05 abril 2006

O feminismo já era!


Confesso, correndo o risco de receber comentários-bomba de minhas congêneres: nunca entendi bem esse papo de feminismo. Afinal, passados montes de anos de vida e quase o mesmo tanto de anos de estudo, continuo me achando bem diferente da média masculina. E não "evoluí" além da minha percepção infantil: ufa, ainda bem que nasci mulher! (É bem verdade que era meio frustrante ter que jogar sempre no gol, mas minhas aspirações futebolísticas nunca foram suficientes para me fazer invejar o sexo forte.)

Passei a vida estudando, tirei as notas que fiz por merecer, entrei em universidades repetidas vezes, tive bolsas (de estudo, além das a tiracolo), não tenho dificuldade em conseguir trabalho, fiz caratê, capoeira... minha vida não foi limitada por ter nascido (e permanecido) mulher (a não ser no futebol, em que acabei espectadora). Então de forma geral nunca me interessei por questões feministas.

Mas cá estou eu pensando no assunto. É que a Folha de São Paulo publicou no cderno Mais! do último domingo uma entrevista interessantíssima com a filósofa inglesa Alison Wolf, que me fez entender por que acho feminismo um saco: porque posso, e porque hoje em dia o feminismo cerceia mais do que uma suposta sociedade machista.

Explico, com idéias que me chamaram a atenção tanto na entrevista como no artigo recente de Wolf na revista britânica Prospect.

  • Eu posso achar questões feministas desinteressantes porque nasci em 1973, o que significa que a geração anterior à minha já tinha conquistado uma igualdade que torna possível que eu faça o que quero da minha vida. E que eu queira coisas diferentes de ser professora ou enfermeira, fazer balé e tocar piano.
  • Wolf diz que a sociedade preconizada pelos ideais feministas na verdade corresponde às aspirações uma minoria de elite. São mulheres que priorizam estudo e carreira. Segundo a filósofa, a percepção de que as mulheres ainda têm menos acesso ao ápice profissional e recebem salários menores tem duas explicações. Uma é resquício da geração pré-feminista: os cargos mais altos são ocupados por profissionais mais experientes, portanto mais velhos. Por isso, a igualdade aí é questão de tempo. Por outro lado, muitas mulheres ainda optam por ter emprego em vez de carreira, de forma a conciliar ganha-pão com maternidade. Estas são responsáveis pela desigualdade de salário e prestígio entre os sexos (ou tem que dizer gêneros?).
  • Cria-se um ciclo vicioso, em que as mulheres ficam prisioneiras dessas conquistas. Há a pressão da sociedade, por um lado. E por outro, criar um filho para ter sucesso profissional é cada vez mais caro. Meus pais investiram muito na minha formação, e se eu quero que meu filho (ainda hipotético) tenha pelo menos as mesmas oportunidades que tenho, melhor mergulhar no trabalho (em vez de escrever de graça como estou fazendo). E pronto, onde é que vou arranjar tempo para criar o tal filho? Se eu tivesse estudado menos, meu ponto de referência seria outro e a educação da minha prole seria bem mais barata.
  • As famílias pós-feministas têm menos filhos, se têm, e as mulheres estão menos disponíveis para prestar serviços à sociedade, na forma de trabalho voluntário, atenção à família etc. E cada vez menos querem ser enfermeiras ou professoras. Pode ser libertador para as mulheres, mas Wolf conclui seu artigo alertando para as conseqüências sociais dessa mudança.

Com certeza me lembrarei de outros pontos essenciais depois, mas fico por aqui. Quem quiser mais, deixo que a Alison Wolf fale por si. De minha parte, pela primeira vez posso dizer que aprecio os frutos do feminismo. Mas continuarei também dizendo, agora com respaldo acadêmico, que ele causa danos à sociedade. Quero que mulheres possam ser femininas e não acreditem, como é comum nos Estados Unidos, que é preciso parecer homem para ser bem-sucedidas. E quero poder optar por organizar minha vida profissional de forma a abrir espaço para filhos, sem que isso seja mal-visto na sociedade. Parece que a luta das mulheres da minha geração deve ser pelo direito de ser mulher, dentro da igualdade de direitos.

22 comentários:

Daniel Doro Ferrante disse...

Oi Maria,

Por um acaUso, essa na foto é vc mesma?! :-)

Agora, esse tópico de feminismo vc deveria conversar com a minha mãe... momento Freudiano, eu sei... mas é que passei anos tendo exatamente esse tipo de discussão com ela (inclusive usando argumentos como esses que vc listou; afinal de contas, não é assim tão complicado de se entender como é o balanço do pêndulo da história ;-)...

Mas, só pra te deixar outra referência que pode ser útil nesse aspecto, aí vai: Camille Paglia.

Como diria o Marcelo Leite: "Abraços equalitários, []'s!" :-)

Maria Guimarães disse...

daniel, você é rápido hem? acabei de pôr!
sim, sou eu. em visual de há uns dois anos.
e sua mãe acha o quê?
vou olhar a referência que você mandou, valeu.
abraço.

João Alexandrino disse...

Muito bem! Enquanto adolescente (realmente, não era um adolescente comum, num país de machos latinos!), sempre acreditei na causa feminista, na necessidade daquela luta, para um dia se conseguir uma real aproximação de pessoas, que pareciam ter trajectórias tão diferentes. Mais tarde percebi o paradoxo. Perguntei-me se seria a mesma pessoa se a minha mãe não tivesse passado a maior parte do seu tempo dedicando-nos o seu amor? No caso foi a minha mãe, mas poderia ter sido o meu pai, não faço aí diferenciação! Cheguei à conclusão, talvez erradamente, que eu não seria o mesmo com certeza. Menos feliz! Sempre vi meus colegas e amigos com problemas existênciais que derivavam da falta de atenção de seus pais (reparem que atenção não é necessariamente igual a amor, suporte material e/ou cultural, tem mais a haver com EMPATIA). Preocupa-me uma sociedade que cada vez mais fomenta a entrada em cheches ainda antes do primeiro ano de idade. O problema é que a ESCOLA, pela massificação, é cada vez menos uma instituição de formação de nobreza de carácter, muito mais um filtro da sociedade da des(informação) em que vivemos. Preocupa-me que embriões dados à luz sejam assim mergulhados nessa massa acrítica. Esta é a minha estética! Não será assim na prática, com certeza, a minha vida de progenitor! Porque não somos livres, sejamos homem ou mulher. Por isso temos sempre que lutar (concordo, o feminismo foi uma luta de época)! Hoje, contra a opressão causada pela sociedade da eficiência que ainda não aprendeu o que significa suficiência (Thomas Princen). Suficiência é aquilo que bastaria para vivermos felizes, como indivíduos e como comunidade. E este é claramente o grande problema da actualidade, e é ecológico. O problema não é político, meus amigos, e por isso a esquerda não é diferente da direita, a não ser nas suas bandeiras retóricas! Apenas precisamos de um novo paradigma! Acredito que tal só seja possível quando a economia mundial chegar ao seu ponto de equilíbrio, que também será o de ruptura! Em uma geração, ou até menos! Para já, e na guerra dos sexos, a luta tem que ser por uma nova masculinidade, principalmente neste país ainda com tanto macho latino! Alguém sabe se é possível os pais gozarem licença de parto no Brasil? Em Portugal, a percentagem vem crescendo, nos últimos anos! Ora aí está um bom tema jornalístico! Avante, pela libertação de ambos os sexos!

Anónimo disse...

Então vamos dar total apoio ao prefeito de Paulinia (cidade proxima a Campinas-SP), que liberou as funcionarias publicas para trabalhar apenas meio periodo na prefeitura e poder se dedicar o restante do dia aos seus filhos, casa...Marido. Como Homen gostaria de ter este direito também e prometo que também me dedicaria aos filhos, casa... e esposa
Abraços

Maria Guimarães disse...

Jura? viva o prefeito de Paulínia!
e isso dava um experimento antropológico interessante: liberar todo mundo meio período e espionar, ver como realmente homens e mulheres usam esse tempo livre. será que haveria diferença?

Suzana Couto disse...

Olha, confesso que tenho que ecoar muito do que a Maria disse. Também não tenho muita paciência pra militância feminista, mas, antes mesmo de ter ligo sua lista de explicações, me veio na cabeça: essa nossa falta de saco com a questão vem do fato que que não "precisamos" nos preocupar com isso. nossa geração, como você disse, já ganhou a causa resolvida de lambuja! por falar na minha mãe, na linha freudiana/jungiana do daniel, ela foi uma de 3 mulheres que fizeram curso "científico" e não magistrado e não podia usar calça! acho que o feminismo provavelmente significava mais pra ela do que significa pra mim. eu sempre usei calça. e agora na verdade prefiro saia! :)
devo dizer que não gosto da expressão "sexo forte"... forte pra mim tem muito ângulo.. sei lá, fiquei defensiva com a denominação. pô, até fisicamente ganhava no braço-de-ferro de muito guri do colégio quando era pequena!
João, gostei muito do seu comentário. acho também que as crianças se massificam num mundo onde vão do "day care" pro "night care" de qualquer nanny... mas será que vai haver o que você chama de "equilibrio da economia mundial"? não acho que vá acontecer. na verdade acho que todos os equilíbrios, desde os humorais internos aos de fenômenos globais, são dinâmicos e tênues. mais uma oscilação que um equilíbrio propriamente dito.
Que será que vamos fazer, congêneres, pra conseguir trabalhar e criar filhos ao mesmo tempo?
abraços a todos

Maria Guimarães disse...

usei "sexo forte" de propósito, porque obviamente não concordo com o termo (embora, sabemos, eu não seja tão forte quanto você, suzana). até pensei em pôr aspas, mas resolvi encarar a provocação. provocação barata, talvez.

Suzana Couto disse...

pois é. pensei nas aspas mas no fim decidi que você fez de propósito! :)
você não é mais forte que eu, mas pelo menos não usava anel no caratê!

Maria Guimarães disse...

rá!
fraquinha mas honesta.

Daniel Doro Ferrante disse...

Pessoal,

Acho que a grande sacada que está por vir (talvez até perante nós) é a de que não existem "lutas de classes". Não é uma questão de "pobre vs rico", "mulher vs homem", "David vs Golias" e por aí afora... é uma questão de se ter objetivos e de se trabalhar para atingí-los.

Mas, deixa eu me explicar melhor. Quando vc discretiza uma teoria física pra poder simulá-la no computador, ao invés de vc lidar com variáveis contínuas, vc passa a lidar com uma "rede" (lattice) de valores discretos... bem no espírito da reta dos números inteiros. Bom, quando isso acontece, vc acaba com 2 tipos de variáveis distintas: umas que vivem nos "links" e outras que vivem nos "sites". Então, por exemplo, se vc tem que colocar uma derivada de uma função nesse 'lattice', vc põem os valores da função nos 'sites' e as derivadas nos 'links': isso porque a função é algo que vc define (por assim dizer), enquanto que as derivadas são algo que vc calcula e que dependem dos valores das funções em 2 pontos distintos (daí o fato delas "viverem" nos 'links').

Bom, o fato é que é possível se abstrair essa estrutura e só se lidar com os links, ie, não é preciso se conhecer as funções, basta que vc conheça os 'links'.

Depois de complicar bastante... até porque hoje está sendo um dia não muito pedagógico pra mim... o que eu quero dizer é: "Eu acho que o mundo se comporta como as derivadas acima, ie, as grandes questões da humanidade vivem nos 'links'!" Ou seja, são questões dinâmicas, que mudam com o tempo, com os conceitos de "fraco" e "forte", de "homem" e "mulher", de "pequeno" e "grande", etc, mas que, na verdade, não necessitam de "pontos explícitos" pra se obter uma resposta! :-)

Será que eu consegui me fazer entender...?! Apesar de achar que não, eu espero que sim. ;-) (Êta diazinho mais prolixo esse.)

Ou seja, em matemática e em física, é possível que usando apenas a "estrutura diferencial" (ie, a "dinâmica") dos problemas nós encontremos as respostas. Dessa forma não é preciso que estudemos cada pontinho que define nosso problema. Na minha modestCHa opinião, não vejo porquê o mesmo não pode ser verdade para com o resto da humanidade. (O nome técnico dessa bagaça é "Cohomology" e é uma construção muito bonita em matemática, além de ser elegantemente aplicada em física. Na verdade, ela nasce do estudo de "curvas fechadas" (ie, círculos) nos espaços em questão. Então, basicamente, o resultado diz que quando vc conhece todas as propriedades das curvas fechadas do seu espaço, vc conhece todo o seu espaço, incluindo suas 'estruturas diferenciáveis', ie, sua dinâmica e tudo mais.)

N.B. (18:13h): Pausa para um cafézinho... volto já.

[19:13h] Voltando...

Ou seja, usando esse arcaboço não é preciso se considerar cada "detalhe", cada ponto em particular; basta se considerar as diversas possíveis "dinâmicas" entre eles.

A minha visão de "luta de classes" é "cinemática", ie, vc analisa a cada passo e sempre implica numa "revolução" pra se mudar de paradigmas. Acho que esse outro modo de se "ver a vida" (por menos matematizável que ela seja) é muito mais "suave" e elegante, inclusive permitindo 'insights' mais profundos e sutis sobre o que realmente está acontecendo.

Dessa forma, deixamos de falar explicitamente dos 'objetos' em si e passamos a falar das 'relações' entre eles; isso é que é realmente importante. Nesse sentido, essa abstração representa um passo a frente na "relativização" das relações humanas.

Agora, machismos à parte, eu devo dizer que (1) saia; (2) depilação e (3) chamego são fundamentais! Quase que soam como sinônimos do Vinícius [de Morais]: "As feias que me desculpem, mas beleza é fundamental." ("As feministas que me desculpem, mas feminilidade é fundamental." ;-)

Por outro lado, Suzana, "me inclua fora" desses braços-de-ferro! E, quanto ao karatê, o que importa mesmo é o "kara-tê dinheiro", o "kara-tê carro" e mais piadinhas infâmes como essa! Pessoalmente, eu prefiro kung-fu... ;-)

E, de um ponto de vista mais feminista, eu sempre fui a favor do movimento pra tratar mulher igual eu trato homem: "Se tiver que descer a porrada, eu desço. Ou, se for pra eu ser um 'stay-at-home-daddy', podem contar comigo!" (Alguma vantagem haveria de se ter em se ser um físico teórico! ;-)

Mas, brincadeiras à parte, todo extremo é "errado"... mas não pretendo ficar usando clichês nem falar do pêndulo da história. Eu só acho mesmo que uma visão mais moderna (no sentido que eu tentei explicar acima) é extremamente necessária e já está vindo tardiamente.

Um abraço pra todas(os), []'s!

João Carlos disse...

O "movimento feminista" já cumpriu seu papel: desmistificar a cretinice de que "mulheres são seres de cabelos longos e idéias curtas".

E, paralelamente, fez desaparecer uma série de mitos igualmente imbecís, tais como a pretensa "igualdade" dos sexos. Só o fato de que a mulher é a única capaz de engravidar, já mostra que essa "igualdade" não existe. Essa "pequena" diferença orgânica faz, por exemplo, com que as mulheres necessitem de uma dose dobrada de anestésicos (coisa que foi ignorada pela medicina até recentemente).

Lamento pelo futebol, mas algum dia o Daniel Ferrante também vai ter que escolher entre o sonho da NBA e a física...

Maria Guimarães disse...

daniel, li de novo pra tentar entender tudo o que você escreveu. avancei um pouco em relação a ontem à noite.
na metáfora física, quando se considera somente os 'links' é possível também analisar as relações entre eles, como você disse depois?
enfim, achei interessantes tuas considerações. mas não diria que as relações são mais importantes do que os objetos. eles têm que ser também levados em conta, com as diferenças entre eles.
joão carlos, bem vindo. acho que você está muito otimista. não me parece que a "igualdade" entre os sexos tenha sido desmistificada. tem muita mulher, inclusive, que recusa a ter filhos em nome dessa igualdade. e que se recusa a aceitar (sobretudo em público e diante de homens) que seus humores se alteram em resposta a ciclos hormonais!
engraçado, tem mais homem nesta discussão sobre feminismo!
abraços.

Suzana Couto disse...

Bom dia a todos. Achei interessante a relação dos links, objetos e relacionamentos. Acho que estudar relacionamento dos objetos e sua dinâmica é fundamental mas não basta em si, no caso da vida em geral e fora da física/matemática. Digo isso porque na matemática você define a função que vai estar no site para depois calcular a derivada que ocupa seu respectivo link, certo? (me corrija se estiver viajando aqui!) Mas na vida as funções, por assim dizer, são variáveis em si, não são totalmente definidas. Dá pra entender onde quero chegar? Se considerarmos que a mulher é a função e a feminilidade e o feminismo são derivadas, então assumimos que a "mulher" é definida. E assim estudar os relacionamentos, com a função definida, é como estudar a função em si... Mas na realidade a própria definição aí é variável, mutável, sujeita à época, à cultura, a tanta coisa. Usei mulher só como exemplo e porque o papo é sobre feminismo, mas pode ser qualquer questão aí.
Acho também, daniel, que é quase impossível "ver a vida" com o grau de elegância que você propõe. "life is messy, my friend"! A vida tem de tudo, pó, sujeira, buracos, secreções! Há também toda a cor, o calor humano, as belezas todas, a luz do dia (que é muito bem vinda aqui depois de longo inverno!).
Concordo com a maria - ainda não tá tudo desmistificado. Eu, por exemplo, ainda acho fascinante stay-at-home daddy! Conheci um outro dia e fiquei olhando pra ele como se fosse bicho de zoológico. Porque ainda é pouquíssimo comum. E não acho que vá ser muitíssimo comum algum dia por puras questões até fisiológicas. Tem muito mais mulheres com a estrutura psico-social e genética pra ficar em casa com a prole (uau! falar em prolixidade...) do que homem.
Devo dizer que ia ser o máximo não ter que depilar! Mas por enquanto a gente vai levando!
Ah, Maria, mais homem que mulher nessa discussão de feminismo... ué, mas tá igual a todas as outras discussões - sempre aqui no blogue tem mais homem que mulher - taí mais fogo pra fogueira!
boa sexta pra todos!

Daniel Doro Ferrante disse...

Oi Maria,

Realmente: "Pizei na Jaca!" Ou, como se diria em termos mais prosaicos: "Caguei e sentei em cima!" :-( My bad...

Mas, como hoje não é ontem (ainda bem! ;-) e eu espero estar mais inspirado (até porque vou precisar fazer um cálculo de Relatividade Geral para uma menina do Colegial - haja jogo-de-cintura!), deixa eu começar com um exemplo: Vamos considerar um trabalho do M. C. Escher; por exemplo Relativity (1953 Lithograph) ou Waterfall (1961 Lithograph) (que, acho eu, serão os mais claros pra ilustrar o quê eu quero dizer).

Vc pode se concentrar em cada imagem, separadamente, mas aquilo que eu quero dizer é comum às duas obras acima (aliás, é exatamente o "truque" que o Escher usou pra dar o "pulo-do-gato" ;-).

Se vc olhar para cada parte da figura, separadamente, ie, se vc olhar para "pequenas porções da figura", vc vai achar que está tudo "normal", todos os elementos do desenho se comportam como vc espera e intui: a água corre pra baixo e as pessoas sobem as escadas; sem problemas, exatamente como manda o figurino e as leis da física. Porém, quando vc olha "de longe", levando em conta a 'totalidade' do desenho, vc percebe claramente que há problemas de lógica com os elementos das figuras.

Numa frase só: "A soma dos diversos 'pedaços' individuais gera uma totalidade que não faz sentido." Numa linguagem um pouco mais formal: Cada região "local" das figuras faz sentido separadamente, mas o "total" delas não faz sentido nenhum.

Foi isso que eu quis dizer com a minha comparação acima (apesar deu saber que falhei miseravelmente): "Nós, enquanto comunidade (sociedade), damos o próximo passo sempre pensando em considerações "locais"; porém, é claro que a 'soma' dessas considerações não está gerando uma 'totalidade' que faça muito sentido lógico." Então, nós vamos precisar duma receita nova, dum algoritmo diferente pra tomarmos nossas decisões. E, esse algoritmo, essa novo modo de pensar a respeito dos caminhos que ainda estão por vir, vai ter que levar em conta a "totalidade" daquilo que queremos construir. Senão, nós vamos perpetuar esse "modus operandi" aonde cada passo (separadamente) faz completo sentido mas, quando vc os põem juntos, vc certamente não está andando numa direção desejada. ;-)

Mas, respondendo as suas perguntas mais diretamente... os 'links' são as relações entre os objetos, daí sua importância. Nesse sentido, eu quis descrever uma visão um pouco mais Machiana do mundo, aonde os objetos são menos importantes do que as relações entre eles. (Foi com base nessa filosofia, por exemplo, que nasceu a Relatividade Geral.) Agora, vc sempre pode aumentar o grau de abstração, ie, vc pode considerar que aquilo que vc chama de 'link' alguma outra pessoa chama de 'objeto' e assim por diante. Ou seja, essa "relativização" pode ser aplicada em diversos níveis (de abstração e de dificuldade) diferentes! Olha só a beleza da coisa: "O processo de relativização (nesse sentido Machiano) pode ser, ele mesmo, relativizado!" (E eu prometo que não estou de sacanagem contigo! ;-)

Quanto os "objetos" (ou "pontos") dessa nossa "rede" ("lattice"), eu acho que acabei mesmo passando a impressão de que estava 'disregarding them completely'. Mas, não é bem assim... Por exemplo, se cada ponto dessa sua rede tiver uma "propriedade especial", quando vc considera as "relações entre os pontos", vc têm que levar essas "propriedades especiais" em consideração... não é possível, simplesmente, deixá-las de lado. Nesse sentido, vc pode definir cada "unidade da sua sociedade" como vc bem quiser, com as propriedades que vc quiser. Aí, quando formos considerar a sociedade como um todo (ie, a sociedade é uma rede formada pelos diversos pontos, que são a unidade formativa), vamos levar em conta suas relações de acordo com as propriedades que definimos.

Ou seja, num certo sentido, podemos imaginar a sociedade como sendo análoga a uma "rede" (lattice) de pessoas (ou qualquer que seja a outra "unidade fundamental" que vc queira considerar: famílias, comunidades locais, etc -- não se esqueça de que vc pode sempre 'brincar' com esse grau de abstração, considerando "grupos de grupos", sem necessariamente atomizar essa sua "unidade fundamental") e considerarmos as relações entre esses pontos (ie, as unidades formadoras da sua sociedade). Fazendo isso, vemos que quando vc considera essas relações e as estuda de modo sério, vc obtém uma porção de "propriedades globais", que não são possíveis de serem vistas nem medidas "localmente"! E é aqui que, na minha opinião, mora o truque dessa nossa era, como disse no outro comentário.

"Cohomologia" é a ferramenta matemática que mede exatamente esse tipo de propriedade: links, links de links, etc. E, a partir dessas informações, podemos construir a imagem do "todo" que estamos construindo. Ou seja, munidos dessa ferramenta, podemos saber claramente como alterações desses "links" afetam o "todo", ie, como uma propriedade "local" afeta o "global".

Espero ter sido mais claro... estou tão "empolgado" ("excited", no sentido da palavra em inglês ;-) com a clareza que acho que consegui me expressar acima... mas, you tell me: Is it any better than yesterday?! (A empolgação faz com que o português fique entrelaçado com o inglês... é a sina de quem deixa o país: vc esquece o português e não aprende o inglês... ou seja, acaba mudo! ;-)

Quando vc usa esses conceitos mais relativizados, aonde os objetos fundamentais passam a ser as "relações" (os "links"), vc consegue medir melhor o que está acontecendo e ter uma idéia melhor da figura que está sendo criada pelas suas escolhas locais. Então, ao invés de vc mudar o ponto em si, vc muda a relação que ele tem com o resto da rede. (Claro, isso não implica em dizer que o ponto não possa ser "mudado"... mas, deixa tudo muito mais flexível e dinâmico.) E, dessa forma, vc pode afetar a dinâmica do processo de um modo muito mais incisivo e eficiente! É assim que funciona em física (e olha que a Relatividade Geral tem 14 casas decimais de precisão! :-) e em matemática... não vejo o porquê de não podermos espalhar esse conceito 'up the food chain'.

É claro que estamos lidando com pessoas e que temos que "humanizar" o processo e toda essa balela-clichê que sempre jogam no colo dos "hard sciences" quando se faz analogias desse tipo. Mas, como eu espero ter conseguido mostrar, o conceito em si, a idéia fundamental (ou a "Pedra Filosofal", para os mais fãs de Harry Potter ;-), é simples, razoavelmente simples não só de ser entendida quanto de ser posta em prática e aplicada no dia-a-dia. Claro, é uma mudança de paradigma e, como tal, não é pra ser encarada lightly... mas, isso não quer dizer nada além do que isso quer dizer (no meu momento Vicente Matheus! :-), ou seja, mudanças de paradigmas são complicadas e doloridas, mas isso não implica em dizer que o paradigma em si seja difícil de ser implementado ou entendido.

Bom, antes que eu não consiga fazer nada antes da hora de ir podar minha juba... deixo-vos com meus solenes memes de ignorância...

Maria, espero ter sido mais claro agora... senão, pode me mandar uma bicuda-via-internet... i'll understand! :-)

Abraços, []'s!

Maria Guimarães disse...

tem um artigo interessante do drauzio varella que trata da fisiologia feminina quanto à maternidade (http://www.drauziovarella.com.br/artigos/instintomat.asp)
pois é, sem essa fisiologia toda e com a preponderância masculina aqui, temo que os pais em tempo integral fiquem em casa blogando, em vez de cuidar dos filhos!

Daniel Doro Ferrante disse...

Rapidinho...

Suzana,

Só agora vi o seu comentário... quer dizer, you beat me to it by 10min... eu estava escrevendo quando vc postou seu comentário... então, espero que aquilo que eu disse acima não soe ofensivo pra vc: é um problema de causalidade, eu estava pensando nos outros comentários quando escrevi o meu (aciuma). :-)

Quanto à crítica que vc faz, de que seria necessário "funções de funções", digo com um sorriso: "Já fazemos isso em física!" E, mais ainda, TUDO o que eu falei acima pode ser re-escrito sob esse contexto de "função de função"! Eu só não sai, assim, 'shooting from the hips', porque tive a certeza de que eu iria me complicar mais do que ilustrar aquilo que eu realmente queria dizer. ;-)

Mas, por exemplo, tanto em Mecânica Quântica quanto em Relatividade, nós só lidamos com "funções de funções"... na verdade, isso também é real pra Mecânica Clássica, mas não do jeito que nos ensinam no Colégio... é preciso um entendimento um pouquinho mais profundo (mas não muito).

É que, de forma escrita, parece que fica tudo mais 'torto' de ser dito com clareza... ao vivo e em cores, over a beer (or a coke ou um guaraná ou uma soda ;-), isso seria absolutamente mais simples. Certamente eu não teria passado essa impressão estereotipada de "física que desconsidera os sentimentos humanos" ou coisa que o valha.

Anyway... hoje o dia já começou na pilha... então, antes que eu escreva outro paper aqui, preciso acabar o meu... :-)

Abraços novamente, []'s!

Suzana Couto disse...

Daniel, Daniel,
será que você é filósofo ou físico?? Bom, não importa, acho que a física e a filosofia não estão tão longe assim!
Não se preocupe, não me ofendo fácil! Mas que foi engraçado você se referir à balea clichê, foi! Aliás, gostei da explicação que você deu a Maria, porque deixou tudo bem mais claro pra mim.
É que física e matemática são tão cheias de relação da relação que é preciso ter um tipo de cérebro pra entender. Devo dizer que o meu não é esse! Eu acho fantástico e nem me considero burra ou completamente ignorante, mas sinto dificuldade de visualizar essa lattice, as relações, e todos os elementos que você descreveu. Ainda bem que é assim - cada um cada um, certo? :)
bom artigo aí. vou pro meu.
s

Maria Guimarães disse...

daniel, faço eco à suzana: começo a entender o que você escreveu, mas de repente meu cérebro empaca e não abarco tudo. aos poucos, quem sabe...

Germana disse...

Sei que cheguei bem tarde a esta discussão sobre feminismo, mas queria deixar aqui registrado que o artigo Alison Wolf me tocou particularmente porque sou destas que quer uma carreira e não um emprego e, portanto, a maternidade ainda me soa como um momento em que abrirei parte (grande parte)do meu tempo para me dedicar a uma nova e incrível experiência. Portanto, ainda aguardo o momento mais propício para tomar tal decisão (embora a torcida inteira do Flamengo já anuncie que um certo deadline está a vista). Não há dúvida de que somos diferentes em diversos aspectos dos homens e que as responsabilidades da maternidade dificilmente poderá se equiparar as da paternidade. E é claro que temos também tantas capacidades intelectuais e profissionais quanto eles (vocês "raparigos" presentes)- mesmo que não precisem ser as mesmas. Mas achar que as mulheres já conquistaram a igualdade profissional é muito otimismo, não? Pensemos, por exemplo, em uma estudante de pós-graduação que resolve ter filho durante o recebimento de sua bolsa de estudos (Fapesp, CNPq ou qualquer outra). Não está previsto, por exemplo, uma licensa maternidade (mesmo que fosse sem receber a bolsa, mas que a aluna pudesse pedir mais prazo ao final da bolsa para defender sua tese ou dissertação). Este exemplo, para mim, mostra que quem resolve engravidar deve assumir a decisão e suas consequências, dentro dos moldes já estabelecidos. Uma simples mudança na legislação poderia dar mais suporte a estas mulheres cientistas. Quanto a licensa paternidade, já pensei sim em fazer uma matéria jornalística sobre o tema, pois os brasileiros podem tirar 5 dias, que tal? Claro que há toda uma problemática de gastos para bancar mãe e pai afastados, mas convenhamos. Qual é a contribuição de um pai em cinco dias que ele fica afastado?? Então creio que, em uma rápida exposição de meu ponto de vista, o movimento feminista como se configurou na década de 60 já era, mas ainda há espaços (ou direitos) a serem conquistados. Também, pudera, o direito ao voto só foi conquistado a partir de 1932, a primeira livre-docente em física na USP conquistou o título em 1996!
Saudações, Germana (que não conseguiu se inscrever no blog. O programa alega que não posso me registrar com meu nome, será que já existem tantas Germanas por aqui??).

Daniel Doro Ferrante disse...

Meninas!

Filosofia e Física foram, por muUuito tempo, a mesmíssima coisa (tanto que, ainda hoje, "lógica" é uma área de estuda da matemática E da filosofia). E, confesso, tenho uma paxião romântico-platônica por aquela época. (Quem me dera andar de toga: Animal House?! ;-)

Tudo o quê eu quis dizer foi: "Às vezes, a soma das partes não é igual ao todo." :-)

Ainda usando o exemplo das figuras do Escher: cada pedacinho de cada figura faz sentido completo, porém o todo não tem significado lógico, aliás, é ilógico.

Cohomologia é uma ferramenta da matemática que ajuda, e muito, a mensurar esse tipo de anomalia: olhando pra algumas propriedades locais (ie, pra alguns pedacinhos das figuras) vc é capaz de inferir sobre o todo e medir se o resultado final está de acordo com os seus desejos ou não. É só isso... o resto é "conversa pra boi dormir". ;-)

Um abraço pras duas, []'s!

Maria Guimarães disse...

germana, obrigada pela contribuição! você tem toda razão, não tinha pensado nessas coisas. será que na inglaterra as coisas estão mais avançadas? a wolf tinha que vir pra um debate aqui -- no brasil ou no blogue!
daniel, agora conciso e claríssimo! concordo.
talvez eu me ausente por uns dias, bom feriado pra todos.

Anónimo disse...

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