02 novembro 2007

Mosquiteiros salva-vidas

Quer acabar com a malária, doença que na África mata cerca de 1 milhão de pessoas por ano? Distribua mosquiteiros. É o que advoga o economista Jeffrey Sachs.

Parece simples, mas não é bem assim. Uma boa revisão dos prós e contras está na reportagem de Leslie Roberts na edição de 26 de outubro da revista Science e no podcast (este é gratuito, mas requer ouvido treinado para o inglês) do mesmo dia.

Sachs estima que distribuir mosquiteiros para cada quarto na África custaria 60 centavos de dólar por pessoa por ano. São mosquiteiros tratados com inseticida, de maneira que não protegem só quem está debaixo dele. Pousar na rede basta para matar o transmissor da malária, portanto se boa parte das casas de um vilarejo está protegida, o benefício se estende até para quem dorme à mercê dos insetos. O chamado efeito de rebanho, segundo Sachs, poderia significar uma queda de 90% na transmissão da malária no continente.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) adotou a estratégia e recomenda que todos tenham acesso a mosquiteiros, de graça ou a preços reduzidos. Dados recentes mostram, no Quênia, uma queda de 44% na mortalidade por malária após um esforço concentrado de distribuição de mosquiteiros cujo efeito inseticida dura 5 anos.

Maravilha. Mas há quem discorde. Segundo Leslie Roberts, especialistas em malária temem que o investimento maciço em mosquiteiros desvie recursos que seriam direcionados para a pesquisa - desenvolvimento de vacinas, por exemplo, que ainda não existem. Além disso, a distribuição depende de imensas doações. E se os doadores cansarem da benevolência e não houver recursos para substituir ou recauchutar os mosquiteiros gastos? Alguns especialistas afirmam que nesse caso o problema não voltaria à estaca zero: ficaria bem pior. A idéia é que, com alguns anos longe da malária, o sistema imunológico dos africanos perderia o que tem de resistência à doença, e uma reincidência seria muito mais letal do que é hoje.

Além disso, distribuir mosquiteiros para todos os vilarejos e cidades africanos não custa só o preço das redes e do inseticida. Distribuir gasta combustível, gasta tempo de trabalho, depende de logística por vezes complexa. Se realmente funcionar, vale a pena. Senão, são recursos valiosos em regiões tão pobres. Resta muito a discutir.

Nas Américas a situação é melhor do que na África, mas está longe de controlada. A cada ano são registrados 1 milhão de novos casos de malária, segundo a Organização Pan Americana da Saúde (Opas - em espanhol aqui). Dia 6 de novembro, na semana que vem, é o Dia da Malária nas Américas, em que a Opas pretende fazer campanhas de conscientização e buscar parcerias que permitam estratégias de luta contra a malária neste continente. Mas a campanha é ainda tímida: o documento na página da Opas lista eventos só na Guiana, em Honduras e na capital norte-americana, Washington.

Usar mosquiteiros por estas bandas está nos planos da Opas. Seria uma luta integrada contra a dengue também, que este ano atinge níveis sem precedentes (escrevo assediada por mosquitos Aedes aegyptis, transmissores da dengue). Está nos planos, mas não sei se já está sendo feito.

PS. Acabo de ver um artigo na Plos Medicine sobre a uma experiência contra malária em Zanzibar, que inclui redes tratadas com inseticida. Não tive tempo de ler ainda, mas deixo a referência.

PS. Mais uma atualização: o site do Ministério da Saúde anuncia que mosquiteiros tratados estão entrando no Brasil, a começar pelo Acre.


A foto, de uma família protegida por uma rede tratada, eu peguei na página da OMS.

25 outubro 2007

O primata bipolar

Você já contemplou chimpanzés em algum zoológico? Eles são perturbadores, tão humanos mas sem a classe civilizada que desenvolvemos nos últimos 5,5 milhões de anos.

É exatamente na qualidade de espelhos do que (também) somos que o primatólogo holandês Frans de Waal nos põe diante dos chimpanzés e bonobos - estes últimos mais desconhecidos mas igualmente nossos parentes - no livro Eu, primata, recentemente publicado no Brasil pela Companhia das Letras. Veja
resenha na revista Pesquisa Fapesp.

A foto eu tirei do
álbum de família do próprio Frans de Waal

23 outubro 2007

Papagaios nas alturas

O Brasil é uma riqueza de papagaios. De todas as cores - azuis, verdes, vermelhos... Na edição deste mês da revista Pesquisa, contei um pouco do que aprendi sobre como o soerguimento dos Andes contribuiu para a diversificação dessas aves.


Não resisto a destacar os nomes. Pionus menstruus (à direita) tem a traseira vermelha; P. senilis tem a cabeça branca. Adorei!


Leia "No topo da montanha" aqui.
A imagem ao lado é de William Cooper, do livro Parrots of the World (1973).

19 outubro 2007

A Terra daqui a 50 anos

Mais uma no veio infantil. A Ciência Hoje das Crianças está promovendo um concurso: mande para a revista um desenho mostrando como será este mundo daqui a 50 anos. O vencedor ganhará uma assinatura da revista e uma viagem ao Rio de Janeiro ou a São Paulo para visitar museus de ciência. Só valem desenhos enviados até 31 de dezembro deste ano. Veja aqui.

15 outubro 2007

Ciência para crianças

Um novo blogue traz boas dicas para quem quer mostras às crianças as maravilhas da ciência. É o via gene Kids, da ana banana - codinome da Ana Claudia Lessinger do Via gene.
Sucesso nessa bela aventura, Ana.

10 outubro 2007

Para quem gosta de um bom dicionário

Um dia apareceram lá em casa cinco enormes volumes, que minha mãe herdou de um amigo. Era o dicionário Caldas Aulete.

Foi uma festa. Passamos um bom tempo aprendendo palavras sensacionais. Aprendi também que é o repositório por excelência da língua portuguesa, com mais de 200 mil verbetes, editado pela primeira vez em Portugal no final do século XIX.

A última edição brasileira foi feita nos anos 1980 e é hoje restrita a herdeiros como minha mãe e uns ratos de sebo obstinados e sortudos.

Não mais! Ele está agora disponível de graça aqui, onde qualquer um pode baixar o dicionário completo em seu computador. Além dos verbetes originais a versão eletrônica traz também 86 mil verbetes atualizados para a linguagem contemporânea, que estão ainda sendo revisados e aperfeiçoados.

08 outubro 2007

Ecossistemas em miniatura

São duas as miniaturas protagonistas de Fragmentos da Mata Atlântica do Nordeste, editado por José Alves Siqueira Filho e Elton Leme.

A Mata Atlântica nordestina já quase não existe, de tão fragmentada e invadida sobretudo por canaviais. No entanto, ali estão plantas e animais únicos, prestes a desaparecer de uma vez por toda caso nada seja feito.

E as bromélias são mini-ecossistemas. Ali brotam sementes, se abrigam animais, outros buscam alimento. Sua presença - e seu sumiço - indica o estado de saúde dos fragmentos de mata em que vivem.

Leia mais sobre a Mata Atlântica nordestina e suas bromélias no belo livro ao lado e também na revista Pesquisa de outubro, aqui.

02 outubro 2007

Novo blogue de saúde

O jornal New York Times acaba de lançar um novo blogue com atualizações diárias sobre ciência. Os assuntos são diversos e apresentados de forma acessível e interessante. Vale conferir.

26 setembro 2007

Amores expressos

Dezesseis escritores brasileiros embarcaram cada um para um canto do mundo. Na volta cada um escreverá sua história de amor. É o projeto "Amores expressos", que criou grande bafafá no meio literário e agora está em curso.

Cada um dos escritores mantém um blogue em que conta suas histórias. Ainda não consegui ler muito, a não ser o do Bernardo Carvalho que foi o primeiro que descobri. Além de serem belos escritores, acompanhar as aventuras é de certa forma participar da gênese de futuras obras literárias.

Veja aqui o site do projeto.

23 setembro 2007

Sem rede de segurança

Quando criança, Maria Bethânia queria ser trapezista. A lembrança está no final do filme "Maria Bethânia, pedrinha de Aruanda", de Andrucha Waddington. "Acabei não indo para a escola de circo, mas no fundo é esse o meu ofício", ela reflete enquanto contempla um picadeiro vazio. "Sem rede".

Quem já a acompanhou palco adentro sabe. E quem viu o filme andou junto, sentiu a tensão, a intensidade da oração em busca de força e concentração, a coragem para correr e mergulhar nos brados amantes da multidão. O sorriso que rasga o rosto de lado a lado não é simpatia, não é teatro, não é triunfo. É a energia que ela recebe e transborda. E é a música que aflora, não cabe só na voz.

A lição maior é avançar pela vida sem rede de segurança. Não importa se há um deus (ou muitos), nem seu nome: a vida vale muito mais se a gente enxerga o sagrado das coisas. Entrar num rio e parar diante de uma cachoeira, admirar a força sem combatê-la, fazer parte. Estar junto com quem se ama. Tudo sagrado.

A foto eu peguei aqui.

21 setembro 2007

Oceano revelado

Quer ver segredos dos mares poucas vezes revelados a olhos leigos? Vá a São Sebastião.


O biólogo Bruno Vellutini passou por este blogue para avisar que a partir do próximo sábado, 22 de setembro, até dia 19 de outubro estarão expostas fotografias de criaturas marinhas que mais parecem fugidas de mundos mágicos. É "Oceano: vida escondida", exposição organizada pelo pessoal do Centro de Biologia Marinha da Universidade de São Paulo.

Se a amostra do site for representativa, vale a viagem.

13 setembro 2007

11 setembro 2007

Encontros com a pesquisa: biritas e biriteiros

Foto: Miguel Boyayan, para matéria Pesquisa Fapesp


Esta semana traz mais um debate: estarão presentes a psicóloga Ilana Pinsky, a psiquiatra Laura Andrade e o jornalista Hugo Leal. O assunto será o consumo de bebidas alcóolicas no Brasil, tema da matéria de capa da revista Pesquisa Fapesp deste mês.

Em agosto, a Secretaria Nacional Antidrogas, do Governo Federal, apresentou o 1º Levantamento Nacional sobre os Padrões de Consumo de Álcool na População Brasileira. Realizado com cerca de 3000 pessoas com mais de 13 anos de idade de 147 municípios brasileiros, esse estudo é o mais abrangente retrato do consumo de álcool no país. Ao lado de outras pesquisas, poderá orientar a implantação das medidas da Política Nacional sobre Bebidas Alcoólicas, sancionada em maio pelo presidente Lula, que tem como meta reduzir o consumo de álcool e os danos a ele associados, como os acidentes de trânsito, o desenvolvimento de algumas formas de câncer, além de prejuízos emocionais.

Ilana Pinsky é psicóloga especialista no tratamento de dependência química. Ela estuda a influência da propaganda de bebidas alcoólicas sobre os jovens, além do hábito de beber e dirigir, é professora do Departamento de Psiquiatria da Unifesp e co-autora do 1º Levantamento Nacional sobre os Padrões de Consumo de Álcool na População Brasileira.A psiquiatra Laura Andrade é professora do Instituto de Psiquiatria da USP, onde coordenadora o Núcleo de Epidemiologia Psiquiátrica. Ela desenvolve levantamentos sobre a freqüência dos transtornos mentais – entre eles o abuso de álcool e suas conseqüências físicas, psíquicas e sociais – na região metropolitana de São Paulo. Hugo Leal é jornalista e responsável pela comunicação dos Alcoólicos Anônimos (AA), onde responde pelo contato com os profissionais de saúde e a comunidade acadêmica. Ex-dependente de álcool, há quase 8 anos Leal ministra aulas sobre o funcionamento do AA para especialistas da USP e da Unifesp que tratam dependentes de álcool.


13 de setembro, às 19h30
Auditório da Livraria Cultura do Conjunto Nacional, São Paulo.

A série Encontros com a Pesquisa é uma promoção da revista Pesquisa Fapesp com a Livraria Cultura. O evento ocorre mensalmente com uma palestra aberta e gratuita, seguida de debate com o público. Os temas debatidos fazem parte do universo da ciência e tecnologia e normalmente servem de base para reportagens de Pesquisa FAPESP. A Livraria Cultura do Conjunto Nacional fica na Avenida Paulista, 2.073, cidade de São Paulo. (tel.: 11 3170-4033).


29 agosto 2007

A Herança de Eça


Por Henrique Guimarães

Dia desses, fui ao cinema assistir ao “Primo Basílio”, de Daniel Filho. O filme até que é bom, principalmente se comparado aos últimos filmes a que assisti do diretor, além do que as atuações de Débora Falabella e Glória Pires, como a dupla antagonista feminina, é brilhante. Porém, apesar de muito elogiada, a transposição do romance de Eça de Queirós, da Lisboa do século XIX, para a São Paulo do fim dos anos 50, tira do filme uma das melhores características da literatura queirosiana: o mergulho crítico na sociedade lisboeta do século retrasado.

O público de 300.000 espectadores em duas semanas, obviamente garantido pelo elenco global, já garante a “O Primo Basílio” uma das melhores bilheterias do ano. Mas, ao mesmo tempo, não é nem um pouco garantido que haja um aumento na leitura dessas obras que põem em questão a família, a religião e os bons costumes, com a categoria desse mestre, que era Eça de Queirós.

Eça de Queirós é, junto com Machado de Assis, no Brasil, um dos mais brilhantes e geniais herdeiros da herança realista deixada por Flaubert, em língua portuguesa. Junto com outros portugueses muito conhecidos no Brasil, como Luís de Camões, Fernando Pessoa e José Saramago, Eça nos orgulha de sermos lusófonos, principalmente por sua literatura crítica, densa e possuidora de um ritmo muito característico.

“O Primo Basílio” não é a primeira experiência brasileira de adaptação da obra de Eça. Em 1988, a mesma obra foi adaptada para televisão, assim como em 2001 “Os Maias” que, pelo sucesso, merece uma análise mais profunda.

A série “Os Maias”, adaptada por Maria Adelaide Amaral e dirigida por Luiz Fernando Carvalho é uma, rara, tentativa bem-sucedida de adaptação do maior romance de Eça para televisão, que incluía também o enredo de outro romance do autor, “A Relíquia”. Muito bem dirigida, “Os Maias” também contou com excelentes atuações, destacando-se Walmor Chagas, como o patriarca da família Maia, Fábio Assunção – de atuação irregular na recente adaptação de “O Primo Basílio”, como o próprio – nesse caso como o protagonista Carlos Eduardo, e, por fim, Selton Mello, como João da Ega, o auter-ego de Eça. Com certeza, quem leu o livro, se identificou com a belíssima representação da Lisboa do século XIX, e mesmo aqueles que disseram sentir falta do Embaixador Steinbroken, ficaram estarrecidos com Dâmaso Salcede, na pele de Otávio Müller.


Portanto, para quem teve o prazer de ler os romances de Eça de Queirós, pode analisar as adaptações citadas, no caso de “Os Maias”, disponível em dvd. Para quem nunca leu Eça, está perdendo tempo, seja para mergulhar num mundo distinto do atual, ou para se surpreender com a pertinência de algumas críticas de Eça àquele período, que se encaixam perfeitamente nos dias de hoje.

18 agosto 2007

Mutações da fome

A matéria de capa da Pesquisa Fapesp deste mês trata das conseqüências de longo prazo da desnutrição infantil. Crianças mal alimentadas durante a gestação e os primeiros anos de vida podem carregar pela vida afora problemas sérios de saúde como hipertensão, diabetes e obesidade. Ana Lydia Sawaya, da fisiologia da Unifesp, há cerca de vinte anos investiga como a desnutrição infantil afeta o organismo. Seu trabalho mostra que alguns dos danos podem ser revertidos, e é o que faz o Centro de Recuperação e Educação Nutricional (Cren).

Fui ao Cren e fiquei emocionada com a dedicação das pessoas que ali trabalham. Elas vivem para dar uma nova chance de vida a crianças até então desprovidas de qualquer oportunidade. Cada passo, cada aprendizado é para a equipe do Cren uma vitória celebrada. A foto acima foi feita por Miguel Boyayan durante o horário de almoço das crianças menores.

Leia a matéria inteira aqui ou vá até uma boa banca.

16 agosto 2007

Células-tronco na livraria Cultura

Anunciei o debate desta semana e não quero ficar na propaganda. Ponho então aqui uma rápida síntese do que foi dito. Para saber quem é quem, veja aqui.

Mayana Zatz
Contou as lutas que têm sido travadas entre diversos setores da sociedade durante o processo de decidir se será ou não permitido usar células-tronco embrionárias humanas para pesquisa, no Brasil. Em breve será feita a votação final. Por isso ela considera vital disseminar informação de maneira que a sociedade tenha um embasamento sólido para formar sua opinião.

Ela trabalha com doenças degenerativas, principalmente crianças com distrofia muscular de Duchenne. É uma doença de origem genética em que a musculatura gradativamente se atrofia. Assim a criança não pode andar e acaba por perder a ação do diafragma e não pode mais respirar sem assistência. Com muito atendimento, respiradores e muito mais, essas pessoas vivem 20 anos.Tratamento com células-tronco é, por enquanto, a única esperança.

Mayana mostrou fotos dessas crianças e imagens dos embriões usados na pesquisa: são aglomerados com 8 células todas iguais, o todo muito menor do que o buraco de uma agulha de seringa. Não dá para comparar, segundo ela, a humanidade de uns e outros. Os embriões usados para pesquisa são sempre doados por casais que os têm congelados em clínicas de fertilidade. Não serão utilizados e não têm existência nenhuma, quando se pensa em desenvolver uma vida humana, a não ser por intervenção médica: implantá-los num útero por 9 meses etc. Por isso ela ressalta: usar esses embriões não equivale a aborto.

Ainda não se sabe para que células-tronco embrionárias servirão, a pesquisa está ainda em estágios pré-clínicos.

José Eduardo Krieger
Fez analogia com hardware e software: as células-tronco são o software que pode ajudar a entender o funcionamento estrutural do organismo. É possível que, ao cabo da pesquisa, se conheça o suficiente para poder reprogramar o funcionamento das células do corpo adulto e poder afinal prescindir de células-tronco. Só o tempo e a pesquisa dirão.

Ele usa células-tronco adultas como tratamento para problemas cardíacos. Para alguns casos elas funcionam, mas ainda não se sabe como nem o que acontecerá em longo prazo. Para que a ciência avance de fato, é preciso fazer experimentos em que parte dos pacientes recebe o tratamento e parte não recebe. Está em curso um grande experimento nesse sentido, ainda não há resultados.

Células-tronco são coringas celulares. As embrionárias podem assumir qualquer função; já as adultas - o que inclui células de cordão umbilical - só funcionam em algumas posições.

Mara Gabrilli
Jovem, teve um acidente de carro e perdeu o movimento do pescoço para baixo. No início não tinha nem como respirar sozinha. Quando voltou a conseguir respirar, a libertação foi tremenda. "Descobri que a felicidade é um estado interno", disse.

Apesar de não ter movimentos no corpo ela se considera privilegiada. Tem uma moça (carinhosíssima, aliás) que a acompanha sempre e faz tudo para ela, inclusive massagear suas pernas e mãos que sofrem com o frio do ar-condicionado; pôde tratar-se nos melhores hospitais; tem um motorista que a leva e carrega para os lugares. Ela luta - através de uma organização que fundou e em sua atividade política - para que os outros milhões de deficientes (3 milhões só em São Paulo, disse) tenham condições melhores de vida.

Ela também se considera privilegiada porque, ao contrário dos pacientes de Mayana, não corre contra o tempo. Sua situação de saúde é estável. Para ela, a informação é uma peça essencial para que a sociedade ajude a melhorar a vida de quem tem deficiências.

Ela participou de estudo com células-tronco adultas para tratar paralisia causada por impacto, como é o caso dela. "Tomei a injeção com células há três anos e continuo paraplégica", contou. É preciso muito mais pesquisa, e para isso é essencial a aprovação do uso de células-tronco embrionárias.

Jorge Forbes
Fez uma intervenção erudita que juntou poesia, filosofia e literatura. Seus dez aforismos pela vida, em que se perguntava sobretudo onde começa a vida humana, não acrescentaram fatos à apresentação. Nem teria como sintetizar, então fico por aqui.


Para apoiar a aprovação de pesquisas com células-tronco embrionárias, veja aqui.

13 agosto 2007

Encontros com a pesquisa: células-tronco

Desta vez será uma mesa-redonda: qual é o futuro das pesquisas com células-tronco embrionárias no Brasil? Venha ver o que os pesquisadores Mayana Zatz, José Eduardo Krieger, Jorge Forbes e a vereadora Mara Gabrilli têm a dizer.

O uso das células-tronco embrionárias humanas vem sendo intensamente debatido. Uma das razões é o artigo 5º da Lei de Biossegurança, aprovada no Congresso Nacional e sancionada pelo presidente da República em março de 2005, que autoriza as pesquisas com esse tipo de células-tronco. Em maio de 2005, o artigo 5º foi contestado no Supremo Tribunal Federal (STF) pela Procuradoria Geral da República com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade. Agora, o destino das pesquisas brasileiras com células-tronco de embriões humanos será decidido pelos ministros do STF.

A geneticista Mayana Zatz, da Universidade de São Paulo, atua na genética de doenças neuromusculares e pesquisas com células-tronco. José Eduardo Krieger é médico e professor da Faculdade de Medicina da USP. Atua na área de pesquisas cardiovasculares com ênfase em aspectos moleculares e regeneração cardíaca. Jorge Forbes é psicanalista e dirige as pesquisas clínicas da psicanálise com a genética no Centro de Estudos do Genoma Humano da USP. A vereadora Mara Gabrilli é tetraplégica desde 1994 e criou a organização não-governamental Projeto Próximo Passo que reúne mais de 50 atletas com limitações. Foi a primeira titular da Secretaria Especial da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida da Prefeitura de São Paulo, criada em 2005, para administrar projetos que melhorem a vida de cegos, surdos, cadeirantes e outros deficientes da maior metrópole do país.

A série Encontros com a Pesquisa é uma promoção da revista Pesquisa Fapesp com a Livraria Cultura. O evento ocorre mensalmente com uma palestra aberta e gratuita, seguida de debate com o público.

14 de agosto, terça-feira, às 19h30
Auditório da nova Livraria Cultura, situada no Conjunto Nacional (Avenida Paulista, 2.073, São Paulo).




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11 agosto 2007

O pensamento, um sextante

Banner do blogue da Escola da Ponte


A edição de junho da revista piauí trouxe um belo texto do Tom Zé que me remeteu à discussão de julho do roda de ciência: ensino básico, curiosidade e criatividade. Tom Zé conta suas experiências infantis de aprendizado: “Mais prazer tive ao aprender a amarrar o sapato. Amarrar sapato é uma coisa complicada, mas você pode se aproximar dela lentamente. Uma hora você vê o laço dado, outra hora alguém lhe dá uma primeira lição, ou seja, a primeira dobra do laço. Noutro dia você é capaz de pensar na segunda lição. A vantagem é que você sempre pode ver o sapato amarrado por alguém, para você comparar. E foi aprendendo essas coisinhas que percebi que o ato de pensar seria uma maneira de eu me mover dentro do mundo. Um sextante.”

É isso que falta. Aproveitar a curiosidade que toda criança tem e canalizá-la para um aprendizado mais amplo que transcenda o cotidiano. A discussão no roda
aqueceu alguns ânimos, mas não saiu do tradicional. Fui então procurar entender porque a experiência portuguesa da Escola da Ponte não se dissemina. Adianto desde já que não achei a resposta e torço para que entendidos passem por aqui com suas valiosas experiências.

A Escola da Ponte fica em Vila das Aves, no norte de Portugal (veja também na wikipedia), onde funciona desde 1976 – lá se vão trinta anos. Não há salas de aula separadas, há espaços comuns de aprendizado. Não há professores, ninguém que se apresente diante do grupo como portador único da sabedoria. As 220 crianças que ali estudam desenvolvem seus projetos de forma independente e solidária, e têm acesso indiscriminado aos 39 orientadores educativos. No início as crianças aprendem a trabalhar juntas, a gerir seu tempo e avaliar o que sabem. Aliás, a avaliação é assim: quando uma criança julga que sabe o assunto, põe seu nome na lista “Eu já sei” e um professor (ops, orientador) mais entendido avaliará o aprendizado da forma que julgar mais adequada. Por aí vai.

Mas o Brasil é o Haiti e é a Suécia, já disse o João Carlos. Como pensar em projetos de ensino que atravessem os abismos que separam regiões e classes sociais neste país? Eu não sei, mas aposto como o José Pacheco, fundador da Escola da Ponte, tem uma resposta. Para começar, um dos princípios básicos de seu projeto educacional é que cada criança é diferente das outras. Com potencial e dificuldades únicas. Daí o tratamento individual que cada estudante recebe dos orientadores educativos.


E mais, o Brasil não está parado. “Está a acontecer uma reforma silenciosa no Brasil, que tem um potencial humano tremendo e por isso é que venho viver no Brasil, para me afastar da Escola da Ponte e para participar desta transformação das escolas que, discretamente, clandestinamente, vem ocorrendo”, disse Pacheco numa entrevista. Por enquanto só há um exemplo notório: a Escola Municipal Desembargador Amorim Lima, no bairro paulistano do Butantã, que em 2004 começou a derrubar as paredes que dividiam salas de aula. Desejo longa vida à escola, e que a idéia pegue.

(Leia mais sobre a escola Amorim Lima aqui e aqui)


Este texto é parte de uma discussão no blogue roda de ciência.

Por favor, comentários aqui.


02 agosto 2007

Discurso embutido ou a essência bruta das idéias


Dizem-me que é difícil o que só pode significar que
Co-Memorandum
não cativa.

Mas é d'a essência bruta das idéias!

De repente o olhar se fixa num ponto,
foca e desfoca,
apreende e experimenta sensações,
emoções damasianas que formam imagens,
sentimentos que se imprimem no jorrar da linguagem cerebral.
O que recebe o olhar é múltiplo,
se não o parece,
múltiplo se fará,
de acrescentos, nos circuitos da rede neuronal.

Discurso embutido, o linguajar da essência bruta das idéias.

...e das imagens dos sonhos,
e das imagens que, muito raramente, confluem para uma Grande Idéia!?

31 julho 2007

Co-Memorandum

Buscando, algo se encontra,
na descoberta, viva a viagem!

con-templo,
mente abrranca,
desfumo o foco,
sangro,
logo estanca,
mal lhe toco.
longe logo se faz cperto,
fujo de lili-putz.
psico dela fico,
nela fico psico.
cperto me persegue,
para longe descerto,
cperto é ir de jegue,
vir-ar monge,
degredo ascético, cético, ético, poético.
estancada ferida,
sangue não flui,
no gelgo,
mosteiro desnudo,
abrranca a mente,
carne d'alva,
vou-me de lili-putz.
no cume,
foco na mente branca,
com-templo o tem-po,
corre flruído,
ascético, cético, ético, poético,

de uma viragem aem lili-putz.

In co-memoriam-do em discurso embutido

O espírito olímpico da torcida “diferenciada”

Por Henrique Guimarães

No dia 13 de Julho de 2007, estive no Maracanã para a abertura dos XV Jogos Pan-Americanos. Bela festa, cultura brasileira, templo do esporte, ingressos caros... Bem, é verdade que havia um setor que cobrava 20 reais pelos ingressos, mas daí para cima só a partir de 100. Apesar da maravilhosa apresentação de nível olímpico, o que mais foi debatido sobre esse importante momento do nosso esporte, foram as vaias ao presidente Lula. Crônica de uma tragédia anunciada. No dia anterior, na coluna de Anselmo Góis, do Jornal O Globo, já havia sido dito que no ensaio geral do dia 11, o presidente já era vaiado. Bem, o que se faz num ensaio geral é ensaiar.

Estranhas as vaias, pois o presidente foi eleito e reeleito com a suprema maioria dos votos no Rio de Janeiro, e é bom frisar que, claramente, a maioria do público era de cariocas. Mas aí é que importa o valor dos ingressos. Quem paga mais de 100 reais para ir a um evento como esse, é uma classe que se sente prejudicada pela tentativa de não privilégio característica desse governo claramente popular, e que é digno de muitas críticas. Críticas essas que devem ser feitas por cartas, manifestos em frente à sede do governo, ou, até mesmo, através de obras de arte, e não num momento em que o Brasil está sendo exposto, e o espírito olímpico está sendo proclamado. Não há nada mais simples quanto acompanhar vaias ou aplausos, ou até mesmo, não há nada tão acrítico quanto isso. Como disse Luiz Fernando Veríssimo em sua crônica “Cumplicidade”, ao Jornal O Globo do dia 19 de Julho: “A companhia do que há de mais preconceituoso e reacionário no país inibe qualquer crítica ao Lula, mesmo as que ele merece. Enfim: antes de entrar num coro, olhe em volta.”

Mas as vaias não pararam por aí... Enquanto a delegação de atletas norte-americanos passava pelo desfile das delegações, foram ouvidas as vaias nada hospitaleiras. Nada de respeito, o que se queria era usar meros atletas para uma destruição moral em praça pública. Para que servia então a chama de paz e espírito helênico que percorria o território Tupiniquim desde Junho?

A partir daí começaram os jogos... E eu, como aficionado que sou, estive em diversas competições. Vi um triste time do México ser massacrado pelo time de vôlei feminino do Brasil e também pela torcida, que “futebolisticamente” não tinha pena das massacradas. Esse mesmo time do vôlei brasileiro protagonizou junto com as cubanas um dos maiores jogos de voleibol de todos os tempos, mas, mesmo assim, as vitoriosas foram vaiadas pela torcida que presenciou aquele momento. Já o nosso time de futebol sub-17 protagonizou um vexame, ao perderem para o Equador e serem eliminados, os garotos de 16 e 17 anos foram chamados de “pipoqueiros”. No judô, as conseqüências foram mais sérias. Após objetos serem atirados pela torcida, furiosa com a decisão da arbitragem de punir a atleta brasileira na final do peso até 52 kg, dando a vitória para a atleta cubana, foi vista uma briga digna de socos e pontapés entre representantes das delegações cubana e brasileira.

Bem, ainda temos mais Pan, e eu, que ainda estarei em algumas competições, espero que esse nacionalismo irracional insuflado pela mídia seja substituído pela glorificação de nossos atletas e pela vitória do espírito olímpico. Como carioca, gostaria de ver a minha cidade apta a sediar os jogos olímpicos de 2016, e quero que seja real essa hospitalidade carioca que tanto se vê pelas ruas, mas que não é vista nas modernas instalações esportivas desses jogos. Cuidemos do nosso patrimônio, seja ele do governo municipal, estadual, nacional, ou até não governamental.

Sejamos mais críticos, e, ao mesmo tempo, mais respeitosos, para que continuemos sendo bem tratados pelo mundo afora. Ah, e quanto ao nosso presidente, repetirei a frase de Veríssimo sobre as vaias: “Olhe em volta”.


Rio de Janeiro, 22/07/2007.

18 julho 2007

Bússolas vivas

Bactérias são seres unicelulares que freqüentam até os recantos mais inóspitos do mundo. Li em algum lugar que há mais bactérias do que células humanas dentro do corpo de cada pessoa. Você é então mais bactéria do que gente.

Tudo isso me parece fantástico que chegue. Mas uma bactéria composta por várias células, que usa uma bússola interna para se orientar e tem um repertório de movimentos conquistados pelo batimento sincronizado dos flagelos de cada célula... Parece ficção científica, mas existe e foi descoberta por Ulysses Lins, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), numa lagoa carioca.

Leia matéria na Pesquisa Fapesp de julho, que além de aqui está nas bancas.

03 julho 2007

Feras devoradoras de gente

O livro Monstro de Deus - Feras pradadoras: história, ciência e mito, de David Quammen, acaba de ser lançado pela Companhia das Letras.

Recomendo vivamente - não porque traduzi o livro, mas porque cada momento do laborioso processo de tradução foi um imenso prazer.

Monstro de Deus conta sobre pessoas que vivem em proximidade com feras que as podem devorar - e por vezes é exatamente o que fazem. Quammen nos leva ao noroeste da Índia, onde vivem os últimos leões asiáticos e o povo maldhari, pastores de vacas e búfalos que há séculos convivem com as feras - e as respeitam. Nos Cárpatos romenos, ursos-pardos e pastores competem pelas cabras que estes últimos levam para passar o verão nas montanhas, pagos pelos proprietários. Na Austrália os Yolngu às vezes vão parar no estômago do crocodilo-marinho, que é parte central de sua mitologia. Por fim, no extremo oriente da Rússia, tigres siberianos e udeges sobrevivem ao frio.

A narrativa, sempre deliciosa, mergulha na história, na mitologia e na realidade dessas populações humanas e animais, todas ameaçadas de extinção. Pesquisadores dão sua perspectiva sobre como preservar a todos e atingir certa estabilidade.

O autor argumenta que as feras são centrais em nossa psicologia. Por isso estão na Bíblia, na literatura, nas lendas e nos filmes. Seu desaparecimento do planeta deixaria um buraco dolorido em nossas psiques.

David Quammen é autor de vários livros de divulgação de ciência que tiveram imenso sucesso de vendas no exterior.

29 junho 2007

Evolução no Masp

Darwin - a exposição - é um belo passeio pelo mundo da evolução. O visitante percorre a vida de Charles Darwin e refaz o percurso que o levou à elaborar a teoria da seleção natural - até hoje a melhor explicação para a diversidade biológica no mundo.

Mesmo que biologia não seja a sua área, não perca se passar por São Paulo - está em cartaz no Masp até 17 de julho. É deslumbramento para todos os olhos, como escrevi na edição de junho da revista Pesquisa Fapesp (leia a matéria aqui).

O macaco-prego da foto integra a exposição e foi fotografado por Eduardo Cesar para ilustrar a matéria da Pesquisa Fapesp.


Masp -- Avenida Paulista, 1.578, São Paulo; de terça a domingo, das 11h às 18h; de 4 de maio a 17 de julho ; R$ 15 (inteira) e R$ 7 (estudante); (11) 3251-5644


18 junho 2007

Jardineiros alados

Quem sabe aos poucos não melhora a má-fama dos morcegos? Pois eles são rematados beija-flores e jardineiros.

Acabo de ler no Jornal da Ciência e-mail que morcegos polinizam 13% das plantas da Caatinga e estão em terceiro lugar como transportadores de sementes. O estudo foi feito por uma equipe da Universidade Federal do Pernambuco.

Recentemente, o biólogo Gledson Bianconi (autor da foto ao lado), da Unesp de Rio Claro, e colegas mostraram que morcegos podem ser valorosos aliados no reflorestamento de áreas degradadas. Veja (um pouco) mais na nota publicada na Pesquisa Fapesp de junho.

12 junho 2007

Encontros com a Pesquisa: ciência e tecnologia no Brasil

Esta semana traz mais uma palestra da série Encontros com a Pesquisa.

Carlos Vogt, lingüista e poeta, ex-reitor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e presidente da FAPESP, e Ruy Quadros, do Instituto de Geociências da Unicamp, falarão sobre a importância dos indicadores de ciência e tecnologia para o desenvolvimento do Brasil.

A privatização, a desregulamentação e a disciplina fiscal, entre outras medidas, não foram suficientes para garantir o crescimento sustentável da América Latina. O caminho para desenvolvimento da região está na ciência e tecnologia. Nesse novo contexto, são ferramentas estratégicas para dar suporte às políticas públicas indicadores de ciência como o Índice Brasil de Inovação (IBI), concebido por Vogt e desenvolvido pela revista Inovação, em parceria com o Instituto de Geociências da Unicamp e o Instituto Uniemp.

Encontros com a Pesquisa é um evento com uma palestra aberta, seguida de debate com público, que ocorre uma vez por mês. Leia mais sobre o tema da palestra deste mês na matéria de capa da revista Pesquisa Fapesp de junho, nas bancas.

A palestra será na quarta, dia 13 de junho, às 19 horas, na Livraria Cultura do Shopping Villa-Lobos (Av. Nações Unidas, 4777, São Paulo).



31 maio 2007

Surpresas sem fim (sem fim?) na Mata Atlântica

Ontem tive a boa surpresa de abrir O Globo impresso e ser apresentada ao simpático Juliomys ossitenuis. É uma nova espécie de roedor da Mata Atlântica, floresta brasileira campeã mundial em biodiversidade e com níveis assustadores de desmatamento e extinção. A notícia está também no portal G1, mais completa.

Já publiquei a mesma foto, de Pedro Peloso, numa matéria na Pesquisa Fapesp em dezembro passado, em que eu falava sobre como as constantes novas descobertas são uma pista da imensa riqueza que corremos o risco de perder. Na época o Juliomys ainda não fora batizado, agora Reinaldo José Lopes conta um pouco mais da história.

O assunto me entusiasma e maravilha. Mas ainda por cima ao longo do meu doutorado tive a sorte de ouvir muitas lindas histórias de exploração Brasil afora por Leonora Costa e Yuri Leite. Esses dois ainda nos mostrarão muito sobre a Mata Atlântica, fiquem de olho. Obrigada, compadres!


24 maio 2007

III Mostra de Ciência no Cinema em Campinas


Entre os dias 27 de maio e 03 de junho serão exibidos em Campinas – no Museu da Imagem e do Som (MIS), centro da cidade, e no cursinho comunitário Herbert de Souza, na Vila União, filmes em que os monstros invadiram as telas. O tema da Mostra, monstros, foi escolhido pelo fato dessas fascinantes figuras do cinema trazerem à tona as tensões entre humano e não-humano, normal e anormal, natural e artificial, realidade e ficção, que também atravessam as produções científicas. Ao final da exibição, o público poderá ampliar suas aproximações com as produções cinematográficas em um descontraído bate-papo com pesquisadores e produtores das áreas de educação, cinema, literatura, jornalismo,quadrinhos, artes visuais e animação.

A Mostra é uma produção do projeto “Biotecnologias de Rua”, desenvolvido no Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) da Unicamp e financiado pelo CNPq. A programação completa pode ser obtida no site da Mostra (
www.labjor.unicamp.br/mostra) ou pelo telefone (19) 3521-5193.

Programação completa

Dia 27/05 (Domingo): Herbert de Souza

  • 15:00 Shrek (2001), de Andrew Adamson e Vicky Jenson, 100 min. Palestrante: Antonio Carlos Rodrigues de Amorim (Professor e pesquisador do OLHO-FE/Unicamp)
    Em um pântano distante vive Shrek, um ogro solitário que vê sua vida ser invadida por uma série de personagens de contos de fada: três ratos cegos; um grande e malvado lobo; e três porcos que não têm um lugar onde morar.Todos foram expulsos de seus lares por um maligno Lorde. Determinado a recuperar a tranqüilidade de antes, Shrek resolve encontrar o Lorde e com ele faz um acordo: todos poderão retornar aos seus lares se ele e seu amigo Burro resgatarem uma bela princesa, prisioneira de um dragão.(Recomendação: livre)

  • 18:00 A ilha do Dr. Moreau (1996), de John Frankenheimer, 100 min. Palestrante: Edgar Franco (Criador de quadrinhos, professor e pesquisadorda PUC-Poços de Caldas. Em um futuro próximo, um homem em missão militar sofre um acidente no seu avião. Depois de vários dias é resgatado por um cientista que o leva a uma remota ilha onde um famoso geneticista, vencedor do prêmio Nobel, faz experiências com DNA e tenta criar uma raça perfeita, transformando animais selvagens em seres humanos. Porém, esta estranha mutação vai criar situações imprevisíveis. (Recomendação: 18 anos)

Dia 29/05 (Terça): MIS


  • 18:00 Ed Wood (1994), de Tim Burton, 127 Min. Palestrante: Janaina Damaceno (Filósofa, produtora de cinema e pesquisadora da FE/Unicamp) Um retrato da vida de Ed Wood é concentrado nos anos 50, quando se envolveu com atores desajustados incluindo um Bela Lugosi em fim de carreira, e fez filmes de péssima qualidade, que o fizeram passar para a história como o pior diretor de todos os tempos. Tim Burton descreve a trajetória de um homem cuja biografia se molda pela exceção. Tudo em Ed Wood é desviante. Ele é uma espécie de monstro criado por sua própria fantasia. (Recomendação: 12 anos)

Dia 30/05 (Quarta):MIS


  • 18:00 Extermínio (2002), de Danny Boyle, 112 min. Palestrante: Rafael Evangelista (Jornalista e pesquisador do LABJOR Unicamp) Após invadirem um laboratório de pesquisas com macacos, um grupo deativistas encontra chimpanzés presos em gaiolas diante de telas que exibem continuamente cenas de extrema violência. Ignorando os avisos de um cientista que trabalha no local de que os macacos estariam infectos, os ativistas decidem libertá-los. Livres, eles andam como zumbis atacando e disseminando na humanidade o vírus que possuem. (Recomendação: 16 anos)

Dia 31/05 (Quinta): MIS

  • 18:00 O homem-elefante (1980), de David Lynch, 118 min. Palestrante:Wagner Geribelo (Jornalista, professor e pesquisador da Faculdade de ArtesVisuais-PUC-Campinas) A história de John Merrick, um desafortunado cidadão da Inglaterra vitoriana, portador do caso mais grave de neurofibromatose múltipla registrado, tendo 90% do seu corpo deformado. Esta situação tendia a fazer com que ele passasse toda a sua existência se exibindo em circos de variedades como um monstro. (Recomendação: 16 anos)

Dia 01 (Sexta): MIS

  • 18:00 Resident evil - O hóspede maldito (2002), de Paul Anderson, 100 min. Palestrante: Flávio Shimoda (Produtor de cinema, professor e pesquisador da Faculdade de Artes Visuais-PUC-Campinas) Alguma coisa terrível está oculta na “Colméia”, um enorme laboratório subterrâneo utilizado para pesquisa genética que é controlado pela Umbrella, uma dos maiores conglomerados do mundo. Lá há uma epidemia do T-Vírus, uma arma biológica de grande poder que acaba matando todos os cientistas que lá trabalhavam. Mas eles não morrem, são transformados em zumbis. (Recomendação: 16 anos)

Dia 02 (Sábado): MIS

  • 13:00 Monstros S.A. (2001), de Peter Docter e David Silverman, 106 min. Palestrante: Elenise Pires de Andrade (Professora da Faculdade Network epesquisadora do OLHO-FE/Unicamp) Uma fábrica de sustos constrói portais que levam os monstros para os quartos das crianças, onde eles poderão lhes dar sustos e gerar a fonte de energia necessária para a sobrevivência da fábrica. Entre os monstros que lá trabalham o mais assustador é James P. Sullivan, um grande e intimidador monstro de pêlo azul e chifres, chamado de Sully. Seu assistente é Mike Wzowski, um pequeno ser de um olho só com quem tem por missão assustar as crianças, consideradas tóxicas pelos monstros e cujo contato com eles seria catastrófico para seu mundo. (Recomendação:livre)

  • 16:00 À meia-noite levarei sua alma (1964), de José Mojica Marins, 78 min. Palestrante: Orestes Augusto Toledo (Historiador do MIS) O sádico e cruel coveiro Zé do Caixão pretende gerar um filho perfeito para dar continuidade ao seu sangue. Mas sua mulher não consegue engravidar e ele acaba violentando a mulher do seu melhor amigo. A moça violentada pelo coveiro quer se suicidar, para regressar do mundo dos mortos e levar a alma de Zé do Caixão. (Recomendação: 18 anos)

Dia 03/06 (Domingo): Herbert de Souza

  • 15:00 A noiva-cadáver (2005), de Tim Burton e Mike Johnson, 78 min. Palestrante: Victor F. Epifanio (Produtor de cinema, artista plástico, pesquisador bolsista do LABJOR/Unicamp) Em um vilarejo europeu do século XIX vive Victor Van Dorst, um jovem queestá prestes a se casar com Victoria Everglot. Porém acidentalmente Victor se casa com a Noiva-Cadáver, que o leva para conhecer a Terra dos Mortos. Desejando desfazer o ocorrido para poder enfim se casar com Victoria, aos poucos Victor percebe que a Terra dos Mortos é bem mais animada do que o meio vitoriano em que nasceu e cresceu. (Recomendação: livre)

  • 18:00 Corpo fechado (2000), de M. Night Shyamalan, 106 min. Palestrante: Giovana Scareli (Pesquisadora do OLHO-FE/Unicamp) Um espantoso desastre de trem choca os Estados Unidos. Todos os passageiros morrem, com exceção de David Dunne, que sai completamente ileso do acidente, para espanto dos médicos e de si mesmo. Buscando explicações sobre o ocorrido, ele encontra Elijah Price, um estranho que apresenta uma explicação bizarra para o fato. (Recomendação: 12 anos)

Locais da Mostra:
MIS - Museu da Imagem e do Som – Rua Regente Feijó, 859, Centro.Telefone: 3236-7851Herbert de Souza - Cursinho Pré-Vestibular – Rua Dusolina Leone Tournieux, 249, Vila União . Telefone: 3223-0617Dia 27/05 (Domingo): Herbert de Souza


Resumos dos filmes adaptados de: http://adorocinema.cidadeinternet.com.br/
Financiamento: Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq)
Parcerias: Museu da Imagem e do Som (MIS), Cursinho Pré-Vestibular Herbert de Souza
Apoio:100% Vídeo

23 maio 2007

Viva a mata

Quem estiver em São Paulo no próximo fim de semana, inclua esta nas possibilidades de passeio: o Viva a Mata no parque do Ibirapuera.

É um evento organizado pela ONG SOS Mata Atlântica, que chama a atenção para a floresta em cima da qual São Paulo - e tantas outras cidades - foi instalada.

São palestras, atividades, apresentações de painéis de pesquisa sobre a Mata Atlântica, etc. Promete ser interessante. Veja mais no site.

11 maio 2007

Encontros com a Pesquisa: Júlio César Voltarelli

O imunologista Julio César Voltarelli, do Centro de Terapia Celular (CTC) da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, ligada à Universidade de São Paulo, faz a terceira palestra da série Encontros com a Pesquisa, às 19 horas do dia 15, terça-feira. A série é uma promoção conjunta da revista Pesquisa FAPESP e da Livraria Cultura do Shopping Villa-Lobos, de São Paulo. Voltarelli vai falar sobre o uso de células-tronco adultas em tratamentos experimentais contra o diabetes melito do tipo 1, também chamado de juvenil, e outras doenças auto-imunes.

O trabalho de Voltarelli foi notícia no mundo todo em abril, quando os promissores resultados de um experimento conduzido por sua equipe foram divulgados. Por meio de uma abordagem clínica que recorre a altas doses de quimioterapia seguidas de um transplante de células-tronco adultas originárias da medula do próprio paciente, Voltarelli e seus colegas de Ribeirão Preto conseguiram livrar 14 diabéticos recém-diagnoticados da necessidade diária de tomar doses de insulina. A terapia, cara e arriscada, ainda não é a cura da doença, mas representa um passo importante nesse sentido.

Professor titular do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Voltarelli tem experiência em imunologia clínica, com ênfase em transplante de células-tronco hematopoéticas em doenças auto-imunes, doenças hematológicas malignas e benignas. Também é especialista no diagnóstico e tratamento de imunodeficiências secundárias, doenças reumáticas e na seleção de doadores para transplantes renais e de medula óssea.

Encontros com a Pesquisa é um evento com uma palestra aberta, seguida de debate com o público, que ocorre um vez por mês com um cientista de ponta que vai falar de seu trabalho e comentar temas que serviram de base para reportagens de Pesquisa FAPESP. O trabalho de Voltarelli está na edição de maio da revista Pesquisa Fapesp.


A Livraria Cultura do Shopping Villa-Lobos fica na Av. Nações Unidas, 4777, cidade de São Paulo (tel: 11 3024-3599).


05 maio 2007

O que são raças?

Falar em raças humanas arrepia a gente. Lembra racismo, eugenia, discriminação, desigualdade social. Daí a necessidade de organizar o pensamento. A meu ver racismo e raça são duas discussões diferentes. Neste caso, se existem raças, é uma questão biológica e não social.

Li recentemente um artigo de Sérgio Pena, da UFMG, e Maria Cátira Bortolini, da UFRGS, ambos geneticistas. Eles apresentam uma análise genética muito interessante da população brasileira, um amálgama de origens africanas, européias e indígenas. Mas discordo de vários aspectos e um deles é a ausência de definição de raças.

Uma fonte de confusão é a dificuldade em distinguir aspectos biológicos e sociológicos. Não é a biologia, mas as oportunidades sociais, que fazem com que poucos negros cheguem ao topo da escala social brasileira. Isso diz muito sobre injustiça social, mas nada sobre a existência de raças.

O artigo dos geneticistas mostra que é possível distinguir geneticamente grupos continentais - africanos, europeus e ameríndios, no caso. Para mim, essas são as raças. O brasileiro é uma mistura, tudo bem, mas isso não prova a inexistência dessas raças originais.

É comum o argumento de que são poucos os genes responsáveis pela cor da pele, portanto desimportantes. Desimportantes por quê? São responsáveis por características que se diferenciaram nos grupos continentais devido a pressões ambientais diversas ao longo do processo evolutivo. São desimportantes sim em conferir mais ou menos valor às pessoas, mas aí entramos no âmbito social.

A edição de abril da revista Pesquisa Fapesp veio recheada com raças, do ponto de vista biológico e social. Muito do que acho sobre o assunto já escrevi neste mesmo blogue, não repetirei. De lá para cá, pouco mudou no meu pensamento. Mas li mais e vi a palestra do Sérgio Pena, e aprendi uma coisa: no Brasil já não faz sentido falar em raças. Mesmo do ponto de vista médico, que em muitos casos deve levar em conta diferenças genéticas pois geram fisiologias distintas, neste país a miscigenação já não permite associar aparência física a características genéticas.

Mas mais uma vez, isso não quer dizer que raças não existam! Eu acho que existem e ainda bem.


Este texto integra a discussão de maio do roda de ciência.
Por favor, comentários aqui.


26 abril 2007

O problema é nosso

Mais uma vez vai chegando o fim da vigência de um tema no roda de ciência e não consegui participar. Juro que não é de propósito! Hoje finalmente consegui me pôr a par da discussão, mas continuo de certa forma paralisada. A mesma paralisia, me parece, que impede que cada um - eu inclusive - incorpore ao seu modo de vida a consciência de que nós (eu, você e os outros) contribuímos para a devastação do mundo e agora temos que ir atrás de remediar o malfeito.

O problema é que a tarefa parece hercúlea, tão grande que não se sabe por onde começar. Daí a paralisia. Então esperemos que os governos decidam o que fazer, enquanto lemos os jornais - na melhor das hipóteses.

A imprensa tem acompanhado o assunto de perto, afinal não se pode ficar de fora do assunto do momento. Costumo ler a Folha de S. Paulo e praticamente todos os dias a página de ciência traz algo sobre mudanças climáticas. São estudos que demonstram que o aquecimento global já chegou, são discussões, são políticas. Mas fico sempre vazia depois da leitura. Acho que é o problema costumeiro em divulgação de ciência: as informações vêm de cima, de longe. O cientista - e quem dirá seu conhecimento - está muito longe de cada um de nós. Não envolve, portanto.

Como fazer para incluir todos e qualquer um nessa discussão, como participantes ativos? Não sei a resposta, pergunto aqui para que me ajudem a pensar. Vejo na televisão algumas campanhas nesse sentido. Como a da ONG Greenpeace, que conclui uma sucessão aterrorizante de imagens de devastação com declarações como: "A sua geração não queria mudar o mundo? Parabéns, vocês conseguiram". No alto de seu site, uma foto de floresta destruída. Com o cursor do mouse ("rato", dirão o Caio e o João - e concordo que é muito melhor) o internauta pode "fazer algo". Uma apresentação inteligente. Mas não basta brincar com fotografias nem dar dinheiro ao Greenpeace.

Talvez museus de ciências, daqueles interativos, possam fazer algo. Usar os modelos e o conhecimento acumulado em brincadeiras-simulações que mostrem às crianças (e seus pais) atitudes pequenas e grandes que podem fazer diferença no dia-a-dia. Será que estão fazendo isso? Vou perguntar ao Marcelo Knobel, físico e divulgador de ciência que está percorrendo os Estados Unidos com uma bolsa da fundação Eisenhower para pesquisar em que pé está a cultura científica por lá (acompanhe seu diário de viagem).

Está lançado o desafio: como criar um debate e uma participação reais que envolvam a sociedade mundial?



Em termos de políticas de governo, li nalgum lugar que a China (acho) vai fazer umas cidades planejadas ecológicas. Reconstruir o mundo é complicado, mas que tal estipular regras para tudo o que for feito de novo respeite o ambiente? Novas casas e prédios deveriam ser obrigados a usar a tecnologia mais moderna de economia de recursos, fontes alternativas de energia, tratamento de efluentes, sei lá mais o quê. Não parece tão difícil.


Este texto é parte da discussão sobre aquecimento global no roda de ciência.
Por favor deixe comentários aqui.

25 abril 2007

Encontros com a pesquisa: Sérgio Pena fala sobre as origens africanas do brasileiro

Os escravos trazidos da África deixaram um legado incontestável no povo brasileiro. A extensa miscigenação racial que se vê hoje faz de grande parte dos brasileiros um amálgama genético.

Sérgio Pena, geneticista da Universidade Federal de Minas Gerais, contribuiu para detalhar as origens de nossos genes. Os resultados de seu trabalho, descritos na matéria de capa da revista Pesquisa Fapesp de abril (nas bancas), quantificam não só essa mistura, mas detalham quais regiões da África mais contribuíram para o contingente africano no Brasil.

Pena falará hoje em São Paulo, como parte da série "Encontros com a pesquisa", promovida pela Pesquisa Fapesp em colaboração com a livraria Cultura. A palestra, gratuita e aberta a qualquer interessado, será na Cultura do Shopping Villa Lobos, hoje (25 de abril) às 19h.

11 abril 2007

A vida na lama

O catador de caranguejo depende do manguezal para viver. Dali ele tira seu parco sustento e a sabedoria que passa de uma geração para outra. Mas não é predador. Sua colaboração e seu conhecimento são essenciais para a própria conservação do caranguejo-uçá, espécie de destaque na culinária brasileira.

A foto ao lado é de André Alves, do Projeto Caranguejo.

Leia matéria na Pesquisa Fapesp que acaba de chegar às bancas. E abaixo, relato de quem sabe mais do que eu.


O homem da lama

Acorda todo dia pra se atolar
Na fábrica chamada manguezá
Ele, o homem do caranguejo-uçá
Seu relógio é a maré e sua persistência a fé
Pra catar o bicho
Que anda de marcha a ré
Numa verdadeira batalha
Com a mão ou com o pé
Nessa jornada sem fim ele nem imagina
Que esteja tudo tão ruim
E olha pro seu amigo caranguejo
E diz assim:
O que aconteceu
Com o mangue meu e teu?
Ó meu Deus...


Valdemar Vergarta Filho,
Manguezal em cordéis, copiado do
site do Projeto Caranguejo

20 março 2007

Encontros com a ciência

O neurocientista Miguel Nicolelis, que depois de estabelecer sua carreira na Universidade Duke (Estados Unidos) está investindo em turbinar a pesquisa neurocientífica brasileira, dará amanhã (quarta, 21 de março, 19 horas) a palestra "A neurociência de ponta no Brasil".

É a primeira palestra da série mensal "Encontros com a ciência", promovida pela revista Pesquisa Fapesp e pela Livraria Cultura. Será na Livraria Cultura do Shopping Villa Lobos, em São Paulo.

Veja mais aqui.
Para mais sobre o trabalho de Nicolelis, aqui e aqui.

16 março 2007

Muito além do DNA

O Projeto Genoma Humano prometia mapear todas as nossas doenças - manifestas ou potenciais - ao destrinchar o nosso material genético. Mas eis que a grande promessa genética para a medicina não vem do DNA, mas de seu "primo pobre" RNA.


Pesquisadores no mundo todo têm descoberto que são diversos os tipos de RNA com funções essenciais de controle da expressão dos genes e de muito o que acontece em nosso organismo. Mas a estrela maior tem sido o RNA de interferência, ou RNAi, com grande investimento da indústria farmacêutica.

Leia mais em "De servo a senhor", na revista Pesquisa Fapesp de março, agora nas bancas. (A ilustração ao lado, publicada na matéria, é de Cárcamo)

Veja também vídeos explicativos e mais informações na ótima página da NOVA.

O problema da imprensa com a ciência...

...está bem explícito no texto que George Monbiot escreveu no Guardian de 13 de Março de 2007. Deixo um excerto do artigo que pode ser lido na integra aqui.

...Cherry-pick your results, choose work which is already outdated and discredited, and anything and everything becomes true. The Twin Towers were brought down by controlled explosions; MMR injections cause autism; homeopathy works; black people are less intelligent than white people; species came about through intelligent design. You can find lines of evidence which appear to support all these contentions, and, in most cases, professors who will speak up in their favour. But this does not mean that any of them are correct. You can sustain a belief in these propositions only by ignoring the overwhelming body of contradictory data. To form a balanced, scientific view, you have to consider all the evidence, on both sides of the question....

Sem mais comentários.


28 fevereiro 2007

Muitos credos, uma só busca

A discussão de fevereiro no Roda de ciência mostrou que quando o assunto é ciência e religião, há uma tendência forte de se polarizar e escolher campos. Mas não precisa ser assim. Acabo de ler The Creation, de Edward O. Wilson, onde ele defende justamente que religiosos e não religiosos podem ter muitas diferenças, mas as semelhanças são muito mais importantes.

Há quem acredite que Deus – ou alguma divindade – fez o mundo; há quem defenda que a ciência já conseguiu explicar muito do processo evolutivo e não resta dúvida: o mundo não foi criado como ele é hoje. Ao contrário, quem vê o mundo com olhos científicos não tem dúvidas de que ele passou por milhões de anos de evolução em que formas de vida mais e mais complexas foram surgindo conforme pressões do meio ambiente.

O grito de Wilson em The Creation é simples: não importa como o mundo surgiu. O que importa é para onde ele vai. E do jeito que vamos, vai para o brejo (metafórico, porque os brejos naturais também caminham para o cadafalso). E se não concordamos sobre quem fez o mundo, restam poucas dúvidas (5%, segundo o relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática) sobre quem é responsável por sua destruição: nós mesmos – e isto não é metáfora, eu e você estamos incluídos nesse “nós”, por mais consciência ecológica que tenhamos. E se não é ainda, nosso objetivo deve ser um só: preservar este planeta.

The Creation é uma carta para um pastor batista – o ramo da fé que fez parte da infância do próprio Wilson. Seu texto é sucinto, poético e envolvente. E convincente. Através de exemplos e explicações sobre a natureza, o autor deixa claro para qualquer leigo que o funcionamento da natureza é complexo e depende de interações tão inúmeras que não há como assumirmos o controle. E mais: afirma que espécies que consideramos insignificantes, como bactérias ou insetos, podem cumprir papéis tão essenciais que sua extinção causa desequilíbrios fatais ao ecossistema no qual vivem. Mas se o ser humano se extinguisse, os ecossistemas naturais não sofreriam nada com isso. Muito pelo contrário.

Para ajudar a salvar um mundo natural que sequer conhecemos (ele estima que 80% das espécies ainda estejam por descobrir, mas se não fizermos nada metade dos seres vivos terrestres estarão extintos até o fim deste século), Wilson invoca o fascínio natural que temos pela natureza. Segundo ele toda criança é um explorador, um naturalista, um selvagem no bom sentido. Se estimularmos isso em nossas crianças, elas podem tornar-se advogados, médicos ou engenheiros. Mas serão naturalistas, e isso é o que importa.

E ao endereçar seu texto a um pastor, prega uma união que transcenda credos: “...nossas diferenças metafísicas têm efeito mínimo sobre a conduta de nossas vidas. Meu palpite é que eu e você somos mais ou menos igualmente éticos, patrióticos e altruístas. Somos produtos de uma civilização que surgiu tanto da religião como do Iluminismo baseado em ciência. Não teríamos problemas em participar do mesmo júri, lutar as mesmas guerras, santificar a vida humana com a mesma intensidade. E com certeza também repartimos um amor pela Criação”.

Quando, ainda menino, se apaixonou pela natureza, Wilson enveredou pelo estudo da evolução e deixou a religião para trás. Tornou-se um biólogo de grande renome e dedica sua vida a entender e proteger a natureza. Através do convite ao pastor, ele inclui nesse caminho aqueles que não acreditam na teoria da evolução. E é um convite que pode render frutos. Na semana passada saiu no Estadão (ver aqui no Jornal da Ciência on-line) uma entrevista com Paulo Barreto, do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), em que afirma que o discurso religioso tem mais impacto do que o científico, quando se trata de defender o meio ambiente.

Demo-nos as mãos. Somos todos irmãos neste mundo.


A foto acima, do cerrado no Parque Nacional de Emas, é de Frans Lanting, que ilustra também a capa de The Creation. Suas fotos são absolutamente deslumbrantes, vale visitar seu site.


Este texto é parte da discussão de fevereiro no Roda de ciência. Comentários aqui, por favor.


P.S. Depois de escrever este texto descobri que o livro de Wilson será publicado no Brasil pela Companhia das Letras, mas a data é ainda incerta.