31 maio 2006

Estratégias de pesquisa

No suplemento Mais da edição de domingo da Folha de São Paulo, Marcelo Leite fez um convite à leitura de A Controvérsia dos Transgênicos, de Hugh Lacey (Idéias & Letras). O texto desse convite pode ser lido no blog Ciência em Dia. Não li nenhum dos livros de Hugh Lacey mas consegui descobrir uma entrevista sobre o mesmo tema, que ele deu à revista Teoria e Debate, em 2001. Gostei e espero ter a oportunidade de ler um de seus livros em breve.

O problema de que trata Hugh Lacey é o da influência de valores sociais nas estratégias de pesquisa, ou seja nas abordagens (ângulos de observação e iluminação) que cientistas decidem adotar ao estudar determinados sistemas ou fenómenos. O tema é muito relevante e deve ser objeto de reflexão profunda na comunidade científica. Não é essa reflexão que procuro aqui e agora. Apenas aproveito para recordar um breve episódio da minha passagem pela Universidade da Califórnia, em Berkeley.

Foi em novembro de 2003, por ocasião de uma visita de
Richard Lewontin à UC Berkeley para falar nas The Charles M. and Martha Hitchcock Lectures, palestras dirigidas essencialmente ao público leigo. No primeiro dia o tema de Lewontin foi Gene, Organism and Environment: Bad Metaphors and Good Biology. No segundo, como seria de esperar, The Concept of Race: The Confusion of Social and Biological Reality. Aconselho a que vejam os vídeos das palestras através do site da University of California Television.

Na segunda palestra, sobre o conceito de raça humana, Lewontin usou grande parte seu tempo mostrando evidências quantitativas da diversidade genética entre populações humanas. Evidências de estudos clássicos mostrando que a diversidade genética humana estaria principalmente distribuída entre indivíduos de populações dentro de grupos raciais (cerca de 85%) e não entre populações de diferentes raças. E que a pequena proporção de diferenças entre raças (cerca de 5%) teria sido essencialmente determinada por deriva genética em pequenos e isolados grupos populacionais. Por outro lado, a homogeneidade de frequências génicas nas populações humanas seria explicada pelas extensas migrações humanas, regionais e continentais. No entanto, estas evidências pareciam contrastar com a definição de grupos raciais, que seriam então resultado da nossa percepção superficial, skin deep, nas palavras de Lewontin.

Uma das suas conclusões é que as diferenças não poderiam ser explicadas apenas pela ação da seleção natural, como alguns tinham proposto. No final da palestra, Lewontin exemplifica com os problemas da explicação de diferenças da pigmentação da pele e cor e textura do cabelo através da ação da seleção natural. A explicação preferida de Lewontin seria a seleção sexual (na verdade, uma forma de seleção natural), de parceiros semelhantes da mesma população, que tenderia a favorecer certos alelos de genes determinantes do fenótipo naquela população. Não havia, contudo, evidências para apoiar qualquer hipótese. Um dos problemas é que os genes responsáveis pelos fenótipos da cor da pele nunca tinham sido encontrados, embora Lewontin acreditasse na sua existência, algures no genoma.

Cling! Nessa altura surge a questão na minha mente, provocativa, claro! Ali estava Lewontin falando sobre como as raças eram uma construção social, não uma realidade biológica. Mas havia algo curioso na forma como tinham sido apresentadas as evidências. Qual o motivo da minimização das diferenças entre as populações humanas, sendo esta atitude diametralmente oposta à abordagem normalmente seguida pelos biólogos da evolução, no estudo de espécies que não a humana? Em evolução, interessam-nos principalmente as diferenças entre populações e procuramos estudá-las o mais aprofundadamente possível. Por que parecia acontecer o oposto com o estudo da espécie humana, por exemplo, no caso da genética da cor da pele, que Lewontin desconhecia por completo?


Resolvi perguntar-lhe! Uma fila de interessados formava-se junto ao microfone disponibilizado para o efeito. Quando lá cheguei era o último da fila e, azar, chegada a minha vez, acabou o tempo. Resolvi perguntar mesmo assim. Abordei Lewontin logo que desceu do palco e perguntei:

— Você afirmou que a definição de raças humanas é uma construção social, como que uma vitória de valores sociais sobre a realidade biológica. Mas eu fiquei admirado com o pouco que se sabe sobre as características responsáveis pela percepção social de raça. Não acha que, neste caso, parece verificar-se o mesmo problema em sentido contrário, com valores sociais que negam o conceito de raça “impedindo” (por ser politicamente incorreto!) o avanço do conhecimento sobre a evolução daqueles fenótipos e da própria espécie humana?

Richard— Sei onde você quer chegar. Cada um escolhe aquilo que quer estudar, se é que você me entende [I know where you’re getting at. Each one chooses the things that’re worth studying, if you know what I mean] !

Deu uma cúmplice piscada de olho, e foi-se!

Fiquei surpreso pois não esperava a resposta. Esperava que me dissesse que até então tinha sido difícil encontrar genes responsáveis pela determinação da pigmentação da pele, pela complexidade genética dos fenótipos e/ou por limitações metodológicas.

Na época, tive a sorte de fazer pós-doutorado com David Wake e Craig Moritz, no Museum of Vertebrate Zoology, da University of California – Berkeley. No dia seguinte, tivemos uma reunião de laboratório com Richard Lewontin. Foi uma conversa interessante em que ele ficou admirado por ver ali um bando de pesquisadores trabalhando com uma grande diversidade de organismos (fungos, anfíbios, répteis, aves) enquanto ele havia devotado toda a sua pesquisa a um organismo-modelo, a mosquinha da fruta (Drosophila sp.). Nós estudávamos os organismos no seu meio, ele havia sempre estudado o seu organismo em frascos. Lewontin não fazia a mínima ideia da ecologia da mosquinha da fruta. Perguntei-me então como se podia chegar a saber algo sobre EVOLUÇÃO sem estudar os organismos no seu meio natural. Seria por isso que Lewontin parecia não mostrar tanta apreciação pela seleção natural como mecanismo promotor de evolução, sendo que esta não pode ser estudada em frascos? Mas não era ali a altura de fazer perguntas provocativas. Eramos muitos, e eu já tenho uma tendência natural a monopolizar debates! Fiquei calado. Depois comentei com David Wake o episódio do dia anterior e o meu pensamento sobre Lewontin. É bom esclarecer que Dave conhecia Lewontin (e também Gould) por serem da mesma geração e terem estado juntos na Universidade de Chicago, nos anos 60. Dave foi peremptório!

— Dick Lewontin, tal como Steve Gould, sempre foram cientistas com uma agenda política clara. São cientistas excelentes mas têm algumas visões empedernidas sobre algumas questões que eles acham importantes de acordo coma sua agenda marxista-leninista.

É conveniente que fique claro que Dave Wake é um homem com um pensamento político de esquerda moderada. Dave não tinha nada contra homens de esquerda, apenas algumas reservas relativamente ao pensamento radical, de esquerda ou de direita.

Minha curiosidade aguçada levou-me a procurar sobre o pouco que realmente se conhecia sobre genes ligados à expressão de fenótipos da cor da pele. Encontrei dois artigos recentes e enviei as referências a Lewontin. Afinal sempre havia algo! Não obtive resposta, claro. Hoje, com três anos volvidos, existe mais alguma informação sobre o tema, que tem sido explorado no âmbito da pesquisa sobre o câncer da pele. Podem encontrar uma revisão razoável sobre o assunto na Wikipédia.

Richard Lewontin é um dos grandes nomes da genética da evolução do século XX. Mas hoje, tal como durante alguns momentos da sua palestra, tenho dificuldade em ler e ouvir o seu discurso para o público leigo sem pensar na sua estratégia de abordagem. Mas vejam o que ele próprio diz numa excelente
entrevista que deu em 2003, em Berkeley.

...
No início dos idos anos de 90, tive um professor de genética que considerei o melhor professor de toda a minha graduação em Biologia. António Amorim tinha um excelente poder de comunicação, associando o interesse geral da cátedra à sua personalidade e aspecto irreverentes, quase revolucionários. Acontece que ele não acreditava na seleção natural como um dos motores da evolução. A teoria neutralista de Motoo Kimura bastava-lhe e chegou a escrever um pequeno livro em 2002, A espécie das origens - genomas, linhagens e recombinações, sobre como Darwin e os arquitetos da Nova Síntese estavam completamente enganados no seu programa adaptacionista. Para Amorim, a ideia da selecção natural é uma explicação mais ideológica do que científica, além de totalitária e circular. Quando iniciei depois a minha carreira de pesquisa, ainda não conseguia perceber como pretendia negar evidências, que me pareciam claras, já na altura, de que tanto fenómenos aleatórios (mutações neutrais, deriva genética) como seleção natural tinham o seu papel na explicação dos padrões de evolução. Não entendia a limitação paradigmática de António Amorim, mas muitos me diziam que a explicação eram as suas tendências marxistas-leninistas.

Quando falei com Lewontin, já estava melhor preparado para entender, quando ele me piscou o olho maroto, tive a certeza!

No meio do meu doutorado, após de uma discussão animada com o meu co-orientador holandês, percebi que tinha iniciado uma luta consciente contra a tentação do paradigma diretor, da perspectiva enganadora, do olhar míope, seja de esquerda ou de direita, vindo do céu ou do inferno. Por isso, também, vos mostrei a animação abaixo, que comentarei no momento próprio.

27 maio 2006

Abstração...



© Copyright 2002, Jim Loy

P.f., observem a animação acima durante 1 minuto. Se quiserem, partilhem sensações e ideias que a imagem possa ter suscitado. Após algum tempo, escreverei algo sobre o que imagem significa para mim.

25 maio 2006

A ciência fantástica da evolução humana

Experimentei reações diversas ao ler o artigo da Folha de São Paulo divulgando o estudo da revista científica Nature sobre fluxo génico (hibridização) entre as linhagens ancestrais humana e chimpanzé. Aqui está o resumo do artigo de Patterson et al. (Petal):

The genetic divergence time between two species varies substantially across the genome, conveying important information about the timing and process of speciation.

Here we develop a framework for studying this variation and apply it to about 20 million base pairs of aligned sequence from humans, chimpanzees, gorillas and more distantly related primates.

Human-chimpanzee genetic divergence varies from less than 84% to more than 147% of the average, a range of more than 4 million years. Our analysis also shows that human-chimpanzee speciation occurred less than 6.3 million years ago and probably more recently, conflicting with some interpretations of ancient fossils.

Most strikingly, chromosome X shows an extremely young genetic divergence time, close to the genome minimum along nearly its entire length.

These unexpected features would be explained if the human and chimpanzee lineages initially diverged, then later exchanged genes before separating permanently.


A primeira reação foi de desagrado pela forma como o artigo científico foi tratado pela imprensa, algo que foi já comentado abaixo pela Maria. Se quiserem ler um excelente artigo jornalístico sobre a matéria, leiam o de Carl Zimmer
aqui.

A segunda foi de curiosidade e interesse pela metodologia que teria sido usada no artigo.
Seguidamente, focarei o meu comentário apenas na parte científica, que me interessa particularmente. É um exercício de crítica do artigo, que procurei escrever de modo simples mas, por vezes, denso.

O modo de especiação é algo que tem interessado os biólogos da evolução desde Darwin tendo-se tornado um dos temas centrais da biologia evolutiva (e.g. Mayr 1963). O modo mais simples de especiação que pode ser imaginado envolveria uma separação única entre duas espécies instantaneamente formadas, com interrupção completa de fluxo génico. No entanto, é provável que este modelo seja demasiado simplista. A primeira violação ao modelo que podemos imaginar é um processo de isolamento entre sub-populações de uma espécie interrompido por episódios de fluxo génico (migração, hibridização), possíveis tão só até que seja atingido o isolamento reprodutivo entre as subpopulações, que se tornariam então espécies. Estes dois modelos alternativos permitem gerar previsões que podem ser usadas para testar alternativamente os modelos diante de dados reais sobre espécies de interesse (para mentes mais matemáticas e probabilísticas, aqui ficam algumas referências: Wakeley 1996; Nielsen & Wakeley 2001; Hey & Nielsen 2004).


Tento explicar de forma simples. Existindo um processo de especiação por isolamento com migração, podemos esperar um aumento da variância da divergência genética entre sequências de DNA de diversas porções do genoma das duas espécies. Isto é, comparando as sequências de dois genomas das duas espécies, esperariamos encontrar porções mais diferenciadas geneticamente e outras porções menos diferenciadas. Isto é intuitivo se pensarmos no que acontece com sequências de DNA em populações isoladas: de forma simplista, a tendência é acumularem mutações de forma independente, ao mesmo tempo que a deriva genética (para uma explicação didática do conceito, ler as colunas Deriva Genética de Sérgio Pena na revista Ciência Hoje online) e/ou seleção podem contribuir (embora nem sempre) para um aumento da diferenciação. Quando indivíduos de populações diferenciadas, mas ainda não isoladas reprodutivamente, se encontram e acasalam dá-se recombinação (mistura, embaralhamento) de porções dos dois genomas diferenciados. Após um ou vários eventos de recombinação entre genomas que eventualmente se especiam completamente, comparando os dois genomas destas duas novas espécies, esperariamos encontrar tanto regiões homólogas mais semelhantes entre as espécies como regiões mais diferenciadas entre as espécies, como resultado daquele processo de embaralhamento ao acaso de genomas ao longo do processo de diferenciação.

Pois são estas as premissas fundamentais para a primeira das sugestões que o artigo de Petal nos faz. Tendo observado uma ampla gama de valores de divergência genética entre diversas regiões dos genomas humano e chimpanzé, que correspondem a uma diferença de cerca de 4 milhões de anos para a datação da divergência entre formas ancestrais das duas linhagens, os autores propõem que a elevada variância seria explicada por pelo menos um evento de hibridização entre um ancestral da linhagem humana com um ancestral da linhagem chimpanzé.

[Hybridization] could explain the wide range of divergence times (more than 4 Myr): at some loci human and chimpanzee lineages share ancestry around initial separation, whereas at others the genetic ancestry is more recent at the time of hybridization.

Aqui reside um dos problemas desse artigo. É que os autores escolheram ignorar ao longo do artigo todo o efeito do tamanho da população ancestral que terá originado tanto humanos como chimpanzés – o nosso ancestral comum. E apresentam as suas razões na seguinte frase:

[Other studies] produced inconsistent estimates of ancient diversity owing to small data sizes, ignoring the effects of recurrent mutation, and simplifying assumptions about the demography of ancient populations.

Mas não deveriam nunca ter ignorado que os resultados observados por Petal seriam igualmente esperados como resultado de uma população de tamanho elevado, aí de 50.000-70.000 indivíduos, tal como é previsto em artigos publicados anteriormente, muitos dos quais não citados por Petal. John Hawks (antropólogo e geneticista, professor da Universidade de Madison) faz um comentário bem crítico sobre o artigo, que aconselho a ler no weblog
johnhawks.net.

Curiosamente, quase em simultâneo com o artigo de Petal, foi publicado um artigo de
Innan & Watanabe (IW) na edição de Maio da revista Molecular Biology and Evolution, com o seguinte resumo:

The coalescent process in the human-chimpanzee ancestral population is investigated using a model, which incorporates a certain time period of gene flow during the speciation process. a is a parameter to represent the degree and time of gene flow, and the model is identical to the null model with an instantaneous species split when a = infinity. A maximum likelihood (ML) method is developed to estimate a, and its power and reliability is investigated by coalescent simulations. The ML method is applied to nucleotide divergence data between human and chimpanzee. It is found that the null model with an instantaneous species split explains the data best, and no strong evidence for gene flow is detected. The result is discussed in the view of the mode of speciation. Another ML method is developed to estimate the male-female ratio (alpha) of mutation rate, in which the coalescent process in the ancestral population is taken into account.

A principal conclusão é que um modelo que pressupunha um período de diferenciação populacional com fluxo génico anterior ao processo de separação das linhagens é rejeitado a favor de um modelo de separação simples. Assim, sugere que a divergência genética entre humanos e chimpanzés é concordante com um modelo em que não teriam existido fenómenos importantes de isolamento (e hibridação) na população ancestral dos chumanos (uso aqui a expressão de John Hawks para designar o ancestral comum a chimpanzés e humanos).

A segunda observação que leva os autores a reforçar a hipótese de hibridação é a redução da divergência entre sequências do cromossoma X chumano, relativamente à divergência média entre cromossomas autossómicos. Os autores revelam que a hipótese de hibridação explicaria por exemplo a maior redução da divergência no caso chimpanzé-humano do que no caso rato-humano.

Mas ainda que assim tivesse sido (é possível!), a questão é se o resultado seria esperado de acordo com o que se sabe sobre e evolução do cromossoma X. Nos mamíferos, os machos apenas têm uma cópia do cromossoma X (as fêmeas têm duas cópias), o que reduz a população de cromossmas X a ¾ da população de cromossomas autossómicos (duas cópias nos machos e nas fêmeas). Como a chance de replicação equivale a chance de mutação, que é a base da diversificação genética entre espécies, desta redução no efetivo populacional do cromossoma X espera-se que resulte uma redução da sua divergência genética entre espécies aproximadamente proporcional, ou seja 75% da diversidade esperada nos cromossomas autossómicos.

Por outro lado, a taxa de replicação cromossómica nas linhas germinais feminina e masculina é distinta: a replicação nos machos (formação de gâmetas) é contínua enquanto as fêmeas nascem com um número fixo de gâmetas, que não será reposto por replicação ao longo da vida. Mais uma vez estas diferenças se refletem no efetivo populacional de gâmetas, que por sua vez determinam a chance de mutação (maior efetivo equivale a maior chance de mutação e a menor chance de deriva genética ou extinção). Muitos estudos se têm debruçado sobre esta questão designada como o viés mutacional macho-fêmea (o parâmetro alfa). Por outro lado, sabe-se que a replicação da linha germinal masculina dos primatas é 5-6 vezes superior à das fêmas (Hurst & Ellegreen 1998). Então os valores esperados de redução da diversidade entre cromossoma X e cromossomas autossómicos deveriam ter valores máximos daquela ordem de grandeza.

Se compararmos alguns dos valores reportados em estudos diversos temos:
alfa-Petal = 7
alfa-Petal (corrigido para a hipótese de divergência menor devido a hibridação) = 1.9
alfa-Innan&Watanabe = 2.7-4.4
alfa-outros = 5
alfa-rato-humano = 1.9-2.1

Podemos então concluir que existe uma grande variação em estimativas de alfa, sendo que os menores valores são obtidos na comparação rato-humano e através da correção efetuada por Petal. Vamos por partes:

i) seria esperado que alfa fosse menor na comparação rato-humano devido ao menor tempo geracional dos ratos relativamente aos humanos, que resultaria numa menor taxa de replicação nos machos e redução do viés alfa;
ii) a correção de Petal é efetuada para resolver o paradoxo inexistente da diferença de alfa na comparação rato-humano e chimpanzé-humano. Mas acontece que essa diferença seria esperada de acordo com previsões teóricas! Concluo então que a correção de Petal foi um exercício que seria lícito em si, mas nunca para legitimar apenas a hipótese preferida. Considero isto uma manipulação grosseira da análise com o objetivo de dirigir a discussão e conclusões do artigo.

Petal fazem ainda uma estimativa da redução da diversidade do cromossomo X na linha ancestral chumana por comparação por exemplo com a linha ancestral humana-gorila. É calculado então um parâmetro R que mede aquela redução, para o qual é esperado um valor próximo de 0.75. É apresentado um valor muito reduzido para o R-chumano (0-0.29) comparado com o R da linha ancestral humana-gorila (0.68-1.00). Para compreender a forma de cálculo de R tiver que penar, lendo as mais de 40 páginas das notas suplementares fornecidas online. Para concluir que, mais uma vez, há uma incoerência no cálculo da comparação chumana versus outros primatas: só para os chumanos se usa uma calibração fóssil enquanto para outras usam-se estimativas resultantes da análise de dados genómica. Se tivesse havido coerência, o valor chumano a comparar seria 0-0.62, cujo valor máximo se aproximaria mais do valor esperado.

No final, Petal afirmam que a única explicação para os resultados seria a ocorrência de seleção ao nível do cromossoma X. Mas isso não é nada de novo! O cromossoma X tem sido ligado a especiação em outros organismos por poder atuar como agente de infertilidade nos machos, resultando em incompatibilidade entre indivíduos de populações diferenciadas. Essa é exatamente a hipótese trabalhada por Petal. Mas a seleção não teria necessariamente de estar ligada a hibridação entre espécies, poderia ser um processo populacional em populações subdivididas, que não seriam nem chimpanzés nem humanas. Esta ocorrência de várias populações seria coerente com algumas evidências genéticas para uma população ancestral de tamanho elevado, tal como sugerido por artigos publicados anteriormente. Enfim, nada de novo a não ser pelo spin.

Resumindo, o artigo é interessante por discutir uma ideia que talvez não tivesse sido convenientemente explicitada anteriormente. Mas a ideia de Petal não provém de novas evidências, que não possibilitam decidir sobre hipóteses alternativas, provém antes da própria influência que a ideia exerceu na análise das evidências. Fiquei desanimado por os autores não desenvolverem testes de hipóteses, pelo que o artigo se torna essencialmente descritivo. Nesse sentido, o artigo é uma desilusão e não vale toda a cobertura midiática sensacionalista que lhe tem sido dedicada.

Após engolir 45 páginas de ciência fantástica, nada palatável, rogo-me o direito de uma sessão de paranóia crítica.
Aqui vai uma boa abertura para um artigo jornalístico:

Petal fazem incidir uma nova luz sobre a evolução humana, apesar das poucas novas evidências que apresentam, com excepção do seu peso em megabases de DNA.

E para me fazer feliz, em português:

Assim é a infância das ciências genómicas,
trocando o dólar pela megabase.
E com ela a Nature,
surfando nessa onda galopante,
novas luzes e nuances,
aproximando da arte a ciência complexa.
Cautela meus amigos cientistas e não cientistas,
para que a onda vos não engula a mente crítica.


E em inglês:

There goes the Petal,
windblown,
thrown,
by the grand master blower,
the wind.
To the vagaries of Nature,
spins and twists,
wishes of the grand master,
chance of all things,

serendipity.
Turn nature into a big mess,
only decypherable,
turning science into art!
…there goes Nature surfing the wave.


E em californiano:

J: Hey Dude! What's this guy talking about?
M: Oh, it's awfully euphemistical...
J: What do you mean?
M: He's just giving Nature the F... word.
J: F... awesome, Dude! Is it Simpsons' time yet?
Tivo: The Siiimmpsoonnnss!!!!



Referências...

Hey J, Nielsen R (2004) Multilocus methods for estimating population sizes, migration rates and divergence time, with applications to the divergence of Drosophila pseudoobscura and D. persimilis. Genetics 167, 747-760.

Hurst, L. D., and H. Ellegren. 1998. Sex biases in the mutation rate. Trends Genet. 14:446–452.

Innan H, Watanabe H. 2006. The effect of gene flow on the coalescent time in the human-chimpanzee ancestral population. Mol Biol Evol 23:1040-1047.

Mayr E (1963) Animal species and evolution. Belknap Press, Harvard.

Nielsen R, Wakeley J (2001) Distinguishing Migration From Isolation: A Markov Chain Monte Carlo Approach. Genetics 158, 885-896.

Taylor, J., Tyekucheva, S., Zody, M., Chiaromonte, F., Makova, K.D. Strong and Weak Male Mutation Bias at Different Sites in the Primate Genomes: Insights from the Human Chimpanzee Comparison. Mol Biol Evol 23, 565-573 (2006).

Wall JD. 2003. Estimating ancestral population sizes and divergence times. Genetics 163:395-404.

Wakeley J (1996) Distinguishing migration from isolation using the variance of pairwise differences. Theoretical Population Biology 49, 369-386.

22 maio 2006

Sensacionalismo prejudica compreensão de pensamento evolutivo

Na semana passada causou espécie a notícia de que humanos e chimpanzés teriam se acasalado após a separação das duas linhagens a partir de um ancestral comum.

O artigo científico, "Genetic evidence for complex speciation of humans and chimpanzees" [Evidências genéticas de especiação complexa entre humanos e chimpanzés], foi publicado na edição eletrônica da prestigiosa Nature no dia 17 deste mês. O trabalho, feito por pesquisadores da Universidade Harvard e do Massachusetts Institute of Technology (MIT) nos Estados Unidos, mostra que a separação entre as linhagens que deram origem ao que hoje são humanos e chimpanzés não aconteceu de uma vez. Isso quer dizer que há uns 5 ou 6 milhões de anos (a estimativa anterior era de 7 milhões), uma espécie deu origem a duas linhagens distintas mas ainda capazes de procriar entre si. Esses cruzamentos adiaram a separação entre as duas espécies, que ao longo dos milhões de anos que se seguiram acumularam diferenças e deram origem a humanos e chimpanzés.

A notícia veiculada pela news@nature, agência de divulgação que infelizmente também tem acesso restrito a assinantes, preserva certa cautela em seu título: "Chimpanzee and human ancestors may have interbred" [Ancestrais de humanos e chimpanzés podem ter cruzado entre si]. Infelizmente, as palavras que destaquei na tradução do título se perderam na mídia em língua portuguesa. A Folha de São Paulo de 18 de maio trouxe a notícia "Humano e símio se acasalavam, diz DNA"; o (bom) portal de ciência português Ciência Hoje (nada a ver com a xará brasileira) tropeçou ainda mais feio - "Homens e chimpanzés tiveram sexo já depois de terem começado separação" (ufa, este tem acesso liberado a internautas).

Vale a pena transcrever o início do texto da Folha:
"Humanos e chimpanzés normalmente não se consideram mutuamente atraentes em termos sexuais nem seriam capazes de ter filhotes férteis. Mas nem sempre foi assim entre os ancestrais evolutivos desses dois primatas." Tá, há uma nesga de cautela em mencionar que se trata dos ancestrais evolutivos dos dois primatas, mas o tom geral põe em dúvida as intenções da especialista em chimpanzés Jane Goodall na foto acima (emprestada de www.theoaklandpress.com). Principalmente quando a matéria cita o paleontólogo Dan Lieberman, que teria dito que "Meu problema é imaginar um hominídeo e um chimpanzé olhando um para o outro como parceiros adequados - para não ser muito grosso".

Não se trata de grossura, mas de ignorância. O antropólogo talvez tenha achado a brincadeira tão óbvia que se permitiu a piada. Mas a questão é séria, porque reforça uma visão fixista da vida, que remete mais a criacionismo do que a evolução: a idéia de que os seres vivos já surgiram idênticos ao que são hoje. Que fique bem claro: os tais ancestrais de humanos e chimpanzés eram muito pouco parecidos com a Jane Goodall e seu amigo da foto - foram precisos milhões de anos após terem atingido isolamento reprodutivo para que as duas espécies chegassem às aparências atuais. Eles eram na verdade muito semelhantes entre si - o suficiente, sim, para olhar um para o outro e ver um parceiro sexual desejável.

20 maio 2006

H.N.

Ao contrário do que muitos possam pensar, ela não nasceu privilegiada. Como é característico a todo recém-nascido, sua formação se deu, basicamente, através da observação.

A curiosidade infinita de todos que a ela se dedicaram concluiu que o mundo era finito (ao alcance de sua visão); acima dele estaria Deus (o criador de tudo e de todos) e abaixo (no centro da terra), o Inferno (tal qual descreveria mais tarde Dante Alighieri) – o que ia ao encontro de todas as estórias e lendas que há muito se ouviam passar por gerações.

O homem e, conseqüentemente, a Terra, eram o centro do Universo. Tudo era composto por 4 elementos fundamentais: ar, fogo, água e terra – dependendo da proporção da composição, o elemento primordial resultante faria com que o objeto tivesse um movimento ascendente ou descendente em relação à Terra.

À medida que ela foi crescendo, começou a falar! – atualmente, não imaginamos como isso possa ter sido um problema, mas foi, e dos grandes...

Naquela época não existia o papel ou correlatos (mesmo a pele de carneiro era muito pouco divulgada e o papiro não tinha sido amplamente divulgado; mais escassos ainda aqueles que dominavam algum tipo de escrita).

Assim, a divulgação se dava através da comunicação oral, que era extremamente diversificada em sítios muito próximos (povos a cerca de 20 km se expressavam por dialetos completamente diferentes).

Então, aconteceu um fato, que poucos se deram conta, nossa protagonista teve que se tornar essencialmente urbana!

Sim, as cidades precisaram estar constituídas, para que as pessoas, pelo menos falassem a mesma “língua” e tivessem os mesmos interesses (ou curiosidades), para que nossa protagonista se desenvolvesse.

Conseguiram, então, partir para um novo momento, confrontando idéias e debatendo pontos de vistas. Foi assim que, literalmente, o mundo “virou”!

Quando as experiências passaram a utilizar instrumentos, tudo foi potencializado, principalmente a curiosidade e as hipóteses daí advindas: mas foi com a luneta que a principal mudança começou.

Entendeu-se o Universo como infinito, o sol como centro da galáxia (até então, o Universo); e, todas as mudanças filosófico-culturais daí resultantes. Acreditem, foi uma reviravolta e tanto!

Aliás a prática de experiências era efervescente! Todos chamados à apresentação de uma nova descoberta ficavam maravilhados com as tentativas, quer resultassem positivas ou não.

Porém, como aplauso e vaidade são quase simultâneos...os desígnios iniciais foram alterados: a população, que participava ativamente da comprovação de uma dada experiência nova, foi simplesmente rechaçada; foram criadas sociedades, que passaram a disputar, entre si, não mais por servir à H.N., mas por prestígio (àquele, que também acaba resultando dos aplausos).

Muita, muita coisa se passou desde então. A H.N. cresceu, está madura, e ao ser registrada, recebeu a nova identificação: Ciência.

Agora ela chora, ao ver tantos cientistas éticos que não conseguem fundos para desenvolver seus trabalhos adequadamente; e, por tantos jornalistas, que sem entendê-la ao certo, generalizam a todos que lhe servem com alcunhas de “antiéticos” e “incompetentes”.

Pobre Ciência...

Texto de Silvia Cléa.

17 maio 2006

A física explica amplitude dos sentidos

Nossa capacidade de detectar uma ampla gama de estímulos não depende das características individuais das células do sistema sensorial. Ao contrário, ela parece ser explicada por características da interação entre esses neurônios. É o que dizem os físicos Osame Kinouchi e Mauro Copelli (blogue SemCiência) que, através de uma simulação em computador, acabam de deixar sua marca nos fundamentos da psicofísica.

O uso de modelos matemáticos para explicar fenômenos biológicos tende a ser visto com desconfiança, como demonstram os comentários de Marcelo Leite e de David Biello sobre o artigo de Kinouchi e Copelli. Eu mesma persisti nessa desconfiança até recentemente, quando me ocorreu que na verdade esses modelos têm muito em comum com grande parte da pesquisa científica. Por exemplo, hoje em dia não há quem duvide de que o código que nos compõe reside na informação genética. Mas é preciso ver o DNA para acreditar nisso? Enxergar o seu funcionamento, ver como ele dá origem a proteínas que por sua vez darão forma a muito do que somos? Esse conhecimento, hoje em dia sedimentado, dependeu de modelos. Embora estes não sejam matemáticos, o princípio é o mesmo: com base no que se observa, pesquisadores desenvolvem uma teoria para explicar um dado fenômeno. A teoria permite que se faça previsões, que enquanto se revelarem verdadeiras reforçam a teoria vigente. A tarefa do cientista é buscar situações em que as previsões não se comprovem; se não encontrarem, há grandes chances da teoria ser verdadeira. Simulações como a de Kinouchi e Copelli seguem os mesmos princípios.

Leia a notícia na revista ComCiência.

14 maio 2006

Entrevistas...

Quando decidiu ser cientista?
Não decidi, optei por ciências exatas aos 15 anos e segui um caminho que me levou à investigação científica.

Foi uma decisão fácil?
Não, aquela opção foi apenas funcional e não existencial.

Quer explicar?
Para alguns, as opções que se fazem na vida parecem simples e as decisões surgem sem dificuldade, como se já tudo estivesse escrito. Aqui, a função que cada indivíduo exerce na comunidade não parece desligada da própria essência do indivíduo, o ser aproxima-se do estar. Para outros, a vida é sempre um mar de possibilidades a serem exploradas, pelo menos em tese. Se me perguntar que outras coisas pensava que gostaria de fazer aos 15 anos eu diria...coisas muito diversas! Mas havia um grande desejo de exploração de novas fronteiras associado à busca da luta por princípios éticos em que acreditava então, e que se mantiveram até hoje. Quando tive de decidir, segui apenas a minha intuição de que poderia encontrar o que procurava em qualquer área do conhecimento.

Mas ainda não percebi o funcional vs. existencial?
É simples, a minha atividade profissional é fazer investigação científica, mas não me considero um cientista, não vivo para a ciência como alguns colegas. A vida apresenta-me muitas outras dimensões que interessa explorar, que possibilitam uma maior versatilidade no uso da imaginação e da emoção.

Considera a hipótese de deixar de fazer ciência?
Para já não, adoro o que faço. Mas quero continuar a sentir que serei sempre livre de mudar...

O que o satisfaz na pesquisa científica?
O processo que conduz à possibilidade de falsificação de teorias estabelecidas e geralmente aceites.

Isso não é um problema?
É-o se você não aceita a ciência ou não compreende como ela funciona ou deveria funcionar.

Mas a ciência sempre funciona assim?
Claro que não! A possibilidade de falsificação surge com o sentido crítico. Muitos cientistas não buscam a falsificação mas sim a corroboração de teorias científicas. Outros não buscam a inovação nas abordagens. E é claro que depende muito da comunidade em que se está inserido. Muitos grupos de pesquisa incentivam a crítica e inovação, outros defendem o status quo. Mas, em última análise é ao indivíduo que cabe escolher o seu caminho e a sua ética científica.


Qual o enfoque da sua pesquisa?
Os processos e a dinâmica da distribuição e abundância de organismos, fenótipos e genótipos, no espaço e no tempo. De forma sucinta, biogeografia e evolução.


Você contribuiu para a falsificação de alguma teoria?
Não, mas isso não é um problema, pois trata-se na verdade de um estado mental e não de uma necessidade real de falsificação sempre que se faz ciência. O que importa é a consciência crítica... Mas sinto-me já feliz se puder dar alguma pequena contribuição para perspectivas alternativas sobre determinados fenómenos. Repare que a pesquisa em biologia trabalha com sistemas complexos, onde cada vez mais é difícil aceitar grandes teorias unificadoras e, por conseguinte, buscar a sua falsificação de forma simplista.

A teoria da evolução não é uma delas?
A teoria sintética da evolução de Dobzhansky, Mayr et al. é geralmente aceite como unificadora da biologia, mas não é uma teoria acabada ou completa, até por ter deixado de fora algumas dimensões importantes do próprio processo evolutivo, como a epigenética ou o desenvolvimento embrionário. É uma teoria que continuará a ser construida com a quantidade de novo conhecimento que está hoje a ser gerada pela integração de áreas da biologia como a genética, genómica, ecologia e desenvolvimento.

Ecologia?
Sim, você não poderá ter a mínima noção de evolução organísmica se não estudar os organismos no contexto das interações do com o meio biofísico em que existem, e em que sobrevivem ou não.

Qual a sua visão sobre a era da genômica?
Está ainda na sua infância. A informação bruta que tem sido gerada supera em muito a nossa capacidade de a entender à luz de uma teoria reducionista e mecanicista de evolução. Basta ler obras recentes de Fox Keller ou Eva Jablonka para chegar a esta conclusão. Mas estou convicto que o nosso conhecimento será cada vaz mais completo sobre os mecanismos de funcionamento de genes no contexto de genomas, no contexto de funcionamento de organismos no contexto da sua ecologia. Mecanismos complexos portanto. A era do reducionismo acabou.

Você acha que é essa a ideia que o público tem da evolução?
É difícil saber exatamente, não tenho tido muito contato... Mas apostaria que a percepção do público sobre evolução reside em Darwin e pouco mais. Existe um problema geral de comunicação de ciência na sociedade, que talvez esteja associado à percepção que o mundo é muito mais complexo do que se pensava e à dificuldade dos cientistas em explicar sistemas complexos, dos comunicadores de ciência de processar a quantidade de informação gerada e, muitas vezes, do receio de induzir dúvida na opinião pública sobre o valor da ciência como meio de fazer sentido da vida.

Esse tema é interessante! Mas isso não é esperar demais da ciência?
Claro que sim. A ciência é apenas um dos pilares do conhecimento sobre os quais deve assentar o sentido que encontramos para a vida, individual e coletivamente.

Qual o principal desafio que se apresenta à ciencia como um todo e a sua relação com a sociedade?
À ciência, revelar o funcionamento de sistemas complexos em geral, à ciência-e-sociedade, juntar cientistas e leigos em espaços virtuais, comunicar interativamente, conhecer os desígnios preocupações de uns e outros, procurando construir um corpo de conhecimento mais abrangente, e que se possa tornar verdadeiramente coletivo.

Que espaços seriam esses?
Blog-fóruns e blog-portais, na internet.

Isso não é utópico?
Chame-lhe antes um grande desafio. Repare que as consequências do nosso fracasso momentâneo podem ser já visíveis nos avanços do misticismo e do obscurantismo, do autismo civilizacional.

Da religião?
Não! Falo de determinados segmentos da sociedade, religiosos ou não, que cultivam a ignorância sobre outras visões de mundo.

Mas isso não existe no mundo da ciência também?
É verdade e é preciso combater essas tendências que eu também apelidaria de autistas civilizacionais. Daí a necessidade de cultivar espaços de interação pública. Repare que não falo só de ciência e sociedade, refiro-me ao conhecimento com um todo, que deve servir de base à ação individual e coletiva. Por exemplo, esses espaços seriam importantes para a ação política também. Poderiam não só contribuir para a difusão, discussão, integração de conhecimento (arte, ciências exatas e humanas, política, etc), e sua democratização na internet, mas também espaços de formação política que faltam hoje na sociedade.

Você fala sério?
Seríssimo!

Mas como isso funcionaria?
Pela mobilização individual para a participação de fóruns coletivos, tendo como objetivo a formação de opinião pública informada e consciente, mais livre e talvez menos sujeita a manipulações por entidades de índole corporativa. Aliás, perdoe-me a divagação, pensando agora no início da nossa conversa, é a isso que associo a atividade científica, à liberdade de questionar e olhar o mundo de diversas perspectivas, de conhecer da realidade que nos cerca e, decidir se esse conhecimento, associado a outros, nos permite estender a capacidade de livre arbítrio na nossa ação consciente sobre o mundo.

Finalmente! a resposta à minha primeira pergunta!
É, como vê também não gosto de conversar de forma "reducionista".

Brindemos então a essa sua consCIÊNCIA! E à mobilização para uma verdadeira cidadania! Você acha mesmo possível?
Acho! O primeiro passo é levantar a nossa blogbunda da cadeira e ir viver um pouco a vida. Você já reparou que existe um mundo lá fora?

Pois é...que coisa! Me desculpe, qual o seu nome mesmo?
Isso interessa?

É, tem razão...talvez não. Agora fiquei um pouco confuso.
É, está na hora...

...da vossa injeção oral, meus senhores!
Saúde!
Saúde!


Excerto da série Entrevistas... do periódico Anais do Hospício da Ciência, 2005.

09 maio 2006

Pesquisadores ou biopiratas?

Quem acompanha a grande mídia talvez tenha a sensação de que os pesquisadores são os maiores responsáveis pela biopirataria no Brasil. Um pesquisador tenta levar mamíferos taxidermizados para o Museu Goeldi em Belém, quando a licença indicava que os espécimes deveriam ir para o Inpa em Manaus; outro põe no correio um pacote com invertebrados vermiformes, endereçados à Alemanha. São casos de coleta e envio de material biológico com documentação insuficiente, às vezes de má interpretação da legislação por parte dos pesquisadores ou dos fiscais.
Pesquisadores que trabalham com diversidade biológica se queixam da legislação, que impossibilitaria seu trabalho. É desse aspecto que trato em notícia publicada hoje na ComCiência.

06 maio 2006

Anfíbios sobrevivem às custas da pele da mãe


Uma equipe internacional de pesquisadores descreveu uma nova forma de cuidado parental para anfíbios. Algumas espécies de cecília (foto) produzem uma pele modificada da qual os filhotes se alimentam logo após saírem dos ovos. O artigo original, que saiu na Nature em 13 de abril, inclui entre seus co-autores os brasileiros Carlos Jared e Marta Antoniazzi, do Instituto Butantan. A foto foi cedida por Carlos Jared.
Leia minha notícia na ComCiência.

28 abril 2006

Há mais aves nos centros urbanos hoje?



Você já reparou se há na sua vizinhança uma maior abundância e diversidade de passarinhos e afins? Muita gente tem essa impressão, especialistas inclusive. Veja reportagem minha na revista Ciência e Cultura.

Aproveito para pôr aqui uma foto linda da minha amiga Silvia Cléa, que não pude pôr na revista. Os periquitos fazem a festa na varanda dela!

27 abril 2006

Meu avô


Tive hoje a emoção de publicar na ComCiência uma notícia sobre meu avô: "IBGE homenageia geógrafo que estabeleceu divisão do país em regiões".

Aqui, não resisto a ser mais pessoal e mostrar o Fábio de que me lembro - o vô Fábio. Na foto, com a vó Marina.

Saudades.

20 abril 2006

UE com gripe?

Portugal talvez seja o país menos bem preparado da Europa para enfrentar uma eventual pandemia de gripe das aves, de acordo com o estudo divulgado pela revista britânica The Lancet. Reproduzo abaixo texto da notícia da agência Lusa.

As autoridades de saúde lusitanas alegam que o estudo está desfasado e que estamos preparados. E para a Copa, também!?

Não me admiraria que as duas afirmações fossem verdadeiras, pois o estudo data de Novembro de 2005. Acontece que apenas no Outono de 2005 a gripe das aves se tornou verdadeiramente um assunto europeu, com a deteção do vírus H5N1 em aves da Turquia e Roménia. Desde então, foram registados casos de gripe das aves em quase todos os países europeus com exceção de Espanha e Portugal. Seria natural então que muitos países tivessem tomado medidas preventivas de acordo com a sensação de perigo iminente, que teria sido superior na Europa Central e do Norte. Seria interessante se os Pirenéus continuassem a exercer os seus efeitos de barreira biogeográfica!? Por outro lado, na Ibéria peninsular, Portugal foi sempre o país mais periférico (na verdade, de toda Europa continental), a nível político, geo-estratégico, económico e cultural. Lembremos, a vocação atlântica, os Descobrimentos, a anglofilia... Isto explicaria as diferenças com relação a Espanha, no estudo d'A Lanceta. Existirão porventura explicações mais próximas no tempo, e menos psicanalíticas, como riqueza nacional e qualidade do seu serviço nacional de saúde. Mas não estraguemos a minha diversão!

Consultando o Dossier Gripe das Aves do jornal Público, constato que a percepção de risco em Portugal aumentará gradualmente até ao Outono de 2006, altura do ano em que aves migradoras imigram do Norte da Europa, procurando abrigos de invernação mais meridionais (inteligentemente, esperam que as hordas de turistas regressem para norte...). E as autoridades portuguesas parecem ter acelerado o anúncio de medidas preventivas nos meses de Janeiro, Fevereiro e Março de 2006. Ainda bem!

É então aceitável, que Portugal estivesse menos bem preparado que outros países europeus em Novembro de 2005? Sim e não! Sim, por causa da tal diferença de percepção do perigo iminente, que tentei justificar acima. Não, porque a condição de país periférico, que no passado se salvou das desvantagens (glaciações do Quaternário, desenvolvimento, guerras mundiais) e das vantagens (glaciações do Quaternário, desenvolvimento, guerras mundiais, ah ah!) do centro da civilização europeia, não nos salvaria da aleatoriedade do acaso, da excepção à regra, de processos evolutivos não determinísticos. Afinal, qual a chance de o vírus H5N1 entrar em Portugal à boleia de uma ave, se hospedar num lusitano legítimo e, finalmente, se propagar entre lusitanos! Talvez ínfima, mas...!? Se acontecesse, seria mais uma criação lusitana para o Mundo.

Tenho uma certa vontade de iniciar uma digressão sobre como este atraso na reação ao perigo iminente da gripe das aves é um epifenómeno de uma certa estratégia empírico-determinista de sobrevivência, usada por organismos que têm de fazer opções. Não o vou fazer, fica para mais tarde.

Politicamente mais preocupante, para a União Europeia, é a constatação de que poucos países incluíram nos planos a necessidade de colaboração com outros países, apesar de este ser um "imperativo" na luta contra a doença. Mas então para que queremos a UE senão para promover a colaboração dos povos para lá da economia de escala e da geo-estratégica global? Espero que desde Novembro de 2005, também esta realidade se tenha alterado. A bem de um projeto europeu ainda mais integrativo, em que acredito apesar da (e sobretudo pela...) minha identidade nacional periférica.


Gripe das aves: Portugal é o país menos bem preparado da Europa
Lusa, Agência de Notícias de Portugal S.A.


Portugal é o país menos bem preparado para enfrentar uma eventual pandemia de gripe das aves entre os 21 países europeus com planos nacionais de prevenção, segundo um estudo publicado hoje pela revista científica The Lancet. O documento, intitulado "De que forma está preparada a Europa para uma pandemia de gripe? - Análise dos planos nacionais", foi realizado pelos cientistas Sandra Mounier-Jack e Richard J. Coker, do departamento de Saúde Pública da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, com base nos dados disponíveis em Novembro de 2005, com base nos planos nacionais de luta contra uma possível pandemia.

Em declarações ao jornal Público, a 14 de Abril, a propósito deste estudo, a sub-directora-geral da Saúde Graça Freitas afirmou que os investigadores analisaram apenas o plano estratégico publicado, que inclui orientações genéricas . "O estudo está desfasado. Garanto que estamos preparados", afiançou a responsável, citada pelo jornal.

Na classificação da preparação dos países para a eventual chegada da doença entre os humanos, Portugal ocupa o último lugar do grupo dos menos preparados, seguido da Polónia, Roménia, Lituânia, Letónia, Itália e República Checa, que obtiveram uma classificação de cerca de 38 por cento, menos 20 pontos percentuais que a média. O grupo dos mais bem preparados, com uma classificação de 70 por cento, é liderado pela França, seguida da Alemanha, Irlanda, Holanda, Suécia, Suíça e Reino Unido. O grupo intermédio das três categorias de países é constituído, por ordem decrescente, pela Áustria, Dinamarca, Estónia, Grécia, Noruega, Eslováquia e Espanha e obteve uma classificação de 53 por cento.

Nos vários critérios analisados, Portugal ocupa o último lugar no que respeita ao planeamento e coordenação, intervenção da saúde pública, na resposta dos serviços de saúde e nos serviços essenciais necessários e o penúltimo na vigilância e na capacidade de colocar o plano em acção, ficando em todos abaixo dos cerca de 41 por cento. Melhor classificação foi obtida na comunicação - cerca de 60 por cento -, a única área temática que coloca o país no grupo intermédio.

O estudo, publicado na versão "on-line" da revista britânica, realça também o facto de 20 dos 21 países analisados terem desenvolvido uma estratégia anti-viral (com diferentes níveis de detalhes), bem como uma estratégia de imunização para uma vacina, sendo que Portugal foi o único país a deixar o desenvolvimento de uma estratégia nestes campos para "uma fase posterior". E constata que 13 países elaboraram guias para o uso de drogas anti-virais e 14 pretendem imunizar toda a sua população se o "stock" de vacinas for suficiente.

Em termos gerais, o estudo conclui que, embora a preparação em termos de vigilância, planeamento, coordenação e comunicação seja "boa", a manutenção dos serviços essenciais, a capacidade de pôr os planos em acção e as intervenções da saúde pública são "provavelmente inadequadas". Segundo os cientistas, poucos países incluíram nos planos a necessidade de colaboração com outros países, apesar de este ser um "imperativo" na luta contra a doença. Nas conclusões, referem que "o compromisso dos governos na maioria dos países europeus é forte e o nível de preparação é em geral bom". No entanto, "as lacunas na prevenção mantêm-se e existem variações substanciais entre os países, com implicações importante para os mesmos". Por isso, aconselham uma melhoria na cooperação entre os países, através da partilha de experiência, de forma a "assegurar a coerência" dos planos.

O estudo abrangeu os países da União Europeia, os candidatos Bulgária e Roménia e a Suíça e Noruega, tendo eleito 21 planos nacionais para avaliação de acordo com os critérios da Organização Mundial de Saúde (OMS), representando 93 por cento da população. Todos os planos foram elaborados numa estimativa de mortes devido à gripe das aves entre 230 e 465 pessoas por 100 mil habitantes.

O vírus da gripe das aves infectou 196 pessoas desde 2003, tendo matado 110.

14 abril 2006

Política com ciência

Reproduzo abaixo um texto do historiador português José Pacheco Pereira, no jornal Público. Um estudioso do comunismo, ex-deputado social democrata, ex-vice-presidente do Parlamento Europeu, autor do blog Abrupto (que está no top 100 da Technorati). Fala da política em Portugal, mas reparem que o seu pensamento é de relevância geral, com exceção de alguma especificidade lusitana (ex: os poucos sujeitos nomeados).

Alguma semelhança com políticos que encenam peça tragicómica, num teatro perto de si?

Público
Quinta-feira, 6 de Abril de 2006

Artigo de opinião por Pacheco Pereira, historiador

Como o "politiquês" é um código árido de comunicação entre políticos de segunda, tende a ser muito conservador e a manter fórmulas que remetem para uma concepção do país que já tem pouco que ver com a realidade. O "politiquês" é uma corruptela de um Portugal "conhecido" apenas dos artigos de jornais, de reuniões partidárias e jantares-comícios, de graçolas e bocas de conversa de café e de corredor, por gente que não lê e não estuda. A única coisa que actualiza os praticantes do "politiquês é verem o professor Marcelo todas as semanas, que lhes dá uma certa lubrificação discursiva e argumentativa, que sozinhos nunca teriam.

Contrariamente ao que pensam os próceres da direita do dr. Portas e da esquerda do dr. Louçã, a questão não é ideológica, ou pelo menos, não é essencialmente ideológica, nem sequer de "centrão" versus dicotomia esquerda/direita. O mundo puro das ideologias soçobrou quando a sociedade moldada pela Revolução Francesa e pela Revolução Industrial, que lhes tinha dado origem, se defrontou com pequenos problemas como a revolução da informação, a bomba termonuclear, o terrorismo apocalíptico, a crise do Estado-providência, a mediatização do espaço público, a "cultura de massas", o consumismo, etc. Hoje, ideologias globais, que ofereçam interpretações globais e coerentes para todos os problemas, leituras sistémicas baseadas em tradições do passado (como é a esquerda e a direita), não servem a não ser para os órfãos identitários, uma forma típica de conservadorismo.

O problema é para já regressar a formas de piecemeal reformism, no sentido popperiano, de uma política mais modesta, mais experimental, menos de engenharia social e mais de pequenas intervenções numa realidade que tem outras leis e outras regras que é suposto conhecer a fundo. Ora uma condição fundamental para fazer este tipo de políticas é estudar, discutir, confrontar e produzir orientações, linhas de acção que se avaliem pela prática e não pela obsessão pela abstracção. E, durante ou depois, medir essas políticas com os interesses, as ideias, as "partes" que dividem numa democracia as pessoas.

Os partidos portugueses dão pouca importância ao estudo da realidade, e à formulação de orientações conhecidas, escritas, programáticas, porque isso contraria o tacticismo pragmático. Os partidos precisam de fazer uma considerável reconversão de recursos internos, abandonando ou reduzindo as tarefas partidárias de aparelho antigas, sobrevivências do tempo em que os partidos faziam o seu próprio marketing, publicidade, previsões eleitorais, etc., para outro tipo de organização mais voltada para a criação de think tanks, produção de documentos de orientação, todo um esforço de estudo, análise e produção de política que a complexidade dos problemas exige.

Os partidos precisam de virar uma parte importante da sua actividade interna das funções burocráticas, elas próprias tão cheias de funcionários recrutados por protecções e amiguismo, para um novo tipo de voluntariado político, a quem o partido deve dar meios, gastando aí recursos que hoje esbanja mantendo um número de funcionários excessivo, empregues em tarefas quase fictícias.

Não estou a dizer que os partidos devam ser dirigidos por académicos e professores, na sequência de uma tendência nefasta que já existe no sistema político e comunicacional de achar que as opiniões académicas de "peritos", de "sábios", estão à margem e acima da política.

Precisamos é de políticas que incorporem a maior quantidade de saber possível, que sejam produzidas por cidadãos que usem os seus conhecimentos a favor de uma ideia de "bem público", que conheçam melhor o seu país, estudem os problemas e sejam capazes de ouvir e de pensar sem ser com o "politiquês" pavloviano que se usa hoje em Portugal.

12 abril 2006

Up the mainstream till no stream...

Interessante o aparecimento de agências de notícias de blogs, que servem para alimentar a imprensa mainstream (ver notícia que reproduzo abaixo). Prova de força da blogosfera? Ou mais um exemplo de como movimentos de contra-cultura acabam sendo co-optados para o mainstream? Este processo é interessante e pode ser visto como uma interação caos/cosmos em que elementos de caos vão sendo integrados ao cosmos (mainstream). Será que virar produto de mainstream significa perder liberdade, ser domado? Ou será que todo o movimento de contra-cultura deseja secretamente fazer parte do mainstream? Em relação aos blogs, os dados só agora estão sendo lançados e teremos de aguardar.

No texto jornalístico diz-se “Os jornalistas tradicionais tendem a ver a escrita de autor dos blogues como uma ameaça à imparcialidade, e o conceito de liberdade que impulsionou a grande difusão de blogues poderá ter dificuldade em adaptar-se a restrições editoriais”.

Concordo, e apostaria que muitos blogueiros se iniciaram na blogosfera justamente pela perda de paciência com as parcialidades editoriais da imprensa mainstream e a falta de qualidade de seus textos. É um problema de parcialidades, de ângulos de luz que iluminam objetos.


Por mim, e por ora, prefiro ficar contemplando esse mainstream desde upstream ou mesmo desde no stream at all. Ou estarei a cair no mesmo auto-engano da contra-cultura? Talvez o melhor mesmo, seja fazer parte do mainstream downstream, perto da foz desse rio informacional, no mar, que é vasto e pode dar-me a ilusão de liberdade. Sempre, o mar!


Up the mainstream till no stream,
down the mainstream till all streams, the sea!


PÚBLICO, 11.04.2006
Catarina Homem Marques

BlogBurst: criada agência de blogues para fornecer conteúdos para jornais

Um blogue "é um registro publicado na Internet relativo a algum assunto organizado cronologicamente". É assim que a Wikipédia introduz o termo. Mas mesmo a simples definição que aparece na enciclopédia online se vai desdobrando para descobrir mais à frente uma realidade mais complexa: "Alguns sites têm inovado e usado o blogue como um tipo de media no qual jornalistas colocam notícias e comentários da sua área." O responsável por esta entrada da Wilkipédia não terá tido de recorrer a capacidades paranormais para antever a importância crescente desta comunidade virtual na cobertura noticiosa. Se não bastassem as bem sucedidas experiências de interactividade entre os sites de conhecidos jornais de todo o mundo e a blogosfera, surge esta semana o BlogBurst, um novo serviço de agência que se compromete a gerir as relações entre cerca de 600 blogues e os media "mainstream". O serviço vai funcionar assim: os blogues inscrevem-se na agência e sujeitam-se a uma avaliação prévia que vai definir quais têm qualidade para pertencer ao serviço; depois, a lista dos domínios aprovados vai ser fornecida aos jornais, que só têm de escolher aqueles que querem utilizar e por que período de tempo; por fim, o conteúdo dos blogues escolhidos vai aparecer no site do jornal, adaptado ao grafismo e exigências da publicação em questão. O conceito é inovador e vai funcionar assente numa lógica de complementaridade. Os sites dos jornais conseguem uma cobertura mais alargada, junto de um público jovem e especialmente interessado na Internet, e os bloguistas vão beneficiar de uma maior exposição mediática e de maior prestígio. Além disso, os jornais encontram uma forma de cobrir assuntos para os quais podem não ter uma equipa destacada, como temas relacionados com moda, viagens ou gastronomia. "Existem grandes bloguistas e muitas vezes abordam assuntos em que o site do jornal pode não ser tão especializado", disse Jim Brady, o editor executivo do washingtonpost.com, uma das publicações que já estabeleceu parceria com o BlogBurst." A fronteira entre os media mainstream e o resto do mundo começa a esbater-se, não porque as pessoas começam a aderir aos media, mas pelo efeito contrário: os media mainstream estão a chegar até às pessoas", disse Jeff Jarvis, crítico de media, à Reuters, apesar de duvidar do sucesso de uma agência de blogues.A relação entre as duas partes parece estar cada vez mais consolidada, mas nem por isso deixam de ficar no ar algumas dúvidas quanto ao pacifismo desta proximidade. Os jornalistas tradicionais tendem a ver a escrita de autor dos blogues como uma ameaça à imparcialidade, e o conceito de liberdade que impulsionou a grande difusão de blogues poderá ter dificuldade em adaptar-se a restrições editoriais. Ou, então, o futuro passa mesmo pela reunião das duas tendências.

10 abril 2006

ComCiência sobre Relações internacionais


No ar novo número da ComCiência.
Contribuí com uma
reportagem:
"Aos 60 anos, a ONU resiste a reformas".
Na foto, o Conselho de Segurança (foto do site do CS).

08 abril 2006

Next stop Iran?

Seria total ausência de CONsCIÊNCIA, os EUA não só atacarem o Irão mas fazerem-no com armas nucleares! Weapons of Mass Destruction, lembram-se!

Deixo abaixo um breve trecho de uma reportagem da revista americana New Yorker, que está a assustar o Mundo. Leiam toda a reportagem aqui.

Last month, in a paper given at a conference on Middle East security in Berlin, Colonel Sam Gardiner, a military analyst who taught at the National War College before retiring from the Air Force, in 1987, provided an estimate of what would be needed to destroy Iran’s nuclear program. Working from satellite photographs of the known facilities, Gardiner estimated that at least four hundred targets would have to be hit. He added:

I don’t think a U.S. military planner would want to stop there. Iran probably has two chemical-production plants. We would hit those. We would want to hit the medium-range ballistic missiles that have just recently been moved closer to Iraq. There are fourteen airfields with sheltered aircraft. . . . We’d want to get rid of that threat. We would want to hit the assets that could be used to threaten Gulf shipping. That means targeting the cruise-missile sites and the Iranian diesel submarines. . . . Some of the facilities may be too difficult to target even with penetrating weapons. The U.S. will have to use Special Operations units.

One of the military’s initial option plans, as presented to the White House by the Pentagon this winter, calls for the use of a bunker-buster tactical nuclear weapon, such as the B61-11, against underground nuclear sites. One target is Iran’s main centrifuge plant, at Natanz, nearly two hundred miles south of Tehran. Natanz, which is no longer under I.A.E.A. safeguards, reportedly has underground floor space to hold fifty thousand centrifuges, and laboratories and workspaces buried approximately seventy-five feet beneath the surface.

A propaganda contra o Irão vem aumentando regularmente. Semelhante à propaganda das WMD que conduziu à invasão do Iraque em 2002. Eu estava nos EUA, assisti a como se construía na cabeça dos americanos a falácia da inevitabilidade da invasão do Iraque. Então, poucos meios de imprensa escaparam à propaganda, ninguém conseguia negar as provas apresentadas. Pessoalmente, tenho de confessar que aceitei a invasão do Iraque, apesar de suspeitar das verdadeiras motivações dos EUA de George W. Bush.

Agora, qualquer capital de confiança que o governo dos EUA pudesse ainda ter em 2002, associado a um eventual direito de retaliação após o 11 de Setembro, está esgotado! Passou o prazo de validade da administração Bush , a confiança dos americanos no seu governo é a mais baixa da legislatura (na ordem dos 30%). Depois de 6 anos (para mim, o prazo de validade média de um governo democrático!), penso que seria altura para novas eleições nos EUA. As razões para um impeachment são hoje bem maiores do que no caso anedótico do Clinton.

Suzana, qual é a reação a esta reportagem da New Yorker, aí em NY? Ecos da NYr em NY?

Uma reflexão que terá de se fazer, algum dia, é sobre como o resto do mundo é também responsável pela máquina de guerra dos EUA, financiando as grandes dívidas económicas, interna e externa, da única superpotência mundial. A pergunta é a seguinte: seria possível ou desejável deixar cair o império em declínio? Voltarei a este assunto no futuro, com ciência.

Que o povo americano saiba proteger a sua democracia!

Fragmentos desordenados para um manifesto político

Inauguro hoje uma seção Manifesto no nosso blog. O que é e por que a necessidade de um Manifesto? Bom, primeiro, porque presunção e água benta cada um toma a que quer!

Mais seriamente, por que sou um indivíduo altamente politizado, mas sem partido. O que fazer então, quando um cidadão conclui que todos à sua volta e ele próprio parecem clamar por uma outra POLÍTICA, mas que todos se encontram paralizados, num estado de dormência consentida. TODOS parecemos conhecer as razões do mal-estar do nosso mundo, mas NINGUÉM parece ter ou querer ter a capacidade de pensar/construir um novo sistema. Complexo, muito complexo!

Leia mais aqui.

07 abril 2006

Mulheres na ciência, homens blogando !

Como Feminismo já era !?

Será que o anúncio da FAPESP é um anacronismo ?
Se Alison Wolf estiver certa, a resposta é sim !
Quem concorda com sistemas de quotas ?

Pela Ação Afirmativa !?

Programa distribui bolsas de US$ 20 mil

Agência FAPESP - 07/04/2006

Jovens cientistas de talento têm até o dia 15 de maio para se inscrever no programa de apoio patrocinado pela L’Oréal do Brasil em parceria com a Academia Brasileira de Ciências (ABC). Serão selecionadas cinco doutoras que receberão bolsas de auxílio a pesquisa com valor equivalente a US$ 20 mil em reais.

Para terem suas candidaturas validadas, as pesquisadoras devem ter obtido título de doutorado entre 1º de setembro de 2002 e 1º de setembro de 2006. Os prêmios serão atribuídos nas áreas de ciências físicas, biomédicas, biológicas e da saúde. Os resultados serão divulgados no dia 1º de agosto.

Segundo os organizadores do programa, as candidaturas válidas serão analisadas por um júri composto por seis pesquisadores indicados pela ABC, um representante da L’Oréal e um representante da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), outra organizadora do programa. As decisões serão tomadas por consenso.

Além dos critérios cronológicos e de áreas de trabalho, todas as pesquisas, para serem julgadas, terão que ser feitas em laboratórios brasileiros. O responsável da instituição onde a candidata irá trabalhar deverá dar o aval para o estudo.

O formulário para inscrição e a lista de documentos a ser entregues ao programa podem ser consultados no endereço
www.abc.org.br/loreal .

06 abril 2006

A origem do "blog" - nota rápida

Ando fascinada com a comunidade, ou melhor, comunidades que se formam por meio dos blogues. Devo admitir que não participo de blogue quase algum, tirando o nosso de ciência (ou ideias!) mas mesmo através de participação mínima já assisti a formação de muitas conexões interessantes, projetos (nascentes) e discussões que ajudam a desenferrujar o cérebro e manter a gente sempre atento.

Foi dessas observações que nasceu minha curiosidade sobre a origem do blog, vindo da palavra weblog, ou diário de rede. Parece que começaram em meados de 95 (os weblogs, pelo menos) e se tornaram mais populares desde 1999. Na minha busca sobre esse fenômeno achei o site abaixo, de um "consultor de bloguistas". Acreditam? O cara dá consultoria para quem quer divulgar seja lá o que for por meio de blog. Nesse link abaixo tem os resultados de uma pesquisa que fez sobre a origem dos blogues. Dêem uma olhada lá, é bem interessante!

http://hyku.com/blog/archives/000238.html

05 abril 2006

O feminismo já era!


Confesso, correndo o risco de receber comentários-bomba de minhas congêneres: nunca entendi bem esse papo de feminismo. Afinal, passados montes de anos de vida e quase o mesmo tanto de anos de estudo, continuo me achando bem diferente da média masculina. E não "evoluí" além da minha percepção infantil: ufa, ainda bem que nasci mulher! (É bem verdade que era meio frustrante ter que jogar sempre no gol, mas minhas aspirações futebolísticas nunca foram suficientes para me fazer invejar o sexo forte.)

Passei a vida estudando, tirei as notas que fiz por merecer, entrei em universidades repetidas vezes, tive bolsas (de estudo, além das a tiracolo), não tenho dificuldade em conseguir trabalho, fiz caratê, capoeira... minha vida não foi limitada por ter nascido (e permanecido) mulher (a não ser no futebol, em que acabei espectadora). Então de forma geral nunca me interessei por questões feministas.

Mas cá estou eu pensando no assunto. É que a Folha de São Paulo publicou no cderno Mais! do último domingo uma entrevista interessantíssima com a filósofa inglesa Alison Wolf, que me fez entender por que acho feminismo um saco: porque posso, e porque hoje em dia o feminismo cerceia mais do que uma suposta sociedade machista.

Explico, com idéias que me chamaram a atenção tanto na entrevista como no artigo recente de Wolf na revista britânica Prospect.

  • Eu posso achar questões feministas desinteressantes porque nasci em 1973, o que significa que a geração anterior à minha já tinha conquistado uma igualdade que torna possível que eu faça o que quero da minha vida. E que eu queira coisas diferentes de ser professora ou enfermeira, fazer balé e tocar piano.
  • Wolf diz que a sociedade preconizada pelos ideais feministas na verdade corresponde às aspirações uma minoria de elite. São mulheres que priorizam estudo e carreira. Segundo a filósofa, a percepção de que as mulheres ainda têm menos acesso ao ápice profissional e recebem salários menores tem duas explicações. Uma é resquício da geração pré-feminista: os cargos mais altos são ocupados por profissionais mais experientes, portanto mais velhos. Por isso, a igualdade aí é questão de tempo. Por outro lado, muitas mulheres ainda optam por ter emprego em vez de carreira, de forma a conciliar ganha-pão com maternidade. Estas são responsáveis pela desigualdade de salário e prestígio entre os sexos (ou tem que dizer gêneros?).
  • Cria-se um ciclo vicioso, em que as mulheres ficam prisioneiras dessas conquistas. Há a pressão da sociedade, por um lado. E por outro, criar um filho para ter sucesso profissional é cada vez mais caro. Meus pais investiram muito na minha formação, e se eu quero que meu filho (ainda hipotético) tenha pelo menos as mesmas oportunidades que tenho, melhor mergulhar no trabalho (em vez de escrever de graça como estou fazendo). E pronto, onde é que vou arranjar tempo para criar o tal filho? Se eu tivesse estudado menos, meu ponto de referência seria outro e a educação da minha prole seria bem mais barata.
  • As famílias pós-feministas têm menos filhos, se têm, e as mulheres estão menos disponíveis para prestar serviços à sociedade, na forma de trabalho voluntário, atenção à família etc. E cada vez menos querem ser enfermeiras ou professoras. Pode ser libertador para as mulheres, mas Wolf conclui seu artigo alertando para as conseqüências sociais dessa mudança.

Com certeza me lembrarei de outros pontos essenciais depois, mas fico por aqui. Quem quiser mais, deixo que a Alison Wolf fale por si. De minha parte, pela primeira vez posso dizer que aprecio os frutos do feminismo. Mas continuarei também dizendo, agora com respaldo acadêmico, que ele causa danos à sociedade. Quero que mulheres possam ser femininas e não acreditem, como é comum nos Estados Unidos, que é preciso parecer homem para ser bem-sucedidas. E quero poder optar por organizar minha vida profissional de forma a abrir espaço para filhos, sem que isso seja mal-visto na sociedade. Parece que a luta das mulheres da minha geração deve ser pelo direito de ser mulher, dentro da igualdade de direitos.

Veja Geyser e Strokur


Strokur em fase inicial de erupção - ainda ativo, ao contrário de Geyser. (Leia também sobre essa viagem para a Islândia, num texto abaixo chamado "impressões da Islândia" de 30 de abril).


Lagoas serenas de águas térmicas e bordas sulfurosas, perto de Strokur e Geyser. As moedas são superstição dos turistas e, apesar de poderem entupir as nascentes, dão um ar de fábula ao lugar.


Essas são as águas, hoje calmas, do velho Geyser.


Geyser parou de espirrar desde um tremor de terra recente. Mas seu tamanho e suas águas são fascinantes

02 abril 2006

Unamo-nos para divulgar ciência!

Disseminar e discutir conhecimento científico é uma obrigação não só de quem é diretamente pago para isso (os jornalistas de ciência), mas também de pesquisadores, estes pagos para produzir e disseminar conhecimento.

Nosso intuito neste blogue, além de expor idéias diversas, tem sido pôr em discussão questões científicas ou relevantes para a ciência. A idéia é que esses debates atinjam não só nossos colegas, mas também especialistas de outras áreas e não cientistas. A ciência não pode ser privilégio de poucos!

Um edital lançado pelo CNPq visa estimular o desenvolvimento de divulgação de ciência sob diversas formas.

Faço então aqui eco à iniciativa de Osame Kinouchi em seu blog SemCiência, e reforço a idéia de construirmos uma super central de informações científicas. A idéia daria forma ao que João Alexandrino já expressou aqui:

Já agora, clarifico, minha agenda política poderia ser definida como a libertação do Homem de todo e qualquer espartilho, inclusive a mim dos meus próprios. Não que eu preveja ter alguma relevância para essa causa, mas se surgir uma oportunidade estarei na linha da frente. O objectivo seria permitir o livre arbítrio em sociedades de indivíduos livres pela veiculação igualmente livre da INFORMAÇÃO/CONHECIMENTO! Banal? A questão é que só será possível se se criar um sistema neutro e hierarquicamente estruturado, em graus de inteligibilidade pelo cidadão, de veiculação da informação/conhecimento. Reparem que esta é muito diferente da informação/notícia, pelo que penso que a imprensa contemporânea não será capaz de cumprir a tarefa. Falo claro de uma biblioteca universal (não a da IURD).

Na prática, acho interessante um blogue que reúna quem quer que esteja interessado em contribuir para que a discussão de temas científicos seja de alcance da sociedade. Pesquisadores, professores, jornalistas, amantes da ciência etc. etc. Todas as áreas do conhecimento científico estariam representadas, permitindo trocas de idéias, debates e integração interdisciplinar, em diversos níveis de profundidade.

Uma iniciativa desse tipo exige um certo idealismo. É preciso que pessoas estejam dispostas a doar algo de seu tempo e conhecimento. Mas um projeto nos moldes do que o CNPq propõe pode ser um bom pontapé inicial, pois forneceria os recursos materiais e humanos para construir o arcabouço da Central das ciências. Quem se habilita?

E como acabo de sair da frente da televisão, tenho que admitir: o São Paulo jogou um bolão. Parabéns aos sãopaulinos!