25 fevereiro 2007

Ode a Damásio e o conceito de DEUS


O corpo e a mente na origem da consciência coletiva de...DEUS

Noto a seguinte citação do filósofo francês do séc. XVII Mallebranche, no livro do neurocientista português António Damásio “Feeling of what happens: body and emotion in the making of consciousness” (Harcourt Brace, 1999), publicado no Brasil com o título “O mistério da Consciência: do corpo e das emoções ao conhecimento de si" (Companhia das Letras, 2000):

É através da luz e de uma ideia clara que a mente vê a essência das coisas, números, e extensões. É através de uma ideia vaga ou através do sentimento que a mente julga a existência de criaturas e que conhece a sua própria existência.

Lendo e ouvindo o conhecimento da ciência nascente de Damásio, refinando empiricamente o pensamento de filósofos como Aristóteles, Demócrito e Descartes, entre outros, tomo consciência mais profunda do que era uma verdade intuitiva. Não existe separação entre corpo e mente, entre corpo e a alma das emoções e dos sentimentos. Um é produto do outro e vice-versa, num processo de conhecimento integrado do indivíduo, e de homeóstase do seu meio interior, e deste feito indivíduo para conhecer o meio exterior.

Milhões de enervações energizadas levam constantemente informações de todo o corpo a centros de processamento que aferem o estado do corpo. Esse estado do corpo é reproduzido sob a forma de uma consciência básica do indivíduo, a consciência de si próprio. São alterações neste estado que provocam estados de EMOÇÃO, reações básicas e inatas, que têm papel fundamental na sobrevivência do indivíduo. Estas EMOÇÕES podem parecer conscientes ou inconscientes para o indivíduo, ser processadas, memorizadas e usadas a qualquer momento, sob a forma de SENTIMENTO, existindo este já independentemente do estímulo original. Exemplo: quando sofremos uma queimadura, produz-se uma EMOÇÃO que nos leva a reagir instintivamente; essa EMOÇÃO será armazenada sob uma forma de consciência estendida, o SENTIMENTO, que poderá ser ativado sempre que pensarmos em queimadura. Esse SENTIMENTO poderá futuramente ser ativado de forma voluntária ou involuntária. Damásio mostra-nos como essas consciência básica e estendida são o fundamento de uma estrutura de consciência superior, que compreende a razão, inteligência e criatividade. Que sendo fundamental à consciencia de si, essa EMOÇÃO e SENTIMENTO estão sempre presentes nas manifestações da consciência superior.

Mallebranche, como outros antes e depois dele, parecia já intuir que embora o ser humano tome consciência superior do mundo através de sistemas de armazenamento e organização de informação e do seu processamento criativo e racional, a consciência, a razão e a criatividade são co-adjuvadas e guiadas pela emoção, como forma primeira de percepção, e pelo sentimento como forma mais avançada de processamento, mimético ou criativo, da memória das emoções. Onde isto me leva? A estabelecer uma analogia que me conduz ao conceito de DEUS, e à conclusão da sua existência.


O conceito de DEUS

DEUS existe? Estendendo livremente o pensamento de Mallebranche e a ciência de Damásio, DEUS existe como produto daquela visão mais esfumada da realidade, do seu processamento e transformação criativa. Como a ciência procura ser o produto mais representativo da consciência superior, razão e criatividade, DEUS e o seu sub-produto civilizacional, a religião, resultam da produção de um sentimento criativo de DEUS, talvez processamento da emoção com funções homeostáticas que Damásio tão bem descreve, transportadas para um contexto coletivo de construção civilizacional. Qual a sua origem? Por complexo que seja desvendar a história, algumas pistas podem ser buscadas no processo de construção de coletivos humanos gradualmente mais alargados. Deixo Damásio e procuro agora inspiração em Jared Diamond (de "Germs, guns and Steel" – Norton & Co. 1999; no Brasil, "Armas, germes e aço" – Record 2001).

Diamond apresenta-nos a ideia de como a religião organizada (diferente da espiritualidade típica de indivíduos ou de pequenos grupos, que precede a religião) acompanhou o crescimento e estruturação das sociedades humanas, desde o bando, tribo, 'régulados' até às grandes civilizações-estado. O título do capítulo onde o tema é abordado é interessante e revelador: "From egalitarianism to kleptocracy". A hipótese discutida é a de que o poder secular de reis e o divino dos sacerdotes foram no início formas de transferência de poder do indivíduo, integrado em pequenos grupos aparentados (bando, tribo), para entidades representativas do interesse coletivo (?) para resolução de disputas em grupos grandes de indivíduos largamente não-aparentados e desconhecidos ('régulados' e estados). E isto porque no início da nossa existência como espécie, não éramos socialmente muito diferentes de chimpanzés, vivendo em pequenos grupos cujos indivíduos não hesitavam em matar qualquer indivíduo estranho ao grupo. Diamond discute evidências (baseadas em populações da Nova Guiné) de que, no início da formação de sociedades mais abrangentes, seria comum encontrar indivíduos desconhecidos tentando encontrar laços de parentesco entre si, mesmo que afastados. Poderiam demorar horas, até decidirem se deviam matar-se ou não! Conseguem imaginar? Bárbaro, mas delicioso! Bom, resumindo, existe uma tendência apoiada por fatos históricos de que quanto maior a organização política e religiosa de uma sociedade, levando a uma maior identificação do indivíduo com o coletivo, maior o sucesso dessas sociedades ao longo da história da humanidade. Daí se poder pôr a hipótese de as tendências à religião ou outras formas de poder organizado terem resultado de um processo seletivo. Faz sentido embora, como qualquer outro fato histórico, seja difícil de provar de forma completamente científica.

Onde entraria Damásio nesta história? A ciência e religião como corpos de conhecimento humano têm necessariamente uma génese comum, mas talvez com objetivos distintos, num contexto evolutivo. São transposições para uma esfera coletiva de algo que já se manifesta no indivíduo. O conceito de DEUS seria análogo à emoção, que desempenha um papel homeostático, que nem sequer precisa ser notado conscientemente pelo indivíduo. A religião representaria então a transposição do SENTIMENTO de DEUS, advindo da EMOÇÃO, para a esfera coletiva de organização associada à ordem social. Para isso teria sido necessário inscrever o conceito de DEUS na cultura, representando-o na linguagem simbólica, dando-lhe forma, doutrina, corpo e espírito. Nesse sentido, DEUS e a religião tornaram-se omnipresentes na maior parte das civilizações humanas, de forma que até quem rejeita o conceito e as suas manifestações reais não se liberta da sua influência. A cultura como forma de memorização coletiva, um cérebro que complementa o indivíduo, e o enforma, de forma a que ele se crie sob a memória da história das civilizações. É desta forma eficiente que nos podemos transformar e evoluir mais rápido que qualquer outra forma de vida no planeta. Mesmo que as bactérias, se tivermos em conta a evolução cultural.

DEUS existe como o AMOR e o MEDO, as ESPÉCIES e sua origem pela EVOLUÇÃO ou a RELATIVIDADE. Isto é, como conceito, como forma de compreender e produzir o mundo em que vivemos. Tal como a emoção e o sentimento são essenciais para e evolução da inteligência superior, evoluida apenas nos humanos, DEUS e a religião têm acompanhado a ciência na evolução construída das civilizações humanas. Podemos argumentar sobre as diversas origens materiais deste conceitos, mas seria ilusório apoiar a imaterialidade de apenas alguns deles. Como Damásio nos ensina, não há como fugir da materialidade na produção de CONSCIÊNCIA.

DEUS existe para além da nossa consciência coletiva histórica? Não sei, como o Freud do texto do Rogério Silva, não penso nisso. Decidi que a minha consciência, seja básica, estendida ou superior, não pode debruçar-se seriamente sobre o assunto. No entanto, tenho aprendido a respeitar, e até admirar, aquelas consciências iluminadas (no sentido de Mallebranche) que o conseguem. Desde que todos tenhamos plena consciência de que a humanidade ultrapassou, em alguns lugares mais que noutros, um certo ponto da sua ainda jovem história. Assim, devemos aceitar e aprofundar a pluralidade de formas de consciência humana, entender os seus mecanismos e contextos de funcionamento, compreender que embora indissociáveis na construção da natureza humana, não devem ser confundidas. Penso que esta visão leva ao pluralismo de Isaiah Berlin, mantendo a clareza tantos dos conceitos como do entendimento da sua função.

As religiões têm capacidade de evoluir, acompanhando a ciência na sua busca de falsificação/corroboração da matéria. Isso tem-se verificado em alguns casos, como a aceitação da teoria da Evolução por parte da Igreja de Roma. Esse processo é lento porque existe uma inércia inata na evolução dos paradigmas, que também é comum à ciência. A religião deveria voltar às suas origens, buscando aquilo que ainda não pode ser abordado pela ciência da matéria, e aí procurar e satisfazer a necessidade do conceito de DEUS.


Apophenia

...
Vejo luz. Um caminho com atalhos e desvios que desemboca num outro que ladeia um vale apertado, onde se acoita um rio estrondoso. À luz da lua plena, noto pequenas criaturas deslizando pelas bermas dos caminhos em direção às margens húmidas dos riachos e do rio. Umas de um lado, outras do outro, daquele rio, assim separadas, se juntam aquelas e aqueloutras em orgias nupciais, apartadas. O tempo passa, as paisagens ligeiramente alteradas, pelos climas mudantes, às vezes aquelas se juntam àqueloutras em um grande bacanal. Enevoada, a visão daquele espectáculo assombroso de caudas entrelaçadas em extase não me deixa perceber exatamente por onde atravessam umas e outras, nem onde se encontram. Apenas vejo que o rio corre mais estrondosamente sobre aquele vale, às vezes. Vejo a luz, mas não consigo ver nitidamente o passado, entender a sucessão dos tempos na vida daquelas criaturas de assombração.

A luz esvai-se. Estou num quarto escuro, talvez da próxima vez dure mais tempo e consiga ver algo mais. Não desisto... A minha pesquisa encontra-se num momento chave, um monte de indícios permitem-me pintar um cenário provável, mas uma questão ainda me incomoda. Temo que dependa daquelas visões de sonho para encontrar uma solução. Sei que as emoções resultantes são uma forma de concentrar e expelir tensão acumulada, reforçando a minha paixão e perseverança no tema. Metafísica, uma certa religiosidade incidindo na forma como um dia (e até hoje!) transmitirei a minha percepção daquele mundo, real e imaginário, ao meu semelhante. Isso não transparecerá nunca nos artigos científicos que publiquei desde então. O equilíbrio, sanidade e discernimento mantêm-se intatos...

...
As vozes ecoam no auditório. Gospel, cânticos em Brooklyn, Nova Iorque. Algo de simples mas revelador se passa ali. Não sei a que propósito, penso que a Ciência como corpo de percepção e organização de conhecimento não é capaz de produzir aquele tipo de significados, de sentido, de reunião e pacificação das almas. Histórias religiosas são ali partilhadas, mas isso não me incomoda como nalgumas celebrações católicas me incomodara desde a infância.
“Yeah baby, Alleluiah!” Toco na sua mão, entrelaçando-a na minha. É negra, enrugada pela idade, bela e reconfortante, produz um efeito em mim como só a beleza africana é capaz. Ecos da marimbada de negros indivíduos em êxtase que presenciei aos três anos de idade. Existem ali mãos de todas as cores que se entrelaçam, mas aquela foi, por uns instantes, só minha!

...
Os batuques de Adnan e Stuart, ressoam na noite de Berkeley, California. Não há nenhum negro ali, exceto eu. Sem necessitar de aditivos químicos, entro em transe, imitando o que ficou gravado no corpo-mente dos meus três anos de idade. As endorfinas produzidas pelos limites físicos da exaustão fazem ver que posso ser ou sentir qualquer coisa, sempre que quiser. É só voltar às minhas origens africanas.

...
O sol estende o seu ardor sobre montanhas de pedregulhos fumegantes. O Lada do nosso guia e motorista Sacha desloca-se com seus pneus gastos, ao longo da estrada deserta e da canícula. No final da nossa expedição, ainda uma viagem agora aos desertos daquele país estranho e empobrecido pelos filhos de Estaline, mas ainda muito, muito belo. Os monges não nos querem deixar entrar no mosteiro cravado na rocha, daquelas terras desérticas do sul da Geórgia, próximo da fronteira com o Azerbaijão. Entramos depois de alguma insistência dos nossos amigos, e de alguns laris para ajudar a vida simples e austera do mosteiro.... Esculpidos na rocha, mal se notando que o são, os aposentos para os hóspedes em retiro religioso, alguns em isolamento total, remetem-nos para outros tempos pouco representados no meu imaginário. Penso nos primórdios da busca por um sentido para o mundo e para vida, a génese da busca pelo conceito de Deus e, em última análise, do poder da ciência. Estes homens representam-se apenas a eles próprios, com ou sem religião, voluntários numa viagem de busca de si próprios e da natureza humana. Que filosóficas visões resultarão de tão prazerosa jornada, penosa aos olhos do homem comum. Artes de criação, como terão sido um dia as diversas criações humanas de DEUS. Percebo pela primeira vez que, também eu, sou um religioso sem religião.

...
V. afirmou que acredita em duendes... “V.!!!” - retorqui-lhe eu - “Olha que assim não chegas ao mestrado, pelo menos sob a minha orientação!”. Rimos todos! Por mais firme que seja, e serei[!], com a necessidade de rigor, clareza e concisão, na produção de conhecimento científico, espero que a V. continue a acreditar em duendes ou em qualquer outra entidade que, embora não tão nítida, lhe proporcione uma vida inspirada e um pouco mais iluminada. Sinceramente!

...
O neurocientista António Damásio mudou-se recentemente da universidade do estado de Iowa para a Califórnia para dirigir o Instituto do Cérebro e da Criatividade da University of Southern Califórnia. Se quiserem podem ouvir uma das suas últimas conferências (Princeton University, 16/10/2006) aqui.


Deixe o seu comentário no Roda de Ciência.


19 fevereiro 2007

É carnaval

A foto acima, de Tuca Vieira, eu surrupiei da galeria de musas do UOL

Adoro carnaval.
Adoro o surreal das notícias, discussões sobre o que é afinal a nudez total, volumes de silicone, o drama dos carros alegóricos pifados, a filosofia que encontra voz nos samba-enredos. E os clichês - a alegria, o dia em que a faxineira é rainha, naqueles dias tudo pode etc.
Tendo a ficar caseira, preguiça de enfrentar congestionamentos e coisa e tal. Mas faço planos, desta vez é pra valer: ano que vem vou agitar um programa carnavalesco.
Então fico em casa, vejo desfiles, leio jornal, armo um carnaval particular com um sambinha na vitrola (perdoem a palavra anacrônica, mas tão mais bonita que os equivalentes modernos).
Meu amigo Rafa outro dia me lembrou de uma experiência carnavalesca que tive na Califórnia, se não me engano em 2000. Ele viveu a aventura pela minha descrição e guardou na memória até hoje. Fui procurar meu texto e eis, abaixo.
Ler me deu vontade de pular carnaval, para celebrar ser esta a minha terra.


Carnaval de primeiro mundo

A juventude de Monterey se concentrava numa esquina, em plena celebração de Mardi gras. Moças escassamente vestidas, todos com colares de contas coloridas de plástico. Parecia ser o acontecimento do ano.

A programação incluía eventos diversos: desfiles, danças, música. Chegamos por volta das dez da noite e encontramos os dois bares com música ao vivo lotados, com filas na entrada. A maior parte dos foliões estava simplesmente de pé na rua, jovens pelo visto satisfeitos por estarem apinhados. Como regem as leis locais, não bebiam nem ouviam música. Só estavam ali, compartilhavam animação. Acima das cabeças surgiam filmadoras, tudo era registrado.

Um dos bares — campeão de fila — ficava no segundo andar, com uns janelões-vitrines que davam para a tal esquina. De lá surgiu a grande sensação: moças celebravam a vitória de ter conseguido entrar e na vitrine levantavam camiseta e sutiã. O público na rua delirava com a peitaria e atirava seus colares de contas (pagamento?), que elas tentavam pegar debruçando-se pra fora da janela já com os peitos guardados. As câmeras de vídeo todas acionadas.

A atração durou quem sabe uns vinte minutos. Enquanto todos admiravam o espetáculo, uma tropa de choque esperava, na beira da multidão. Dois carros de polícia um atrás do outro, de cada lado um policial a pé com seu cachorro, ladeados por policiais a cavalo. Atrás, um carro de bombeiros. Posicionados, prontos para impedir maiores manifestações da população desvairada.

Com certeza influenciadas pela presença da lei, duas moças acharam por bem resolver suas diferenças no tapa. Sobrou bota prum lado, jaqueta pro outro. Formou-se uma roda em volta, igualzinho acontecia na escola. Elas se puxavam os cabelos, trocavam sopapos. Os policiais, finalmente com motivo para ação, intervieram e recolheram as desordeiras. Com os alto-falantes do carro de polícia avisaram para a multidão retirar-se, liberar a rua. A turba ignorou, embevecida ainda com o show da vitrine; grande decepção quando as moças foram substituídas por um policial de costas para a janela, com sua lanterna apoiada no ombro apontando pra dentro.

A tropa da rua então avançou. Com o fim do show erótico, a atração passou a ser a ação policial. O clima ficou tenso e quando começaram a chover garrafas sobre a coluna da ordem, meus amigos decidiram pela retirada.

Eu corria sério risco de ficar ali boquiaberta, até me cair uma garrafa na cabeça ou ser detida como desordeira.


18 fevereiro 2007

Onde está Monbiot?

Tell people something they know already and they will thank you for it.
Tell them something new and they will hate you for it.

George Monbiot


Tenho verificado ultimamente que as afirmações acima são largamente verdadeiras. Elas servem para introduzir George Monbiot, britânico, activista, ambientalista, jornalista e professor universitário. Venho seguindo a sua coluna semanal do The Guardian, desde que li “Manifesto for a new world order” (The New Press, 2003). Os seus textos são admiráveis pela riqueza e clareza informativas, de fontes diversas, compondo artigos de opinião bem fundamentados que considero exemplos do tipo de jornalismo reflexivo que me interessa ler e ouvir. Podem ser lidos aqui.

Acabo de ler “Heat: how to stop the planet burning”, (Penguin Books, 2006) o mais recente livro de Monbiot sobre o que podemos e devemos fazer para evitar as consequências mais catastróficas do aquecimento global.

Hoje, após anos de dúvida e negação, parece consensual que o aquecimento global por ação humana é um fato real e mensurável. Mesmo alguém muito distraído terá notado a reverberação pela imprensa do último relatório do Painel Intergovernamental para as Mudanças Climáticas (IPCC), que pode ser consultado aqui.


Heat
é um manifesto para a mudança baseado numa pesquisa bibliográfica sólida. A pesquisa mais recente sugere que se a concentração de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera se mantiver nos níveis atuais, a temperatura global aumentará cerca de 2 graus centígrados (relativamente ao séc.
XIX). Este é o limiar acima do qual se prevê a ruptura do equilíbrio nos grandes ecossistemas: em vez de absorver CO2, a moribunda floresta amazónica começará a libertar milhões de toneladas do composto. Longe dali, à medida que gelos imemoriais começarem a derreter, o solo libertará gases que aumentarão o efeito de estufa. As alterações climáticas terão entrado num processo de retro-alimentaçao positiva que conduzirá ao descontrolo do clima que hoje conhecemos.

Para evitá-lo, Monbiot afirma que devemos evitar que o aquecimento global ultrapasse aquele “limiar crítico”. É possível que já tenhamos ultrapassado o ponto de não retorno. Mas Monbiot escreve-nos “com um espítito otimista”.

E a ameaça é tão óbvia que não vale mais perder tempo combatendo os argumentos dos mais cépticos!

Após dois capítulos introdutórios, Monbiot começa a desenrolar aquele que é o primeiro e único documento, até ao momento, que avança propostas concretas sobre como mudar as nossas vidas para salvar o clima do planeta. Isto, sem esquecer os custos de tamanha tarefa, claro! Só por este motivo, já teria valido a pena ter lido o livro.

O que fazer então?

Necessitamos de uma redução global de 60% nas emissões para evitar atingir o limiar crítico. O que significa que, em média, as nações mais ricas terão de cortar as emissões em 90%. No Reino Unido, será necessário passar de 2.6 toneladas de CO2 emitidas anualmente per capita para 0.33 toneladas. Se à primeira vista parece impossível, Monbiot trata de convencer-nos que uma nação industrial de tamanho médio como o Reino Unido “pode ser descarbonizada e permanecer uma economia moderna ". Como? Primeiro, todos os cidadãos do planeta devem ter o mesmo direito a emitir de gases que produzem efeito de estufa, o que equivale a adotar um racionamento global per capita em conjunto com um mercado de emissões de carbono. Para tornar o sistema de racionamento realizável, os governos precisam investir pesadamente em infraestruturas energéticas alternativas. Isso significa redesenhar sistemas de transporte para nos curar da nossa (tóxico-)dependência do uso individualista do automóvel, promover a transição para sistemas de energia renovável e centrais de gás natural com tecnologias de captura e armazenamento de carbono, e uma nova rede de energia que permita aproveitar a energia produzida por turbinas eólicas instaladas nas plataformas continentais marinhas e energia solar produzida no... Sahara! Monbiot explica-nos como tudo isto será tecnologicamente e economicamente possível, desde que os governos estejam dispostos a fazer a sua parte. Mas não existem governos sem seus eleitores. NÓS!

Além de alterações na matriz energética, é preciso melhorar a eficiência do uso da energia a vários níveis. Uma área com grande espaço para ganhos de eficiência é a da construção de edifícios e habitações. Quem já não ouviu falar de edifícios inteligentes? Pois é necessário investir para os construir e Monbiot faz propostas concretas que mais uma vez se aplicam ao Reino Unido, onde a demanda de energia residencial entre 1990 e 2003 subiu mais do dobro da média nacional. Monbiot apresenta soluções engenhosas para cortar as emissões de carbono, mas preservando, em grande parte, o confortável estilo de vida ocidental. Com a importante excepção de uma extravagância bem carbonada de que tanto gostamos: VOAR! Um vôo Nova Iorque–Londres produz mais gás com efeito de estufa por passageiro que a totalidade da quota anual individual do sistema de racionamento de emissões de carbono. "O crescimento na aviação e a necessidade de combater o aquecimento global não são compatíveis." Um corte nas emissões de 90% significa o fim das viagens para fazer compras em Nova Iorque ou safaris no Quénia. A alternativa é acreditarmos "que estas atividades se justificam apesar do sacrifício da biosfera e das vidas dos mais pobres". Sim, porque os primeiros que sofrerão com o aquecimento global (e já sofrem!) são as populações do Bangladesh ou de muitas regiões de África. Será que a fome e a guerra de etíopes e sudaneses valem o sacrifício do nosso confortável desperdício de energia?

O problema é que parece que vivemos num estado de negação da catástrofe que poderá um dia cair-nos em cima. Apesar de toda a informação que circula, quem se preocupa? Onde estão as grandes manifestações de ativistas? Monbiot afirma que a juventude, filha daquela que vivia em manifestações nos anos 70 e 80, vive hoje demasiado...endividada! Apesar disso Monbiot pretende acordar-nos e persuadir-nos de que vale a pena combater o aquecimento global. Ou, pelo menos, que “todos fiquemos de cama, de tão deprimidos, reduzindo assim o consumo de combustíveis fósseis".

Heat é ao mesmo tempo um “manifesto e um exercício intelectual”. Pela impressionante combinação de detalhes práticos e pensamento criativo, é um documento único e é o único documento do momento que pode servir de guia para a ação. Monbiot conclui que “é possível salvar a biosfera” mas temos de estar preparados para aceitar que limitar a nossa liberdade de poluir significa uma mudança nas nossas vidas.

Mas atenção, a receita de Monbiot não é diretamente transponível para países em desenvolvimento ou emergentes como o Brasil. Esses necessitam de encontrar as suas próprias soluções, com certeza baseadas nos princípios gerais encontrados em Heat. Onde está o Monbiot brasileiro?

Heat: leitura agradável e acessível ao público em geral. Obrigatório neste ano de 2007. Para ler, reflectir e AGIR, com coerência!


17 fevereiro 2007

Procura-se!

Esta semana descobri um livro lindo, que recomendo a quem queira presentear crianças. Procura-se - Galeria de animais ameaçados de extinção é uma coletânea, produzida pela Companhia das Letrinhas, de textos sobre animais brasileiros em perigo, inicialmente publicados na Ciência Hoje das Crianças.

Cada texto é de um autor diferente, e traz uma ficha técnica sobre o animal e um texto com curiosidades e informações diversas - além de uma foto e uma lindíssima ilustração de Mario Bag.

15 fevereiro 2007

Bacilo na tribo

Apesar do extenso alcance do Programa Nacional de Imunizações, a tuberculose ainda impera em populações indígenas brasileiras.

Leia matéria na Pesquisa Fapesp.


As moças suruí ao lado foram fotografadas pelo médico Paulo César Basta, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

11 fevereiro 2007

Cada um faz, cada um conta

Respondo aqui à proposta da Lucia Malla, de refletir sobre o que cada um de nós faz para contribuir para que este mundo se sustente - conosco e nossos conterrâneos (no sentido amplo de Terra) animais e vegetais em cima dele.

Aqui vão três manias minhas que, espero, são uma pequena contribuição.

- Evito desperdícios. De comida, de energia, de água... A sociedade consumista infunde nas pessoas um descaso pelo uso de recursos. Deixar a luz do quarto ligada enquanto vê novela na sala, afinal que diferença faz na conta que virá no fim do mês? Tratar objetos como descartáveis. Deixar a água correndo enquanto escova os dentes andando pela casa. Tudo pequenas bobagens, mas que multiplicadas pelos milhões e milhões de pessoas com os quais dividimos o planeta, têm dimensões incomensuráveis. Refleti um pouco sobre isso no
primeiro texto que pus neste blogue, lá se vai mais de um ano.

- Papel, como a gente gasta! Na verdade tem a ver com o item anterior, mas como desperdiçamos muito sem nem pensar, opto por mais destaque. No meu trabalho a impressora imprime dos dois lados do papel, basta a gente "pedir". Foi a primeira coisa que verifiquei quando cheguei, e imprimo sempre dos dois lados. Para espanto dos colegas, que nunca viram tal coisa - e grande parte reclama que não gosta de ler em papel impresso dos dois lados. Não sou de fazer campanhas e manifestos, então fico na minha. Finalmente, semana passada duas pessoas me pediram que mostrasse como fazer. Uma pequena vitória, mas tão pequena.


- Sempre que possível, uso transporte público. Em algumas situações considero mais fácil, embora tenha seus desconfortos. Claro que não é bom tomar chuva no ponto de ônibus, não ter onde sentar, ter que carregar minhas coisas... mas pelo menos não me preocupo se vão roubar meu carro, nem noto o trânsito, posso ler no caminho... e poluo menos, e gasto menos combustível, e contribuo menos para o caos urbano! Claro que tem horas que não dá, que transporte público causa transtornos incontornáveis em nossas vidas ocupadas. Aí é usar discernimento. Este é mais um tema de que tenho mania e já causou muito debate neste blogue, veja
aqui, aqui e aqui.


10 fevereiro 2007

Farejadores de perigo

Fã de ratos, Bart Weetjens resolveu ensiná-los farejar minas em Moçambique. Mas não ratos quaisquer: são ratos gigantes do Gâmbia, Cricetomys gambianus. Treiná-los leva de 6 a 8 meses, muito mais rápido e barato que um cachorro. Quando encontram alguma mina, que infestam o solo moçambicano desde a guerra civil, dão uma cavadinha no chão - mas são leves demais para detoná-las. É a vez dos companheiros humanos, que removem o perigo explosivo.

O problema é que falta verbas para remoção de minas moçambicanas, então eles estão sendo treinados para outros farejamentos: são mais eficazes em detectar tuberculose em escarros do que um técnico munido de microscópio. Como a tuberculose causa estragos sérios na África, os ratos prometem. Seus treinadores pretendem levá-los para escolas, prisões e bairros pobres. Segundo Weetjens, com mais um ou dois anos de trabalho os ratos estarão bem escolados para essa nova função.

O site http://www.herorat.org/ traz mais informações, e permite até adotar um rato e financiar sua formação por 5 euros por mês!

Veja este e outros assuntos na seção Laboratório da Pesquisa Fapesp de fevereiro.


08 fevereiro 2007

Folha fantástica!

Títulos para a posteridade, da Folha de S.Paulo, de quinta-feira, 8 de Fevereiro de 2007:

Comissão em SP reconhece um feto como preso político. (capa)
Reconhecido como vítima de tortura, feto busca reparação. (A10)

Aquecimento global...? Neotenia? Não, não, sossegue, hum... não comece já a imaginar o feto no tribunal, ou buscando seu torturador nas ruas de S.Paulo. Hum...mas leia a explicação aqui.

You might say that - I couldn't possibly comment.

Gripe das aves levanta vôo!


The British outbreak, on a large turkey farm in eastern England, follows repeated insistence by British officials that the nation's wild birds do not have the virus, even though an infected dead swan turned up in Scotland last April. But there is a chance that surveillance is missing the virus.

Pequeno excerto de um artigo da revista britânica New Scientist, a propósito do surto de gripe das aves detectado numa exploração aviária no Reino Unido. Ler a matéria completa aqui.

Em relação à última frase do excerto, Francis Urquhart, o político britânico da genial e renomada série da BBC, House of Cards, diria:

"You might say that - I couldn't possibly comment."


07 fevereiro 2007

Aqui vai o poema blind men and the elephant, que mencionei nos comentários do roda de ciência. as guerras teológicas são cegas e a guerra entre a ciência e a teologia também me parece seguir o mesmo rumo!

THE BLIND MEN AND THE ELEPHANT

John Godfrey Saxe's ( 1816-1887) version of the famous Indian legend,

It was six men of Indostan,
To learning much inclined,
Who went to see the Elephant
(Though all of them were blind),
That each by observation
Might satisfy his mind.

The First approach'd the Elephant,
And happening to fall
Against his broad and sturdy side,
At once began to bawl:
"God bless me! but the Elephant
Is very like a wall!"

The Second, feeling of the tusk,
Cried, -"Ho! what have we here
So very round and smooth and sharp?
To me 'tis mighty clear,
This wonder of an Elephant
Is very like a spear!"

The Third approach'd the animal,
And happening to take
The squirming trunk within his hands,
Thus boldly up and spake:
"I see," -quoth he- "the Elephant
Is very like a snake!"

The Fourth reached out an eager hand,
And felt about the knee:
"What most this wondrous beast is like
Is mighty plain," -quoth he,-
"'Tis clear enough the Elephant
Is very like a tree!

"The Fifth, who chanced to touch the ear,
Said- "E'en the blindest man
Can tell what this resembles most;
Deny the fact who can,
This marvel of an Elephant
Is very like a fan!"

The Sixth no sooner had begun
About the beast to grope,
Then, seizing on the swinging tail
That fell within his scope,
"I see," -quoth he,- "the Elephant
Is very like a rope!"

And so these men of Indostan
Disputed loud and long,
Each in his own opinion
Exceeding stiff and strong,
Though each was partly in the right,
And all were in the wrong!

MORAL,
So, oft in theologic wars
The disputants, I ween,
Rail on in utter ignorance
Of what each other mean;
And prate about an Elephant
Not one of them has seen!

05 fevereiro 2007

Dia de Darwin

No próximo fim de semana (10 e 11 de fevereiro), o Museu de Zoologia da USP comemora o aniversário de Charles Darwin.

O evento tem como objetivo divulgar a teoria da evolução para o público leigo e oferece palestras, oficinas para crianças e a leitura de uma peça de teatro que deve estimular debate sobre criacionismo versus evolucionismo. Veja aqui o programa.

Para outros eventos de comemoração do dia de Darwin, veja aqui.

Animais em perigo

Tigres, orangotangos, bacalhaus, tartarugas marinhas... são alguns dos animais que correm sério risco de extinção pelo mundo afora. Perdê-los pode ter importância estética, ecológica, afetiva ou culinária - conforme o caso e o ponto de vista.

O jornal britânico The Guardian acaba de publicar uma lista de animais com um resumo do que os ameaça. O que me chamou a atenção é que a matéria traz, a cada caso, dicas do que cada um de nós pode fazer para ajudar na preservação de cada uma das espécies.

Confesso que ainda não li tudo - ponho aqui como lembrete para mim mesma (assim que tiver um tempinho...), que compartilho com quem quiser.

27 janeiro 2007

Que tal, o altruísta punitivo ?

Por que e com quem, somos ou não altruístas? Haverá forma de sermos humanamente mais altruístas e cooperativos? Pois é, grandes questões na tragicomédia que é a natureza humana, que alguns pesquisadores das ciências sociais tentam abordar através de modelos matemáticos, como o que divulgo a seguir.

A evolução e persistência do altruísmo e da cooperação no mundo natural tornam-se compreensíveis à luz das teorias de seleção de grupo do biólogo William Donald Hamilton (para conhecer Hamilton e suas teorias clique aqui), que postulam que a cooperação seria uma boa estratégia para elevar a probabilidade de sobrevivência e do sucesso reprodutivo em indivíduos aparentados. A teoria poderia ser estendida,
seguindo a mesma perspectiva darwiniana, para explicar a cooperação em grupos sociais humanos, entre indivíduos aparentados ou não.

Mas o que esperar de interações entre indivíduos não organizados em famílias ou outro tipo de grupos sociais? Esse é exatamente o tema do artigo que notei na PNAS de Maio de 2005. A pergunta específica do artigo é como a cooperação se pode originar e manter entre indivíduos não aparentados e com interações casuais que não contribuem para a reputação dos indivíduos envolvidos. O contexto conceitual do artigo é a teoria de jogos aplicada a bens públicos (se desconhece a teoria de jogos clique aqui).

O autor do artigo, James Fowler, propõe um modelo em que considera diferentes tipos comportamentais individuais, "numa população que tem a oportunidade de criar um bem público que é igualmente distribuído a todos os indivíduos na população". Um exemplo clássico, usado por Fowler, é a organização de batidas de caça cujos recursos serão posteriormente distribuídos pelos indivíduos da população. Imagine qual a sua atitude nessa empreitada coletiva! Com certeza, você decidiria ou não participar segundo a previsão de lucro [benefício (porção de caça) – custo (esforço dispendido na atividade)] obtido caçando em grupo por oposição a caçar sozinho. Optando por ser um participante, você poderia ainda escolher entre ser contribuinte ou não-contribuinte para o esforço coletivo que originaria o pecúlio a ser distribuído por todos os participantes. Assim, um não-contribuinte beneficiaria do esforço coletivo sem ter para ele contribuído. Já o não-participante não beneficiaria desse esforço porque empreenderia a sua própria batida de caça ou outras atividades.

Então, qual estratégia você escolheria? A resposta lógica é: depende. Dependeria de qual estratégia garantisse um lucro mais elevado, que garantisse uma maior aptidão [fitness] darwiniana na luta pela sobrevivência e reprodução. Por exemplo, a decisão de participar ou não dependeria da quantidade de caça com que você seria beneficiado adotando uma ou outra estratégia. A caça resultante do esforço coletivo e que seria dividida por todos os participantes dependeria da soma dos esforços de todos esses indivíduos. Se dentre eles houvesse uma grande proporção de não-contribuintes, a porção que caberia a cada um seria previsivelmente menor e talvez fosse mais aconselhável, do ponto de vista darwiniano, não participar e caçar sozinho ou empreender outras atividades.

A evolução de um sistema deste tipo pode ser simulada através de modelos matemáticos que tentam prever o lucro de cada uma das estratégias individuais bem como a evolução dessas estratégias de acordo com a previsão de lucro ao longo de vários ciclos (ex: várias caçadas). Vários modelos deste tipo mostraram recentemente que existe uma tendência para uma alternância cíclica entre as três estratégias consideradas. Na primeira fase do ciclo, os não-participantes são maioritários na população, mas se os contribuintes produzem um lucro líquido que excede o lucro obtido com outras atividades individuais, rapidamente os não-participantes se tornam participantes contribuintes. No entanto, esta situação é efémera pois a generalização do tipo contribuinte estimula o aparecimento de participantes não-contribuintes que procuram o benefício sem custos. Por fim, à medida que o sistema cooperativo colapsa, o benefício público diminui e os não-participantes, que conseguem garantir um lucro mínimo, de novo se tornam predominantes na população.

A novidade do trabalho de Fowler foi a introdução de um quarto tipo de estratégia individual, contribuintes que têm uma atitude punitiva altruísta tanto para com os não-contribuintes como para com os contribuintes que não são punitivos. Esta atitude punitiva é altruísta pois visa o bem comum e acarreta um custo determinado. O altruísta punitivo ignora no entanto os não-participantes pois estes não contribuem nem beneficiam do bem público. Simulando a evolução de uma população, agora com as quatro estratégias, Fowler verificou que a maioria da população tende sempre para uma maioria de altruístas punitivos. Portanto, uma estabilização do sistema cooperativo que não seria conseguido sem a atitude punitiva.

É claro que tudo isto é apresentado no mundo dos modelos matemáticos. Ainda nesse mundo, é da boa prática científica criticar os modelos pela sua adequação à realidade ou ao objetivo a que se propõem. No caso de Fowler, a crítica está embutida no artigo que tece várias considerações sobre variações às condições do modelo como por exemplo a capacidade dos indivíduos detectarem os não-contribuintes e a variação no grau de punição como dissuasora de atitudes não contributivas ou não punitivas. Tudo isto é considerado por Fowler para chegar à conclusão que uma estratégia pró-cooperação como o altruísmo punitivo tende a ter sucesso darwiniano porque simultaneamente possibilita obter mais benefícios que uma estratégia não-participante e mantém os não-contribuintes sob controle.

Fowler conclui que o modelo mostra como a punição altruísta se pode tornar dominante numa população em que exista um incentivo para a não-contribuição aliada a um incentivo de não-punição dos não-contribuintes. Este tipo de dinâmica pró-social tinha sido anteriormente demonstrado apenas para sistemas de indivíduos integrados em grupos sociais em vez de indivíduos não aparentados com contatos fortuitos. Finalmente, demonstra que a origem e a persistência de um sistema de cooperação generalizada se tornam possíveis quando indivíduos promovem a sua obrigatoriedade de forma voluntária, descentralizada e anónima, mesmo em populações grandes e numa variedade de circunstâncias.

Bom, mas isso é num modelo matemático! E na vida real, onde os indivíduos estão normalmente inseridos em grupos de parentesco ou socio-culturais, que se tornam eles próprios os atores nas interações sociais? Existem um sem número de outros modelos em teoria de jogos que tentam aproximar-se de outros tipos de situações mais realistas, em que os indivíduos não são anónimos e cujas interações têm efeito na sua reputação. No entanto, o modelo de Fowler de jogos de bens públicos é para mim interessante por que leva à reflexão sobre como sistemas de globalização e aleatorização de contatos individuais podem originar um sistema mais cooperativo do que o que vivemos hoje. Um exemplo é o sistema através do qual me comunico neste exato momento, o éter electrónico!

E agora que sabe como ele é em teoria, que tal ser um altruísta punitivo na vida real?


25 janeiro 2007

Ciência no dia-a-dia

O forno de microondas não serve só para esquentar comida: ele é utilíssimo para desinfetar esponjas de cozinha. Basta pôr sua esponja úmida no microondas e ligar por 2 minutos. Mata 99% das bactérias!

Eu faço isso quase que diariamente há uns anos, desde que li uma matéria no New York Times que dizia isso. Segundo a matéria, tinham feito um levantamento de bactérias em cozinhas de donas de casa cuidadosas e de estudantes que moravam em república e nunca limpavam suas cozinhas. As cozinhas dos solteirões, cheias de louça suja na pia, tinham menos bactérias espalhadas. Parece que passar um pano de um lado para outro, mesmo que limpinho, só espalha as bactérias (eu ponho meu paninho no microondas também).

Esta semana vi no Eurekalert uma notícia sobre uma pesquisa (outra) de uns pesquisadores da universidade da Flórida. Eles examinaram com mais detalhe o efeito das microondas nas bactérias, e parece que funciona mesmo.

Fica aqui a dica.

P.S. O Osame, do Semciência, também gostou da história. Veja aqui.


22 janeiro 2007

Curso de especialização em Jornalismo Científico

Estão abertas, até 31 de janeiro, as inscrições para o curso de especialização do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo Científico (Labjor), na Unicamp.

O curso é gratuito e a inscrição depende de um processo de seleção. São três semestres de disciplinas práticas e teóricas, cobrindo áreas do jornalismo às ciências.

Fui aluna da turma anterior, que se formou no meio do ano passado. Tirei enorme proveito das aulas e da convivência, que me ensinaram muito sobre o modo jornalístico de escrever sobre ciência. Comecei o curso em seguida a terminar doutorado em biologia, e ele sem dúvida me abriu as portas desta nova carreira.

Não posso deixar de falar da riqueza de conviver com 50 colegas jornalistas e cientistas, com enormes diferenças em suas bagagens profissionais. Lá conheci pessoas que quero carregar comigo vida afora, como a Silvia Cléa do Pitáculos em Ciências.

17 janeiro 2007

Malária de volta à Europa?

Um especialista do Centro de Malária e Doenças Tropicais admitiu hoje que em Portugal, e noutros países europeus, existe o risco de ressurgimento de doenças tropicais, como a malária, devido às alterações climáticas.
...
Após a descoberta de mosquitos transmissores do parasita da malária na Baviera, no Sul da Alemanha, vários meios de comunicação social daquele país alertaram para a possível propagação de doenças tropicais [na Europa].

Leia o artigo completo na edição eletrónica do jornal Público.

Lá diz o sábio ditado popular que não há nada como um dia após o outro,
para ver o mundo rolar,
cima virar baixo,
Europa, África,
e os pólos, centro.

16 janeiro 2007

Fofo!

Imagem que representa bem o novo programa de conservação das criaturas mais estranhas ('weirdest'), lançado pela Sociedade Zoológica de Londres. Leia a notícia aqui na página da BBC.

Essa estranheza é explicada pelo fato destas destas criaturas estarem em ramos meio isolados da árvore da vida, ou seja, não terem parentes próximos com os quais se assemelhem a nível genético, e/ou estarem em declínio.


Foto: Loris tardigradus, Zoological Society of London

Fico feliz e emocionado, claro, mas preocupa-me um pouco que imagens deste tipo contribuam bem demais para cultivar um certo prazer mórbido de tentar preservar 'fofuras' candidatas ao prémio de
becos sem saída evolutivos ('evolutionary dead-ends'), sem desencadear na imprensa, logo no público, uma verdadeira reflexão sobre o que deveria ser conservar olhando para o passado e procurando assegurar o futuro dos processos evolutivos que, mesmo no presente, neste pequeno lapso de tempo que passa enquanto escrevo, vão criando biodiversidade (ver abaixo o texto da Maria Fixismo ambiental).

Desde que a conservação de 'fofuras' não seja apenas uma distração que nos afaste do verdadeiro, e mais sério desafio..., por mim tudo bem. Fofos sejam!

12 janeiro 2007

Embates na natureza

Aranha disfarçada de flor.
Abelha vai buscar pólen
e vira almoço


10 janeiro 2007

Ouro e prata por um fio

Quando uma finíssima placa de ouro e prata é esticada até o ponto de romper-se (ao lado), o inesperado acontece.

Para explicar o mundo atômico dos metais, uma equipe de físicos teóricos e experimentais, liderada por Douglas Galvão e Daniel Ugarte (Unicamp), reuniu mentes e esforços. As imagens ao lado resultam das simulações feitas por Galvão e seu doutorando Fernando Sato. Os resultados mais recentes eu conto na edição de janeiro da revista Pesquisa Fapesp, agora nas bancas.

Faz parte do esforço diário para explicar o complicado de forma simples, tema em discussão na roda de ciência.



07 janeiro 2007

"Não entendi nada, deve ser importante"

O tema em discussão na roda de ciência em dezembro e janeiro - falar e escrever simples - me faz pensar na prática comum de esconder ignorância atrás de palavrório rebuscado. Quantas vezes isso não aparece em discursos de políticos que não querem mostrar o que pensam (ou, pior, que não pensam). Ou em textos de quem quer parecer mais sabido do que é.

Já me mortifiquei por não conseguir entender discursos - orais ou escritos. É duro se sentir burro.

Mas há textos difíceis que convidam o leitor a perder-se em seus meandros e decifrar o que der. Penso em Guimarães Rosa, cujo Grande sertão acabo de reler e sei que a cada releitura se revelarão coisas que me tinham escapado.

E há oradores que mergulham em temas profundos e conseguem transmitir diversos níveis de complexidade. Penso nas aulas de evolução do professor David Wake na universidade de Berkeley - todos saíam encantados e enriquecidos da aula, mas cada aluno aprendera coisas diferentes conforme seu nível de conhecimento. Ninguém era excluído porque o discurso era claro.

Acabei concluindo que, se não entendo nada, talvez o tema não me interesse a ponto de captar minha atenção. Uma variação da fábula da raposa e das uvas. Ou está mal comunicado. Talvez seja prepotência, mas tendo a achar que a boa comunicação deve atingir a qualquer pessoa de inteligência e cultura medianas que esteja disposta a entender.

Bom exemplo da complexidade que oculta o nada a dizer está nas guerras pós-modernas, que Richard Dawkins relata no divertido ensaio "O pós-modernismo desnudado", que integra a coletânea O capelão do diabo (2003, Companhia das Letras). Lá estão fórmulas de Lacan, com as quais Dawkins é impiedoso ("Não é necessário conhecimento matemático [...] para nos assegurar de que o leitor dessa tolice é um tapeador"), e o relato da peça pregada por Alan Sokal no pós-modernismo. Em 1996 ele teve um artigo sem pé nem cabeça, mas construído conforme a sintaxe das ciências sociais, aceito no periódico especializado Social Text. Não precisa fazer sentido, basta ser complicado!

A brincadeira ganhou novo corpo com o
gerador pós-modernista, um site que produz, a cada visita, um novo texto pós-moderno. Absolutamente correto do ponto de vista gramatical e sem sentido nenhum. Divirtam-se.

Leia mais sobre o tema na roda de ciência
Comentários aqui.


Fixismo ambiental

Serra da Mantiqueira, foto de Célio Haddad

Preocupar-se com a degradação do meio ambiente e temer um mundo árido para nossos descendentes deixou de ser privilégio dos "ecochatos". Extinções, descobertas, desmatamentos e leis de proteção aparecem quase diariamente no noticiário nacional e internacional, impresso e neste meio virtual, como o texto recente de João Giovanelli no Biodiverso.

No Brasil temos uma diversidade biológica para deixar qualquer um boquiaberto, como aconteceu com Marcelo Leite do Ciência em dia (saiu hoje no caderno "Mais" da Folha de São Paulo, ainda não está no blogue neste momento em que escrevo), durante suas férias. Mas como fazer para que essa riqueza toda não escoe pelo ralo da civilização? Parece óbvio, elaborar listas vermelhas de fauna e flora ameaçadas, e delimitar áreas de preservação que as protejam.

Não duvido da importância dessas iniciativas, mas não basta. Para conservar a natureza de forma coerente é preciso dar mais tratos à bola. É com esse intuito que eu, João Alexandrino e Célio Haddad escrevemos um artigo que foi publicado na revista Ciência Hoje de dezembro, agora nas bancas (não está disponível na internet).

Nossa visão de preservação muitas vezes corresponde a anseios estéticos e saudosistas. Animais carismáticos como o panda suscitam grande interesse de ecologistas. Não tenho nada contra pandas, mas fico curiosa em saber quanto duraria, num mundo imaginário intocado por "intrusos" humanos, um animal que só come broto de bambu. Do ponto de vista evolutivo, os organismos que se espalharam e deixaram mais descendentes são em geral aqueles com mais jogo de cintura, capazes de adaptar-se a situações diversas - e adversas.

Talvez o panda durasse eternidades a mais sem a nossa interferência, mas o que me interessa é pensar como decidir o que deve ser preservado. Nesse cômputo é raro incluir-se a mutabilidade inerente à natureza - se os homens das cavernas fossem bons preservacionistas, quem sabe teríamos agora dinossauros em nossos quintais e nada dos mamíferos, passarinhos e outros animais que conhecemos.

A natureza muda, ela é um processo e não um objeto fixo. Como preservar, então? Melhor do que escolher quais espécies devem continuar a existir, é manter áreas naturais nas quais o processo evolutivo possa continuar, livremente. O desafio passa então a ser como definir essas áreas. Está brotando no Brasil o fértil campo da filogeografia, que busca compreender a trajetória das espécies no tempo e no espaço estudando a geografia da diversidade genética. Em conjunção com a modelagem ecológica, que computa parâmetros ambientais para prever onde espécies existem e existirão, a filogeografia pode indicar áreas que persistiram a milênios de alterações climáticas e têm maiores chances de continuar a abrigar diversidade biológica.

O assunto é complexo e requer uma abordagem multidisciplinar. Biólogos com especialidades diversas, ecologistas e políticos têm que manter todos os canais de comunicação abertos para chegar a conclusões frutíferas.
(Na verdade, terminei este texto assim só como pretexto para indicar o artigo de Carl Zimmer sobre a falta de comunicação entre pesquisadores.)


Mais: "Conservação da biodiversidade", Ciência Hoje 39 (dezembro 2006), seção "Ensaio", pp. 60-63.


21 dezembro 2006

Falar simples na roda de ciência

Simples,

o quê? para quem?

...para o leigo,

informado?
intelectual?

conformado?
alienado?

digital?

operário?

eficiente?

suficiente?

camponês?

sem-terra?

transgénico?

clonado?

eleito?

povo?

néscio?

o leigo? [agora de baixo para cima,e para baixo outra vez!]


Simples para muitos,

e ainda complexo para a maioria.

Para este, duas frases cifradas

para aquele, o cosmos,

ou o caos.

Àqueloutro, simplificar a história da
grande explosão,

ou do grande salto em frente,

do camarada Mao,
e do bom Adolfo.
Haverá sempre aqueles que,
uma, outra vez, e sempre,
quererão ouvir a história da criação

deus salva, é fiel e fala simples,
ao coração,
É bom de concluir,

quem ganhará a parada!?
Mas então,
não haverá salvação,
do destino traçado na escritura fatal?
Mas sim, mas sim,
curiosamente,
anunciada de forma simples,
em várias escrituras fatais,
bíblias, origens das espécies,
e outras que tais:
procriai-vos, replicai-vos!
No vosso rebanho,
induzí a fala simples,
do pensamento complexo,
e o inverso como exercício lúdico,
o culto ao símbolo,
e seus propágulos,
sentidos múltiplos,
múltiplos leitores,
multi-formato,
leitor múltiplo,
verso e reverso,
evoluído,
de Alexandria para Thistledown,
pois está na boa tradução,
a alma da solução.

Excerto do manifesto do Movimento pelo Bolsa-Ciência do Brasil (MCBC).

Para fazer algum comentário ou para ler outros textos do debate "Falar e escrever simples...", rebole-se aqui na
Roda de ciência.


15 dezembro 2006

Mamíferos descobertos

Extinções são uma grande preocupação hoje em dia, com as cidades tomando o lugar das florestas em boa parte do mundo.
Muitas vezes perdemos animais e plantas que nem chegamos a conhecer, ainda há muito a descobrir.
Novas espécies são descobertas o tempo todo, notícia boa mas alarmante também - é difícil proteger o desconhecido.
Acaba de sair um novo número da revista Pesquisa Fapesp, que traz um texto meu sobre novas espécies de mamíferos. Ele pode ser lido aqui, mas vale a pena dar uma olhada na revista impressa - é mais gostoso de ler e o tratamento gráfico é de primeira.

10 dezembro 2006

DNA e sensacionalismo

Não canso de me impressionar como tudo o que diz respeito ao material genético - o humano, sobretudo - ganha proporções exageradas, vira manchete de jornal, assunto para a hora do café no trabalho. "Você viu? Descobriram que o DNA não é nada como se pensava!", e por aí vai. É muito fácil afastar-se rapidamente do que realmente dizem os artigos científicos.

O assunto do mês passado, que deu origem à capa ao lado no jornal britânico The Independent, foi a descoberta de uma variação inesperada no DNA de humanos. A informação vem de dois artigos, um deles na Nature de 23 de novembro.

Os pesquisadores responsáveis pelos artigos reanalisaram as seqüências obtidas no Projeto Genoma Humano e encontraram uma variação imensa que não vem de substituições na seqüência do DNA, mas de repetições ou deleções de partes do material genético. Uma mutação do tipo "clássico" transformaria um gene com seqüência AATGCCTGACTGAGGGTT em
AATGCCTGTCTGAGGGTT, por exemplo. O que se viu, ao contrário, foi algo do tipo AATGCCTGACGACGACGACTGAGGGTT. Esse tipo de alteração foi detectado em 12% dos genes, e pode representar uma diferença de milhares de bases (cada uma dessas letras) entre uma pessoa e outra. Os geneticistas sugerem que, como vários dos genes com esse tipo de variação estão ligados a doenças, talvez venha a se verificar que o número de repetições tenha algo a ver com propensão a desenvolver tais enfermidades. Pus o itálico para chamar atenção para a cautela expressa nos artigos científicos, que parafraseei livremente.

A revista Pesquisa Fapesp de dezembro traz na seção "Laboratório" de sua edição de dezembro um resumo para lá de sumário do artigo da Nature. A decisão por apresentar o achado numa pequena nota foi consciente. Afinal, a descoberta é importantíssima, pois abre caminho para vasculhar o material genético com mais discernimento e tentar compreender como ele funciona, mas passa muito longe de representar "o livro da vida reescrito", como apresentou o Independent.

A culpa pelo sensacionalismo não é totalmente da imprensa. A Nature e outros organismos de apoio a jornalistas produzem textos já mastigados, muitas vezes simplesmente reproduzidos em meios de comunicação. No mínimo servem de guia. Esses releases destacavam a diferença entre pessoas, que pode ser maior do que se esperava, e a importância para manifestação de doenças. A imprensa repetiu esses destaques, às vezes com certo exagero como no caso do Independent.

Procurei nos artigos originais qual seria então a semelhança entre eu e você, se não é 99,9%. Não encontrei. Porque não era mesmo o ponto central. Esse número é ainda mais interessante porque na semana anterior as revistas Science e Nature tinham publicado artigos sobre o genoma seqüenciado do homem de Neandertal, a espécie extinta mais aparentada à nossa. Aí sim, um dos pontos centrais era a semelhança entre eles e nós, 99,5%. Segundo o Estado de São Paulo, o artigo da Nature de 23 de novembro estabelece essa mesma semelhança entre dois humanos atuais. Será então que o neandertal era a mesma espécie, na verdade? O espaço para especulações é imenso. Na brincadeira com os números, a diferença entre eu e você chegou a 12% em algum jornal - uma transposição selvagem da variação que foi encontrada em 12% dos genes.

Quanto à questão da propensão a doenças, ela ainda é mera especulação. Aposto que se passará muito tempo ainda até que se descubra como - e se - essa variação se manifesta no funcionamento do genoma, e mais ainda até que se avalie seu impacto na saúde das pessoas. Marcelo Leite, em sua coluna na Folha de São Paulo (reproduzida no blogue Ciência em dia - texto "Bíblia de araque", 3 de dezembro de 2006), aproveitou o assunto para reforçar sua cruzada anti-determinismo. Claro, ainda temos muito a descobrir sobre o que há entre a seqüência do DNA e suas manifestações no organismo; mas não há aí nenhuma munição para dizer que o genoma na verdade não tem tanta influência assim sobre nós.

É preciso mais cuidado, ao escrever sobre genes e afins. É muito fácil desinformar. Não consigo deixar de comentar uma notinha na Folha de São Paulo de hoje. Uma análise do DNA em uma amostra de sangue teria provado que o motorista responsável pela morte da princesa Diana tinha bebido muito mais do que o permitido pela lei francesa. Fiquei fascinada: de onde tiraram uma amostra de sangue a esta altura?!?!? E acima de tudo, desde quando o DNA traz informações etílicas?!!! Ufa, o João achou a notícia na BBC: a análise foi feita na época, mas contestou-se que o sangue seria do motorista. Parece que foi isso que a análise mostrou, o sangue era dele mesmo. Já estava preocupada com a cervejinha de ontem à noite escrita nos meus genes...


07 dezembro 2006

Aves da Mata Atlântica


Será lançado hoje em São Paulo o livro acima, na livraria Cultura do Shopping Villa Lobos. Ainda não vi o livro, mas as fotos de Edson Endrigo são sempre lindas e revelam aos olhos esses animais que encantam tanta gente mas são tão difíceis de ver... A riqueza da Mata Atlântica é imensa e merece ser explorada.


05 novembro 2006

Ciência e Saúde com poesia

Quem lê as colunas de Drauzio Varella na Folha de São Paulo já sabe o que esperar desta coletânea de ensaios que acaba de sair pela Companhia das Letras. Quem não lê, terá o prazer adicional da surpresa.

A maravilha desses textos é que eles são absolutamente informativos a respeito de temas científicos e médicos, mas são também muitas vezes de um lirismo que embala a alma.

"A vida na Terra é um rio que começou a correr há quase 4 bilhões de anos, e chegou até você e eu no meio de uma diversidade espetacular: leões, mosquitos, coqueiros, bactérias, algas marinhas e dezenas de milhões de outras espécies". Assim começa o livro, e é por esse rio que Drauzio Varella nos conduz ao longo das mais de trezentas páginas que se seguem.

Alguns textos são cheios de poesia, outros mais pragmáticos descrevem mazelas de saúde e afins. Todos aumentam nosso conhecimento sobre o mundo, sobre o nosso dia-a-dia, sobre o funcionamento do corpo humano. E muito mais.

Tive a sorte de organizar o volume, o que quer dizer que li e reli todos os textos. O mundo ficou mais claro, e seus mistérios mais bonitos. Junto minha voz à do autor: "Com todo o respeito pelos que acreditam ter sido o homem criado por um sopro transcendental, a visão de que a vida surgiu aleatoriamente, há quase 4 bilhões de anos, a partir de moléculas capazes de fazer cópias de si mesmas e que, através da seleção natural, formaram seres tão díspares quanto bactérias, árvores e mamíferos encerra mais mistério e poesia."

Como este texto tem a ver com o tema em discussão na Roda de Ciência, por favor deixe comentários aqui.

01 novembro 2006

1421

Finalmente foi publicado no Brasil o livro 1421 – O ano em que a China descobriu o mundo (Ed. Bertrand Brasil). Da autoria de um oficial reformado da marinha britânica, Gavin Menzies, a obra revoluciona o que se pensava saber sobre as viagens marítimas do séc XV. Para aguçar o apetite basta dizer que talvez não tenha sido james Cook o primeiro a chegar até à Austrália, nem Pedro Álvares Cabral o primeiro a navegar até ao Brasil e muito menos Colombo até...onde mesmo? É muito provável que os chineses tenham chegado primeiro, nas suas viagens de exploração e descoberta ao redor do mundo, entre 1421 e 1423. A Revista Época poupa-me o trabalho de vos contar mais detalhes da investigação detetivesca de Gavin Menzies, publicando este mês uma excelente matéria sobre o livro que pode ser lida aqui.

Já tinha lido o livro há algum tempo, na sua edição lusitana (Dom Quixote, 2004) e é pena que apenas agora esteja disponível no Brasil, sendo o tema relevante para a sua história. O livro poderá ser polémico, mas com certeza fascinante. No final, aceitando a hipótese de 1421, fica a pergunta de como o mundo teria sido diferente se a China não tivesse resolvido abandonar as Viagens devido a várias fatalidades que atingiram o império logo após a armada ter zarpado.

É que a China do então imperador Zhu Di não parecia ter intenção de colonizar, o seu fim era o conhecimento do mundo à sua volta e o estabelecimento de uma rede de comércio mundial mais ou menos “livre”. Pois eu diria que já vamos com quase seis séculos de atraso!