O "Ciência e ideias" pôs a casa nas costas e se mudou. Foram três bons anos no Blogger, em que nos deleitamos contando o que nos chamava a atenção.
A vontade de falar sobre ciência, sobre outros assuntos e repartir inspirações continua e encontrou novos companheiros. Foi justamente aqui que encontramos os fundadores do Lablogatórios, que recentemente virou Science Blogs Brasil.
É lá que estaremos. Felizes por ter como vizinhos gente que compartilha esses interesses. Juntos, espero conseguirmos mostrar a cada vez mais gente - curiosos que procurem algo específico ou que simplesmente estejam de passagem e parem para dar uma espiadinha - como é fascinante o mundo da ciência. Este mundo em que vivemos.
Não custa reiterar: siga este linque e chegará à nova casa do velho Ciência e ideias.
Caloplaca obamae é o nome do líquen ao lado (foto de J. C. Lendemer), descoberto em 2007 na ilha de Santa Rosa, na Califórnia. O descobridor, Kerry Knudsen, escolheu o nome como homenagem ao apoio do então candidato a presidente dos Estados Unidos à ciência e à educação.
Conta Knudson, curador de líquens no herbário da Universidade da Califórnia em Riverside, que descreveu a nova espécie em meio ao furor mundial que rodeava as eleições norte-americanas e terminou o rascunho final no dia da posse. O artigo está na edição de março da revista Opuscula Philolichenum.
C. obamae cresce no solo e por pouco não se extinguiu antes mesmo de entrar para a história. Na notícia do Eurekalert, Knudson declara: "Essa espécie mal sobreviveu ao gado, alces e veados que pastavam na ilha Santa Rosa. Mas agora o gado foi removido, e ela começou a se recuperar. Com a futura remoção dos alces e dos veados – ambos introduzidos na ilha – ela deve se recuperar completamente."
Não sei se ele pensou nisso como metáfora para o que se espera do novo presidente. E mais: Knudson não tem nenhuma formação em ciência. Até 2000, quando se aposentou, ele trabalhava em obras. Um peão sem saber o que fazer com as mãos, descobriu que gostava de líquens, que são uma simbiose entre fungo e alga. Se apresentou como voluntário no herbário, onde já formou uma coleção de mais de 10 mil líquens, publicou mais de 70 artigos científicos e descreveu mais de 25 líquens e fungos que crescem em líquens.
Já indiquei aqui um vídeo sobre a missão para consertar o telescópio Hubble. Agora a missão - a última nesses moldes - está se preparando para decolar em maio. O site do New York Times traz uma bela apresentação de imagens do Hubble, fotografias feitas por ele e sobre a preparação para consertá-lo. A apresentação é narrada pelo astronauta John Grunsfeld, o mecânico oficial do Hubble. Para ele, esse telescópio virou o queridinho do público porque põe maravilhas do Universo diante dos nossos olhos.
Vale a pena mesmo sem a narração, as imagens são estonteantes. (A foto acima, da NASA, eu peguei no New York Times)
E por falar em vídeos, volto a reiterar: os filminhos de que falei ontem merecem ser vistos!!! Não se preocupem: não são indecentes, ninguém vai estragar o casamento ou perder o emprego por causa disso. Como disse Isabella na entrevista, a linguagem não é mais explícita do que aparece em documentários da National Geographic.
Isabella Rossellini remete a filmes como "Veludo azul". Pois a bela atriz italiana anda envolvida em projetos bem diferentes: ouvi hoje uma entrevista na NPR (em inglês, assim como tudo o que vou recomendar aqui) em que ela conta sobre o "Green porno" (clique no título para ver os vídeos).
"Sempre gostei de comportamento animal", diz ela. Mas como as pessoas têm preferência por um aspecto do comportamento - o sexo - ela resolveu usar esse tema para uma série de filmes sobre animais marinhos e invertebrados.
Prepare-se para ver Isabella andando em meio a uma floresta de pênis gigantes feitos de papel, com diversas cores e formas, explicando sobre o encaixe necessário com vaginas específicas; vestida de baleia macho com uma ereção de dois metros; como estrela-do-mar que dá origem a outras isabellas ao perder um braço e uma perna (por isso não precisa de pênis); como uma craca que se transforma de macho em fêmea e vice-versa (foto); um peixe de águas profundas, narigudo para farejar a fêmea na qual se finca e se transforma num apêndice sexual. Essa é a segunda temporada, a marítima.
Na temporada terrestre ela aparece como um aranho cheio de olhos que se aproxima com todo cuidado da teia para evitar ser devorado; uma mosca que escapa com facilidade de uma jornalada, cospe na comida para digerir antes de sugar e admira suas larvas crescendo num cadáver, uma minhoca hermafrodita que copula em posição 69, um caramujo sado-masoquista armado de vagina, pênis e dardos e um zangão que não faz nada até precisar lutar pela abelha.
Nessa maravilhosa série que merece alguém que lhe ponha legendas, Isabella Rossellini põe a serviço da divulgação de ciência todo o seu talento, sua malícia, sua sensualidade. Cansada do ecopoliciamento, ela prefere maravilhar e divertir as pessoas a ponto de que, quem sabe, queiram proteger a natureza.
Ouvi ontem uma entrevista interessante com o médico norte-americano John Abramson, autor do livro Overdosed America - the Broken Promise of American Medicine. Durante sua experiência clínica no estado de Massachusetts, ele se deu conta de que a busca por medicamentos não está a serviço dos pacientes, mas da indústria. Tem a ver com o que o Karl escreveu no Ecce medicus um tempo atrás.
Frustrado, Abramson deixou de clinicar para escrever o livro, direcionado para as vítimas potenciais - os médicos, segundo ele, ainda não estão prontos para ouvir que também estão sendo enganados.
Ele conta que boa parte da pesquisa para desenvolver medicamentos é financiada pela indústria farmacêutica. O mesmo vale para boa parte dos periódicos científicos especializados - a fonte de informação supostamente isenta e fidedigna para pesquisadores e médicos. Além disso, os Estados Unidos são dos poucos países que permitem a propaganda de remédios diretamente ao consumidor - que já chega ao consultório pedindo por um remédio, solicitação a que os médicos tendem a aceder. Com isso tudo, tanto médicos como pacientes acabam sendo enganados e acabam recorrendo a medicamentos mais caros e menos adequados (algo que a Tara Parker-Pope, do New York Times, também denunciou).
Ao fazer a pesquisa para o livro, Abramson examinou registros de testes clínicos publicados e não publicados. Viu que a publicação dos resultados não segue as regras da ciência, mas as da economia: remédios mais lucrativos são mais divulgados, resultados negativos de remédios lucrativos são varridos para baixo do tapete.
Ao fim, o médico denuncia o foco excessivo da sociedade moderna em remédios, a opção aparentemente cômoda por encontrar pílulas que resolvam tudo. Ele lembra que nada como um bom estilo de vida - dieta mediterrânea, exercício, boas horas de sono - para ser mais saudável. Para ele, se uma paciente chega ao consultório pedindo um exame para medir os teores de colesterol - e em busca de estatinas para controlá-lo, o médico tem que interpretar o pedido. Se o que ela quer é reduzir as chances de ter problemas cardiovasculares, medir o colesterol não é necessariamente a melhor opção.
A entrevista, em inglês, está no podcast "Berkeley groks".
A Pesquisa de abril já está saindo do forno e ainda não pus aqui nenhum destaque do que andei fazendo para março.
E tem coisa legal: as bromélias de tanque, essas que acumulam água numa poça formada pelas folhas (ao lado, na foto de Lisa Chaer), conseguem aproveitar a ureia deixada pelas pererecas - que ali se abrigam e depositam ovos - como fonte de nitrogênio.
A descoberta é do grupo da botânica Helenice Mercier, que foi minha professora na USP, em experimentos de laboratório. A comprovação de que funciona mesmo na natureza está por vir, numa colaboração com Gustavo Romero, da Unesp de São José do Rio Preto.
Por enquanto, Gustavo já mostrou que fezes de aranhas também podem ser uma fonte importante de nitrogênio para bromélias.
Foi um desafio falar de xixi de perereca e cocô de aranha e manter o bom gosto que a revista exige... O resultado está aqui.
Para quem é da área, artigos:
-Cambuí, Camila A. et al. 2009. Detection of urease in the cell wall and membranes from leaf tissues of bromeliad species. Physiologia Plantarum, online.-Inselsbacher, Erich et al. 2007. Microbial activities and foliar uptake of nitrogen in the epiphytic bromeliad Vriesea gigantea. New Phytologist, 175 (2): 311-320. -Romero, Gustavo Q. et al. 2006. Bromeliad-living spiders improve host plant nutrition and growth. Ecology, 87 (4): 803-808. -Romero, Gustavo Q. et al. 2008. Spatial variation in the strength of mutualism between a jumping spider and a terrestrial bromeliad: Evidence from the stable isotope 15N. Acta Oecologica, 33 (3): 380-386. -Takahashi, Cássia A. et al. 2007. Differential capacity of nitrogen assimilation between apical and basal leaf portions of a tank epiphytic bromeliad. Brazilian Journal of Plant Physiology, 19 (2): 119-126.
Morreu hoje o biólogo Crodowaldo Pavan, um pioneiro da genética no Brasil. Não o conheci e não tenho nada a adicionar ao que está sendo escrito por aí. O Reinaldo José Lopes fez um bom texto para o G1, contando como alguns pesquisadores veem a perda e a contribuição de Pavan.
Deixo aqui recomendada também uma entrevista que Pavan concedeu em 1998 a Ricardo Zorzetto, hoje meu chefe na revista Pesquisa.
Caminhar no escuro longe das luzes urbanas é uma experiência mágica. A imensidão escura com incontáveis pontos brilhantes de cores e tamanhos diversos (mas há quem os conte, por lazer ou profissão). São planetas, são estrelas que às vezes riscam o céu muito mais depressa do que um desprevenido consegue formular um desejo.
Um céu imenso que, nas noites mais escuras, chega a parecer um manto sólido que reduz uma pessoa à sua devida insignificância. Em certas situações, andando na escuridão completa, já tive a sensação de diminuir até quase desaparecer. Recomendo, de preferência depois de um reconhecimento de terreno que permita eliminar preocupações terrenas como a de cair num buraco ou pisar nalgum bicho noturno.
No entanto, o dia-a-dia urbano nos rouba o céu. Iluminação exagerada que rouba o negro do céu e ofusca as estrelas, poucas caminhadas noturnas, poucos jardins onde se possa deitar à noite e simplesmente olhar para o alto.
As 100 horas de astronomia buscam remediar um pouco disso. De hoje a domingo, uma série de atividades estimularão os passantes apressados a pararem para olhar o céu. Mais informações aqui. Veja também a coluna do astrofísico Augusto Damineli, da USP, no site da revista Pesquisa.
O escritório onde Darwin trabalhava tinha equipamentos modestos se comparados à parafernália de um laboratório atual. Microscópios de cobre, lupas, tubos de ensaio, livros. Mas a ferramenta mais importante não aparece na foto: a curiosidade.
Entre aulas e leituras, tenho a impressão de ter convivido longamente com Charles Darwin, e de quase conhecê-lo. Claro, o meu Darwin é com certeza diferente do das outras pessoas. É dele que falo aqui. Do menino de 10 anos que contava flores no jardim, como conto aqui, do jovem que se deslumbrou na viagem à América do Sul e do homem que se manteve maravilhado pela vida afora.
Para mim, é da atenção que ele prestou a tudo o que era da natureza que vêm suas grandes contribuições à ciência. Como, senão, explicar a diversidade dos temas que abarcou? O livro Darwin's Garden - Down House and the Origin of Species, por Michael Boulter (que deve sair no Brasil ainda este ano) traz belos relatos. Conta dos besouros que Darwin coletava, da revisão taxonômica de cracas que empreendeu como maneira de dominar a variabilidade entre espécies, dos pombos que criava e nos quais admirava as fantásticas plumagens, das minhocas de seu jardim cuja população estimou, assim como seu efeito sobre a terra remexida. Nesse livro aprendi também que ele deu atenção às plantas carnívoras do gênero Drosera, sobre as quais inferiu (corretamente) que capturavam insetos para suprir uma deficiência de nitrogênio no solo. E foi também pioneiro em estudar a psicologia do ponto de vista do desenvolvimento, ao observar atentamente o crescimento de um de seus filhos. Tudo isso detalhado com minúcias e publicado (veja aqui).
Essa curiosidade e a propensão a maravilhar-se está nas crianças - Darwin sabia e envolvia os filhos pequenos em seus experimentos, em brincadeiras como espalhá-las pelo jardim para desvendar os voos das abelhas. Se mais pessoas mantivessem a chama acesa, talvez a história da ciência fosse mais coalhada de lampejos.
Aproveito o ensejo para recomendar o novo livro do Marcelo Leite: Darwin, para a coleção Folha Explica. O livro começa com a polêmica atual entre criacionismo e evolução, na qual ambas disciplinas disputam a cadeira de ciência. Controvérsia que, desconfio, causaria desgosto ao velho Charles. Marcelo Leite parece concordar, mais adiante escreve: "Seria um despropósito, no entanto, interpretar sua obra e seu pensamento como peças de propaganda ateísta, como até hoje - 150 anos depois de Origem das espécies - alguns fundamentalistas ainda a avaliam. Para sustentar sua interpretação da natureza, Darwin poderia tanto acreditar como não acreditar em Deus, pois a rigor essa questão é irrelevante para seu pensamento".
Marcelo Leite foi bem sucedido no desafio de resumir a vida e da obra de Darwin no pouco espaço que a coleção exige. Não posso deixar, porém, de gritar com o espinho que ele deixa no final, quando chega ao que considera maus usos das ideias evolucionistas. "O caráter um tanto tosco de iniciativas como a sociobiologia dos anos 1970 [...] de fato não autoriza entusiasmo para com essa perspectiva. O que ele chama de tentativas canhestras - me refiro unicamente ao marco fundador da sociobiologia, o livro de E.O. Wilson de 1975 - não tiveram nada de tosco. Wilson fez naquele momento a primeira demonstração de sua capacidade ímpar (até darwiniana) de reunir ideias e sintetizá-las num corpo teórico coerente. Sim, a organização social dos animais é resultado de uma imensa conjunção de fatores biológicos que incluem ecologia, fisiologia, genética de populações e mais.
Não vejo bem a discordância entre o que Wilson discutiu em seu livro (na pequena fração que dedica às pessoas) e o trabalho de Peter Singer que Marcelo Leite sintetiza ao fim do livro: existe natureza humana, saber mais sobre ela ajuda a lidar com ela, e ela não justifica ações condenáveis por serem naturais.
Outra dica: a revista Pesquisa de março traz artigos por quatro pesquisadores que comentam a influência das ideias de Darwin em suas respectivas áreas de pesquisa. São eles Mario de Pinna, do Museu de Zoologia da USP, Cesar Ades, da Psicologia da USP, Alysson Muotri, da Universidade da Califórnia em San Diego e Ana Carolina Regner, da Filosofia da Unisinos.
Tirei a imagem daqui, a fotografia é da exposição Darwin em Chicago, a mesma que esteve no Brasil e sobre a qual escrevi na revista Pesquisa.
Este texto é parte da discussão de março no roda de ciência. Comentários, por favor, aqui.
“O estado da economia demanda ação pronta e ousada, e agiremos – não apenas para criar emprego, mas para construir novos alicerces para o crescimento. Construiremos estradas e pontes, as redes elétricas e digitais que alimentam o nosso comércio e nos unem. Recolocaremos a ciência no lugar que lhe é devido, e usaremos as magias da tecnologia para melhorar a qualidade do atendimento de saúde e reduzir os seus custos. Convocaremos o sol, a terra e o vento para abastecer os nossos carros e as nossas fábricas. E transformaremos as nossas escolas e universidades para responder aos desafios de uma nova era. Tudo isto podemos fazer. Tudo isto iremos fazer!”
Barack H. Obama[1]
Palavras inspiradoras são as de Barack Obama, grande candidato a farol-guia do mundo em crise. Mas chegarão para nos levar a porto seguro? A julgar pelo recente livro de Judy Estrin [2], discursos inspiradores de grandes líderes são um ótimo princípio para instilar confiança na comunidade e exortá-la a responder aos desafios do momento. Esses são conhecidos de todos, e ao contrário do que muitos pensam não se resumem à crise económica global. São muito maiores os desafios da sustentabilidade da nossa existência, no uso de recursos naturais e seus impactos no planeta que nos acolhe ainda. Mais prementes são os desafios da produção de energias limpas e o controle das alterações climáticas. Para a autora (tal como para Obama), o símbolo do desenvolvimento sustentável teria um potencial catalizador de inovação científica e tecnológica no século XXI, comparável ao que o programa espacial norte americano teve no sistema de pesquisa e inovação daquele país nas duas décadas após a segunda guerra mundial, levando à consumação definitiva da liderança global dos EUA. Mas haveria algo errado com o sistema de inovação científico-tecnológica para que os EUA e o mundo pareçam tão atrasados na luta contra os desafios que há tanto tempo se anunciam? O que houve, principalmente nas duas últimas décadas, foi um sistema demasiadamente focado na eficiência e na produtividade em decorrência das pressões da sociedade e de seus líderes. Segundo Estrin, um sistema desse tipo funciona esgotando a energia dos indivíduos em atividades produtivas, não sobrando aquela essencial para a atividade criativa, o verdadeiro pilar da inovação científica e tecnológica. É então importante que a mensagem que chega dos líderes seja de um outro tom, inspiradora e que estimule a inovação. Mas uma sociedade no caminho da inovação depende acima de tudo de indivíduos com determinadas capacidades, que seriam as de: questionar, ser aberto a novas ideias, correr riscos, ser perseverante e autoconfiante. Será possível uma educação para a inovação? Aqui, J. Estrin critica o sistema educativo atual dizendo que ele produz indivíduos com capacidade de seguir manuais de instruções, mas não de questionar e muito menos enquadrar devidamente as questões. A saída para as próximas gerações é, não tanto ensinar inovação como disciplina na escola mas alterar o modo como se lecionam todas as disciplinas, incentivando o questionamento das matérias e os debates em que a criança ou adolescente seja protagonista. Assim se despertam as capacidades de liderança necessárias para uma atividade criativa. A educação dentro da família teria um papel tão ou mais importante, no sentido de permitir à criança ter a autoconfiança necessária para, ao longo de sua vida, questionar de forma construtiva entidades que representem o poder do conhecimento autoritário, sejam parentes, professores, orientadores ou superiores hierárquicos. Essa empresa, a da promoção da inovação para atender aos desafios da nossa era, extravasa o papel das universidades como instituições promotoras de ciência e inovação, pois é na verdade um projeto de sociedade. À semelhança dos mecenas da Itália renascentista, o Estado, fundações e indivíduos filantrópicos têm papel essencial na promoção da criatividade e da inovação. Sem o investimento incondicional na educação e nas carreiras de jovens com potencial inovador, claramente não será possível vencer os desafios da nova era. O apoio a museus, exposições interativas e atividades curriculares que estimulem a curiosidade e perspectivem uma carreira de exploração científica são também imprescindíveis para aguçar o espírito inovativo. A cumplicidade da imprensa nesse empreendimento é essencial. Um exemplo que vale recordar, de Portugal, é o concurso Ciência Viva que leva jovens em idade universitária a instituições de pesquisa como o Centro Espacial Europeu e o carinho que esse tipo de iniciativas desfruta na mídia local [ver 3]. Quantas vezes esse carinho é dedicado pela grande mídia brasileira a programas de interação entre jovens e pesquisadores em grandes centros de ciência no Brasil. O que ficou por exemplo da expedição espacial brasileira, divulgada no meio de várias polêmicas que apenas realçaram o seu lado negativo? Quantos jovens terão ficado inspirados pelos textos escritos e lidos na imprensa, naquele ano de 2006? Muitos terão ficado maravilhados com o feito do astronauta Pontes, mas com certeza não através da contribuição de muita da imprensa escrita. É necessário um novo ambiente na nossa sociedade que acarinhe a boa ciência e a tecnologia realmente inovadoras. As grandes questões do nosso tempo e do nosso futuro deveriam dominar a mídia, de forma mais inspiradora e menos conspiradora, constituindo um verdadeiro ideal de nação e de mundo. Infelizmente, tanto por culpa da imprensa como de nossos líderes, grandes questões são abordadas de forma burocrática e desestruturada, não permitindo ao público ter uma noção de rumo. Um bom exemplo é a autossatisfação da nação brasileira com a autossuficiência no abastecimento de petróleo e a liderança mundial na produção de biocombustíveis. Se esses feitos da tecnologia brasileira são sem dúvida invejáveis, parece faltar alguém que pergunte: biocombustíveis para hoje, e o que para daqui a 20-50 anos? Poucos alertam para o caráter paliativo desses feitos pois nem os combustíveis fósseis nem os biocombustiveis são sustentáveis a longo prazo para suprir o consumo brasileiro e mundial. Parafraseando Obama, convoquemos o sol, a terra e o vento para garantir a nossa sobrevivência, mas é bom ter cuidado com a terra pois apenas o sol e o vento são absolutamente renováveis. E o uso destes depende absolutamente de indivíduos inovadores inspirados e motivados por sociedades estimulantes. A desculpa de que o Brasil é um país ainda emergente, afogado em problemas civilizacionais muito mais básicos, não será suficiente para explicar às próximas gerações por que motivo o país não foi protagonista nas grandes revoluções do século XXI. Esperemos que não seja por falta das palavras: “Sim, nós podemos” mudar o Brasil e o mundo! Rumo a um porto seguro que sirva de base para explorar outros destinos.
1. Tradução própria de extrato do discurso de posse do presidente dos Estados Unidos da América Barack H. Obama, em 20 de Janeiro de 2009. 2. Estrin, Judy (2008). Closing the Innovation Gap: Reigniting the spark of creativity in a global economy. McGraw-Hill, 300p. [http://www.theinnovationgap.com/] 3. Teresa Firmino (2006). Concurso do Ciência Viva: Desafios de física levaram duas alunas a centro de testes de satélites. Jornal Público, Quinta-feira 16 de Março de 2006. Matéria completa reproduzida no blog Ciência e Ideias.
Texto de candidatura ao Curso de pós-graduação lato sensu em jornalismo científico do Labjor-UNICAMP.
Rendeu frutos a ótima iniciativa dos biólogos Carlos Hotta e Atila Iamarino, que reuniram o melhor dos blogues brasileiros de ciência no portal Lablogatórios. Quem hoje tentar entrar no Lablogatórios para acompanhar novidades em ciência será automaticamente direcionado para o Science blogs Brasil, na prática ainda a mesma coisa: 23 blogues brasileiros (e em português) que versam sobre diferentes áreas da ciência.
Mudou a cara e, sobretudo, o reconhecimento da iniciativa. O Science blogs é a maior comunidade de ciência na internet, com mais de 130 blogues em inglês. Faz parte do Seed Media Group, que publica a sensacional revista Seed (não há ainda notícias da Seed Brasil, infelizmente).
Parabéns aos fundadores e aos participantes do Lablogatórios, o reconhecimento é para lá de merecido.
Na índia, estima-se que em 2001 o fogo matou 163 mil mulheres - 68 mil em zonas urbanas e 95 mil em zonas rurais. A estimativa está em artigo que saiu este mês na revista médica The Lancet. O número é seis vezes mais alto do que informa a polícia. "Acreditamos que a maior parte dessas mortes pode ser prevenidas com regulamentos efetivos, mas precisamos de pesquisa e ação para usar imediatamente a informação disponível da melhor maneira", dizem Prachi Sanghavi, Kavi Bhalla e Veena Das, que estão, respectivamente, em Cambridge na Harvard Initiative for Global Health (Universidade Harvard) e no departamento de antropologia da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos.
O artigo analisa os registros de todas as mortes causadas por fogo e mostra que 65% delas são mulheres - 57% destas entre 15 e 34 anos de idade. Os motivos sugeridos pelo artigo seriam acidentes de cozinha, auto-imolação e homicídios relacionados a violência doméstica. Um indício chama atenção: a taxa de acidentes com fogo subitamente cai depois dos 34 anos - sugere que tem a ver com idade reprodutiva mais do que acidentes de cozinha.
Os números mostram que o problema é sério e as autoras concluem: a Índia precisa de um serviço de vigilância de ferimentos. Mas como custa dinheiro, não deve acontecer tão cedo.
O artigo chamou minha atenção - e causou um grande incômodo - porque quando fui à Índia, há já mais de dez anos, era comum ver nos jornais relatos de mulheres incendiadas. A suspeita era sempre a mesma: "dowry crime", crime do dote. Na tradição local, quando uma mulher se casa ela passa a pertencer à família do marido. Muitas vezes algo como uma escrava. O termo "crime do dote" se refere a quando o pai da noiva não paga o combinado para que a nova família a aceite, mas pode ser também porque surgiram conflitos de outros tipos.
No artigo, as autoras são muito cuidadosas em suas sugestões, desconfio que porque, além de estarem fora do país, preveem que a melhor chance que têm de fazer algo é não pisar nos calos de muita gente. Mas me pergunto que medidas e regulamentos podem mudar práticas tão arraigadas numa cultura.
Que tal um festival de música, daqueles cheios de palcos e gente e animação, todo inspirado em ciência? É a proposta do britânico geek pop, que começa hoje... como bom produto geek, todo online.
No site está o mapa com os palcos, basta passear pelo festival e ouvir a música ou baixá-la no seu computador ou tocador de mp3. Mas é também um evento social, com grupo no facebook e twitter.
Os músicos de 2009 já estão todos a postos, mas quem quiser se inscrever para a seleção do ano que vem pode pôr cabeça e mãos à obra. Traduzindo livremente do site: "Se você acha que pode escrever um clássico químico, uma balada biológica ou uma canção física; se você consegue dedilhar um violão/bater numa bateria e apreciar a Tabela Periódica dos Elementos ao mesmo tempo; se você tem uma voz de anjo e a barba de um professor maluco, seus talentos são necessários. Não queremos saber se você tem um contrato com a EMI ou um doutorado em ciência atômica, ou ambos - desde que a música seja boa e, claro, devidamente científica".
03 Março 2009
Praias paradisíacas da costa do Dendê, ao sul da capital baiana, são praticamente desertas mas não por isso imaculadas. Um estudo liderado pelo oceanógrafo Isaac Santos, agora na Universidade Estadual da Flórida, nos Estados Unidos, averiguou a origem do lixo encontrado nessas praias. Aqui, nota sobre isso que fiz para a Pesquisa.
A linda foto ao lado é de Fabiano Barretto, da Global Garbage. Ele me indicou vídeos com depoimentos maravilhosos de moradores da região, vale a pena.
A quaresmeira é uma árvore nativa da Mata Atlântica, comum na região Sudeste brasileira. É muito usada em zonas urbanas, é inclusive planta-símbolo de Belo Horizonte. Essa da foto está no meu jardim e este ano floriu pela primeira vez.
O nome vem da época da floração, próxima ao período da quaresma - que vai da quarta-feira de cinzas até a páscoa.
Da família das melastomatáceas, tem flores roxas ou rosas, conforme a variedade, e folhas ásperas com grandes nervuras praticamente paralelas. Os frutos são pequenos e não comestíveis, liberam sementes que são dispersas pelo vento.
Continuo em festejos darwinianos. Recentemente ouvi o geneticista Sérgio Pena, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e fundador/diretor do Laboratório Gene, dizer que a cultura e a medicina já puseram os seres humanos acima da evolução.
Fiquei com vontade de comentar, mas fui adiando por falta de tempo para reunir argumentos. Hoje vi que está feito: no ótimo texto do geneticista/neurocientista/evolucionista Alysson Muotri, da Universidade da Califórnia em San Diego, em sua coluna "espiral", no portal G1. Ele faz uma pequena revisão de trabalhos recentes e mostra que nossos genes estão sim sofrendo alterações em resposta a pressões ambientais. E não só: essas mudanças levam a que se acumulem novas diferenças entre povos diferentes.
Raças? Não importa, e o Alysson não entra nessa discussão. Mas sem querer voltei ao Sérgio Pena, que costuma usar argumentos mal-sustentados pela lógica e pela ciência para afirmar que não existem raças, por isso não deveria haver racismo. O cordel sobre essas ideias noticiado na Ciência Hoje On-line não me permite deixar de lembrar o debate sobre raças e racismo no Congresso de Genética de 2008 (de que Sérgio Pena não participou, embora tenha ido ao congresso). Acho que foi o geneticista da USP Paulo Otto quem disse que não se deve ser racista por princípios morais, e não pelo que diz a genética. Enquanto raças e racismo forem tratadas como sinônimos, fica difícil conviver numa espécie felizmente tão diversa.
Correção: a ideia parece ter feito sucesso e a organização decidiu adiar o cortejo para 14 de março. Veja mais no JC e-mail.
“Hoje é o primeiro dia de Carnaval, mas Wickham, Sullivan e eu não nos intimidamos e estávamos determinados a encarar seus perigos. Esses perigos consistem principalmente em sermos, impiedosamente, fuzilados com bolas de cera cheias de água e molhados com esguichos de lata.” Foi assim que Charles Darwin registrou em seu diário a passagem pelo carnaval baiano em 1832.
Como na Bahia carnaval é coisa séria, este ano de celebrações darwinianas incluirá um bloco em homenagem a esse inesperado carnavalesco do século XIX. Segundo o Jornal da Ciência, o cortejo sairá do Campo Grande, em Salvador, às 10h de amanhã, sábado 28 de fevereiro.
Organizado pelo Grupo Defesa e Promoção Sócio Ambiental, o bloco terá alas simbolizando a Mata Atlântica, plantas, flores, animais e os tripulantes do navio Beagle. No farol da Bahia, um grupo do Instituto de Biologia da Universidade Federal da Bahia, encenará uma peça inspirada em Darwin.
Por favor, alguém vá e me conte!!
A foto, da comissão de frente do desfile da Vila Isabel em 2007 (representando a transmutação da espécie humana) é da fototeca da prefeitura do Rio de Janeiro.
Poucos ambientes foram tão importantes para a cultura brasileira quanto o carnaval carioca. Foi a partir dele que a música que Assis Valente, Batatinha e Dorival Caymmi tocavam na Bahia deu origem ao que hoje chamamos de samba, através dos blocos carnavalescos. No ano de 1928, a fundação do bloco Deixa falar, por Ismael Silva, no bairro do Estácio, foi um marco no que diz respeito à história do samba carioca. O Deixa falar foi o primeiro bloco dedicado à dança e a evolução ao som do samba.
Data de 1929 o primeiro concurso de sambas, realizado na casa de Zé Espinguela, onde saiu vencedor o Conjunto de Oswaldo Cruz, atual Portela, e do qual também participaram a Mangueira e a Deixa Falar. Alguns consideram este como sendo o marco da criação das escolas de samba. Em 1932, patrocinado pelo jornal Mundo Esportivo, surgiu o desfile das escolas de samba, na Praça Onze, vencido pela Estação Primeira de Mangueira. Em 1935, as agremiações carnavalescas cariocas foram obrigadas a tirar um alvará na "Delegacia de Costumes e Diversões" para poderem desfilar. O delegado titular, Dulcídio Gonçalves, decidido a dar um aspecto de maior organização aos desfiles de escolas de samba, negou-se a conceder o alvará para associações com nomes considerados esdrúxulos, razão pela qual a Portela teve que mudar para o nome atual, ao invés do anterior Vai Como Pode.Portanto, a partir daí, as escolas passaram a adotar a denominação de Grêmio Recreativo e Escola de Samba.
No ano de 1941, o desfile saiu da Praça Onze e passou a ocorrer nas principais avenidas do centro da cidade, como a Avenida Rio Branco. Em 1984, durante o governo de Leonel Brizola, foi construído o sambódromo, sob projeto de Oscar Niemeyer.
Com o tempo, as Escolas de Samba se popularizaram e se multiplicaram, fazendo com que os blocos tomassem formas parecidas com as das escolas de samba, e perdessem importância. Porém, com o aumento da exploração do desfile das escolas de samba como uma grande máquina de produzir receita, e não apenas alegria, os blocos voltaram às graças dos cariocas, aí então passando a se multiplicar.
Não há como desligar determinados músicos de suas escolas de origem. Noel Rosa/ Vila Isabel, Cartola/ Mangueira, Martinho/ Vila Isabel, Silas de Oliveira/ Império Serrano, Monarco/ Portela, Nelson Sargento/Mangueira, Paulinho da Viola/ Portela, Dona Yvonne Lara/ Império Serrano, João Nogueira/ Portela, Ismael Silva/ Estácio de Sá, Clara Nunes/ Portela, Neguinho/ Beija-Flor, entre outros binômios.
Hoje em dia, a produção musical carnavalesca é bem pobre, tanto nos blocos, quanto nos bailes ou nas escolas de samba. Recentemente, para estimular um gênero que estava praticamente extinto, foi criado o Concurso de marchinhas, realizado todo ano na Fundição Progresso, na Lapa. Diante disso, boa parte das marchinhas ou sambas entoados nos milhares de blocos e bailes espalhados pela cidade, são uma ode ao passado.
Em 2009, fim da primeira década do século XXI, pôde ser observado o quanto o carnaval do Riotem crescido e atraído turistas, além de manter os cariocas na cidade. Os blocos são inúmeros e vivem o dilema de crescerem, e aí superlotarem seus cordões, perdendo assim suas identidades. Diante dessa situação, blocos dissidentes surgem dos maiores provocando uma hereditariedade contínua dos mesmos, iniciando a folia carioca mais cedo e encerrando mais tarde. Concentrações divulgadas ao grande público com horários incorretos são uma tática adotada pelos grandes blocos para evitar a superlotação.
Já as Escolas de Samba tem se profissionalizado cada vez mais, principalmente com o fluxo de mão-de-obra. Não à toa, o Paulinho Mocidade é o intérprete da Imperatriz Leopoldinense, e o Dominguinhos do Estácio puxava a Viradouro. Neste ano, os grandes campeões da sempre contestada disputa do carnaval foram os Acadêmicos do Salgueiro, tradicional escola do Morro do Salgueiro, na Tijuca, com o enredo “Tambor”, finalizando assim uma hegemonia da Beija-Flor de Nilópolis, que, entretanto, manteve força, sendo a vice-campeã com uma apresentação perfeita tratando do “Banho”. O Império Serrano, mais uma vez foi maltratado pelos jurados, caindo novamente, e de forma injusta, ao grupo de acesso, de onde vem a tradicional, e há algum tempo ausente, União da Ilha do Governador. Como diria o estudioso do samba, e salgueirense, Haroldo Costa: “Quando o Salgueiro mexe com África, sai de baixo!” E assim o foi, tanto que o Salgueiro encerrará o desfile das campeãs, sábado, que terá também a Mangueira, Grande Rio, Vila Isabel, Portela e Beija-Flor.
Hoje minha avó Marina Corimbaba Guimarães faria 109 anos. Uns 30 anos atrás, meu avô Fábio (na foto com ela) já tinha morrido e eu às vezes dormia na cama dela. Ganhava o copo de leite que ela deveria tomar e ela contava histórias (lembro da Dona Baratinha) em capítulos. E coçava minhas costas, com umas unhas longas pintadas de vermelho que faziam um barulhinho delicioso quando roçavam a pele. Ela morreu pouco depois.
"A vida dela era os outros. Por isso, sozinha desde os 17 anos, num mundo sem lugar para ela, projetou-se no trabalho, no amor, na família e em todos com que entrava em contato. Uma perfeita mulher do século XIX e, ainda assim, sem preconceitos, discriminações, distâncias", resume meu pai. Aos 17 anos, Marina ficou órfã. Foi então trabalhar. Virou professora e tomou as rédeas da própria vida. Só conheceu meu avô quase 20 anos depois, porque foi morar numa pensão mantida pela família dele. Ela tinha 36 anos, ele 30. Se casaram e ela ainda conseguiu ter 3 filhos - sorte a minha que ainda deu tempo, meu pai é o caçula.
Determinada, ela estimulou o marido a estudar e até a fazer doutorado nos Estados Unidos. Ele acabou se tornando um geógrafo de destaque, um dos pioneiros do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) (veja aqui notícia que escrevi há uns anos).
Foi essa determinação que minha mãe usou em fevereiro de 1978, quando estava já cansada do calor da gravidez. Perguntou à sogra quando o nenê nasceria. "Amanhã", foi o veredito. Meu irmão nasceria no dia seguinte.
Minha avó materna sempre contava que Marina ensinava todas as empregadas do prédio, em Copacabana, a ler e escrever. Dizem também que havia sempre uma grande população flutuante na casa, tanto na sala (amigos diversos) e na cozinha (protegidos diversos). Minhas próprias lembranças são cenas e imagens vagas.
Hoje também seria aniversário de Charles Darwin, como qualquer pessoa que viva neste planeta internético já terá ouvido dizer. Se ele pudesse ter vivido 200 anos, hoje estaria certamente impressionado com tudo o que se aprendeu nos 150 desde que publicou A origem das espécies. Aposto como acompanharia todos os avanços e continuaria tentando sintetizar novas teorias. Faltam hoje pessoas que, como ele, tenham a paciência, a determinação e os meios para se isolar e pensar, pensar, pensar. E fazer experimentos, e escrever, e juntar pecinhas de um quebra-cabeças infinito.
Darwin e Marina são pessoas que fazem falta no mundo.
Lagartas das simpáticas borboletas Maculinea rebeli (ao lado, tirei a foto daqui), da Europa Ocidental, são boas de disfarce. Ainda pequenas, são carregadas pelas formigas-vermelhas Myrmica schencki para dentro do formigueiro. Ali acontece 95% do seu crescimento, sob os cuidados prestimosos das formigas.
Pesquisadores de Turim, na Itália, e de Oxford, no Reino Unido, explicam na última edição daScience: as taturanas imitam o som produzido pela formiga rainha, assim induzem as operárias a cuidar delas como se fossem integrantes essenciais da colônia.
Soube desse artigo pela edição de hoje do meu podcast favorito, "the naked scientists". No site, além do podcast, está a transcrição (em inglês) do programa e até os sons produzidos pela formiga monarca e pelas larvas de borboleta. Com gravações, os pesquisadores verificaram que as operárias reagem de maneira similar aos dois sons, embora nossos ouvidos detectem a diferença.
Parece familiar? Não estou escrevendo duas vezes sobre a mesma coisa nem me enganei antes. Há umas duas semanas mencionei um texto do Fernando Reinach sobre lagartas que imitam o cheiro das formigas. Nesse caso eram outras espécies, bastante aparentadas, tanto da formiga como da borboleta de que falo hoje. Os autores do artigo mais recente (diferentes do artigo anterior, também publicado na Science) sugerem que as taturanas M. rebeli devem usar os dois mecanismos: cheiro para atrair as formigas e som quando já estão dentro do formigueiro.
Febre, dor de cabeça, dor no corpo, prostração. Quando soube do trabalho do veterinário Marcelo Labruna, da USP, eu estava com esses sintomas. São os da febre maculosa, mas também de um bom resfriado comum.
A primeira doença é transmitida por carrapatos, sobretudo o carrapato-estrela (Amblyommacajennense), o da foto ao lado tirada pelo próprio Labruna (repare que ali estão cinco fases de vida do bicho, desde o minúsculo micuim até o carrapatão alimentado). Se diagnosticada cedo, basta um antibiótico. Caso contrário, surgem manchas na pele (as tais máculas), extremidades começam a necrosar e o paciente pode perder dedos e até morrer, em até 40% dos casos.
Não há motivo para pânico porque a doença é rara. Labruna e seus alunos andam pelo mato à busca de carrapatos infectados, deixam-se picar à vontade (o que não é o amor pela ciência...) e investigam o próprio sangue todos os anos em busca de sinais da doença. Nunca encontraram.
Mas se você (como eu) frequenta lugares onde há mato e carrapatos associados a cachorros ou capivaras, melhor ficar de olho. Eu estava só resfriada e sobrevivi, como previu o médico que eu, morrendo de vergonha da minha hipocondria, consultei.
Isso foi antes de eu ir conversar com o Marcelo dos carrapatos, como é conhecido na faculdade de Veterinária, e escrever a matéria que saiu na edição de janeiro de Pesquisa FAPESP. Agora acho que eu não teria tanta vergonha de tirar os sintomas a limpo.
O Carl Zimmer pediu ajuda dos leitores de seu blogue The Loom para preparar uma lista de textos memoráveis de divulgação de ciência. Deu preferência aos disponíveis na internete. Ponho aqui não só como dica (li um ou outro), mas também para ter à mão para sempre que tenha um tempinho.
Quem lembrar de outros, não deixe de avisar nos comentários. Quem sabe não fazemos uma lista ainda mais completa, quem sabe com textos em português também?
A comunidade científica anda preocupada com a possibilidade de cortes importantes no financiamento do governo para ciência. Alguns blogues que se manifestaram: o Brontossauros e o 100nexos.
Se os cortes se concretizarem, muitos dos pós-graduandos perderão suas bolsas e muita pesquisa ficará inviável. Se quiser juntar-se ao protesto, está aqui uma petição.
Tem pouca coisa mais inebriante do que um jasmineiro em flor. Aquele cheiro que enche a noite e atrai mariposas polinizadoras.
A matéria de capa da Pesquisa de janeiro foi justamente sobre o olfato. Bettina Malnic, do Instituto de Química na USP, dedica sua vida profissional a entender como as moléculas odoríferas são detectadas pelos receptores olfativos e como essa informação chega ao cérebro. Não vou tentar reformular, já deu trabalho que chegue escrever o texto.
Vale também ler a resenha que o Carlos Hotta fez sobre o livro da Bettina, O cheiro das coisas, publicado no ano passado pela Vieira & Lent. Que, aliás, também recomendo.
A Bettina será também uma das entrevistadas no programa "Pesquisa Brasil", que vai ao ar pela Eldorado AM no sábado às 11h. Dá para ouvir pela internete.
E, falando em cheiros, esta semana a coluna do Fernando Reinach no Estadão está sensacional: conta como uma lagarta engana formigas para faturar proteção e cuidados. Tudo com base em cheiros! Veja aqui, reproduzido no Jornal da Ciência online.
Ouvi recentemente, no podcast "Berkeley Groks", uma entrevista bem interessante com a psicóloga Lara Honos-Webb, autora do livro The Gift of Adult ADD [O dom do DDA adulto].
Foi nos Estados Unidos que ouvi falar pela primeira vez em distúrbio de déficit de atenção, acho que em 1998. Naquela época não se falava muito no assunto aqui no Brasil, mas lá descobri que era praticamente uma epidemia. Soube que muitas crianças eram medicadas para ficarem mais concentradas e sob controle, e que algumas escolas inclusive separavam essas crianças em ônibus e turmas especiais, para que não importunassem - ou contaminassem - as "normais".
Mas minha convivência não foi com crianças. Eu era monitora de uma matéria de graduação e, quando chegou a hora da primeira prova, uma aluna me apresentou um documento da universidade dizendo que ela tinha déficit de atenção e tinha direito a condições especiais para fazer provas: uma sala só para ela e o dobro do tempo. Exigências que deveriam valer para todos, porque as provas lá eram um exercício de velocidade no manejo da caneta. Tempo para pensar, de jeito nenhum.
Pois essa tal aluna era brilhante. Estava sempre tendo ideias, toda aula tinha perguntas inteligentes e interessantes. Que saíam do óbvio. Era isso, pensei, que definia o tal déficit de atenção. A pessoa não consegue se concentrar numa coisa só porque o cérebro está vendo mil coisas e tendo mil ideias ao mesmo tempo. Me pareceu um desperdício tentar "curar" aquela moça.
É exatamente isso que o livro fala. Pessoas com déficit de atenção têm talentos: parece que o distúrbio é comum entre bombeiros, que têm que tomar decisões drásticas e arriscadas muito depressa, e jornalistas, que a cada dia têm que mergulhar num assunto completamente novo. O conselho dela para essas pessoas na verdade vale para qualquer um: em vez de tentar ser como todo mundo, ganha-se muito mais em reconhecer os talentos e gostos de cada um e investir naquilo.
O tema deste mês no roda de ciência - que começou no mês passado mas só agora consegui espiar - vem da minha curiosidade sobre quais são os grandes temas atuais na ciência.
Em biologia muito das últimas décadas se concentrou em genomas. Obter seqüências e mais sequências (estou tentando embutir a reforma ortográfica nos meus dedos, nem sempre com sucesso), sem falar nas discussões sobre reducionismo: será que esses sequenciadores acham que tudo vai se resumir aos genes? Doenças, gostos, bebês sob medida...
Eis que, alegria dos que temem o reducionismo, nos últimos anos ficou bem claro que os genes no fundo mandam pouco. Há uma infinidade de pequenas moléculas, como os RNAs (veja aqui matéria que fiz sobre isso), que controlam a ação do material genético. Duas pessoas podem ser geneticamente idênticas, como gêmeos univitelinos, e ter diferenças físicas devido a esses mecanismos de regulação, por sua vez influenciados pelo ambiente. Dois animais podem ter sequências muito parecidas em seu DNA, mas serem diferentes pelo mesmo motivo. Chimpanzés e humanos são mais diferentes do que a pouca diferença genética poderia fazer supor.
E tem a epigenética, de que o João já falou neste blogue, que mostra como o ambiente afeta diretamente a expressão dos genes - e isso pode passar de uma geração para outra (sim, herança de caracteres adquiridos, para quem já estudou a teoria evolutiva de Lamarck).
O que já se sabe sobre esses mecanismos é ainda muito pouco. Não sei se será uma revolução ou, como disse o Osame comentando o João Carlos, uma evolução. Mas gostaria de ver o dia em que geneticistas conseguirão finalmente entender como tudo isso se integra e funciona. Não sei se é possível.
Em astronomia, o João Carlos já mencionou: a busca pela matéria escura e pela energia escura, que compõem a maior parte do universo, parece ser o santo graal do momento.
E tanto se falou do acelerador de partículas do Centro Europeu de Pesquisa Nuclear, o Grande Colisor de Hádrons. Quando finalmente for (re) posto em ação, físicos pretendem encontrar partículas que só existem na teoria.
E os químicos, o que procuram? E os paleontólogos?E os...? Será que é possível prever uma revolução? Ou por definição essas quebras de paradigma da ciência só acontecem de surpresa?
Cadê os filósofos???
Estas ideias jogadas são parte da discussão do roda de ciência. Comentários aqui, por favor.
Uma mata fragmentada como essa que fotografei no interior de São Paulo - sobrou alguma coisa nos topos dos morros, ilhados por cana-de-açúcar - não padece só por falta de espaço.
Os pequenos trechos de mata não têm como sustentar certos tipos de plantas e animais e se tornam empobrecidos não só em termos de espécies, mas também em processos ecológicos.
Leia o texto que escrevi e saiu na Pesquisa Fapesp de novembro.
O ciclo de palestras complementar à exposição Einstein, promovido pela revista Pesquisa Fapesp em parceria com o Instituto Sangari, está em seu penúltimo fim de semana.
No dia 6 de dezembro, sábado, às 15h, o físico e pesquisador da Unicamp Yurij Castelfranchi falará sobre "Quando Einstein falhou: a luta contra os moinhos de vento quântico", e Cássio Leite Vieira, físico e jornalista (RJ), sobre "Os gostos e desgostos de Einstein".
No domingo, dia 7, às 11h, será a vez Luiz Davidovich, físico e professor da UFRJ, com a palestra "Einstein, a luz e a matéria".
Castelfranchi vai falar da batalha intelectual de Einstein, ao lado de alguns dos maiores cientistas da época, em busca de uma teoria unitária do funcionamento do universo. Ele pretendia demonstrar que "Deus não joga dados", como ele dizia, e que a física quântica, da qual ele mesmo tinha sido um dos pioneiros, era na verdade uma descrição incompleta, provisória e incoerente do mundo. "Einstein perdeu a batalha contra a física quântica, mas deixou um legado admirável de coerência, honestidade intelectual e paixão", acentua Castelfranchi.
Cássio Leite Vieira mostrará que Albert Einstein, em paralelo à grandiosidade de cientista, era também uma pessoa comum, que gostava de velejar, comer lentilhas com salsicha, fumar cachimbo e de não usar meias. Era também um amante da música, que tocava violino, que só deixou de lado porque disse que não agüentava mais ouvir a si mesmo. Einstein amava Mozart. Seu maior temor era a idéia de um dia ter que prestar o serviço militar. Tinha acesso de raivas e num deles acertou a cabeça da irmã com uma bola de boliche. Já adulto, um de seus maiores temores era um conflito nuclear em escala mundial.
No domingo, dia 7, Davidovich mostrará que as idéias de Einstein resultaram em aplicações hoje rotineiras como o laser. Einstein também ajudou a moldar concepções revolucionárias e contra-intuitivas sobre a luz e a matéria. Ele vai contar de algumas das principais contribuições de Einstein para o entendimento das características quânticas da luz e da matéria: a dualidade onda-corpúsculo, o fenômeno do emaranhamento e o processo de emissão de luz por átomos, cuja compreensão foi fundamental para a invenção do laser.
Para quem estiver em São Paulo, recomendo vivamente ir ver o trabalho da Angela Leite. Ela representa a fauna brasileira em gravuras e desenhos lindíssimos. Veja um pouco aqui.
O ciclo de palestras complementar à exposição Einstein, promovido pela revista Pesquisa Fapesp em parceria com o Instituto Sangari, prossegue no próximo dia 29 de novembro, sábado, às 15h, com as palestras de José Luiz Goldfarb, físico, historiador da ciência e professor da PUC-SP, "Albert Einstein e Mario Schenberg nas fronteiras da ciência no século XX", e de Maria Cristina Abdalla, física e professora da UNESP, sobre o filme "O discreto charme das partículas elementares", que será exibido em seguida.
No domingo, dia 30, às 11h, Arthur Miller", professor emérito de história e filosofia da ciência do University College, Londres, conduzirá a palestra "Como Einstein e Picasso inventaram o século XX".
José Luiz Goldfarb destacará os principais pontos do percurso científico, filosófico, artístico e político do físico brasileiro Mario Schenberg, que Einstein conheceu no Instituto de Estudos Avançados de Princeton, Estados Unidos. Para Goldfarb, Schenberg representa o pensador brasileiro que mais se aproxima de Einstein, não apenas por suas contribuições científicas, como o efeito URCA (confundido como Ultra Radiation Catastrophe, na verdade referência ao Cassino da Urca do Rio de Janeiro), mas também por suas reflexões sobre os fundamentos da ciência e por suas convicções políticas. Além de grandes cientistas, Einstein e Schenberg são dois grandes pensadores e humanistas, preocupados com os destinos da humanidade e do impacto das aplicações do conhecimento científico. Maria Cristina Abdalla vai contar como seu livro O discreto charme das partículas elementares, publicado pela Editora Unesp em 2006, transformou-se em um filme homônino.O filme apresenta as partículas elementares como os quarks e os léptons, aproximando-as das grandes estruturas do Universo, tem 44 minutos de duração e será exibido em seguida.
Arthur Miller mostrará que o fato de Albert Einstein ter chegado à Relatividade e Pablo Picasso ao cubismo quase simultaneamente, na primeira década do século XX, decorre da vida freqüentemente turbulenta de cada um deles, da busca incessante por idéias novas e da inspiração, vinda de fontes incomuns, que levou a saltos criativos. Miller, que escreveu um livro sobre a genialidade de Einstein e de Picasso, vai também explorar as similaridades da criatividade entre artistas e cientistas.
O ciclo de palestras complementar à exposição Einstein, promovido pela revista Pesquisa Fapesp em parceria com o Instituto Sangari, prossegue hoje, às 15h, com as palestras de Lino de Macedo, professor de psicologia do desenvolvimento da USP, "Piaget, Einstein e a noção de tempo na criança", e de Carmem Prado, física e professora da USP, "Movimento browniano, Caos e fractais". Amanhã, dia 23, às 11h, George Matsas, físico e professor da Unesp, falará sobre "Buracos negros: rompendo os limites da ficção".
Sábado:
Macedo conduzirá a palestra com base em três objetivos. Primeiro, apresentar problemas sobre tempo (o da espera, do interesse, do esforço e outros) e, por meio deles, refletir sobre significados do tempo e como as crianças os compreendem. Segundo, analisar porque Piaget confirma experimentalmente idéias de Einstein sobre a relatividade do tempo. Terceiro, propor atividades para alunos da Educação Infantil e da Escola Fundamental. Foi Einstein que sugeriu algumas das idéias que Piaget tratou no livro "A noção do tempo na criança".
Carmem Prado apresentará de forma simples e intuitiva o que são os objetos geométricos chamados hoje de fractais, exemplificados pela trajetória descrita por uma molécula em movimento browniano, estudado por Einstein. Ela contará como os fractais saíram do mundo imaginário e nada intuitivo dos matemáticos para entrarem de vez no mundo real, onde estão ligados à idéia de caos. Ela também mostrará como, na evolução dos conceitos científicos, as idéias têm o seu tempo, vão e voltam, reinterpretadas e recolocadas à luz de cada novo contexto experimental e teórico.
Domingo:
Matsas abordará, também de forma descomplicada, o que são, como se formam, quão grandes são e de que são feitos os buracos negros. O que acontece quando algo penetra em seu interior? Podem ser uma ameaça à Terra? Ele também explicará por que buracos negros podem se tornar a porta de entrada para a chamada cidade proibida da física teórica: a gravitação quântica, que deve compatibilizar a relatividade com a física quântica e sobre a qual muito se especula, mas quase nada se sabe.
Entrada franca.
Pavilhão Armando de Arruda Pereira (antigo prédio da Prodam), Parque do Ibirapuera, portão 10, São Paulo, SP
Por que algumas pessoas gostam de uma comida, enquanto que outras acham horrível?
Isso me intrigou pela primeira vez quando eu era bem pequena: será que quando duas pessoas comem uma mesma coisa elas sentem o mesmo gosto, mas uma acha bom e a outra não? Ou será que elas sentem sensações diferentes, talvez por diferenças em como o cérebro interpreta aquele sabor? Há uns 30 anos tento imaginar um teste para distinguir entre essas hipóteses, sem sucesso. Idéias são bem vindas!
Eis que ouço esta semana, no meu podcast favorito The naked scientists, uma possível resposta. Christian Starkenmann e seus colegas da Firmenich, uma empresa suíça de sabor (o que será isso?) estavam tentando descobrir de onde vinha o gosto que surge na boca depois que se toma um gole de vinho Sauvignon. Parece que o segredo está na bactéria Fusobacterium nucleatum (tirei a foto daqui), que vive na boca e quebra umas moléculas que as nossas enzimas não quebram.
A turma do podcast especulou, não sei se com alguma base, que bactérias podem ser o motivo pelo qual sentimos gostos diferentes. Teria aí um componente herdado - as bactérias que herdamos da mãe desde que nascemos - e outro da experiência de cada um. Não sei se é verdade, mas é uma possibilidade de teste para a pergunta que me atormenta.
Não tem aí nenhum microbiologista a fim de fazer esse estudo? Depois não deixe de me avisar!!!
P.S. Falando em como as bactérias comensais são mais importantes do que se imagina, adorei esse estudo que divulgamos na Pesquisa Fapesp, mostra a importância da microbiota para desenvolver o sistema imunológico.
Consertar um telescópio espacial não é moleza. A gente vê essas fotos de astronautas flutuando no espaço, mas para mim a impressão sempre foi de que o pior mesmo é chegar lá.
Não é nada disso. Já imaginou ter que desaparafusar alguns daqueles inúmeros parafusos usando essas luvas espaciais? Sem deixar que nenhum literalmente vá para o espaço ou - pior - caia para dentro do aparelho, o que o danificaria para sempre? Meu vídeo-podcast favorito, o Nova Science Now, mostrou como é difícil no programa "Saving Hubble". Vale a pena ver, para quem se entende com inglês.
Em órbita desde 1990, o Hubble não é um eletrodoméstico descartável. Segundo a Wikipedia, mais de 4 mil artigos científicos foram publicados com base nos dados fornecidos pelo telescópio. "Há 20 anos, antes do Hubble, não sabíamos o tamanho do Universo, nem sua idade; agora sabemos", diz no vídeo Matt Mountain, do Space Telescope Science Institute. "Não sabíamos se buracos negros existiam, agora sabemos que estão por todo lado."
O centro que controla as atividades do Hubble tem modelos em tamanho natural para planejar missões de reparo. E para se aproximar das condições de trabalho sem gravidade, astronautas treinam debaixo d'água. Ali, pelo menos, terão uma segunda chance quando tudo dá errado. E uma terceira, uma quarta - até que descubram como cumprir a missão. Antes disso, a missão de manutenção não se concretizará. O risco de morrer é de um em 70, diz Mountain.
Quer fazer um passeio entre léptons, bósons, quarks e afins? O livro O discreto charme das partículas elementares, da Física Maria Cristina Abdalla, da Unesp, foi adaptado para a televisão. O programa, com a apresentação de Marcelo Tas, vai ao ar na segunda, 10 de novembro, pela rede Cultura. Às 19:30.
Eu, que sou uma ignorante total dessas tais partículas, estou bem curiosa. Veja trecho no You Tube.
No sábado, física e teatro; no domingo, Einstein no Rio Sábado, 8 de novembro, 15h "As contribuições e críticas de Einstein à física quântica", Silvio Chibeni, físico e professor de filosofia da Unicamp
Chibeni tratará das contribuições de Einstein para o desenvolvimento da mecânica quântica: a introdução da hipótese do quantum de luz (1905), a explicação do movimento browniano (1905), a explicação das anomalias nos calores específicos dos sólidos (1906), o desenvolvimento da primeira estatística quântica (1924) e o reconhecimento dos aspectos ondulatórios da matéria (1925).
"Formas de representação do tempo na dramaturgia", Sérgio de Carvalho, diretor teatral e professor da USP
Carvalho vai explorar alguns exemplos sobre formas de representação da passagem do tempo na dramaturgia: o tempo do coro na tragédia grega, as linhas de ação especulares no teatro shakespeariano, o processo do indivíduo no drama, a crise da unidade do drama no fim do século 19 e a conjugação de tempos contraditórios no teatro épico.
Domingo, 9 de novembro, 11h "Um cientista nos trópicos: a viagem de Einstein à América do Sul", Alfredo Tolmasquim, físico e diretor do Museu de Astronomia e Ciências Afins (Mast) do Rio de Janeiro
Tolmasquim vai contar da viagem de Einstein ao Brasil, à Argentina e ao Uruguai em 1925. No Rio de Janeiro, fez palestras para um público diversificado, visitou o Jardim Botânico, o Museu Nacional, o Observatório Nacional e o Pão-de-Açúcar, provou comidas típicas e participou de recepções e jantares. Intensamente noticiada, sua visita gerou debates entre os positivistas, que se opunham às suas idéias, e seus defensores. Por escrito, Einstein deixou um comentário para um jornalista: "O problema que minha mente formulou foi respondido pelo luminoso céu do Brasil".
As palestras são parte da série complementar à exposição Einstein promovida pela revista Pesquisa FAPESP e pelo Instituto Sangari. Em linguagem simples, acessível a um público amplo, físicos e especialistas de outras áreas falam sobre as idéias de Albert Einstein e suas implicações em outros campos, nas tardes de sábado (15h) e nas manhãs de domingo (11h), no auditório que integra a exposição. Entrada gratuita. Local: Pavilhão Armando de Arruda Pereira – antigo prédio da PRODAM Parque do Ibirapuera – entrada pelo portão 10
Aceitei a proposta do Carlos Hotta e fui à página do Wildlife Photographer of the Year pra escolher minhas favoritas. Aqui vão.
Quem vai comer quem, a cobra ou a perereca? O embate aconteceu numa floresta em Belize, e quem desistiu primeiro foi o fotógrafo David Maitland, do Reino Unido.
Olhem o penteado desse amigo do fotógrafo italiano Stefano Unterthiner! Ele vive na ilha de Sulawesi, na Indonésia.
Mais um campeão do penteado. O espanhol Ramon Navarro teve que usar artifícios para fotografar de longe. Essas aves exibidas costumam escolher bem o seu alvo de sedução. E não costuma ser fotógrafos...
Adoro corujas-buraqueiras! Ficam olhando com toda a atenção, prontas pra defender seu ninho. Quando eu morava em Rio Claro, eu e o cão Marley tomávamos muitos rasantes desses bichos, que nessas horas faziam de tudo para não ser simpáticos. Esta foi fotografada em Florianópolis por Adriano Ebenriter.
Sou louca por uma boa selva urbana. Londres foi aqui flagrada surgindo das nuvens por Piers Calvert, de máquina em punho enquanto o avião se preparava para encontrar seu caminho em meio à neblina.
Palestras de 1º. de novembro (15h) exploram as idéias de Einstein na Filosofia e na Educação
"De Galileu a Einstein: do tempo da física ao tempo vivido", Pablo Rubén Mariconda, filósofo e professor da USP
Mariconda mostrará as ligações de Galileu Galilei e Albert Einstein em torno de três aspectos: a questão do tempo físico e da organização espaço-temporal dos eventos naturais; a idéia de relatividade e a caracterização físico-matemática do movimento; a finitude do movimento da luz e a infinitude do Universo. Essas três características no pensamento de Galileu convergem para a concepção relativista de Einstein. Mariconda falará também sobre a aceleração do tempo cultural e suas relações com o tempo da física e com o tempo psicológico (ou vivido).
“É possível produzir um Einstein? Algumas reflexões sobre Einstein e a Educação”, Antônio Augusto Videira, filósofo, pesquisador do CBPF e professor da UERJ
Videira discutirá as idéias de Einstein sobre educação de jovens e crianças – muitas delas opostas ao pensamento dominante – e as possibilidades de educação e formação dos físicos atualmente. Ao longo da apresentação, ele antecipa, “procurarei refletir sobre a seguinte pergunta: poderiam as idéias de Einstein ser aplicadas com sucesso em nosso tempo?”
Entrada gratuita,
Pavilhão Armando de Arruda Pereira – antigo prédio da PRODAM (ao lado da exposição "Einstein")
"A imaginação é mais importante que o conhecimento" disse Albert Einstein.
Fiquei pensando nisso quando ouvi uma entrevista (em inglês) com os criadores da nova ópera "Doctor Atomic", que está em cartaz em Nova York. Trata realmente da confecção da bomba atômica, o personagem principal é o Robert Oppenheimer.
Quando perguntaram à diretora da ópera, Penny Woolcock, como era fazer um espetáculo sobre ciência - ela que não tem conhecimentos na área, ela respondeu o seguinte. Ela aprendeu o que precisava sobre ciência porque um ex-sogro dela é Nobel de química. Convivendo com ele, ela descobriu que a ciência na verdade não é muito diferente da arte. As grandes descobertas são inspiração, dependem sobretudo de criatividade. No início. Depois tem muito trabalho para verificar se é isso mesmo.
Me senti um pouco redimida, quando eu estava no doutorado um dia concluí que querer ser cientista por motivos poéticos não podia ser lícito.
O Luís Fernando Veríssimo escreveu lindamente (e divertidamente) a mesma coisa que a Penny disse, vejam.
Encontros e Desencontros (Zero Hora, 18/03/2007)
Einstein morreu e, assim que chegou ao céu, Deus mandou chamá-lo.
- Einstein! - exclamou Deus, quando o viu. - Todo-Poderoso! - exclamou Einstein, já que estavam usando sobrenomes. E continuou: - Você está muito bem para uma projeção antropomórfica do monoteísmo judaico-cristão. - Obrigado. Você também está com ótimo aspecto. - Para um morto, você quer dizer. - Eu tinha muita curiosidade em conhecê-lo - diz Deus. - É mesmo? - Juro por Mim. Há anos que espero esta chance. - Puxa... - Não é confete, não. É que tem uma coisa que Eu queria lhe perguntar.. - Pergunte. - Tudo que você descobriu foi por estudo e observação, certo? - Bem... - Quer dizer, foi preciso que Eu criasse um Copérnico, depois um Newton, etc., para que houvesse um Einstein. Tudo numa progressão natural. - Claro. - E você chegou às suas conclusões estudando o que os outros tinham descoberto e fazendo suas próprias observações de fenômenos naturais. Desvendando os meus enigmas. - Aliás, parabéns, hein? Não foi fácil. Tive que suar o cardigan. - Obrigado. A gente faz o que pode. Mas a teoria geral da relatividade... - Sim? - Você tirou do nada. - Bem, eu... - Não me venha com modéstia - interrompeu Deus. - Você já está no céu, não precisa mais fingir. Você não chegou à teoria geral da relatividade por observação e dedução. Você a bolou. Foi uma sacada, é ou não é? - É. - Maldição! - gritou Deus. - O que é isso, Todo-Poderoso? - Não se escapa da metafísica. Sempre se chega a um ponto em que não há outra explicação. Eu não agüento isso!
- Mas... - Eu não agüento a metafísica!
Einstein tentou acalmar Deus. - A minha teoria ainda não está cem por cento provada. - Mas ela está certa. Eu sei. Fui Eu que criei tudo isto. - Pois então? Você fez muito mais do que eu. - Não tente me consolar, Einstein. - Você também criou do nada. - Eu sei! Você não entendeu? Eu sou Deus. Eu sou a minha própria explicação. Mas você não tem desculpa. Com você foi metafísica mesmo. - Desculpe, eu... - Tudo bem, tudo bem. Pode ir. - Tem certeza que não quer que eu... - Não. Pode ir. Eu me recupero. Vai, vai.
Quando Einstein saiu, viu que Deus se dirigia ao armário de bebidas.
O tema do Congresso de Genética este ano foi evo-devo, a junção entre evolução e desenvolvimento embrionário. É uma área fascinante que tenta entender como a natureza constrói as formas mais diversas a partir dos mesmos elementos.
Aproveitei para ver um monte de palestras e montar uma matéria, leia aqui. Se quiser mais, tem também o ótimo texto (em inglês) do PZ Myers na Seed.
Palestras da série Einstein no dia 25, às 15 h, aproximarão Relatividade, índios sul-americanos e direitos civis
"Pluralismo e relativismo nas sociedades humanas: o impacto das idéias de Einstein" Mauro William Barbosa de Almeida, antropólogo e professor da Unicamp, mostrará como as idéias de Einstein tiveram um impacto profundo não só na Física e na Filosofia do século XX, mas também no modo de ver a diversidade social do mundo moderno. Segundo Almeida, a substituição de um espaço e de um tempo absoluto por uma pluralidade de espaços e de tempos relativos a distintos observadores serviu de inspiração para antropólogos que descreveram muitos modos de ver e viver o tempo e o espaço em sociedades não-ocidentais. O relativismo cultural de antropólogos, porém, como Almeida comentará em sua apresentação, costuma esquecer um aspecto essencial da relatividade em Einstein: o fato de que sob a diversidade de tempos e espaços de observadores distintos perpassa a unidade profunda das leis da natureza. Almeida apresentará essas idéias com exemplos como o perspectivismo dos índios sul-americanos, que relativizam a oposição entre seres humanos e animais selvagens.
"O dossiê Einstein no FBI: a documentação de sua luta pelos direitos civis" Olival Freire, historiador da ciência e professor da UFBa que em 2005 escreveu que "a imagem pública de Einstein fica incompleta sem sua atividade política", falará do cientista que criou a Teoria da Relatividade, enviou uma carta em 1914 ao presidente Roosevelt defendendo a construção da bomba pelos Estados Unidos, manifestou-se contra a discriminação racial nos Estados Unidos e apoiou a luta pelos direitos civis nos Estados Unidos.
A revista Pesquisa FAPESP e o Instituto Sangari organizam uma série de palestras e debates complementares à exposição Einstein, que segue até o dia 14 de dezembro no Parque do Ibirapuera, em São Paulo. Em linguagem simples, acessível a um público amplo, físicos e especialistas de outras áreas – cinema, sociologia, filosofia, neurologia e história da ciência, entre outras – vão falar sobre as idéias de Albert Einstein e suas implicações em outros campos, no auditório que integra a exposição. Entrada gratuita.
Sábado, 18 de outubro, 15h "Espaço, tempo e éter na teoria da relatividade", Roberto Martins, físico, historiador da ciência e professor da Unicamp. Roberto Martins falará sobre as diferenças entre os conceitos de espaço e tempo absolutos, sua relação com a concepção de um éter que preencheria todo o espaço, as mudanças ocorridas nos conceitos de espaço e tempo na teoria da relatividade especial, a postura de Einstein frente ao éter na fase da teoria da relatividade especial, depois sua mudança de atitude, quando foi criada a relatividade geral, e seu retorno ao éter em 1920.
Domingo, 19 de outubro, 11 horas "A preparação de Einstein para o seu ano miraculoso", Carlos Alberto dos Santos, físico, professor da UFRGS e colunista de Ciência Hoje Online Carlos Alberto dos Santos mostrará o longo caminho que Einstein percorreu para chegar ao seu Ano Miraculoso (1905), quando publicou artigos científicos que mudariam a física. Não foi obra de uma genialidade momentânea, mas de uma trajetória intelectual que começou aos 4 ou 5 anos quando o menino Albert admira o comportamento de uma bússola – aos 12, demonstra, sozinho, o Teorema de Pitágoras.
Em Panorama visto do centro do universo, o cosmólogo Joel Primack e a escritora e filósofa de ciência Nancy Abrams chamam atenção para a posição do ser humano no cosmos. Estamos no meio dele, na metade do tempo de vida do universo e somos feitos do material mais raro que há: poeira de estrelas.
O texto acessível e acolhedor conduz o leitor pelos confins e pela história do Universo, em três partes. A primeira descreve cosmologias antigas, como a que vigorava na Idade Média. A segunda expõe o estado da arte do conhecimento sobre o Universo, sempre com metáforas que tornam a teoria mais palpável. Estão aí conceitos como inflação cósmica, matéria escura e energia escura. Na terceira parte o casal de autores discute como usar esse conhecimento para reconstruir uma cosmologia que nos conecte de volta ao universo.
É com base nessa ciência e na necessidade de mitologias para nos situarmos de maneira efetiva e duradoura em nosso mundo que Primack e Abrams propõem uma cosmologia atualizada, baseada numa compreensão do universo que só os conhecimentos mais recentes permitem atingir. Que, esperam, nos ajudará a tomar responsabilidade por este planeta que a própria atividade humana pôs em perigo.
Se quiser mais, veja o site dos autores. Foi de lá que tirei a imagem das esferas cósmicas do tempo.
Panorama visto do centro do universo - a descoberta de nosso extraordinário lugar no cosmos Joel R. Primack e Nancy Ellen Abrams Companhia das Letras, 2008 Tradução: eu R$ 59,00
A revista Pesquisa FAPESP e o Instituto Sangari organizam uma série de palestras e debates complementares à exposição Einstein, aberta para visitação até o dia 14 de dezembro no Parque do Ibirapuera, em São Paulo. Em linguagem simples, acessível a um público amplo, físicos e especialistas de outras áreas – cinema, sociologia, filosofia, neurologia e história da ciência, entre outras – vão falar sobre as idéias de Albert Einstein e suas implicações em outros campos, nas tardes de sábado e nas manhãs de domingo, no auditório que integra a exposição. Entrada gratuita.
Aos sábados, as mesas-redondas exploram o tema O tempo em dois tempos. Nelas, um físico e um pesquisador das ciências humanas falam e conversam sobre a noção do tempo e do espaço em suas especialidades. Aos domingos, na série Muito além da relatividade, físicos e escritores especializados em física do Brasil e do exterior abordam aspectos pouco conhecidos sobre a vida, o contexto histórico e a obra de Einstein.
Sábado, 11 de outubro, 15h
"O Difícil Legado de Einstein", com Carlos Escobar, físico e professor da Unicamp
Carlos Escobar mostrará que Einstein, além de um trabalho que guia a física ainda hoje, deixou desafios científicos enormes: a idéia de um espaçotempo dinâmico e a idéia de que teorias podem ser formuladas por meio de argumentos de consistência interna, muitas vezes sem ser necessário que resultados experimentais sugiram caminhos específicos para sua formulação. Outro legado de Einstein diz respeito ao papel do cientista na sociedade. "Einstein nos deixou um padrão muito elevado de compromisso social, humanismo e espírito crítico que faz com que os cientistas hoje pareçam apenas pequenas peças numa grande máquina", diz Escobar. "Quem tem a grandeza intelectual e moral para rebelar-se contra isto?"
"Mudando o modo de ver o mundo: indivíduos e 'Zeitkontext' ou como o movimento Browniano modificou o modo de fazer ciência", com Peter Schulz, físico e professor da Unicamp
Autodenominado historiador totalmente amador, Peter Schulz contará como Albert Einstein explicou um fenômeno observado 80 anos antes – o movimento browniano –, fundamental na verificação experimental da existência dos átomos, que ainda não era totalmente aceita no início do século XX. Schulz mostrará também como o contexto de época – o "Zeitkontext" do título da palestra – pode atrasar o desenvolvimento científico em geral e especificamente uma atividade ligada ao estudo do movimento browniano que amadureceu 80 anos depois – a nanotecnologia.
Mediador: Marcelo Leite, jornalista e colunista da Folha de S.Paulo, que lançará seu livro mais recente, Ciência: use com cuidado (Editora da Unicamp), após as palestras.
Domingo, 12 de outubro, 11 horas
"Einstein Inventor", com Nelson Studart, físico e professor da UFSCar
Além de inventor, Einstein foi engenheiro e consultor. Aos 15 anos já se envolvia na solução de problemas técnicos com engenheiros. Depois criou a "Maquininha" como ele chamava sua primeira e única tentativa de projetar um equipamento para testar sua teoria sobre o movimento browniano. Como consultor de uma empresa de fabricação de aviões, a LGV, projetou uma asa para avião militar na Primeira Guerra Mundial. Para evitar o vazamento de gases tóxicos e reduzir o barulho dos refrigeradores da época, colaborou no desenvolvimento de um protótipo que foi construído em 1931 pela empresa AEG, mas a máquina nunca foi comercializada. Nelson Studart também apresentará as patentes requeridas por Albert Einstein em colaboração com outros inventores de 1928 a 1936 – a última foi uma câmara fotográfica com intensidade de luz auto-ajustável.
"O canto do dodô, se é que ele cantava, permanecerá para sempre desconhecido, pois nenhum ser humano que tenha deixado um testemunho deu-se ao trabalho de se sentar nas floresta de Maurício e abrir os ouvidos", escreve David Quammen em O canto do dodô, recentemente publicado pela Companhia das Letras. O que essas aves extintas deixaram foi um alerta sobre como a ocupação humana altera o mundo de forma irremediável.
Quammen vez e outra aparece por este blogue. Porque tenho a sorte de me envolver profissionalmente com os livros publicados por aqui, mas sobretudo porque tudo o que leio dele me fascina. Foi o caso do Monstro de Deus, que traduzi. E da bela biografia do Darwin.
"É provável que você ainda não tenha ouvido o que os cientistas andam murmurando sobre o decaimento dos ecossistemas. E é igualmente provável que saiba pouco ou nada sobre uma disciplina aparentemente marginal conhecida como 'biogeografia de ilhas'". Quase oitocentas páginas depois, o leitor não só ouviu falar dessas coisas como entendeu e se encantou.
Quammen percorre e investiga ilhas, buscando entender as particularidades da evolução e da extinção nesses pedaços isolados de terra. E chega à Amazônia e à Mata Atlântica, onde o desmatamento na prática transforma a floresta em arquipélago. Vivemos em plena onda de extinções, comparada por especialistas ao meteoro que deu cabo dos dinossauros. Desta vez o meteoro tem nome: Homo sapiens.
O canto do dodô - biogeografia de ilhas numa era de extinções David Quammen Tradução: Carlos Afonso Malferrari 792 páginas Companhia das Letras R$ 88,00
As ferramentas de que cientistas hoje dispõem chegam a parecer ficção científica. Na semana passada estive no congresso de genética, em Salvador, e me maravilhei com lindas imagens de embriões em que as células nas quais determinado gene estava em ação emitiam um brilho verde. Ou de outras cores. E muito mais que evoca as maravilhas que a tecnologia faz pela ciência.
Estava preparada para isso, mas não para algo que para mim se tornou o grande tema involuntário do congresso: a tecnologia atrapalha a ciência.
A revelação veio logo na sessão de abertura, nas palavras do homenageado Fábio de Melo Sene (discordo do Carlos. Achei o discurso inspirador e me comovi com a reunião familiar que o congresso promoveu num momento que costuma ser formal e pomposo). Pesquisador da USP de Ribeirão Preto, Sene dedicou sua vida a estudar a evolução de drosófilas. As pobres moscas são tão conhecidas em laboratórios e fruteiras que muita gente nem se dá conta de que existem inúmeras espécies de drosófilas na natureza, sujeitas à seleção natural e tudo. Nos seus estudos, como entender a evolução exige, Sene reuniu ecologia, geomorfologia, zoologia, biogeografia, etc.
Formou pesquisadores, ajudou a desenvolver o campo da evolução na biologia brasileira. Até que, nas palavras dele, a genética de populações entrou em crise "devido ao caos dos marcadores moleculares que inviabilizaram o enfoque em populações". Ou seja, segundo ele as pessoas passaram a seqüenciar DNA loucamente e deixaram de pensar. Passaram a limitar-se a revisões da classificação dos seres vivos e submergiram numa confusão conceitual, sem saber a diferença entre padrões e processos evolutivos. Ele lamentou que ainda agora o ensino de evolução nos cursos de biologia é muito deficiente.
No dia seguinte entrevistei o Philip Hanawalt, norte-americano da universidade Stanford que teve e tem um papel central nos estudos sobre reparo de DNA. Qual não foi a minha surpresa quando ele contou que já lhe aconteceu de ser procurado por aluno que queria simplesmente clonar um gene - sem saber por que nem ter um questionamento científico. Ele me disse que muitas das descobertas mais importantes saíram de uma boa idéia e um experimento simples, com pouca tecnologia. E é isso que ensina aos alunos: formule a pergunta que quer responder e pense na maneira mais simples de ir atrás da resposta.
Ao longo dos três dias de congresso ouvi a mesma queixa várias vezes, de pessoas diversas, de maneira independente. A tecnologia ajuda, não há dúvida. Mas há que saber usá-la, quando usá-la e por quê. A máquina mais espantosa já feita ainda está dentro do crânio de quem escreve e de quem lê blogues.
Uma roqueira de 32 anos que nasceu no Irã mas vive nos Estados Unidos desde os dois anos de idade, quando a família fugiu da revolução e recomeçou a vida do zero, e é geneticista na Harvard! Na verdade, dirá ela, uma cientista que nas horas vagas compõe, toca e canta. Vi um vídeo da Nova Science Now (em inglês) com o perfil da Pardis Sabeti e virei fã. Algum dia espero entrevistá-la.
Segundo o vídeo, a grande contribuição dela para os estudos de genética foi sacar como escrutinar a seqüencia do DNA humano em busca de mutações que tragam alguma vantagem adaptativa. Ela agora está usando esse enfoque para estudar mecanismos de resistência à malária.
Se ela tivesse que escolher entre música e ciência, ficava com a segunda. Porque fazer ciência é emocionante, é desafiante. O júbilo da descoberta, de que o Carlos Hotta também andou falando, é uma sensação inigualável.
Semana passada comemorou-se - ou lamentou-se - o dia do Cerrado. Foi no dia 11 de setembro. Fiquei sabendo da efeméride pelo Bafana Ciência, e o Marcelo Leite comentou também.Não resisto a deixar aqui minha homenagem a uma paisagem que me emociona profundamente a cada visita. Algumas impressões, com súplicas por uma longa vida. Porque ele é muito mais especial como ecossistema único do que como fronteira agrícola.
Porque são árvores retorcidas e campos que não só resistem às queimadas naturais, mas tiram daí sua força. E explodem em flor depois do fogo. Troncos negros, por fora carvão. E flores de todas as formas e cores. Algumas delas são sempre-vivas e, por isso mesmo, correm o risco de virar arranjo nos mercados turísticos de Brasília. Raízes que buscam água nas profundezas do solo, lá onde ela abunda mesmo nos longos períodos de seca.
Porque ali cavam tatus, araras se instalam em ocos dos buritis, lobos-guará - com suas longas pernas elegantes e seu ar paciente - percorrem quilômetros sem fim (quando os há) em busca de frutos e pequenos insetos. Onde os filhotes de tamanduá se disfarçam na listra que cruza o dorso da mãe e emas se parecem com arbustos em meio ao campo. E tantos bichos mais que ajudam a tornar o Cerrado um dos hotspots de biodiversidade do mundo.
Porque o céu azul profundo e a luz dourada. Porque as folhas rígidas, muitas vezes peludas, estão prontas para resistir a tudo. Não contavam com tratores, mas ainda torço por elas. As fotos são quase todas do João, talvez alguma minha. Recomendo também as belas imagens do Rafael.
A área do banco de corais de Abrolhos, ao longo da costa do sul da Bahia e norte do Espírito Santo, é muito maior do que se pensava.
A descoberta vem das explorações do fundo do mar feitas por uma equipe que reúne pesquisadores da Conservação Internacional do Brasil e de diversas universidades. Além disso se insere na CReefs, uma iniciativa internacional para catalogar a biodiversidade de todos os oceanos.
Neste momento eles estão lá, a bordo do barco de pesquisa, incansavelmente mapeando o fundo do mar, encontrando novidades e, se preciso (e se possível), mergulhando para investigar mais de perto.
A descoberta abre as portas de um mundo de maravilhas, mas as notícias não são boas. Muitos dos corais-cérebro típicos da região estão atacados pela praga branca, como o da foto de autoria de Ronaldo Francini-Filho, da Universidade Estadual da Paraíba. Além disso, a pesca em ampla escala já causou modificações importantes numa cadeia alimentar em que os maiores peixes se tornam raros. Peixe grande que não escasseia, só o bicho-homem...
A boa notícia é que os planos vão além de explorar a nova área descoberta - quase que um novo continente. Até o fim do ano, a equipe multidisciplinar pretende traçar metas e estratégias de conservação para Abrolhos. Leia mais na edição de setembro de Pesquisa Fapesp, ou aqui.
A foto ao lado é de uma cena triste da corrida dos 3 mil metros com barreiras, hoje nas olimpíadas de Pequim. No final da prova a espanhola Marta Domínguez deu um pique muito forte em busca do pódio mas acabou tropeçando numa barreira. Um mico olímpico, segundo o siteglobo esporte (onde achei a foto rotulada).
O que me impressionou foi que, quando ela tentou se levantar, as pernas não obedeciam. Mesmo com ajuda, num primeiro momento ela não tinha como ficar de pé e caminhar. E não parecia cansaço, os músculos simplesmente pareciam contrair e relaxar independente da vontade da atleta.
Não tenho como saber se foi o caso, mas me lembrou a matéria que escrevi para a edição de agosto (agora nas bancas) da Pesquisa Fapesp. Se trata da pesquisa do pneumologista da Unifesp Alberto Neder, que vem mostrando o que acontece quando pulmões e pernas competem por oxigênio.
Acho um pouco assustadora toda a especulação que circula quanto aos achados em Marte. É interessante saber se há vida por lá, ou possibilidade dela. Seria um prato cheio para evolucionistas, analisar como é uma vida surgida independentemente da que temos por aqui. Seria como voltar a fita da evolução, como dizia o Stephen Jay Gould acho que no Vida maravilhosa.
Mas às vezes parece que as expectativas são outras, como se fôssemos ver marcianos brincando de esconde-esconde com a sonda fênix. Na semana retrasada a Nasa anunciou que encontrou sais chamados percloratos, que podem ter efeito oxidativo - ou seja, destruir certas moléculas - ou possibilitar vida por ser fonte de oxigênio. Dizia o comunicado que os cientistas ainda não sabiam se o achado era positivo ou negativo para a possibilidade de vida em Marte. Isso se a amostra analisada fosse representativa do resto do planeta.
A Nasa fez a opção, dizem eles, de mostrar ao público a ciência em ação. Assim, afirmam que noticiam logo todas as descobertas feitas, antes mesmo de serem de fato estudadas. Comunicados e fotos aparecem periodicamente no site deles.
Eis que leio uma matéria por aí dizendo que os cientistas da Nasa afirmam que o perclorato é muito promissor para que se encontre vida em Marte, ou algo que o valha. E que bactérias terráqueas que resistem até a explosões nucleares devem existir em Marte. Essas bactérias sugerem que a vida seria possível nas condições que existem em Marte, mas isso não quer dizer que elas estejam lá. O que quer que haja lá surgiu independentemente do que há aqui e não há indícios de que seria parecido. A não ser que tenha ido de carona na fênix.
Tentei baixar um pouco a bola da histeria marciana no programa "Pesquisa Brasil" da semana passada.
Custou muita insistência, mas agora é possível assinar o programa de rádio "Pesquisa Brasil", parceria entre a revista Pesquisa Fapesp e a rádio Eldorado, como podcast.
O programa passa todo sábado às 11 da manhã (e de vez em quando estou eu lá fazendo comentários), e no início da semana vai para o site da revista, onde é possível ouvi-lo. Programas antigos estão também arquivados.
Se você usa itunes ou similar, basta colar o url do rss na janelinha onde se assina podcasts.
Um novo tema está em votação no blogue "roda de ciência". Para quem não conhece: é um ponto de encontro bloguístico onde participantes escrevem sobre um mesmo tema a cada mês - e discutem.
A discussão está aberta para quem se interessar sobre o tema, passe lá e palpite! O blogue está também de portas abertas para novos participantes, basta dizer.
Participante ou não, passe lá e vote no próximo tema.
Com esses olhos alertas, as tupaias da Malásia, da espécie Ptilocercus lowii (foto ao lado, de Annette Zitzmann - co-autora do trabalho), enganam. Não só são notívagas, como beberronas. Passam em média 138 minutos por noite lambendo as flores da palmeira Eigeissona tristis. O sistema de produção de néctar e pólen dessas plantas é peculiar - o néctar abundante passa um bom tempo fermentando e chega a um teor alcóolico de 3,8% - o mais alto já encontrado na natureza, semelhante a algumas cervejas. Em entrevista para o podcast "Science in action", da BBC, o coordenador da pesquisa Frank Wiens, da universidade alemã de Bayreuth, disse que a quantidade de néctar que as tupaias consomem é como se uma pessoa tomasse 8 taças de vinho por noite!
Apesar de consumirem uma grande quantidade de álcool para suas 50 gramas de corpo, as tupaias não saem trocando pernas (vejavídeo). E não são as únicas. O grupo de pesquisadores sentiu o cheiro familiar de uma cervejaria perto da planta e observou ao todo sete espécies de mamíferos que se refestelam com o festim etílico da palmeira - mas poucos tão boêmios quanto a tupaia. Outra espécie que se destaca é o lóris-lento (Nycticebus coucang, foto abaixo, daqui), que restringe suas noitadas no bar a 86 minutos em média. Talvez a lentidão que lhe dá nome seja cautela, para não dar bandeira (vídeo aqui). O artigo foi publicado na semana passada na revista PNAS, da Academia de Ciências dos Estados Unidos. O assunto andou nas notícias e não me chamou a atenção só pela simpatia de bichos bebuns em tempos de lei seca. Também deixou de cabelos em pé esta que já foi estudiosa de mamíferos e mantém a preferência. As tupaias, também conhecidas como musaranhos-arborícolas, apareceram pela mídia como roedores. Não posso me furtar ao protesto: estão muito longe de roedores!
Para não deixar dúvidas, ponho aqui uma filogenia dos mamíferos, abaixo (do Tree of Life) - observe como uma árvore genealógica. As tupaias, que aparecem como "Scandentia", são na verdade mais aparentadas aos primatas do que aos roedores ("Rodentia"). Os lórises são prossímios, incluídos no ramo dos primatas junto com os lêmures. A confusão não vem só da nossa ignorância dessa fauna do sul e sudeste da Ásia: na Malásia, a palavra tupai indica tanto esquilos (esses sim roedores) como tupaias. Outra confusão surge do termo "musaranho-arborícola". Musaranhos propriamente ditos também não têm muito a ver com as tupaias (aparecem como "Insectivora" na árvore). É exatamemente por serem quase primatas que o alcoolismo das tupaias é interessante. O próximo passo é entender em detalhes o que na fisiologia delas - e dos lórises lhes permite ingerir tanto álcool sem sofrer as conseqüências motoras - sem falar em ressacas. O interesse maior dos pesquisadores é mesmo compreender a evolução desse aspecto da fisiologia, e porque nós ficamos alegres com uma fração do álcool que as tupaias encaram sem achar que é mais do que uma refeição. Mas pode até, quem sabe, vir a ser útil para tratar dependência alcóolica.
Quando, semana passada, comentei um artigo que falava de amamentação, não sabia que a Semana Mundial da Amamentação estava próxima. Começa hoje.
Fiquei sabendo ao abrir a Folha de S.Paulo hoje de manhã e ver que no Brasil, as crianças ganham amamentação exclusiva por dois meses em média. Os dados estão no relatório da Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde da Criança e da Mulher (PNDS), promovido em 2006 pelo Ministério da Saúde, que promove esta semana uma campanha pela amamentação.
Dois meses é pouco. A Organização Mundial da Saúde recomenda que nos primeiros seis meses de vida o leite materno seja a única fonte de amamentação. A partir daí começam as papinhas, mas o ideal é manter alguma amamentação até os dois anos de idade. Haja peito...
Além das vantagens de saúde, ouvi recentemente que bebês amamentados têm paladar mais diverso. Foi no meu podcast favorito, The naked scientists. Um estudo na Dinamarca (veja aqui) demonstrou que sabores do que a mãe come realmente passam para o leite. Isso pode ter grande influência em aumentar o repertório do paladar do bebê. Parece que crianças restritas a leite industrializado mais tarde se tornam mais frescas para comer...
Pesquisador de renome internacional, Michael Lynch publicou no ano passado, nos Estados Unidos, o livro The Origins of Genome Architecture, ainda sem tradução em português. É sobre isso que o evolucionista da Universidade de Indiana falará na última palestra da programação cultural da exposição Revolução Genômica. A palestra “Genomas e evolução”, com entrada franca, foi adiada para as 18 horas do dia 4 de agosto, e se realizará excepcionalmente no auditório do Centro de Estudos do Genoma Humano, dentro do campus da Universidade São Paulo (USP), rua do Matão, travessa 13, no 106.
A programação cultural da mostra Revolução Genômica está a cargo da revista Pesquisa FAPESP. A cobertura completa das palestras pode ser acompanhada no site da revista. O auditório tem espaço limitado, por isso é preciso fazer a inscrição: aqui, clicando em Atividades Culturais, ou pelo telefone 3468-7400 das 8 às 18h. Michael Lynch é professor na Universidade de Indiana e em sua pesquisa integra genética, ecologia e evolução. No livro publicado em 2007 ele mostra como o seqüenciamento dos mais variados organismos transformou o campo de estudos da evolução e permite entender como surgiu a diversidade arquitetônica dos genes e do material genético. Lynch apresentará ao público paulistano as idéias que desenvolveu em seu livro, considerado por especialistas como uma contribuição importante para a área evolutiva. Ele promete mostrar atualizações interessantes e discutir a relação entre a complexidade dos genomas e dos organismos.
Amamentar - sem nenhum outro suplemento alimentar - por mais tempo melhora o desenvolvimento cognitivo das crianças. É o que diz um artigo (com acesso restrito) publicado em maio na revista Archives of General Psychiatry.
A conclusão vem de um experimento feito por um grupo de pesquisadores do Canadá e da Bielorrússia, integrantes do Probit (Promotion of Breastfeeding Intervention Trial - Experimento de intervenção em promover a amamentação). Em 31 maternidades bielorrussas, o grupo avaliou mais de 17 mil bebês em fase de amamentação e seguiu quase 14 mil deles (81,5%) até os 6 anos e meio. Metade das mães passou por uma campanha para estimular amamentação desenvolvida pela Organização Mundial da Saúde e pela Unicef. A outra metade teve o apoio normal dado pelas maternidades.
A intervenção foi responsável por um grande aumento na amamentação exclusiva aos 3 meses de idade e as mães tenderam a amamentar, em alguma proporção, por mais tempo.
Quando as crianças tinham 6,5 anos de idade, os pesquisadores avaliaram sua capacidade cognitiva e desenvolvimento verbal. As diferenças - em QI, vocabulário, capacidades lingüísticas e matemáticas - foram pequenas, mas favoreceram invariavelmente o grupo estimulado à amamentação.
Não é necessariamente o leite. O artigo considera explicações alternativas, como mudanças epigenéticas causadas pelo contato mais íntimo e prolongado entre mãe e bebê, que pode ter efeitos fisiológicos que acelerem o desenvolvimento neurocognitivo. Além disso, a conversinha da mãe enquanto amamenta pode ajudar a desenvolver as capacidades lingüísticas. As diferenças são sutis, não é ainda a prova cabal de que restringir um bebê ao leite materno nos primeiros meses e amamentar por um tempo prolongado realmente afeta o desenvolvimento cognitivo. Mas é uma sugestão interessante, que a meu ver merece ser considerada e mais estudada.
Hoje a Folha de S.Paulodeu que o governo brasileiro permitiu a construção de uma usina a carvão no Rio Grande do Sul, para gerar energia para o Uruguai. Andei vendo uns vídeos arrepiantes sobre usinas a carvão nos Estados Unidos (a da foto é na Alemanha, tirada do Wikimedia) e fiquei de cabelos em pé com a notícia.
Os vídeos (em inglês) divulgados pelo terra são trechos do documentário "Burning the future: coal in America" (Queimando o futuro: carvão nos Estados Unidos), cujo site traz um monte de informações (que não tive tempo de ler...).
O que vi já basta para assustar. Responsáveis por um quarto das emissões de gás carbônico do mundo, os Estados Unidos tiram metade de sua energia do carvão. A extração do minério é terrivelmente destruidora (explosões espetaculares que transformam topos de montanhas em um tanto de entulho) e insalubre. Como se não bastasse, as drásticas mudanças na conformação do terreno acabam causando enchentes e outros transtornos ambientais para quem vive em torno.
Há um tal carvão limpo, mas a limpeza se refere a menos partículas metálicas jogadas ao ar. O gás carbônico, ou CO2, um dos responsáveis pelas mudanças climáticas globais, continua lá. Edison Lobão, ministro das Minas e Energia, afirma que a usina que será construída em território brasileiro usará tecnologia 40% mais cara que reduz as emissões de CO2.
Reduz? Em tempos onde são necessárias medidas drásticas para tentar minimizar nosso impacto sobre a Terra, é hora de construir novas usinas para queimar combustíveis altamente poluentes? Carvão é dos que mais emitem CO2, reduzir não significa que será pouco. Além disso, o investimento será mesmo feito?
Jogo as dúvidas aqui na torcida para que alguém que sabe mais do que eu sobre o assunto apareça para me esclarecer. Por enquanto (romântica?), sonho em ter minha casa e meu carro revestidos por painéis solares, quem sabe uns cataventos nas encostas... É hora de investir em desenvolver tecnologias realmente limpas, em vez de despejar dinheiro para afundar o mundo de vez.
Devagar chegamos lá. Desde fevereiro a revista Ciência Hoje online traz conversas quinzenais com pesquisadores de diversas áreas. É o estúdio ch, que agora se organizou de fato como podcast. Ou seja, fácil baixar nos aparelhos de mp3.
Hoje assinei e baixei no meu aparelhinho, a Penélope, o episódio mais recente - uma conversa com o físico Ivan Oliveira sobre mecânica quântica. Estou satisfeita em saber que a cada 15 dias receberei automaticamente um assunto novo.
Quando a balança teima lá no alto apesar de dietas de todos os tipos, pode ser o caso de recorrer a uma cirurgia de redução de estômago.
A cirurgia bariátrica é o último recurso, recomendado pelos médicos em casos de obesidade extrema que nada mais consegue combater. Muda a vida de muita gente para melhor, mas está longe de ser uma solução fácil. Em geral é preciso, na melhor das hipóteses, dar adeus ao prazer de comer.
Mas não é só. A cirurgia parece ser extremamente eficaz em eliminar o diabetes, um dos primeiros efeitos colaterais da obesidade - que muitas vezes chega a se manifestar antes mesmo que as gordurinhas se tornem muito incômodas. E nova pesquisa sugere também que pode ser o caminho para evitar o maior risco de câncer que vem junto com a obesidade.
Está na edição deste mês de Pesquisa Fapesp o texto que escrevi sobre o assunto. Matéria difícil, com tantas facetas - todas importantes. Palpites e críticas são bem-vindos, adoto como lema a frase do Carl Zimmer: espero ter acertado, presumo que errei e estou pronta para aprender pelo caminho.
Para o geneticista Wen-Hsiung Li, nascido em Taiwan e radicado na Universidade de Chicago, entender a evolução humana pode reduzir o preconceito entre as pessoas. Ele acredita que agora temos um conhecimento bastante bom do assunto, mas restam grandes mistérios.
Essas foram as conclusões finais da palestra deste fim de semana. Para ajudar nessa compreensão de como chegamos a ser o que somos, ele mostrou estudos - dele e de outros - que mostraram que humanos são muito parecidos com os outros grandes primatas - chimpanzés, bonobos, gorilas e orangotangos. Um desses estudos, publicado em 2001, analisou trechos do DNA dos grandes primatas e encontrou, em média, 1,2% de diferenças entre as seqüências de humanos e de chimpanzés.
Boa parte da diferença não está, portanto, na seqüência genética. Está na regulação dos genes: quando genes são ligados ou desligados? Onde no organismo? Com que intensidade funcionam? É essa regulação, diz ele, que afeta o desenvolvimento embrionário, a fisiologia e a saúde. E que nos torna diferentes de chimpanzés.
A linguagem é uma dessas diferenças. Pois existe um gene - segundo ele o único até agora detectado que influencia especificamente a fala e o desenvolvimento da linguagem - que sofreu mais mutações ao longo da evolução humana do que se esperaria comparado ao resto do material genético. É o FOXP2. Será que a seleção natural favoreceu os falantes? Fica a pergunta.
Outro exemplo que Li apresentou foi cor de pele. Alguns genes regulatórios afetam coloração tanto de peixes como de humanos. Como essas características se alteram ao longo do tempo? Ele não entrou em muitos detalhes, mas diz que certas variantes dos genes foram selecionadas durante a evolução recente.
Faltou aprofundar-se mais, fica a curiosidade. De todo jeito, este é um resuminho rápido. Na edição de agosto de Pesquisa Fapesp sairá um relato mais detalhado, que estará também aqui. E aqui deverá entrar um outro resuminho, junto com uma amostra de vídeo da palestra.
Às 15h do sábado (12/07), o pesquisador Wen-Hsiung Li, do departamento de ecologia e evolução da Universidade de Chicago, dará a palestra “Uma visão genômica da evolução humana”.
Nascido em Taiwan e radicado nos Estados Unidos desde os anos 1970, Li estuda os processos e mecanismos da evolução molecular e genômica, usando abordagens experimentais e teóricas.
A apresentação faz parte da programação cultural organizada por Pesquisa FAPESP para a exposição Revolução Genômica.
A palestra é gratuita e será no auditório anexo ao Pavilhão Armando de Arruda Pereira, antiga sede da Prodam, no Parque do Ibirapuera (portão 10).
A cobertura completa dos eventos da programação cultural pode ser acompanhada no site da revista Pesquisa Fapesp.
02 Julho 2008
Eu bem que gostaria de estar a caminho de Paraty para participar da festança literária.
Vou ter que me contentar com o blogue oficial, que promete trazer a este mundo virtual um pouquinho do que vai acontecer de verdade.
No próximo domingo (6 de julho), às 11, o assunto científico que mais despertou polêmica nos últimos tempos será alvo de um debate na programação cultural da exposição Revolução Genômica. A geneticista Mayana Zatz, da Universidade de São Paulo (USP), e a jornalista Cristiane Segatto, da revista Época, conversarão sobre “Células-tronco embrionárias e mídia”.
Em 29 de maio deste ano, numa decisão histórica, o Supremo Tribunal Federal (STF) finalmente autorizou o prosseguimento desse tipo de estudo no Brasil. (Ouça aqui entrevistas que fiz naquela semana com a Mayana Zatz e a vereadora Mara Gabrilli no programa de rádio "Pesquisa Brasil", uma parceria entre a revista Pesquisa e a rádio Eldorado AM) O debate, com entrada franca, será no Pavilhão Armando de Arruda Pereira, antiga sede da Prodam, no Parque do Ibirapuera (portão 10), em São Paulo, onde, até 13 de julho, está em cartaz a mostra científica. A programação cultural da mostra Revolução Genômica está a cargo da revista Pesquisa FAPESP. A cobertura completa das palestras pode ser acompanhada no site da revista. A geneticista Mayana Zatz é pró-reitora de Pesquisa da USP e coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano da USP. Preside a Associação Brasileira de Distrofia Muscular. É professora de genética do Departamento de Genética e Biologia Evolutiva do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. Atua na genética de doenças neuromusculares e pesquisas com células-tronco. Teve participação ativa na luta pela aprovação das pesquisas com células-tronco embrionárias, com inúmeras idas a Brasília para falar do tema para juízes e deputados.
Especializada na cobertura de tema científicos, a jornalista Cristiane Segatto trabalha na revista Época desde o lançamento do semanário, em 1998. É uma das repórteres mais premiadas na cobertura de assuntos médicos. No ano passado, venceu o Prêmio INCA – Ary Frauzino 2007 com a matéria “As mil faces do câncer”, publicada em 08/01/2007.
Os casais que, à beira do lago do parque do Ibirapuera, não contemplam as águas nem as garças nem os pavões - porque só têm olhos um pro outro, não precisam se preocupar.
Os corações partidos - e como consertá-los - estarão no auditório improvisado junto à exposição Revolução Genômica. Às 11 da manhã do domingo (29 de junho) José Eduardo Krieger, especialista em hipertensão da Faculdade de Medicina da USP, apresentará a palestra "Genômica, saúde e reparação cardíaca utilizando células-tronco".
As palestras são gratuitas no pavilhão Armando de Arruda Pereira, que faz parte da marquise do Ibirapuera. Veja mais aqui.
A internet cada vez mais transborda de informação. Há quem tenha opinião sobre tudo, que explique tudo, exponha fatos sobre tudo. Tal enchente acaba tornando mais difícil pesquisar.
Com a limitação de tempo que impede a maior parte das pessoas de acompanhar os desdobramentos de discussões e assuntos - virtuais ou reais - neste mar virtual, às vezes me parece que quem se aventura a escrever está fadado a falar sozinho. É um pouco o que tem acontecido na roda de ciência.
Fiquei pensando. Qual é a importância de existir uma blogosfera científica em português? Respondo no que me diz respeito: é um ponto de encontro. Muitos pontos de encontro. Para quem ganha o pão de cada dia divulgando ciência, é precioso.
No ciência em dia encontro um colega mais experiente, com quem aprendo tanto concordando como discordando. Encontro também seus visitantes, alguns deles pesquisadores de destaque. Lá conheci o geneticista Marcelo Nóbrega, da Universidade de Chicago, e o físico Osame Kinouchi, da USP de Ribeirão Preto, que (esporadicamente) mantém o blogue Semciência e entra na roda.
No Ecce Medicus encontro um médico que gosta de pensar e discutir ciência e prática médica, sempre alerta a idéias e artigos interessantes.
No Brontossauros em meu jardim encontro o biólogo Carlos Hotta, que por enquanto resiste à minha curiosidade de saber mais sobre o que ele faz durante a semana mas não perco as esperanças.
E por aí vai. Não vou puxar o saco de todo mundo, só umas pinceladinhas para pôr aqui um pouco da diversidade que me encanta e me ajuda no meu trabalho. Fico curiosa para saber o que cada um encontra na sua blogosfera particular.
Isto é parte da discussão atual no roda de ciência. Comentários, por favor, aqui.
O que os ultraleves fazem no meio da passarada? São grous-americanos, a maior (em estatura) ave dos Estados Unidos. E mais ameaçada de extinção.
Vi ontem num vídeo da National Geographic que achei sensacional ("Operation migration", de 19 de maio).
A turma da "Operation migration" (de onde tirei a foto) se veste nuns sacões brancos para não deixar as aves muito à vontade entre humanos. Eles reproduzem os grous em cativeiro e treinam os bichos a seguir umas reproduções de cabeça de grou que levam como prolongamento do braço.
O problema aparece no inverno, porque os grous do projeto não sabem o caminho para a Flórida. A estranha figura branca disforme que sacode uma cabeça de grou entra então num ultraleve e levanta vôo. Os grous seguem. Depois de uns vôos de treino, rumam para a Flórida. No começo é uma turma desorganizada, mas aos poucos as aves aprendem a usar as correntes de ar quente e o vácuo deixado pelo companheiro motorizado e entram em formação - um V com o ultraleve no vértice.
Uma vez na Flórida sabem voltar para o Wisconsin no final do inverno - e no ano seguinte poderão ensinar o caminho à próxima geração. O projeto já estabeleceu uma população de 600 aves no Wisconsin, onde estavam extintas. A um custo de 100 mil dólares por ave, contando tempo, esforço e doações.
23 Junho 2008
Para quem lamenta ter perdido a palestra do Emilio Moran no sábado - ou viu e quer mais -, outra chance. Hoje às 19h ele vai falar sobre o livro que está lançando, Nós e a natureza (Editora Senac).
Antropólogo com formação em ambiente, ele tem um imenso conhecimento sobre a Amazônia e sobre a relação das pessoas com o meio ambiente de maneira geral, promete ser interessante. Leia mais aqui.
Leia aqui também uma entrevista com ele que a Pesquisa Fapesp publicou há dois anos.
A palestra/lançamento será em São Paulo, na livraria Cultura da avenida Paulista, no Conjunto Nacional - hoje às 19 horas.
Dois convidados internacionais fazem palestras no próximo fim de semana dentro da programação cultural da exposição Revolução Genômica.
Às 15h do sábado (21/06), o antropólogo cubano naturalizado norte-americano Emilio Moran, da Universidade de Indiana (EUA), fala sobre “Expansão internacional da antropologia ambiental: experiências na Amazônia”.
Às 11h do domingo (22/06), a bióloga norte-americana Robin Buell, da Universidade Estadual de Michigan (EUA), aborda o tema “Arroz: um exemplo de como a genômica pode mudar as abordagens da ciência”. As duas palestras são gratuitas e ocorrem no auditório anexo ao Pavilhão Armando de Arruda Pereira, antiga sede da Prodam, no Parque do Ibirapuera (portão 10), em São Paulo, onde está em cartaz a exposição científica. A programação cultural da mostra Revolução Genômica está a cargo da revista Pesquisa FAPESP.
Professor de antropologia e diretor do Centro Antropológico para Treinamento e Pesquisa em Mudanças Ambientais Globais da Universidade de Indiana, Emilio Moran foi um dos primeiros pesquisadores a lançar um olhar de cientista social sobre o debate do aquecimento global, por muito tempo confinado ao âmbito da meteorologia. Estudioso do Brasil, é autor de vários livros sobre a Amazônia e o impacto das mudanças ambientais. Participa também do Experimento do LBA, o maior projeto de pesquisa internacional sobre a floresta tropical.
Pesquisadora do departamento de biologia vegetal da Universidade Estadual de Michigan, Robin Buell estuda aspectos genômicos da biologia vegetal e dos patógenos que atacam as plantas. Com grande conhecimento em bioinformática, teve participação fundamental nos trabalhos de montagem e de anotação do genoma de duas importantes culturas agrícolas, o arroz e a batata. O genoma do arroz é considerado como modelo para o estudo do DNA de outros cereais.
Andei lendo as reflexões recentes do Jean-Claude Bernardet sobre o livro O dilema do onívoro, de Michael Pollan. Para quem gosta de pensar, vale a pena matutar sobre como o milho acabou por nos domesticar, o que isso tem a ver com as idéias do filósofo Edgar Morin e com os memes de Richard Dawkins.
Vale a pena conferir "Memória Roda Viva", um projeto conjunto entre Fundação Padre Anchieta, Fapesp, Labjor e Nepp (Unicamp).
No site já estão algumas das entrevistas feitas no programa da TV Cultura, mas o plano é que todas estejam armazenadas ali: vídeo, fotos e transcrição incrementada com informações adicionais sobre certos verbetes.
A idéia é que seja um instrumento de pesquisa valioso em cima de um arquivo que detém preciosidades do pensamento contemporâneo.
Graças ao biólogo Mercival Francisco, da Universidade Federal de São Carlos em Sorocaba, e seu aluno Juninho, pude me meter no mato atrás dos discretos e esplêndidos tangarás-dançarinos.
Durante o doutorado me encantei com outra espécie de tangará, que minha amiga e colega Emily estudava no Panamá. Foram muitos os cafés que tomamos em que ela me relatava as coreografias dos passarinhos, muitas visitas à sala dela em que admirei fotos e vídeos.
Estes daqui dançam com mais espetáculo - até oito machos coordenados para atrair uma fêmea. Mas têm uma deficiência, a meu ver: os panamenhos têm pernas cor-de-laranja que acho um luxo.
Na viagem ao Parque Estadual Carlos Botelho (que vale a visita, muitos bichos numa bela mata) em busca de fotografar a dança dos tangarás, eles nos driblaram. Enquanto esse macho da foto comia perto de mim (para me distrair?), eu ouvia a vocalização típica da dança acontecendo ali perto. Não consegui ver.
Mas se quiser ver o bichinho de frente, mais o texto completo que está na edição de Pesquisa Fapesp agora nas bancas, e mais um vídeo da dança, olhe aqui.
Foto de Alan Hicks, do Departamento de Conservação Ambiental de Nova York
Imagine entrar numa caverna e, além de ver morcegos pendurados nas reentrâncias do teto, ter que tomar cuidado para não pisar nos inúmeros cadáveres dos pequenos mamíferos voadores. É o que tem acontecido no leste dos Estados Unidos.
Não é novo, mas é das coisas que há meses ando com vontade de comentar. E o mistério continua. Duas espécies de morcegos do gênero Myotis têm morrido às pencas, sempre com focinho e asas polvilhados por um fungo branco. A doença foi por isso batizada de "síndrome do nariz branco" (White Nose Syndrome).
Na semana passada pesquisadores de vários lugares se reuniram em Albany, no estado de Nova York, para juntar dados e mentes. Não sei se chegaram a algo, mas até agora o que ouvi é que eles não sabem o que está causando a mortalidade. O fungo está lá, mas parece haver um consenso de que ele é uma infecção secundária, não a causa do problema.
Bactéria, vírus... uma coisa em comum entre os morcegos que morrem é que estão todos abaixo do peso. Uma hipótese é que eles - por algum motivo desconhecido - não conseguem engordar que chegue antes da hibernação. Aí começam a hibernar já meio magrinhos e, depois de uns meses inertes sem comer, ficam suscetíveis a qualquer infecção. E nunca chegam a acordar para ver a primavera.
Algumas explicações aventadas são: eles não estão se alimentando que chegue, talvez por alterações na composição vegetal do ambiente (plantações) ou porque pesticidas estão matando os insetos que eles comeriam (plantações outra vez); ou estão acordando no meio do período de hibernação (oscilações na temperatura?) e com isso perdem energia preciosa. São possibilidades graves que remetem ao desequilíbrio ecológico causado por atividades humanas.
Lembra o que vem acontecendo com as abelhas, outro mistério ainda no ar que aponta para desequilíbrio ambiental em vários níveis. Escrevi sobre isso há quase um ano na Pesquisa Fapesp.
Mais informações (em inglês) sobre os morcegos no site da sociedade espeleológica norte-americana.
Este fim de semana promete ser interessante no parque paulistano do Ibirapuera.
No sábado (14 de junho), às 15h, o climatologista Carlos Nobre falará sobre a “Ciência do sistema terrestre e a sustentabilidade da vida no planeta”. Carlos Nobre foi diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e é um dos participantes brasileiros do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), órgão internacional ligado à ONU que ganhou o prêmio Nobel da Paz em 2007 junto com o norte-americano Al Gore.
Ele tem propostas de sustentabilidade para a Amazônia que envolvem instalar pólos de desenvolvimento por lá. Não sei como isso funcionaria, e por isso mesmo espero que ele fale sobre isso - é polêmico, interessante e essencial.
Às 11h do domingo (15/06), o norte-americano Rob DeSalle, curador da versão original da mostra Revolução Genômica, fala sobre “A genômica no museu”. Ele é curador da seção de zoologia de invertebrados do Museu de História Natural de Nova York e co-diretor dos laboratórios de biologia molecular da entidade. Um de seus grandes temas de estudo é a evolução de moscas do gênero Drosophila, especialmente nas ilhas do Havaí, com o auxílio de ferramentas da biologia molecular. Se encaixa bem no seu jeitão de surfista moderno, pelo menos no que vejo por e-mail e no site do seu laboratório.
As duas palestras, gratuitas, ocorrem no auditório anexo ao Pavilhão Armando de Arruda Pereira, antiga sede da Prodam, no Parque do Ibirapuera (portão 10), em São Paulo, onde está em cartaz a exposição científica. A programação cultural da exposição Revolução Genômica está a cargo da revista Pesquisa FAPESP.
Por conselho médico montei meu escritório na cama hoje. Pelo mesmo motivo também deixo alguma novidade por aqui. Sobre mitos médicos - homenagem?
Há tempos tinha isto guardado para pôr aqui, agora vai. A revista BMJ (quer dizer "British Medical Journal", mas por algum motivo eles preferem a sigla como nome da revista) publicou uma breve análise de sete mitos médicos comuns, daqueles que se ouve em botequim ou nos conselhos das mães e das avós. De acordo com os autores, na melhor das hipóteses não há nada que sustente esses mitos a não ser a crença. Vamos a eles.
Beba no mínimo oito copos de água por dia A origem do conselho é incerta, mas uma coisa parece certa: é infundado. Os autores sugerem que juntando a água embutida na comida, mais café, chá... já basta para suprir a necessidade diária. Eu, que bebo muita água porque sinto sede constante, é que tenho que me cuidar: excesso de água pode até matar, as plantas que o digam.
Só usamos 10% do cérebro Essa eu não sabia... Mas parece que muita gente já ganhou dinheiro prometendo desenvolver as capacidades das pessoas ampliando o uso do cérebro. Pessoas que sofreram lesões cerebrais são foco importante de estudo porque qualquer parte danificada parece afetar o comportamento ou o organismo de alguma maneira. Estudos mais precisos sobre funcionamento dos neurônios concordam: ainda não se encontrou a parte dormente do cérebro.
Cabelos e unhas continuam crescendo no túmulo Múmias com cabeleiras e garras em saca-rolhas... o mito parece se basear na decomposição dos tecidos moles depois da morte. A pele e a carne se decompõem ou encolhem, e deixam unhas e cabelo ali onde estavam. Parecem mais longos, mas não estão crescendo. Os hormônios e maquinaria que cuidam disso já deixaram de existir.
Ler com luz fraca acaba com a visão Esta é minha favorita, que volta e meia tenho que brigar pelo direito de ler. Ler com boa luz é certamente mais confortável, não é preciso esforço para fazer foco nem piscar mais para manter os olhos hidratados. Mas parece que o consenso atual entre oftalmologistas é que ler com pouca luz não causa danos permanentes aos olhos.
Raspar as pernas faz os pêlos crescerem mais depressa e mais grossos Ao cortar os pêlos na base, só a parte morta é afetada. As fábricas dentro da pele ignoram totalmente o acontecido e continuam se esforçando como de costume para infernizar a vida das mulheres. O problema é que os pêlos aparados perderam a ponta afilada e por isso parecem mais grossos. Além disso, não tiveram chance de ser clareados pelo sol e parecem mais escuros.
Telefone celular em hospital é perigoso Diversos estudos ainda não conseguiram justificar a proibição dos celulares em hospitais. Se há alguma interferência em aparelhos, ela parece ser mínima e só acontecer quando o celular está a menos de um metro. Por outro lado, a comunicação rápida e eficiente por celulares tem ajudado médicos a salvar vidas. Agora (e isto é palpite meu), se todas as pessoas ficassem tagarelando no telefone, hospitais seriam especialmente infernais...
Comer peru dá sono Essa eu não sabia! Já tinha ouvido isso de embebedar peru para facilitar o abate, mas será que a gente se embebeda por tabela? Parece que o problema seria o triptofano, aminoácido abundante na carne de peru que entra na composição de alguns remédios para dormir. Mas segundo os autores na BMJ, carne de peru na verdade não tem mais triptofano que outras carnes. Esse mito deve ter origem nas refeições de ação de graças, a data mais festejada nas famílias norte-americanas. As pessoas comem loucamente, pratos inúmeros. Com vinho. E torta de abóbora e outras coisas de sobremesa. Depois, com as calças já desabotoadas para aliviar a pressão, põem a culpa no prato principal - o coitado do peru!
Os preços acima valem para a exposição - as palestras são gratuitas.
Continuam as palestras no parque paulistano do Ibirapuera, embora eu não tenha mais dado conta de anunciar (vou tomar vergonha na cara).Amanhã, domingo dia 8 de junho, às 11 horas, o norte-americano Andrew Simpson falará sobre a importância da genômica para entender o câncer (veja também aqui).
As palestras de pesquisadores estrangeiros costumam ter tradução simultânea, mas esta - se nada mudou - será em português. É que o Simpson já esteve no Brasil, onde coordenou o projeto de seqüenciamento da bactéria Xylella fastidiosa - projeto que impulsionou a genética brasileira para esferas internacionais.
A facilidade lingüística é mais um estímulo para ir lá e bater um papo científico - aberto também para leigos.
Prometi mais abaixo que escreveria sobre as palestras. Tenho anotações sobre aquelas que assisti, mas não consegui sentar para escrever. Quem estiver interessado, encontrará aqui os especiais "Revolução Genômica" que vêm saindo na Pesquisa Fapesp com textos sobre as palestras (um ou outro de minha autoria). Aqui encontrará também um resuminho de cada palestra e um trecho em vídeo.
Continuo no meu veio de me limitar a anúncios... louca para escrever umas coisas, mas a falta de tempo é absoluta!
Estou encantada com o livro infantil que acaba de sair sobre drosófilas. A autora, Francisca do Val, é bióloga e transmite no livro conhecimento que vem da experiência de uma carreira estudando moscas brasileiras e havaianas.
Para mim, o mais encantador mesmo são as imagens, aquarelas lindíssimas da própria Francisca.
O lançamento será em São Paulo no próximo domingo, 26 de abril, das 11 às 13, na Livraria da Vila (Fradique Coutinho 915, 3814-5811). A autora pretende levar moscas e mosquitos que crianças de todos os tamanhos poderão examinar à lupa.
Carlos Henrique de Brito Cruz e Roberto Freire 08/04, terça-feira, às 17:00
O diretor científico da FAPESP, Carlos Henrique de Brito Cruz, e o ex-senador da República Roberto Freire vãodebater o tema “O avanço da ciência torna a humanidade melhor? Por quê?”dentro das Terças com Ciência,que fazem parte da programação cultural paralela à exposição Revolução Genômica. As Terças com Ciênciaocorrem sempre às 17:00. A entrada é gratuita.
Brito Cruz graduou-se em engenharia eletrônica no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e continuousua formação acadêmica até o pós-doutorado na área de física. Foi presidente da FAPESP de 1996 até 2002,por três mandatos, e desde abril de 2005 é seu diretor científico. Foi reitor da Universidade Estadual deCampinas (Unicamp) entre 2002 a 2005 depois de ter dirigido o Intituto de Física Gleb Wataghin.
Roberto Freire é ex-senador da República, fundador e presidente do Partido Popular Socialista (PPS).Advogado e político pernambuco, foi candidato à Presidência da República em 1989. Na Constituinte de 1987defendeu o fortalecimento das universidades públicas e o maior apoio à ciência e à tecnologia. O debate ocorrerá no auditório do Pavilhão Armando de Arruda Pereira (a antiga sede do Prodam), no Parque do Ibirapuera (portão 10), em São Paulo. A programação cultural da exposição Revolução Genômica está acargo da revista Pesquisa FAPESP.
Os genes vão ficar em segundo plano na palestra de terça-feira (01/04) que dá seqüência à programação cultural paralela à exposição Revolução Genômica, em cartaz no Pavilhão Armando de Arruda Pereira (a antiga sede do Prodam), no Parque do Ibirapuera, na cidade de São Paulo.
Às 17h, Esper Abrão Cavalheiro, 58 anos, professor titular de neurologia experimental da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), fala sobre o tema “Tecnologias convergentes e a construção do novo homem”. A entrada para a palestra, que ocorre no auditório do pavilhão da mostra, é gratuita. Recomenda-se fazer reserva para a apresentação por meio do site(clique no item “Atividades Culturais” e escolha o evento desejado). A programação cultural da mostra está a cargo da revista Pesquisa FAPESP. As chamadas tecnologias convergentes, um conceito formalmente forjado neste século 21, formam uma vasta área de interação da pesquisa em nanotecnologia, biotecnologia, tecnologia da informação e ciência cognitiva com potencial para alterar profundamente os mais variados aspectos da vida do ser humano no futuro próximo. Da junção de conhecimentos dessas disciplinas científicas, pode surgir um cenário que, em alguns casos, beira a ficção cientítica. Setores totalmente distintos, como a defesa militar, a saúde e o próprio limite físico do homem, poderão sofrer alterações radicais com a ascensão das tecnologias convergentes.
Ex-presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e atual assessor do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), Cavalheiro no momento se dedica a fomentar o debate na sociedade brasileira sobre o impacto potencial das tecnologias convergentes. O neurocientista não quer que o país se mantenha à margem das discussões sobre a nova área.
Neste fim de semana, a programação cultural paralela à exposição Revolução Genômica traz um dos principais cientistas do mundo na área de genética de populações e de evolução - o norte-americano Alan Templeton, da Universidade Washington, em Saint Louis, Missouri. Às 15h de sábado (29/03), o pesquisador fala sobre o tema “A evolução humana nos últimos 2 milhões de anos: genes”.
Às 11h do domingo (30/03), a apresentação aborda o assunto “Usando abiologia evolutiva para estudar doenças arteriais coronarianas”.
Após a apresentação dominical, haverá exibição do filme O Enigma de Andrômeda, de Robert Wise, um clássico da ficçãocientífica de 1971.
Com fama de provocador e amante dos embates científicos, Templeton costuma questionar em seus trabalhos, muitos de caráter multidisciplinar, conceitos evolutivos tidos como consagrados. Seus estudos envolvem a aplicação de estatísticas e técnicas de genética molecular e de populações emvários tipos de problemas evolutivos, tanto em áreas básicas como aplicadas. Usa, por exemplo, a abordagem evolutiva em trabalhos de genética clínica, para estudar doenças coronárias (tema dasegunda palestra) ou o desenvolvimento do vírus da Aids em pacientes infectados pelo HIV.
A área de conservação biológica também é alvo de seus estudos de genética evolutiva. Seu principal foco de interesse é o impacto causado por queimadas em florestas manejadas na estrutura genéticadas populações que habitam essas áreas, como as do lagarto Crotaphytus collaris collaris.
Templeton, que foi por um breve período professor visitante na Universidade de São Paulo (USP) no ano de 1976, também se debruça sobre temas básicos da biologia, como o conceito de espécies e a evolução humana recente.
Filme - No domingo, após a segunda palestra de Templeton, haverá a exibição da fita "O Enigma de Andrômeda", de Robert Wise, um clássico da ficção científica de 1971. Baseada no bestseller homônimo do escritor Michael Crichton, a produção norte-americana conta a história de uma pequena cidade infectada por uma bactéria fatal e misteriosa trazida à Terra pela queda de um satélite espacial. Com duração de 131 minutos, o filme mostra a luta dos cientistas para encontrar a cura dessa estranha enfermidade.
Onde: Pavilhão Armando de Arruda Pereira (a antiga sede do Prodam), em frente ao planetário, noParque do Ibirapuera, na cidade de São Paulo.
A entrada para os eventos, organizados pela revista Pesquisa FAPESP, é gratuita. Recomenda-se fazer inscrição para as palestras no site www.revolucaogenomica.com.br (em "Atividades Culturais").
Chegar ao parque do Ibirapuera numa terça às 17 h não é para qualquer um. Mas se não for de todo impossível, amanhã vale a pena.
O neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis apresentará a palestra Genes, circuitos e comportamentos: navegando na fronteira da neurociência (veja cartaz na postagem abaixo), dentro da programação cultural da exposição Revolução Genômica.
Já escrevi sobre o trabalho do Nicolelis aqui. Ele conseguiu avanços importantes em neurociências ao desvendar algo da linguagem usada pelo cérebro. Suficiente, em alguns casos, para tornar possível a comunicação entre cérebro e máquina. O grande objetivo é tornar realidade próteses robóticas que devolvam movimento a acidentados.
Abre hoje no parque do Ibirapuera, em São Paulo, a exposição Revolução Genômica. Associada à exposição vem uma intensa programação cultural que inclui pesquisadores internacionais de destaque.
A primeira palestra será apresentada pelo paleontólogo Niles Eldredge, do Museu de História Natural de Nova York, que falará sobre Biodiversidade e a sexta extinção.
Serão promovidas palestra e mesa-redonda com especialistas da USP, e haverá projeção de documentário e realização de oficinas O Museu de Zoologia da USP comemora no dia 16 de fevereiro, sábado, o 199° aniversário de nascimento de Charles Darwin, o pai da Teoria Evolutiva e co-autor da teoria da Seleção Natural.
Desde 2006 o museu oferece uma programação diferenciada nesta data, voltada para divulgação da Teoria Evolutiva e da pesquisa desenvolvida no museu e na USP.
Confira a programação: 11h - palestra “A Teoria Hereditária de Darwin”, com Nélio Bizzo (FEUSP) 14h - mesa-redonda com Mário de Pinna (MZUSP) – “Padrões na Natureza e a Teoria Evolutiva”; Mário de Vivo (MZUSP) – “Biogegrafia e a Teoria Evolutiva”; Hussam Zaher (MZUSP) – “Tempo Geológico e a Teoria Evolutiva”; Diogo Meyer (IBUSP) – “Desafios Contemporâneos da Teoria Evolutiva”. 16h - Projeção do documentário "Darwin nos Andes" Oficinas de Biodiversidade e Seleção Natural para as crianças
A palestra e a mesa-redonda serão transmitidas pela internet, através do serviço de IPTV da USP, disponível na página do Museu. Perguntas aos palestrantes podem ser encaminhadas para o e-mail: (deve-se colocar "pergunta" no campo assunto do email).
O evento é gratuito e será cobrado apenas o ingresso (R$ 2). O museu fica na Universidade de SP, Av. Nazaré, 481, Ipiranga.
Dando continuidade à exposição "Darwin: Descubra o Homem e a Teoria Revolucionária que Mudou o Mundo", no Museu Histórico Nacional, o Instituto Sangari promove, de 14 de fevereiro a 3 de abril, sempre às quintas-feiras na Livraria Travessa do Shopping Leblon, um ciclo de palestras com o tema "Descobrindo a Árvore da Vida", com um título e um palestrante diferente a cada semana.
As palestras deste ciclo pretendem situar a vida e a obra de Charles Darwin e a sua influência não só sobre a Biologia como também em outras áreas do conhecimento e na visão de mundo contemporânea. Os palestrantes convidados são professores, pesquisadores e representantes de entidades do universo científico.
No dia 14/2, o palestrante será Nélio Bizzo, professor titular da Faculdade de Educação/USP. Nelio Bizzo foi pesquisador do Manuscripts Room da Universidade de Cambridge, onde foi credenciado para pesquisar os manuscritos e a biblioteca pessoal de Charles Darwin. Entre março e abril de 2002, fez a travessia de Santiago (Chile) a Mendoza (Argentina), pelo Paso de los Libertadores, nos Andes, mesma trilha percorrida por Charles Darwin entre março e abril de 1835, a bordo do Beagle.
Publicou o livro Darwin: do telhado das Américas à teoria da evolução, 2002, pela coleção Imortais da Ciência, editora Odysseus.
Nelio Bizzo apresenta a sua visão original sobre a importância da viagem do Beagle para Charles Darwin onde os Andes aparecem como protagonistas dessa história no local comumente atribuído às ilhas Galápagos.
Com uma linguagem envolvente, Nélio revela interessantíssimos detalhes históricos, pouco conhecidos, dos bastidores da histórica viagem do naturalista.
Charles Darwin é conhecido como um dos cientistas mais importantes de todos os tempos. Suas observações e investigações, durante os cinco anos em que explorou terras desconhecidas a bordo do Beagle e os vinte que se seguiram ao desembarque na Inglaterra, puseram a seleção natural num lugar antes ocupado por Deus: o de criador da diversidade biológica.
As aves e tartarugas que o jovem naturalista coletou nas ilhas Galápagos eram exemplos de algo que não poderia ser coincidência: áreas isoladas abrigam plantas e animais parecidos, mas um pouco diferentes. Por que Deus criaria essas pequenas variações sobre os mesmos temas? Depois de muita reflexão e estudo, Darwin concluiu que organismos com características que lhes conferissem maior sucesso em determinado ambiente deixariam mais descendentes: esse mecanismo ele batizou de seleção natural.
Consciente da celeuma que suas idéias causariam na sociedade britânica do século XIX e da dor que provocaria em sua amada Emma Wedgwood, Darwin foi incansável em levantar provas e construir argumentos. Mas precisou de um empurrãozinho – a ameaça de perder a autoria da idéia para Alfred Russel Wallace, que estava na mesma trilha – para completar sua obra.
Em As dúvidas do sr. Darwin, que acaba de ser publicado pela Companhia das Letras, David Quammen expõe não só o pensamento mas também o homem metódico e angustiado que foi o “pai da teoria da evolução”. O texto leve, divertido e acessível dá ao leitor a impressão de caminhar ao lado de Darwin ao longo da jornada — que ganha por isso outra dimensão.
As dúvidas do sr. Darwin Um retrato do criador da teoria da evolução
David Quammen tradução de Ivo Korytowski Companhia das Letras 264 páginas R$ 39,50
Começa amanhã, quarta dia 5 de dezembro, a Reunião Anual Científica do Instituto Butantan, em São Paulo. As inscrições para o público externo estão encerradas, mas mesmo assim é tentador dar uma espiada. O tema central do encontro será divulgação de ciência, com várias palestras e mesas redondas.
Quinta, 6/12/2007 9:00 – Abertura 10:00 – Paulo Abrantes (Filosofia, UnB) – Darwinismo e o caráter anômalo da evolução humana 11:15 – Maurício Vieira (Sociologia, UFF) 13:45 - Yuri Leite (Biologia, UFES) – Doenças, sexo e a Rainha Vermelha 14:45 - Renan S. Freitas (Sociologia, UFMG) – Darwin, Popper e os pragmatistas 16:00 – Hilton da Silva (Antropologia, UFRJ) – Saúde, doença e processos microadaptativos em populações neotropicais brasileiras
Sexta, 7/12/2006 9:00 – Gustavo Caponi (Filosofia, UFSC) – A compreensão do vivente: para além da distinção entre as ciências do espírito e as ciências naturais 10:00 – Cláudia Russo (Biologia, UFRJ) 11:15 – Angela Oliva (Psicologia, UERJ) – Origens evolutivas do comportamento social 13:45 – Suzana Herculano-Houzal (Biologia, UFRJ) – Darwin tinha razão: o número de células no cérebro mostra que somos apenas grandes primatas 14:45 – Nélio Bizzo (Educação, USP) – Darwin e o homem: visões darwinistas na literatura brasileira do século XX 16:00 – Ricardo Waizbort (Biologia, Fiocruz) – Darwinismo ativo: o lugar do indivíduo na evolução biológica
O Brasil tem macacos de tudo quanto é forma, cor e tamanho. Toda essa diversidade deriva de um ancestral que chegou à América 30 milhões de anos atrás. Segundo o trabalho de Gabriel Marroig, da USP, tal frenesi adaptativo se fundamentou em variação de tamanho.
Misterioso? Leia mais na edição de novembro de Pesquisa Fapesp.
Já estão abertas as inscrições para o RioFan – I Festival Internacional de Cinema Fantástico do Rio de Janeiro.
Podem se inscrever curtas e longas-metragens, profissionais e amadores, realizados em qualquer parte do Brasil e do mundo. Longas se candidatam automaticamente à mostra competitiva internacional, enquanto curtas-metragens se candidatam a uma vaga em uma das seções informativas do festival. A inscrição é gratuita.
O regulamento do festival e o formulário de inscrição estão disponíveis em nosso site e em nosso blog. Os candidatos devem enviar a ficha de inscrição preenchida e um DVD de seu filme ou vídeo até o dia 15 de fevereiro de 2008.
Além de um tributo ao mestre José Mojica Marins, que receberá um prêmio pelo conjunto da obra, o festival também vai promover um concurso de vídeos com duração máxima de 1 minuto, aberto ao público, cujos vencedores serão exibidos como vinhetas nas sessões oficiais do evento. Além disso, a programação do RioFan vai contar com uma série de eventos temáticos voltados para os fãs de horror, fantasia, quadrinhos e animação, além de exibições de clássicos do gênero e programas com vídeos e curtas-metragens nacionais produzidos pela nova geração do cinema fantástico no Brasil.
O RioFan está previsto para acontecer entre os dias 29 de abril e 11 de maio de 2008. O festival tem patrocínio da Caixa.
O ramo das neurociências que estabelece comunicação entre cérebros e máquinas vai de vento em popa. Poderá quem sabe até, em breve, devolver pernas a quem não pode andar.
É o que me contou Miguel Nicolelis na semana passada, logo antes de sua palestra no Fórum Nobel - no próprio Instituto Karolinska, que concede os prêmios Nobel.Leia notícia no site da revista.
Nicolelis deu também uma entrevista para o programa de rádio Pesquisa Brasil, que a partir de quarta estará disponível aqui.
Descobri também uma fonte fantástica de informações para quem se encantar pelo assunto. Em julho deste ano a conferência "Your brain and yourself", no Colorado (EUA), reuniu alguns dos maiores neurocientistas do momento. Ainda não investiguei o site, mas ele anuncia ter vídeos, palestras e um livro. Este eu vi, mas por enquanto li só o capítulo do Nicolelis - que é absolutamente fascinante. Estou louca para conferir os outros.
A foto de Nicolelis e sua assistente, especialista em operar o braço mecânico à distância, é de Jim Wallace, da Universidade Duke.
Para começar a falar sobre os mares do planeta, tema da discussão deste mês no roda de ciência, dou a palavra a Kenneth Weiss e Usha McFarling. E arregalo os olhos diante das imagens de Rick Loomis. A aterradora série de reportagens Oceanos alterados, publicada no ano passado pelo Los Angeles Times, valeu à equipe o prestigioso prêmio de jornalismo Pulitzer de 2007. Prêmio para lá de merecido. Dou aqui uma palhinha à guisa de isca. O conjunto é longo mas vale a pena.
Na primeira parte, "Uma maré primordial de toxinas", uma erva-daninha marítima - na verdade uma bactéria - se espalha com velocidade espantosa e se prende às redes dos pescadores. É a erva-de-fogo, e quem se aproxima sente a pele queimar, os olhos incharem, a garganta fechar-se. Terrível para os pescadores na costa da Austrália e também para pesquisadores que tentam descobrir de onde vem tamanha toxicidade e se expõem aos vapores sufocantes. A erva-de-fogo não é novidade, não surgiu do nada. O que espanta é a densidade que atinge - conseqüência do desequilíbrio ecológico que tem origem no uso dos mares pelo homem. E esse não é, nem de longe, o único exemplo.
Leões-marinhos magros, desorientados e com convulsões têm aparecido nos centros de atendimento de mamíferos marinhos na Califórnia. Muitos morrem, apesar dos esforços dos veterinários. "Sentinelas sob ataque" mostra o que acontece com os predadores maiores depois de comer peixes que se alimentaram de algas tóxicas que proliferaram de maneira anormal. E não são só os leões-marinhos que correm perigo. Também somos predadores do topo da cadeia alimentar.
E não adianta virar vegetariano. A maré periodicamente traz à costa da Flórida uma profusão de peixes mortos e algas tóxicas que atacam o sistema respiratório de quem passa por perto. O jeito é tapar o nariz e trancar-se em casa, como mostra "Marés escuras, ventos nefastos". E os sintomas não param em falta de ar, tosse e inchaço nos olhos. Há quem sofra também conseqüências neurológicas, como formigamentos e dificuldade em caminhar. Se continuar assim, os paraísos na Terra deixarão de ser à beira-mar.
E se poluição química assusta, o lixo que bóia não assalta só os olhos sensíveis. Em "Praga de plástico sufoca os mares" aves marinhas morrem vítimas do que achavam ser comida. Plástico não desaparece. Cada saco, brinquedo ou garrafa que conquistou os mares nos últimos 50 anos ainda bóia por aí. Em pedacinhos menores, talvez, mas não menos nocivos. Há quem se dedique a limpar mares e praias. O trabalho de Sísifo, que na mitologia grega rolava uma pedra montanha acima, era moleza.
E ainda contamos com os mares para suavizar os efeitos dos gases estufa que soltamos na atmosfera. O oceano de fato absorve gás carbônico, mas há limites. E conseqüências. Uma é o aumento da acidez da água marinha, que chega a corroer as conchas de moluscos - que têm ali sua única morada. É "Um desequilíbrio químico" que está perto de um ponto de quebra devastador. Não só para o próprio oceano. Quando as águas marinhas chegarem ao ponto de liberar gases em vez de absorvê-los, as mudanças climáticas podem atingir força inesperada.
Ouvi dizer que a New York Review of Books, que publica boas resenhas que vão além de resenhar livros, está com todo seu conteúdo gratuito na internete. E com ótimos podcasts, também. Mas não cheguei lá. ao entrar na página deles, dei de cara com a foto ao lado. Trata-se de uma queimada perto de Imperatriz, na Amazônia, para substituir floresta por pastos.
A resenha, por John Terborgh, analisa o livro The Last Forest: The Amazon in the Age of Globalization, de Mark London e Brian Kelly. Para Terborgh, o livro peca por ser superficial - apesar de terem percorrido a Amazônia brasileira para entrevistar caboclos, parece que nenhum dos autores fala português. Não sei como eles fizeram, nem até que ponto essa limitação os impediu de enxergar o que viram.
O resenhista não deve conhecer o Brasil. Descreve o Cerrado como uma campina, em vez de dizer que é uma savana. Mas não impede que diga coisas interessantes. Ele rememora uma vez em que sobrevoou a floresta amazônica, a caminho entre o Peru e Miami. Descreve a massa verde até onde os olhos alcançam, interrompida de repente por uma pista de pouso. Não há transição entre o concreto e a floresta, como se vê noutras paragens.
Não há negociação, portanto, entre urbe e selva. As plantações de soja em zona de Cerrado mostram que basta um pouco de tecnologia para tornar produtiva uma área silvestre. Segundo o livro, a primeira ameaça a segunda com o projeto Avança Brasil. "Se o Avança Brasil for adiante como planejado, ele transformará a região amazônica. Trechos de terra da rodovia Transamazônica serão asfaltados, rios serão dragados e ganharão comportas para permitir o tráfego de balsas, novos portos serão construídos e represas serão construídas para fornecer energia hidrelétrica para novas cidades e indústrias. Melhor acesso proporcionado por estradas precipitarão um frenesi de desmatamento e especulação. A indústria madeireria, agora concentrada ao longo das bordas leste e sul da Amazônia, avançarão para as porções central e ocidental da bacia."
Quem diz isso é Terborgh. Avança Brasil não aparece no livro, que se limita a dizer vagamente que o desenvolvimento é inevitável na Amazônia. O resenhista concorda que é impossível manter a floresta como ela é, mas defende que ela não será perdida graças às áreas de proteção que existem - que pode chegar, calcula, a 50% da área amazônica. Mas o equilíbrio ali é delicado: pesquisas indicam que o desmatamento causará secas que se estenderão para oeste e o Cerrado entrará Amazônia adentro.
Muito se estuda sobre a Amazônia seu valor não só em biodiversidade mas como moderadora do clima global. The Last Forest, parece, não é uma referência essencial. Não vou poder agora ir atrás de mais, deixo aqui a isca. Quem encara inglês, vale a pena ler a resenha que é bastante longa.
Quer acabar com a malária, doença que na África mata cerca de 1 milhão de pessoas por ano? Distribua mosquiteiros. É o que advoga o economista Jeffrey Sachs.
Parece simples, mas não é bem assim. Uma boa revisão dos prós e contras está na reportagem de Leslie Roberts na edição de 26 de outubro da revista Science eno podcast (este é gratuito, mas requer ouvido treinado para o inglês) do mesmo dia.
Sachs estima que distribuir mosquiteiros para cada quarto na África custaria 60 centavos de dólar por pessoa por ano. São mosquiteiros tratados com inseticida, de maneira que não protegem só quem está debaixo dele. Pousar na rede basta para matar o transmissor da malária, portanto se boa parte das casas de um vilarejo está protegida, o benefício se estende até para quem dorme à mercê dos insetos. O chamado efeito de rebanho, segundo Sachs, poderia significar uma queda de 90% na transmissão da malária no continente.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) adotou a estratégia e recomenda que todos tenham acesso a mosquiteiros, de graça ou a preços reduzidos. Dados recentes mostram, no Quênia, uma queda de 44% na mortalidade por malária após um esforço concentrado de distribuição de mosquiteiros cujo efeito inseticida dura 5 anos.
Maravilha. Mas há quem discorde. Segundo Leslie Roberts, especialistas em malária temem que o investimento maciço em mosquiteiros desvie recursos que seriam direcionados para a pesquisa - desenvolvimento de vacinas, por exemplo, que ainda não existem. Além disso, a distribuição depende de imensas doações. E se os doadores cansarem da benevolência e não houver recursos para substituir ou recauchutar os mosquiteiros gastos? Alguns especialistas afirmam que nesse caso o problema não voltaria à estaca zero: ficaria bem pior. A idéia é que, com alguns anos longe da malária, o sistema imunológico dos africanos perderia o que tem de resistência à doença, e uma reincidência seria muito mais letal do que é hoje.
Além disso, distribuir mosquiteiros para todos os vilarejos e cidades africanos não custa só o preço das redes e do inseticida. Distribuir gasta combustível, gasta tempo de trabalho, depende de logística por vezes complexa. Se realmente funcionar, vale a pena. Senão, são recursos valiosos em regiões tão pobres. Resta muito a discutir.
Nas Américas a situação é melhor do que na África, mas está longe de controlada. A cada ano são registrados 1 milhão de novos casos de malária, segundo a Organização Pan Americana da Saúde (Opas - em espanhol aqui). Dia 6 de novembro, na semana que vem, é o Dia da Malária nas Américas, em que a Opas pretende fazer campanhas de conscientização e buscar parcerias que permitam estratégias de luta contra a malária neste continente. Mas a campanha é ainda tímida: o documento na página da Opas lista eventos só na Guiana, em Honduras e na capital norte-americana, Washington.
Usar mosquiteiros por estas bandas está nos planos da Opas. Seria uma luta integrada contra a dengue também, que este ano atinge níveis sem precedentes (escrevo assediada por mosquitos Aedes aegyptis, transmissores da dengue). Está nos planos, mas não sei se já está sendo feito.
PS. Acabo de ver um artigo na Plos Medicine sobre a uma experiência contra malária em Zanzibar, que inclui redes tratadas com inseticida. Não tive tempo de ler ainda, mas deixo a referência.
PS. Mais uma atualização: o site do Ministério da Saúde anuncia que mosquiteiros tratados estão entrando no Brasil, a começar pelo Acre.
A foto, de uma família protegida por uma rede tratada, eu peguei na página da OMS.