09 março 2006

Raças humanas, realidade biológica ou social?

A divisão de humanos em categorias raciais é polêmica e gera infinitas discussões na sociedade e na ciência. A pergunta recorrente é: raças são uma realidade biológica?

Alguns evolucionistas dirão que raças são uma construção social, afinal a diversidade genética dentro de grupos raciais é imensa, o que torna artificial a separação da espécie Homo sapiens em subconjuntos discretos. Luca Cavalli-Sforza, da Universidade Stanford, alerta em seu livro Genes, povos e línguas (2003, Companhia das Letras) para o fato de que, se examinarmos a constituição genética com suficiente detalhe, qualquer grupo populacional pode ser separado dos outros. Dessa forma, as fronteiras estabelecidas entre as raças são necessariamente artificiais. No entanto, o geneticista reconhece que o conceito de raça pode ser importante devido a diferenças em suscetibilidade a doenças e reação a medicamentos.

É exatamente desse argumento que o geneticista Sérgio Pena, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), discorda. De acordo com notícia publicada na revista Ciência Hoje em janeiro/fevereiro deste ano, Pena acredita que diferenças como cor de pele ou textura de cabelo são recentes, resultado de adaptação às condições ambientais dos continentes colonizados. A conclusão seria que esses parâmetros não podem ser usados para avaliações clínicas ou desenvolvimento de remédios.

Ora, se certas características externas se modificaram como resposta à seleção natural, por que o mesmo não seria verdade para aspectos ainda mais importantes para a sobrevivência? Existem inúmeros exemplos de diferenças raciais em medicina, seguem aqui alguns:

- Segundo o médico Drauzio Varella, alguns grupos indígenas têm altos índices de ácido úrico em seu organismo, substância que, ao ser depositada em forma de cristais nas articulações, é responsável pela gota. Os níveis de ácido úrico no sangue são afetados pela dieta, mas algumas populações são mais suscetíveis do que outras a mudanças em alimentação. Há evidências de que a constituição genética tem influência importante no metabolismo do ácido úrico.

- Outro artigo de Varella dá uma explicação evolutiva para a prevalência de hipertensão na população negra, nos Estados Unidos. A causa seria um drástico evento seletivo recente: as condições em que escravos foram transportados da África para a América.

- Segundo Jeremy Squire, do Instituto do Câncer de Ontário (em palestra durante o 51º Congresso Brasileiro de Genética, em setembro de 2005), na América do Norte o câncer de próstata é mais prevalente na população de origem africana — os chamados afroamericanos, mesmo que já estejam longe da África há inúmeras gerações.

Um artigo recém publicado no periódico científico PloS Biology detectou sinais de seleção natural em uma ampla variedade de genes em populações humanas. Os autores ressaltam que os eventos seletivos são muito recentes em termos evolutivos, o que contraria a argumentação de Sérgio Pena de que raças não existem por ter a espécie humana surgido há apenas 150 mil anos. Especificamente, os pesquisadores detectaram seleção natural em genes ligados a pigmentação da pele e metabolismo, o que reflete um processo de adaptação a condições modernas e novos ambientes. Alguns trechos do DNA identificados como alvo de seleção estão ligados a aspectos de relevência médica, como hipertensão por sensibilidade a sal e suscetibilidade a alcoolismo.

É surpreendente que, num momento em que a informação genética é tão abundante, temas como o significado biológico de raças ainda sejam foco de discussão. Os projetos genomas mostraram tanta semelhança genética entre humanos e outros organismos — sobretudo, é claro, nossos primos chimpanzés — que a pergunta não respondida agora é: o que nos faz tão diferentes deles? Será que a divisão entre espécies também não é arbitrária, assim como entre raças humanas? Parece brincadeira, mas há quem defenda a abolição das barreiras entre espécies.

Mas não embarquemos em tangentes. O que queria ressaltar aqui é que certas características distinguem grupos humanos, e que reconhecê-las pode ser benéfico. A militância, que leva pessoas informadas a negar distinções raciais, já deveria estar enterrada a estas alturas. Reconhecer diferenças não justifica desigualdades sociais. Por mais que ninguém seja totalmente neutro, é preciso buscar uma separação entre política e ciência. Responsabilidade ainda maior têm aqueles — sejam jornalistas ou cientistas — envolvidos em divulgação de ciência para o público leigo.

6 comentários:

Daniel Doro Ferrante disse...

Oi Pessoal,

Antes de tudo: "Bem vindos à blogosfera!" :)

Gostei bastante do blog e, se vcs não se importam, pus um link pra ele no meu: Como o blogger não faz trackbacks automaGicamente (é preciso implementar o Haloscan), eu decidi deixar um comentário aqui, avisando vcs.

Um abraço para todos, []'s!

Marcelo Nobrega disse...

Maria, parabéns pela lucidez e sofisticação da sua argumentação! Conheço uma referência excelente sobre o perigo da negação da categorização genética de etnias em pesquisas genéticas. O artigo é de Neil Risch, e foi publicado na Genome Biology em 2002
(http://genomebiology.com/2002/3/7/comment/2007). O artigo está publicamente disponível (no PubMed Central).

Anónimo disse...

Bando de puxa-sacos!
Bátiman

Maria Guimarães disse...

daniel e marcelo,
bem-vindos!
obrigada pelos comentários, espero continuarmos trocas enriquecedoras.
abraços.

Anónimo disse...

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Anónimo disse...

Pelo gosto da musica e livros que você gosta, você não deve ser lá grande coisa!