31 maio 2006

Estratégias de pesquisa

No suplemento Mais da edição de domingo da Folha de São Paulo, Marcelo Leite fez um convite à leitura de A Controvérsia dos Transgênicos, de Hugh Lacey (Idéias & Letras). O texto desse convite pode ser lido no blog Ciência em Dia. Não li nenhum dos livros de Hugh Lacey mas consegui descobrir uma entrevista sobre o mesmo tema, que ele deu à revista Teoria e Debate, em 2001. Gostei e espero ter a oportunidade de ler um de seus livros em breve.

O problema de que trata Hugh Lacey é o da influência de valores sociais nas estratégias de pesquisa, ou seja nas abordagens (ângulos de observação e iluminação) que cientistas decidem adotar ao estudar determinados sistemas ou fenómenos. O tema é muito relevante e deve ser objeto de reflexão profunda na comunidade científica. Não é essa reflexão que procuro aqui e agora. Apenas aproveito para recordar um breve episódio da minha passagem pela Universidade da Califórnia, em Berkeley.

Foi em novembro de 2003, por ocasião de uma visita de
Richard Lewontin à UC Berkeley para falar nas The Charles M. and Martha Hitchcock Lectures, palestras dirigidas essencialmente ao público leigo. No primeiro dia o tema de Lewontin foi Gene, Organism and Environment: Bad Metaphors and Good Biology. No segundo, como seria de esperar, The Concept of Race: The Confusion of Social and Biological Reality. Aconselho a que vejam os vídeos das palestras através do site da University of California Television.

Na segunda palestra, sobre o conceito de raça humana, Lewontin usou grande parte seu tempo mostrando evidências quantitativas da diversidade genética entre populações humanas. Evidências de estudos clássicos mostrando que a diversidade genética humana estaria principalmente distribuída entre indivíduos de populações dentro de grupos raciais (cerca de 85%) e não entre populações de diferentes raças. E que a pequena proporção de diferenças entre raças (cerca de 5%) teria sido essencialmente determinada por deriva genética em pequenos e isolados grupos populacionais. Por outro lado, a homogeneidade de frequências génicas nas populações humanas seria explicada pelas extensas migrações humanas, regionais e continentais. No entanto, estas evidências pareciam contrastar com a definição de grupos raciais, que seriam então resultado da nossa percepção superficial, skin deep, nas palavras de Lewontin.

Uma das suas conclusões é que as diferenças não poderiam ser explicadas apenas pela ação da seleção natural, como alguns tinham proposto. No final da palestra, Lewontin exemplifica com os problemas da explicação de diferenças da pigmentação da pele e cor e textura do cabelo através da ação da seleção natural. A explicação preferida de Lewontin seria a seleção sexual (na verdade, uma forma de seleção natural), de parceiros semelhantes da mesma população, que tenderia a favorecer certos alelos de genes determinantes do fenótipo naquela população. Não havia, contudo, evidências para apoiar qualquer hipótese. Um dos problemas é que os genes responsáveis pelos fenótipos da cor da pele nunca tinham sido encontrados, embora Lewontin acreditasse na sua existência, algures no genoma.

Cling! Nessa altura surge a questão na minha mente, provocativa, claro! Ali estava Lewontin falando sobre como as raças eram uma construção social, não uma realidade biológica. Mas havia algo curioso na forma como tinham sido apresentadas as evidências. Qual o motivo da minimização das diferenças entre as populações humanas, sendo esta atitude diametralmente oposta à abordagem normalmente seguida pelos biólogos da evolução, no estudo de espécies que não a humana? Em evolução, interessam-nos principalmente as diferenças entre populações e procuramos estudá-las o mais aprofundadamente possível. Por que parecia acontecer o oposto com o estudo da espécie humana, por exemplo, no caso da genética da cor da pele, que Lewontin desconhecia por completo?


Resolvi perguntar-lhe! Uma fila de interessados formava-se junto ao microfone disponibilizado para o efeito. Quando lá cheguei era o último da fila e, azar, chegada a minha vez, acabou o tempo. Resolvi perguntar mesmo assim. Abordei Lewontin logo que desceu do palco e perguntei:

— Você afirmou que a definição de raças humanas é uma construção social, como que uma vitória de valores sociais sobre a realidade biológica. Mas eu fiquei admirado com o pouco que se sabe sobre as características responsáveis pela percepção social de raça. Não acha que, neste caso, parece verificar-se o mesmo problema em sentido contrário, com valores sociais que negam o conceito de raça “impedindo” (por ser politicamente incorreto!) o avanço do conhecimento sobre a evolução daqueles fenótipos e da própria espécie humana?

Richard— Sei onde você quer chegar. Cada um escolhe aquilo que quer estudar, se é que você me entende [I know where you’re getting at. Each one chooses the things that’re worth studying, if you know what I mean] !

Deu uma cúmplice piscada de olho, e foi-se!

Fiquei surpreso pois não esperava a resposta. Esperava que me dissesse que até então tinha sido difícil encontrar genes responsáveis pela determinação da pigmentação da pele, pela complexidade genética dos fenótipos e/ou por limitações metodológicas.

Na época, tive a sorte de fazer pós-doutorado com David Wake e Craig Moritz, no Museum of Vertebrate Zoology, da University of California – Berkeley. No dia seguinte, tivemos uma reunião de laboratório com Richard Lewontin. Foi uma conversa interessante em que ele ficou admirado por ver ali um bando de pesquisadores trabalhando com uma grande diversidade de organismos (fungos, anfíbios, répteis, aves) enquanto ele havia devotado toda a sua pesquisa a um organismo-modelo, a mosquinha da fruta (Drosophila sp.). Nós estudávamos os organismos no seu meio, ele havia sempre estudado o seu organismo em frascos. Lewontin não fazia a mínima ideia da ecologia da mosquinha da fruta. Perguntei-me então como se podia chegar a saber algo sobre EVOLUÇÃO sem estudar os organismos no seu meio natural. Seria por isso que Lewontin parecia não mostrar tanta apreciação pela seleção natural como mecanismo promotor de evolução, sendo que esta não pode ser estudada em frascos? Mas não era ali a altura de fazer perguntas provocativas. Eramos muitos, e eu já tenho uma tendência natural a monopolizar debates! Fiquei calado. Depois comentei com David Wake o episódio do dia anterior e o meu pensamento sobre Lewontin. É bom esclarecer que Dave conhecia Lewontin (e também Gould) por serem da mesma geração e terem estado juntos na Universidade de Chicago, nos anos 60. Dave foi peremptório!

— Dick Lewontin, tal como Steve Gould, sempre foram cientistas com uma agenda política clara. São cientistas excelentes mas têm algumas visões empedernidas sobre algumas questões que eles acham importantes de acordo coma sua agenda marxista-leninista.

É conveniente que fique claro que Dave Wake é um homem com um pensamento político de esquerda moderada. Dave não tinha nada contra homens de esquerda, apenas algumas reservas relativamente ao pensamento radical, de esquerda ou de direita.

Minha curiosidade aguçada levou-me a procurar sobre o pouco que realmente se conhecia sobre genes ligados à expressão de fenótipos da cor da pele. Encontrei dois artigos recentes e enviei as referências a Lewontin. Afinal sempre havia algo! Não obtive resposta, claro. Hoje, com três anos volvidos, existe mais alguma informação sobre o tema, que tem sido explorado no âmbito da pesquisa sobre o câncer da pele. Podem encontrar uma revisão razoável sobre o assunto na Wikipédia.

Richard Lewontin é um dos grandes nomes da genética da evolução do século XX. Mas hoje, tal como durante alguns momentos da sua palestra, tenho dificuldade em ler e ouvir o seu discurso para o público leigo sem pensar na sua estratégia de abordagem. Mas vejam o que ele próprio diz numa excelente
entrevista que deu em 2003, em Berkeley.

...
No início dos idos anos de 90, tive um professor de genética que considerei o melhor professor de toda a minha graduação em Biologia. António Amorim tinha um excelente poder de comunicação, associando o interesse geral da cátedra à sua personalidade e aspecto irreverentes, quase revolucionários. Acontece que ele não acreditava na seleção natural como um dos motores da evolução. A teoria neutralista de Motoo Kimura bastava-lhe e chegou a escrever um pequeno livro em 2002, A espécie das origens - genomas, linhagens e recombinações, sobre como Darwin e os arquitetos da Nova Síntese estavam completamente enganados no seu programa adaptacionista. Para Amorim, a ideia da selecção natural é uma explicação mais ideológica do que científica, além de totalitária e circular. Quando iniciei depois a minha carreira de pesquisa, ainda não conseguia perceber como pretendia negar evidências, que me pareciam claras, já na altura, de que tanto fenómenos aleatórios (mutações neutrais, deriva genética) como seleção natural tinham o seu papel na explicação dos padrões de evolução. Não entendia a limitação paradigmática de António Amorim, mas muitos me diziam que a explicação eram as suas tendências marxistas-leninistas.

Quando falei com Lewontin, já estava melhor preparado para entender, quando ele me piscou o olho maroto, tive a certeza!

No meio do meu doutorado, após de uma discussão animada com o meu co-orientador holandês, percebi que tinha iniciado uma luta consciente contra a tentação do paradigma diretor, da perspectiva enganadora, do olhar míope, seja de esquerda ou de direita, vindo do céu ou do inferno. Por isso, também, vos mostrei a animação abaixo, que comentarei no momento próprio.

3 comentários:

João Carlos disse...

Pois é João Alexandrino... Quem diria que os "Ídolos" de Bacon (Novum Organum, 1620) ainda são um assunto atual...

João Alexandrino disse...

É João Carlos, penso que será difícil que algum dia nos libertemos completamente dos "Ídolos" de Bacon. Mas ter consciência do problema é um primeiro passo na direção certa. Obrigado pelo comentário.

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