22 maio 2006

Sensacionalismo prejudica compreensão de pensamento evolutivo

Na semana passada causou espécie a notícia de que humanos e chimpanzés teriam se acasalado após a separação das duas linhagens a partir de um ancestral comum.

O artigo científico, "Genetic evidence for complex speciation of humans and chimpanzees" [Evidências genéticas de especiação complexa entre humanos e chimpanzés], foi publicado na edição eletrônica da prestigiosa Nature no dia 17 deste mês. O trabalho, feito por pesquisadores da Universidade Harvard e do Massachusetts Institute of Technology (MIT) nos Estados Unidos, mostra que a separação entre as linhagens que deram origem ao que hoje são humanos e chimpanzés não aconteceu de uma vez. Isso quer dizer que há uns 5 ou 6 milhões de anos (a estimativa anterior era de 7 milhões), uma espécie deu origem a duas linhagens distintas mas ainda capazes de procriar entre si. Esses cruzamentos adiaram a separação entre as duas espécies, que ao longo dos milhões de anos que se seguiram acumularam diferenças e deram origem a humanos e chimpanzés.

A notícia veiculada pela news@nature, agência de divulgação que infelizmente também tem acesso restrito a assinantes, preserva certa cautela em seu título: "Chimpanzee and human ancestors may have interbred" [Ancestrais de humanos e chimpanzés podem ter cruzado entre si]. Infelizmente, as palavras que destaquei na tradução do título se perderam na mídia em língua portuguesa. A Folha de São Paulo de 18 de maio trouxe a notícia "Humano e símio se acasalavam, diz DNA"; o (bom) portal de ciência português Ciência Hoje (nada a ver com a xará brasileira) tropeçou ainda mais feio - "Homens e chimpanzés tiveram sexo já depois de terem começado separação" (ufa, este tem acesso liberado a internautas).

Vale a pena transcrever o início do texto da Folha:
"Humanos e chimpanzés normalmente não se consideram mutuamente atraentes em termos sexuais nem seriam capazes de ter filhotes férteis. Mas nem sempre foi assim entre os ancestrais evolutivos desses dois primatas." Tá, há uma nesga de cautela em mencionar que se trata dos ancestrais evolutivos dos dois primatas, mas o tom geral põe em dúvida as intenções da especialista em chimpanzés Jane Goodall na foto acima (emprestada de www.theoaklandpress.com). Principalmente quando a matéria cita o paleontólogo Dan Lieberman, que teria dito que "Meu problema é imaginar um hominídeo e um chimpanzé olhando um para o outro como parceiros adequados - para não ser muito grosso".

Não se trata de grossura, mas de ignorância. O antropólogo talvez tenha achado a brincadeira tão óbvia que se permitiu a piada. Mas a questão é séria, porque reforça uma visão fixista da vida, que remete mais a criacionismo do que a evolução: a idéia de que os seres vivos já surgiram idênticos ao que são hoje. Que fique bem claro: os tais ancestrais de humanos e chimpanzés eram muito pouco parecidos com a Jane Goodall e seu amigo da foto - foram precisos milhões de anos após terem atingido isolamento reprodutivo para que as duas espécies chegassem às aparências atuais. Eles eram na verdade muito semelhantes entre si - o suficiente, sim, para olhar um para o outro e ver um parceiro sexual desejável.

7 comentários:

Diogo Meyer disse...

Um artigo que lida com desafios nessa área segue abaixo. É meio técnico demais, pois trata de reconstrução de ancestrais, mas ajuda a pensar no tema.
-Crisp MD, Cook LG
"Do early branching lineages signify ancestral traits?"
TRENDS IN ECOLOGY & EVOLUTION 20 (3): 122-128 MAR 2005

Outro potencialmente interessante:
Science 11 November 2005:
Vol. 310. no. 5750, pp. 979-980
"The Tree-Thinking Challenge"
David A. Baum, Stacey DeWitt Smith, Samuel S. S. Donovan

Suzana Couto disse...

Gostei muito do seu artigo. Acho que vale a pena abordar esses temas "perigosos". Existe alguma maneira de criticar as fontes que publicam coisas com esse tom sensacionalista? (tirando o blogue, claro).

Maria Guimarães disse...

quando se trata de jornais como a Folha, não sei mesmo. devia ter, né? estava pensando se era o caso de mandar um artigo para o observatório da imprensa (http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/), que cumpre esse papel. mas não adianta muito, porque quem lê a folha não necessariamente vai bater lá. quanto ao ciência hoje português, só agora me liguei -- acho que dá pra eu deixar um comentário lá, vou ver já.

Maria Guimarães disse...

bom... o "Ciência Hoje" não é blogue, não tem espaço para comentários. então nada feito, faço minha campanhazinha aqui mesmo. alguma sugestão?

Anónimo disse...

Desde 1989 a Folha tem um Ombudsman, canal aberto para os leitores.

Maria Guimarães disse...

obrigada anônimo (será que sei quem é?), boa dica. vou atrás.

Maria Guimarães disse...

fiz minha incursão ao "canal aberto para os leitores". canal aberto de fato, a gente tem o direito, quem sabe, de receber uma resposta de quem detém o poder da comunicação. mas daí a poder expor ao público uma visão diferente, é um longo caminho.
talvez o editor de Ciências não tenha ouvido piadas sobre as aventuras sexuais entre homens e chimpanzés, nem leitores confusos perguntando "isso foi mesmo assim?". ou talvez ele ache que o assunto não é assim tão sério, e que as piadas entram num "falem mal mas falem de mim" - a primeira pessoa aí seria a ciência.
enfim, abaixo a resposta que recebi:

Cara Senhora,

agradeço sua manifestação. Abaixo segue ponderação do editor de Ciências:

"Não só não existe problema algum na reportagem como o Dan Lieberman, de quem fui aluno, estava querendo dizer exatamente o que disse. Achar que isso reflete uma visão criacionista é uma leitura apressada, errônea e preconceituosa tanto da imprensa (que precisa comunicar as coisas a um público mais amplo que meia-dúzia de pares científicos que tiveram acesso ao artigo original) quanto da posição de um paleontólogo respeitado, que pode ser acusado de tudo nesta vida menos de criacionismo".

Sendo o que havia para o momento, fico.

Atenciosamente,
Marcelo Beraba
Ombudsman - Folha de S.Paulo