went to see the Elephant
(Though all of them were blind),
That each by observation
Might satisfy his mind.

The First approach'd the Elephant,
And happening to fall
Against his broad and sturdy side,
At once began to bawl:
"God bless me! but the Elephant
Is very like a wall!"

The Second, feeling of the tusk,
Cried, -"Ho! what have we here
So very round and smooth and sharp?
To me 'tis mighty clear,
This wonder of an Elephant
Is very like a spear!"

The Third approach'd the animal,
And happening to take
The squirming trunk within his hands,
Thus boldly up and spake:
"I see," -quoth he- "the Elephant
Is very like a snake!"

The Fourth reached out an eager hand,
And felt about the knee:
"What most this wondrous beast is like
Is mighty plain," -quoth he,-
"'Tis clear enough the Elephant
Is very like a tree!

"The Fifth, who chanced to touch the ear,
Said- "E'en the blindest man
Can tell what this resembles most;
Deny the fact who can,
This marvel of an Elephant
Is very like a fan!"

The Sixth no sooner had begun
About the beast to grope,
Then, seizing on the swinging tail
That fell within his scope,
"I see," -quoth he,- "the Elephant
Is very like a rope!"

And so these men of Indostan
Disputed loud and long,
Each in his own opinion
Exceeding stiff and strong,
Though each was partly in the right,
And all were in the wrong!

MORAL,
So, oft in theologic wars
The disputants, I ween,
Rail on in utter ignorance
Of what each other mean;
And prate about an Elephant
Not one of them has seen!

16 janeiro 2007

Fofo!

Imagem que representa bem o novo programa de conservação das criaturas mais estranhas ('weirdest'), lançado pela Sociedade Zoológica de Londres. Leia a notícia aqui na página da BBC.

Essa estranheza é explicada pelo fato destas destas criaturas estarem em ramos meio isolados da árvore da vida, ou seja, não terem parentes próximos com os quais se assemelhem a nível genético, e/ou estarem em declínio.


Foto: Loris tardigradus, Zoological Society of London

Fico feliz e emocionado, claro, mas preocupa-me um pouco que imagens deste tipo contribuam bem demais para cultivar um certo prazer mórbido de tentar preservar 'fofuras' candidatas ao prémio de
becos sem saída evolutivos ('evolutionary dead-ends'), sem desencadear na imprensa, logo no público, uma verdadeira reflexão sobre o que deveria ser conservar olhando para o passado e procurando assegurar o futuro dos processos evolutivos que, mesmo no presente, neste pequeno lapso de tempo que passa enquanto escrevo, vão criando biodiversidade (ver abaixo o texto da Maria Fixismo ambiental).

Desde que a conservação de 'fofuras' não seja apenas uma distração que nos afaste do verdadeiro, e mais sério desafio..., por mim tudo bem. Fofos sejam!

07 janeiro 2007

"Não entendi nada, deve ser importante"

O tema em discussão na roda de ciência em dezembro e janeiro - falar e escrever simples - me faz pensar na prática comum de esconder ignorância atrás de palavrório rebuscado. Quantas vezes isso não aparece em discursos de políticos que não querem mostrar o que pensam (ou, pior, que não pensam). Ou em textos de quem quer parecer mais sabido do que é.

Já me mortifiquei por não conseguir entender discursos - orais ou escritos. É duro se sentir burro.

Mas há textos difíceis que convidam o leitor a perder-se em seus meandros e decifrar o que der. Penso em Guimarães Rosa, cujo Grande sertão acabo de reler e sei que a cada releitura se revelarão coisas que me tinham escapado.

E há oradores que mergulham em temas profundos e conseguem transmitir diversos níveis de complexidade. Penso nas aulas de evolução do professor David Wake na universidade de Berkeley - todos saíam encantados e enriquecidos da aula, mas cada aluno aprendera coisas diferentes conforme seu nível de conhecimento. Ninguém era excluído porque o discurso era claro.

Acabei concluindo que, se não entendo nada, talvez o tema não me interesse a ponto de captar minha atenção. Uma variação da fábula da raposa e das uvas. Ou está mal comunicado. Talvez seja prepotência, mas tendo a achar que a boa comunicação deve atingir a qualquer pessoa de inteligência e cultura medianas que esteja disposta a entender.

Bom exemplo da complexidade que oculta o nada a dizer está nas guerras pós-modernas, que Richard Dawkins relata no divertido ensaio "O pós-modernismo desnudado", que integra a coletânea O capelão do diabo (2003, Companhia das Letras). Lá estão fórmulas de Lacan, com as quais Dawkins é impiedoso ("Não é necessário conhecimento matemático [...] para nos assegurar de que o leitor dessa tolice é um tapeador"), e o relato da peça pregada por Alan Sokal no pós-modernismo. Em 1996 ele teve um artigo sem pé nem cabeça, mas construído conforme a sintaxe das ciências sociais, aceito no periódico especializado Social Text. Não precisa fazer sentido, basta ser complicado!

A brincadeira ganhou novo corpo com o
gerador pós-modernista, um site que produz, a cada visita, um novo texto pós-moderno. Absolutamente correto do ponto de vista gramatical e sem sentido nenhum. Divirtam-se.

Leia mais sobre o tema na roda de ciência
Comentários aqui.


Fixismo ambiental

Serra da Mantiqueira, foto de Célio Haddad

Preocupar-se com a degradação do meio ambiente e temer um mundo árido para nossos descendentes deixou de ser privilégio dos "ecochatos". Extinções, descobertas, desmatamentos e leis de proteção aparecem quase diariamente no noticiário nacional e internacional, impresso e neste meio virtual, como o texto recente de João Giovanelli no Biodiverso.

No Brasil temos uma diversidade biológica para deixar qualquer um boquiaberto, como aconteceu com Marcelo Leite do Ciência em dia (saiu hoje no caderno "Mais" da Folha de São Paulo, ainda não está no blogue neste momento em que escrevo), durante suas férias. Mas como fazer para que essa riqueza toda não escoe pelo ralo da civilização? Parece óbvio, elaborar listas vermelhas de fauna e flora ameaçadas, e delimitar áreas de preservação que as protejam.

Não duvido da importância dessas iniciativas, mas não basta. Para conservar a natureza de forma coerente é preciso dar mais tratos à bola. É com esse intuito que eu, João Alexandrino e Célio Haddad escrevemos um artigo que foi publicado na revista Ciência Hoje de dezembro, agora nas bancas (não está disponível na internet).

Nossa visão de preservação muitas vezes corresponde a anseios estéticos e saudosistas. Animais carismáticos como o panda suscitam grande interesse de ecologistas. Não tenho nada contra pandas, mas fico curiosa em saber quanto duraria, num mundo imaginário intocado por "intrusos" humanos, um animal que só come broto de bambu. Do ponto de vista evolutivo, os organismos que se espalharam e deixaram mais descendentes são em geral aqueles com mais jogo de cintura, capazes de adaptar-se a situações diversas - e adversas.

Talvez o panda durasse eternidades a mais sem a nossa interferência, mas o que me interessa é pensar como decidir o que deve ser preservado. Nesse cômputo é raro incluir-se a mutabilidade inerente à natureza - se os homens das cavernas fossem bons preservacionistas, quem sabe teríamos agora dinossauros em nossos quintais e nada dos mamíferos, passarinhos e outros animais que conhecemos.

A natureza muda, ela é um processo e não um objeto fixo. Como preservar, então? Melhor do que escolher quais espécies devem continuar a existir, é manter áreas naturais nas quais o processo evolutivo possa continuar, livremente. O desafio passa então a ser como definir essas áreas. Está brotando no Brasil o fértil campo da filogeografia, que busca compreender a trajetória das espécies no tempo e no espaço estudando a geografia da diversidade genética. Em conjunção com a modelagem ecológica, que computa parâmetros ambientais para prever onde espécies existem e existirão, a filogeografia pode indicar áreas que persistiram a milênios de alterações climáticas e têm maiores chances de continuar a abrigar diversidade biológica.

O assunto é complexo e requer uma abordagem multidisciplinar. Biólogos com especialidades diversas, ecologistas e políticos têm que manter todos os canais de comunicação abertos para chegar a conclusões frutíferas.
(Na verdade, terminei este texto assim só como pretexto para indicar o artigo de Carl Zimmer sobre a falta de comunicação entre pesquisadores.)


Mais: "Conservação da biodiversidade", Ciência Hoje 39 (dezembro 2006), seção "Ensaio", pp. 60-63.


21 dezembro 2006

Falar simples na roda de ciência

Simples,

o quê? para quem?

...para o leigo,

informado?
intelectual?

conformado?
alienado?

digital?

operário?

eficiente?

suficiente?

camponês?

sem-terra?

transgénico?

clonado?

eleito?

povo?

néscio?

o leigo? [agora de baixo para cima,e para baixo outra vez!]


Simples para muitos,

e ainda complexo para a maioria.

Para este, duas frases cifradas

para aquele, o cosmos,

ou o caos.

Àqueloutro, simplificar a história da
grande explosão,

ou do grande salto em frente,

do camarada Mao,
e do bom Adolfo.
Haverá sempre aqueles que,
uma, outra vez, e sempre,
quererão ouvir a história da criação

deus salva, é fiel e fala simples,
ao coração,
É bom de concluir,

quem ganhará a parada!?
Mas então,
não haverá salvação,
do destino traçado na escritura fatal?
Mas sim, mas sim,
curiosamente,
anunciada de forma simples,
em várias escrituras fatais,
bíblias, origens das espécies,
e outras que tais:
procriai-vos, replicai-vos!
No vosso rebanho,
induzí a fala simples,
do pensamento complexo,
e o inverso como exercício lúdico,
o culto ao símbolo,
e seus propágulos,
sentidos múltiplos,
múltiplos leitores,
multi-formato,
leitor múltiplo,
verso e reverso,
evoluído,
de Alexandria para Thistledown,
pois está na boa tradução,
a alma da solução.

Excerto do manifesto do Movimento pelo Bolsa-Ciência do Brasil (MCBC).

Para fazer algum comentário ou para ler outros textos do debate "Falar e escrever simples...", rebole-se aqui na
Roda de ciência.