09 Abril 2009

Remédios, para quem?

Ouvi ontem uma entrevista interessante com o médico norte-americano John Abramson, autor do livro Overdosed America - the Broken Promise of American Medicine. Durante sua experiência clínica no estado de Massachusetts, ele se deu conta de que a busca por medicamentos não está a serviço dos pacientes, mas da indústria. Tem a ver com o que o Karl escreveu no Ecce medicus um tempo atrás.

Frustrado, Abramson deixou de clinicar para escrever o livro, direcionado para as vítimas potenciais - os médicos, segundo ele, ainda não estão prontos para ouvir que também estão sendo enganados.

Ele conta que boa parte da pesquisa para desenvolver medicamentos é financiada pela indústria farmacêutica. O mesmo vale para boa parte dos periódicos científicos especializados - a fonte de informação supostamente isenta e fidedigna para pesquisadores e médicos. Além disso, os Estados Unidos são dos poucos países que permitem a propaganda de remédios diretamente ao consumidor - que já chega ao consultório pedindo por um remédio, solicitação a que os médicos tendem a aceder. Com isso tudo, tanto médicos como pacientes acabam sendo enganados e acabam recorrendo a medicamentos mais caros e menos adequados (algo que a Tara Parker-Pope, do New York Times, também denunciou).

Ao fazer a pesquisa para o livro, Abramson examinou registros de testes clínicos publicados e não publicados. Viu que a publicação dos resultados não segue as regras da ciência, mas as da economia: remédios mais lucrativos são mais divulgados, resultados negativos de remédios lucrativos são varridos para baixo do tapete.

Ao fim, o médico denuncia o foco excessivo da sociedade moderna em remédios, a opção aparentemente cômoda por encontrar pílulas que resolvam tudo. Ele lembra que nada como um bom estilo de vida - dieta mediterrânea, exercício, boas horas de sono - para ser mais saudável. Para ele, se uma paciente chega ao consultório pedindo um exame para medir os teores de colesterol - e em busca de estatinas para controlá-lo, o médico tem que interpretar o pedido. Se o que ela quer é reduzir as chances de ter problemas cardiovasculares, medir o colesterol não é necessariamente a melhor opção.

A entrevista, em inglês, está no podcast "Berkeley groks".

3 comentários:

Karl disse...

Essa menina só me dá alegria!!
Excelente post. Entretanto, o Abramson está chovendo no molhado. Mas acho bom bater pesado, porque a BigPharma bate muuuiiito mais pesado.
Parabéns.

Suzana disse...

Eu concordo que a big pharma bate pesado e que tem muito resultado "manipulado" (aquilo que voce disse sobre publicar resultado positivo e varrer pra baixo do tapete os negativos). Mas queria adicionar, tendo trabalhado nos ultimos 3 anos no Memorial Sloan-Kettering Cancer Center, que tem um numero razoavel de drogas sendo desenvolvidas em universidades e centros como este, sem nenhuma influencia ou dinheiro proveniente da industria. Entao tem um lado menos pesado nisso tambem. Mas que sou contra essa hipocondria social, isso sou.

Maria Guimarães disse...

obrigada aos dois pela visita comentada!