31 julho 2007

O espírito olímpico da torcida “diferenciada”

Por Henrique Guimarães

No dia 13 de Julho de 2007, estive no Maracanã para a abertura dos XV Jogos Pan-Americanos. Bela festa, cultura brasileira, templo do esporte, ingressos caros... Bem, é verdade que havia um setor que cobrava 20 reais pelos ingressos, mas daí para cima só a partir de 100. Apesar da maravilhosa apresentação de nível olímpico, o que mais foi debatido sobre esse importante momento do nosso esporte, foram as vaias ao presidente Lula. Crônica de uma tragédia anunciada. No dia anterior, na coluna de Anselmo Góis, do Jornal O Globo, já havia sido dito que no ensaio geral do dia 11, o presidente já era vaiado. Bem, o que se faz num ensaio geral é ensaiar.

Estranhas as vaias, pois o presidente foi eleito e reeleito com a suprema maioria dos votos no Rio de Janeiro, e é bom frisar que, claramente, a maioria do público era de cariocas. Mas aí é que importa o valor dos ingressos. Quem paga mais de 100 reais para ir a um evento como esse, é uma classe que se sente prejudicada pela tentativa de não privilégio característica desse governo claramente popular, e que é digno de muitas críticas. Críticas essas que devem ser feitas por cartas, manifestos em frente à sede do governo, ou, até mesmo, através de obras de arte, e não num momento em que o Brasil está sendo exposto, e o espírito olímpico está sendo proclamado. Não há nada mais simples quanto acompanhar vaias ou aplausos, ou até mesmo, não há nada tão acrítico quanto isso. Como disse Luiz Fernando Veríssimo em sua crônica “Cumplicidade”, ao Jornal O Globo do dia 19 de Julho: “A companhia do que há de mais preconceituoso e reacionário no país inibe qualquer crítica ao Lula, mesmo as que ele merece. Enfim: antes de entrar num coro, olhe em volta.”

Mas as vaias não pararam por aí... Enquanto a delegação de atletas norte-americanos passava pelo desfile das delegações, foram ouvidas as vaias nada hospitaleiras. Nada de respeito, o que se queria era usar meros atletas para uma destruição moral em praça pública. Para que servia então a chama de paz e espírito helênico que percorria o território Tupiniquim desde Junho?

A partir daí começaram os jogos... E eu, como aficionado que sou, estive em diversas competições. Vi um triste time do México ser massacrado pelo time de vôlei feminino do Brasil e também pela torcida, que “futebolisticamente” não tinha pena das massacradas. Esse mesmo time do vôlei brasileiro protagonizou junto com as cubanas um dos maiores jogos de voleibol de todos os tempos, mas, mesmo assim, as vitoriosas foram vaiadas pela torcida que presenciou aquele momento. Já o nosso time de futebol sub-17 protagonizou um vexame, ao perderem para o Equador e serem eliminados, os garotos de 16 e 17 anos foram chamados de “pipoqueiros”. No judô, as conseqüências foram mais sérias. Após objetos serem atirados pela torcida, furiosa com a decisão da arbitragem de punir a atleta brasileira na final do peso até 52 kg, dando a vitória para a atleta cubana, foi vista uma briga digna de socos e pontapés entre representantes das delegações cubana e brasileira.

Bem, ainda temos mais Pan, e eu, que ainda estarei em algumas competições, espero que esse nacionalismo irracional insuflado pela mídia seja substituído pela glorificação de nossos atletas e pela vitória do espírito olímpico. Como carioca, gostaria de ver a minha cidade apta a sediar os jogos olímpicos de 2016, e quero que seja real essa hospitalidade carioca que tanto se vê pelas ruas, mas que não é vista nas modernas instalações esportivas desses jogos. Cuidemos do nosso patrimônio, seja ele do governo municipal, estadual, nacional, ou até não governamental.

Sejamos mais críticos, e, ao mesmo tempo, mais respeitosos, para que continuemos sendo bem tratados pelo mundo afora. Ah, e quanto ao nosso presidente, repetirei a frase de Veríssimo sobre as vaias: “Olhe em volta”.


Rio de Janeiro, 22/07/2007.

18 julho 2007

Bússolas vivas

Bactérias são seres unicelulares que freqüentam até os recantos mais inóspitos do mundo. Li em algum lugar que há mais bactérias do que células humanas dentro do corpo de cada pessoa. Você é então mais bactéria do que gente.

Tudo isso me parece fantástico que chegue. Mas uma bactéria composta por várias células, que usa uma bússola interna para se orientar e tem um repertório de movimentos conquistados pelo batimento sincronizado dos flagelos de cada célula... Parece ficção científica, mas existe e foi descoberta por Ulysses Lins, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), numa lagoa carioca.

Leia matéria na Pesquisa Fapesp de julho, que além de aqui está nas bancas.

03 julho 2007

Feras devoradoras de gente

O livro Monstro de Deus - Feras pradadoras: história, ciência e mito, de David Quammen, acaba de ser lançado pela Companhia das Letras.

Recomendo vivamente - não porque traduzi o livro, mas porque cada momento do laborioso processo de tradução foi um imenso prazer.

Monstro de Deus conta sobre pessoas que vivem em proximidade com feras que as podem devorar - e por vezes é exatamente o que fazem. Quammen nos leva ao noroeste da Índia, onde vivem os últimos leões asiáticos e o povo maldhari, pastores de vacas e búfalos que há séculos convivem com as feras - e as respeitam. Nos Cárpatos romenos, ursos-pardos e pastores competem pelas cabras que estes últimos levam para passar o verão nas montanhas, pagos pelos proprietários. Na Austrália os Yolngu às vezes vão parar no estômago do crocodilo-marinho, que é parte central de sua mitologia. Por fim, no extremo oriente da Rússia, tigres siberianos e udeges sobrevivem ao frio.

A narrativa, sempre deliciosa, mergulha na história, na mitologia e na realidade dessas populações humanas e animais, todas ameaçadas de extinção. Pesquisadores dão sua perspectiva sobre como preservar a todos e atingir certa estabilidade.

O autor argumenta que as feras são centrais em nossa psicologia. Por isso estão na Bíblia, na literatura, nas lendas e nos filmes. Seu desaparecimento do planeta deixaria um buraco dolorido em nossas psiques.

David Quammen é autor de vários livros de divulgação de ciência que tiveram imenso sucesso de vendas no exterior.

29 junho 2007

Evolução no Masp

Darwin - a exposição - é um belo passeio pelo mundo da evolução. O visitante percorre a vida de Charles Darwin e refaz o percurso que o levou à elaborar a teoria da seleção natural - até hoje a melhor explicação para a diversidade biológica no mundo.

Mesmo que biologia não seja a sua área, não perca se passar por São Paulo - está em cartaz no Masp até 17 de julho. É deslumbramento para todos os olhos, como escrevi na edição de junho da revista Pesquisa Fapesp (leia a matéria aqui).

O macaco-prego da foto integra a exposição e foi fotografado por Eduardo Cesar para ilustrar a matéria da Pesquisa Fapesp.


Masp -- Avenida Paulista, 1.578, São Paulo; de terça a domingo, das 11h às 18h; de 4 de maio a 17 de julho ; R$ 15 (inteira) e R$ 7 (estudante); (11) 3251-5644


18 junho 2007

Jardineiros alados

Quem sabe aos poucos não melhora a má-fama dos morcegos? Pois eles são rematados beija-flores e jardineiros.

Acabo de ler no Jornal da Ciência e-mail que morcegos polinizam 13% das plantas da Caatinga e estão em terceiro lugar como transportadores de sementes. O estudo foi feito por uma equipe da Universidade Federal do Pernambuco.

Recentemente, o biólogo Gledson Bianconi (autor da foto ao lado), da Unesp de Rio Claro, e colegas mostraram que morcegos podem ser valorosos aliados no reflorestamento de áreas degradadas. Veja (um pouco) mais na nota publicada na Pesquisa Fapesp de junho.

12 junho 2007

Encontros com a Pesquisa: ciência e tecnologia no Brasil

Esta semana traz mais uma palestra da série Encontros com a Pesquisa.

Carlos Vogt, lingüista e poeta, ex-reitor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e presidente da FAPESP, e Ruy Quadros, do Instituto de Geociências da Unicamp, falarão sobre a importância dos indicadores de ciência e tecnologia para o desenvolvimento do Brasil.

A privatização, a desregulamentação e a disciplina fiscal, entre outras medidas, não foram suficientes para garantir o crescimento sustentável da América Latina. O caminho para desenvolvimento da região está na ciência e tecnologia. Nesse novo contexto, são ferramentas estratégicas para dar suporte às políticas públicas indicadores de ciência como o Índice Brasil de Inovação (IBI), concebido por Vogt e desenvolvido pela revista Inovação, em parceria com o Instituto de Geociências da Unicamp e o Instituto Uniemp.

Encontros com a Pesquisa é um evento com uma palestra aberta, seguida de debate com público, que ocorre uma vez por mês. Leia mais sobre o tema da palestra deste mês na matéria de capa da revista Pesquisa Fapesp de junho, nas bancas.

A palestra será na quarta, dia 13 de junho, às 19 horas, na Livraria Cultura do Shopping Villa-Lobos (Av. Nações Unidas, 4777, São Paulo).



31 maio 2007

Surpresas sem fim (sem fim?) na Mata Atlântica

Ontem tive a boa surpresa de abrir O Globo impresso e ser apresentada ao simpático Juliomys ossitenuis. É uma nova espécie de roedor da Mata Atlântica, floresta brasileira campeã mundial em biodiversidade e com níveis assustadores de desmatamento e extinção. A notícia está também no portal G1, mais completa.

Já publiquei a mesma foto, de Pedro Peloso, numa matéria na Pesquisa Fapesp em dezembro passado, em que eu falava sobre como as constantes novas descobertas são uma pista da imensa riqueza que corremos o risco de perder. Na época o Juliomys ainda não fora batizado, agora Reinaldo José Lopes conta um pouco mais da história.

O assunto me entusiasma e maravilha. Mas ainda por cima ao longo do meu doutorado tive a sorte de ouvir muitas lindas histórias de exploração Brasil afora por Leonora Costa e Yuri Leite. Esses dois ainda nos mostrarão muito sobre a Mata Atlântica, fiquem de olho. Obrigada, compadres!


24 maio 2007

III Mostra de Ciência no Cinema em Campinas


Entre os dias 27 de maio e 03 de junho serão exibidos em Campinas – no Museu da Imagem e do Som (MIS), centro da cidade, e no cursinho comunitário Herbert de Souza, na Vila União, filmes em que os monstros invadiram as telas. O tema da Mostra, monstros, foi escolhido pelo fato dessas fascinantes figuras do cinema trazerem à tona as tensões entre humano e não-humano, normal e anormal, natural e artificial, realidade e ficção, que também atravessam as produções científicas. Ao final da exibição, o público poderá ampliar suas aproximações com as produções cinematográficas em um descontraído bate-papo com pesquisadores e produtores das áreas de educação, cinema, literatura, jornalismo,quadrinhos, artes visuais e animação.

A Mostra é uma produção do projeto “Biotecnologias de Rua”, desenvolvido no Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) da Unicamp e financiado pelo CNPq. A programação completa pode ser obtida no site da Mostra (
www.labjor.unicamp.br/mostra) ou pelo telefone (19) 3521-5193.

Programação completa

Dia 27/05 (Domingo): Herbert de Souza

  • 15:00 Shrek (2001), de Andrew Adamson e Vicky Jenson, 100 min. Palestrante: Antonio Carlos Rodrigues de Amorim (Professor e pesquisador do OLHO-FE/Unicamp)
    Em um pântano distante vive Shrek, um ogro solitário que vê sua vida ser invadida por uma série de personagens de contos de fada: três ratos cegos; um grande e malvado lobo; e três porcos que não têm um lugar onde morar.Todos foram expulsos de seus lares por um maligno Lorde. Determinado a recuperar a tranqüilidade de antes, Shrek resolve encontrar o Lorde e com ele faz um acordo: todos poderão retornar aos seus lares se ele e seu amigo Burro resgatarem uma bela princesa, prisioneira de um dragão.(Recomendação: livre)

  • 18:00 A ilha do Dr. Moreau (1996), de John Frankenheimer, 100 min. Palestrante: Edgar Franco (Criador de quadrinhos, professor e pesquisadorda PUC-Poços de Caldas. Em um futuro próximo, um homem em missão militar sofre um acidente no seu avião. Depois de vários dias é resgatado por um cientista que o leva a uma remota ilha onde um famoso geneticista, vencedor do prêmio Nobel, faz experiências com DNA e tenta criar uma raça perfeita, transformando animais selvagens em seres humanos. Porém, esta estranha mutação vai criar situações imprevisíveis. (Recomendação: 18 anos)

Dia 29/05 (Terça): MIS


  • 18:00 Ed Wood (1994), de Tim Burton, 127 Min. Palestrante: Janaina Damaceno (Filósofa, produtora de cinema e pesquisadora da FE/Unicamp) Um retrato da vida de Ed Wood é concentrado nos anos 50, quando se envolveu com atores desajustados incluindo um Bela Lugosi em fim de carreira, e fez filmes de péssima qualidade, que o fizeram passar para a história como o pior diretor de todos os tempos. Tim Burton descreve a trajetória de um homem cuja biografia se molda pela exceção. Tudo em Ed Wood é desviante. Ele é uma espécie de monstro criado por sua própria fantasia. (Recomendação: 12 anos)

Dia 30/05 (Quarta):MIS


  • 18:00 Extermínio (2002), de Danny Boyle, 112 min. Palestrante: Rafael Evangelista (Jornalista e pesquisador do LABJOR Unicamp) Após invadirem um laboratório de pesquisas com macacos, um grupo deativistas encontra chimpanzés presos em gaiolas diante de telas que exibem continuamente cenas de extrema violência. Ignorando os avisos de um cientista que trabalha no local de que os macacos estariam infectos, os ativistas decidem libertá-los. Livres, eles andam como zumbis atacando e disseminando na humanidade o vírus que possuem. (Recomendação: 16 anos)

Dia 31/05 (Quinta): MIS

  • 18:00 O homem-elefante (1980), de David Lynch, 118 min. Palestrante:Wagner Geribelo (Jornalista, professor e pesquisador da Faculdade de ArtesVisuais-PUC-Campinas) A história de John Merrick, um desafortunado cidadão da Inglaterra vitoriana, portador do caso mais grave de neurofibromatose múltipla registrado, tendo 90% do seu corpo deformado. Esta situação tendia a fazer com que ele passasse toda a sua existência se exibindo em circos de variedades como um monstro. (Recomendação: 16 anos)

Dia 01 (Sexta): MIS

  • 18:00 Resident evil - O hóspede maldito (2002), de Paul Anderson, 100 min. Palestrante: Flávio Shimoda (Produtor de cinema, professor e pesquisador da Faculdade de Artes Visuais-PUC-Campinas) Alguma coisa terrível está oculta na “Colméia”, um enorme laboratório subterrâneo utilizado para pesquisa genética que é controlado pela Umbrella, uma dos maiores conglomerados do mundo. Lá há uma epidemia do T-Vírus, uma arma biológica de grande poder que acaba matando todos os cientistas que lá trabalhavam. Mas eles não morrem, são transformados em zumbis. (Recomendação: 16 anos)

Dia 02 (Sábado): MIS

  • 13:00 Monstros S.A. (2001), de Peter Docter e David Silverman, 106 min. Palestrante: Elenise Pires de Andrade (Professora da Faculdade Network epesquisadora do OLHO-FE/Unicamp) Uma fábrica de sustos constrói portais que levam os monstros para os quartos das crianças, onde eles poderão lhes dar sustos e gerar a fonte de energia necessária para a sobrevivência da fábrica. Entre os monstros que lá trabalham o mais assustador é James P. Sullivan, um grande e intimidador monstro de pêlo azul e chifres, chamado de Sully. Seu assistente é Mike Wzowski, um pequeno ser de um olho só com quem tem por missão assustar as crianças, consideradas tóxicas pelos monstros e cujo contato com eles seria catastrófico para seu mundo. (Recomendação:livre)

  • 16:00 À meia-noite levarei sua alma (1964), de José Mojica Marins, 78 min. Palestrante: Orestes Augusto Toledo (Historiador do MIS) O sádico e cruel coveiro Zé do Caixão pretende gerar um filho perfeito para dar continuidade ao seu sangue. Mas sua mulher não consegue engravidar e ele acaba violentando a mulher do seu melhor amigo. A moça violentada pelo coveiro quer se suicidar, para regressar do mundo dos mortos e levar a alma de Zé do Caixão. (Recomendação: 18 anos)

Dia 03/06 (Domingo): Herbert de Souza

  • 15:00 A noiva-cadáver (2005), de Tim Burton e Mike Johnson, 78 min. Palestrante: Victor F. Epifanio (Produtor de cinema, artista plástico, pesquisador bolsista do LABJOR/Unicamp) Em um vilarejo europeu do século XIX vive Victor Van Dorst, um jovem queestá prestes a se casar com Victoria Everglot. Porém acidentalmente Victor se casa com a Noiva-Cadáver, que o leva para conhecer a Terra dos Mortos. Desejando desfazer o ocorrido para poder enfim se casar com Victoria, aos poucos Victor percebe que a Terra dos Mortos é bem mais animada do que o meio vitoriano em que nasceu e cresceu. (Recomendação: livre)

  • 18:00 Corpo fechado (2000), de M. Night Shyamalan, 106 min. Palestrante: Giovana Scareli (Pesquisadora do OLHO-FE/Unicamp) Um espantoso desastre de trem choca os Estados Unidos. Todos os passageiros morrem, com exceção de David Dunne, que sai completamente ileso do acidente, para espanto dos médicos e de si mesmo. Buscando explicações sobre o ocorrido, ele encontra Elijah Price, um estranho que apresenta uma explicação bizarra para o fato. (Recomendação: 12 anos)

Locais da Mostra:
MIS - Museu da Imagem e do Som – Rua Regente Feijó, 859, Centro.Telefone: 3236-7851Herbert de Souza - Cursinho Pré-Vestibular – Rua Dusolina Leone Tournieux, 249, Vila União . Telefone: 3223-0617Dia 27/05 (Domingo): Herbert de Souza


Resumos dos filmes adaptados de: http://adorocinema.cidadeinternet.com.br/
Financiamento: Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq)
Parcerias: Museu da Imagem e do Som (MIS), Cursinho Pré-Vestibular Herbert de Souza
Apoio:100% Vídeo

23 maio 2007

Viva a mata

Quem estiver em São Paulo no próximo fim de semana, inclua esta nas possibilidades de passeio: o Viva a Mata no parque do Ibirapuera.

É um evento organizado pela ONG SOS Mata Atlântica, que chama a atenção para a floresta em cima da qual São Paulo - e tantas outras cidades - foi instalada.

São palestras, atividades, apresentações de painéis de pesquisa sobre a Mata Atlântica, etc. Promete ser interessante. Veja mais no site.

11 maio 2007

Encontros com a Pesquisa: Júlio César Voltarelli

O imunologista Julio César Voltarelli, do Centro de Terapia Celular (CTC) da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, ligada à Universidade de São Paulo, faz a terceira palestra da série Encontros com a Pesquisa, às 19 horas do dia 15, terça-feira. A série é uma promoção conjunta da revista Pesquisa FAPESP e da Livraria Cultura do Shopping Villa-Lobos, de São Paulo. Voltarelli vai falar sobre o uso de células-tronco adultas em tratamentos experimentais contra o diabetes melito do tipo 1, também chamado de juvenil, e outras doenças auto-imunes.

O trabalho de Voltarelli foi notícia no mundo todo em abril, quando os promissores resultados de um experimento conduzido por sua equipe foram divulgados. Por meio de uma abordagem clínica que recorre a altas doses de quimioterapia seguidas de um transplante de células-tronco adultas originárias da medula do próprio paciente, Voltarelli e seus colegas de Ribeirão Preto conseguiram livrar 14 diabéticos recém-diagnoticados da necessidade diária de tomar doses de insulina. A terapia, cara e arriscada, ainda não é a cura da doença, mas representa um passo importante nesse sentido.

Professor titular do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Voltarelli tem experiência em imunologia clínica, com ênfase em transplante de células-tronco hematopoéticas em doenças auto-imunes, doenças hematológicas malignas e benignas. Também é especialista no diagnóstico e tratamento de imunodeficiências secundárias, doenças reumáticas e na seleção de doadores para transplantes renais e de medula óssea.

Encontros com a Pesquisa é um evento com uma palestra aberta, seguida de debate com o público, que ocorre um vez por mês com um cientista de ponta que vai falar de seu trabalho e comentar temas que serviram de base para reportagens de Pesquisa FAPESP. O trabalho de Voltarelli está na edição de maio da revista Pesquisa Fapesp.


A Livraria Cultura do Shopping Villa-Lobos fica na Av. Nações Unidas, 4777, cidade de São Paulo (tel: 11 3024-3599).


05 maio 2007

O que são raças?

Falar em raças humanas arrepia a gente. Lembra racismo, eugenia, discriminação, desigualdade social. Daí a necessidade de organizar o pensamento. A meu ver racismo e raça são duas discussões diferentes. Neste caso, se existem raças, é uma questão biológica e não social.

Li recentemente um artigo de Sérgio Pena, da UFMG, e Maria Cátira Bortolini, da UFRGS, ambos geneticistas. Eles apresentam uma análise genética muito interessante da população brasileira, um amálgama de origens africanas, européias e indígenas. Mas discordo de vários aspectos e um deles é a ausência de definição de raças.

Uma fonte de confusão é a dificuldade em distinguir aspectos biológicos e sociológicos. Não é a biologia, mas as oportunidades sociais, que fazem com que poucos negros cheguem ao topo da escala social brasileira. Isso diz muito sobre injustiça social, mas nada sobre a existência de raças.

O artigo dos geneticistas mostra que é possível distinguir geneticamente grupos continentais - africanos, europeus e ameríndios, no caso. Para mim, essas são as raças. O brasileiro é uma mistura, tudo bem, mas isso não prova a inexistência dessas raças originais.

É comum o argumento de que são poucos os genes responsáveis pela cor da pele, portanto desimportantes. Desimportantes por quê? São responsáveis por características que se diferenciaram nos grupos continentais devido a pressões ambientais diversas ao longo do processo evolutivo. São desimportantes sim em conferir mais ou menos valor às pessoas, mas aí entramos no âmbito social.

A edição de abril da revista Pesquisa Fapesp veio recheada com raças, do ponto de vista biológico e social. Muito do que acho sobre o assunto já escrevi neste mesmo blogue, não repetirei. De lá para cá, pouco mudou no meu pensamento. Mas li mais e vi a palestra do Sérgio Pena, e aprendi uma coisa: no Brasil já não faz sentido falar em raças. Mesmo do ponto de vista médico, que em muitos casos deve levar em conta diferenças genéticas pois geram fisiologias distintas, neste país a miscigenação já não permite associar aparência física a características genéticas.

Mas mais uma vez, isso não quer dizer que raças não existam! Eu acho que existem e ainda bem.


Este texto integra a discussão de maio do roda de ciência.
Por favor, comentários aqui.


26 abril 2007

O problema é nosso

Mais uma vez vai chegando o fim da vigência de um tema no roda de ciência e não consegui participar. Juro que não é de propósito! Hoje finalmente consegui me pôr a par da discussão, mas continuo de certa forma paralisada. A mesma paralisia, me parece, que impede que cada um - eu inclusive - incorpore ao seu modo de vida a consciência de que nós (eu, você e os outros) contribuímos para a devastação do mundo e agora temos que ir atrás de remediar o malfeito.

O problema é que a tarefa parece hercúlea, tão grande que não se sabe por onde começar. Daí a paralisia. Então esperemos que os governos decidam o que fazer, enquanto lemos os jornais - na melhor das hipóteses.

A imprensa tem acompanhado o assunto de perto, afinal não se pode ficar de fora do assunto do momento. Costumo ler a Folha de S. Paulo e praticamente todos os dias a página de ciência traz algo sobre mudanças climáticas. São estudos que demonstram que o aquecimento global já chegou, são discussões, são políticas. Mas fico sempre vazia depois da leitura. Acho que é o problema costumeiro em divulgação de ciência: as informações vêm de cima, de longe. O cientista - e quem dirá seu conhecimento - está muito longe de cada um de nós. Não envolve, portanto.

Como fazer para incluir todos e qualquer um nessa discussão, como participantes ativos? Não sei a resposta, pergunto aqui para que me ajudem a pensar. Vejo na televisão algumas campanhas nesse sentido. Como a da ONG Greenpeace, que conclui uma sucessão aterrorizante de imagens de devastação com declarações como: "A sua geração não queria mudar o mundo? Parabéns, vocês conseguiram". No alto de seu site, uma foto de floresta destruída. Com o cursor do mouse ("rato", dirão o Caio e o João - e concordo que é muito melhor) o internauta pode "fazer algo". Uma apresentação inteligente. Mas não basta brincar com fotografias nem dar dinheiro ao Greenpeace.

Talvez museus de ciências, daqueles interativos, possam fazer algo. Usar os modelos e o conhecimento acumulado em brincadeiras-simulações que mostrem às crianças (e seus pais) atitudes pequenas e grandes que podem fazer diferença no dia-a-dia. Será que estão fazendo isso? Vou perguntar ao Marcelo Knobel, físico e divulgador de ciência que está percorrendo os Estados Unidos com uma bolsa da fundação Eisenhower para pesquisar em que pé está a cultura científica por lá (acompanhe seu diário de viagem).

Está lançado o desafio: como criar um debate e uma participação reais que envolvam a sociedade mundial?



Em termos de políticas de governo, li nalgum lugar que a China (acho) vai fazer umas cidades planejadas ecológicas. Reconstruir o mundo é complicado, mas que tal estipular regras para tudo o que for feito de novo respeite o ambiente? Novas casas e prédios deveriam ser obrigados a usar a tecnologia mais moderna de economia de recursos, fontes alternativas de energia, tratamento de efluentes, sei lá mais o quê. Não parece tão difícil.


Este texto é parte da discussão sobre aquecimento global no roda de ciência.
Por favor deixe comentários aqui.

25 abril 2007

Encontros com a pesquisa: Sérgio Pena fala sobre as origens africanas do brasileiro

Os escravos trazidos da África deixaram um legado incontestável no povo brasileiro. A extensa miscigenação racial que se vê hoje faz de grande parte dos brasileiros um amálgama genético.

Sérgio Pena, geneticista da Universidade Federal de Minas Gerais, contribuiu para detalhar as origens de nossos genes. Os resultados de seu trabalho, descritos na matéria de capa da revista Pesquisa Fapesp de abril (nas bancas), quantificam não só essa mistura, mas detalham quais regiões da África mais contribuíram para o contingente africano no Brasil.

Pena falará hoje em São Paulo, como parte da série "Encontros com a pesquisa", promovida pela Pesquisa Fapesp em colaboração com a livraria Cultura. A palestra, gratuita e aberta a qualquer interessado, será na Cultura do Shopping Villa Lobos, hoje (25 de abril) às 19h.

11 abril 2007

A vida na lama

O catador de caranguejo depende do manguezal para viver. Dali ele tira seu parco sustento e a sabedoria que passa de uma geração para outra. Mas não é predador. Sua colaboração e seu conhecimento são essenciais para a própria conservação do caranguejo-uçá, espécie de destaque na culinária brasileira.

A foto ao lado é de André Alves, do Projeto Caranguejo.

Leia matéria na Pesquisa Fapesp que acaba de chegar às bancas. E abaixo, relato de quem sabe mais do que eu.


O homem da lama

Acorda todo dia pra se atolar
Na fábrica chamada manguezá
Ele, o homem do caranguejo-uçá
Seu relógio é a maré e sua persistência a fé
Pra catar o bicho
Que anda de marcha a ré
Numa verdadeira batalha
Com a mão ou com o pé
Nessa jornada sem fim ele nem imagina
Que esteja tudo tão ruim
E olha pro seu amigo caranguejo
E diz assim:
O que aconteceu
Com o mangue meu e teu?
Ó meu Deus...


Valdemar Vergarta Filho,
Manguezal em cordéis, copiado do
site do Projeto Caranguejo

20 março 2007

Encontros com a ciência

O neurocientista Miguel Nicolelis, que depois de estabelecer sua carreira na Universidade Duke (Estados Unidos) está investindo em turbinar a pesquisa neurocientífica brasileira, dará amanhã (quarta, 21 de março, 19 horas) a palestra "A neurociência de ponta no Brasil".

É a primeira palestra da série mensal "Encontros com a ciência", promovida pela revista Pesquisa Fapesp e pela Livraria Cultura. Será na Livraria Cultura do Shopping Villa Lobos, em São Paulo.

Veja mais aqui.
Para mais sobre o trabalho de Nicolelis, aqui e aqui.

16 março 2007

Muito além do DNA

O Projeto Genoma Humano prometia mapear todas as nossas doenças - manifestas ou potenciais - ao destrinchar o nosso material genético. Mas eis que a grande promessa genética para a medicina não vem do DNA, mas de seu "primo pobre" RNA.


Pesquisadores no mundo todo têm descoberto que são diversos os tipos de RNA com funções essenciais de controle da expressão dos genes e de muito o que acontece em nosso organismo. Mas a estrela maior tem sido o RNA de interferência, ou RNAi, com grande investimento da indústria farmacêutica.

Leia mais em "De servo a senhor", na revista Pesquisa Fapesp de março, agora nas bancas. (A ilustração ao lado, publicada na matéria, é de Cárcamo)

Veja também vídeos explicativos e mais informações na ótima página da NOVA.

O problema da imprensa com a ciência...

...está bem explícito no texto que George Monbiot escreveu no Guardian de 13 de Março de 2007. Deixo um excerto do artigo que pode ser lido na integra aqui.

...Cherry-pick your results, choose work which is already outdated and discredited, and anything and everything becomes true. The Twin Towers were brought down by controlled explosions; MMR injections cause autism; homeopathy works; black people are less intelligent than white people; species came about through intelligent design. You can find lines of evidence which appear to support all these contentions, and, in most cases, professors who will speak up in their favour. But this does not mean that any of them are correct. You can sustain a belief in these propositions only by ignoring the overwhelming body of contradictory data. To form a balanced, scientific view, you have to consider all the evidence, on both sides of the question....

Sem mais comentários.


28 fevereiro 2007

Muitos credos, uma só busca

A discussão de fevereiro no Roda de ciência mostrou que quando o assunto é ciência e religião, há uma tendência forte de se polarizar e escolher campos. Mas não precisa ser assim. Acabo de ler The Creation, de Edward O. Wilson, onde ele defende justamente que religiosos e não religiosos podem ter muitas diferenças, mas as semelhanças são muito mais importantes.

Há quem acredite que Deus – ou alguma divindade – fez o mundo; há quem defenda que a ciência já conseguiu explicar muito do processo evolutivo e não resta dúvida: o mundo não foi criado como ele é hoje. Ao contrário, quem vê o mundo com olhos científicos não tem dúvidas de que ele passou por milhões de anos de evolução em que formas de vida mais e mais complexas foram surgindo conforme pressões do meio ambiente.

O grito de Wilson em The Creation é simples: não importa como o mundo surgiu. O que importa é para onde ele vai. E do jeito que vamos, vai para o brejo (metafórico, porque os brejos naturais também caminham para o cadafalso). E se não concordamos sobre quem fez o mundo, restam poucas dúvidas (5%, segundo o relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática) sobre quem é responsável por sua destruição: nós mesmos – e isto não é metáfora, eu e você estamos incluídos nesse “nós”, por mais consciência ecológica que tenhamos. E se não é ainda, nosso objetivo deve ser um só: preservar este planeta.

The Creation é uma carta para um pastor batista – o ramo da fé que fez parte da infância do próprio Wilson. Seu texto é sucinto, poético e envolvente. E convincente. Através de exemplos e explicações sobre a natureza, o autor deixa claro para qualquer leigo que o funcionamento da natureza é complexo e depende de interações tão inúmeras que não há como assumirmos o controle. E mais: afirma que espécies que consideramos insignificantes, como bactérias ou insetos, podem cumprir papéis tão essenciais que sua extinção causa desequilíbrios fatais ao ecossistema no qual vivem. Mas se o ser humano se extinguisse, os ecossistemas naturais não sofreriam nada com isso. Muito pelo contrário.

Para ajudar a salvar um mundo natural que sequer conhecemos (ele estima que 80% das espécies ainda estejam por descobrir, mas se não fizermos nada metade dos seres vivos terrestres estarão extintos até o fim deste século), Wilson invoca o fascínio natural que temos pela natureza. Segundo ele toda criança é um explorador, um naturalista, um selvagem no bom sentido. Se estimularmos isso em nossas crianças, elas podem tornar-se advogados, médicos ou engenheiros. Mas serão naturalistas, e isso é o que importa.

E ao endereçar seu texto a um pastor, prega uma união que transcenda credos: “...nossas diferenças metafísicas têm efeito mínimo sobre a conduta de nossas vidas. Meu palpite é que eu e você somos mais ou menos igualmente éticos, patrióticos e altruístas. Somos produtos de uma civilização que surgiu tanto da religião como do Iluminismo baseado em ciência. Não teríamos problemas em participar do mesmo júri, lutar as mesmas guerras, santificar a vida humana com a mesma intensidade. E com certeza também repartimos um amor pela Criação”.

Quando, ainda menino, se apaixonou pela natureza, Wilson enveredou pelo estudo da evolução e deixou a religião para trás. Tornou-se um biólogo de grande renome e dedica sua vida a entender e proteger a natureza. Através do convite ao pastor, ele inclui nesse caminho aqueles que não acreditam na teoria da evolução. E é um convite que pode render frutos. Na semana passada saiu no Estadão (ver aqui no Jornal da Ciência on-line) uma entrevista com Paulo Barreto, do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), em que afirma que o discurso religioso tem mais impacto do que o científico, quando se trata de defender o meio ambiente.

Demo-nos as mãos. Somos todos irmãos neste mundo.


A foto acima, do cerrado no Parque Nacional de Emas, é de Frans Lanting, que ilustra também a capa de The Creation. Suas fotos são absolutamente deslumbrantes, vale visitar seu site.


Este texto é parte da discussão de fevereiro no Roda de ciência. Comentários aqui, por favor.


P.S. Depois de escrever este texto descobri que o livro de Wilson será publicado no Brasil pela Companhia das Letras, mas a data é ainda incerta.

25 fevereiro 2007

Ode a Damásio e o conceito de DEUS


O corpo e a mente na origem da consciência coletiva de...DEUS

Noto a seguinte citação do filósofo francês do séc. XVII Mallebranche, no livro do neurocientista português António Damásio “Feeling of what happens: body and emotion in the making of consciousness” (Harcourt Brace, 1999), publicado no Brasil com o título “O mistério da Consciência: do corpo e das emoções ao conhecimento de si" (Companhia das Letras, 2000):

É através da luz e de uma ideia clara que a mente vê a essência das coisas, números, e extensões. É através de uma ideia vaga ou através do sentimento que a mente julga a existência de criaturas e que conhece a sua própria existência.

Lendo e ouvindo o conhecimento da ciência nascente de Damásio, refinando empiricamente o pensamento de filósofos como Aristóteles, Demócrito e Descartes, entre outros, tomo consciência mais profunda do que era uma verdade intuitiva. Não existe separação entre corpo e mente, entre corpo e a alma das emoções e dos sentimentos. Um é produto do outro e vice-versa, num processo de conhecimento integrado do indivíduo, e de homeóstase do seu meio interior, e deste feito indivíduo para conhecer o meio exterior.

Milhões de enervações energizadas levam constantemente informações de todo o corpo a centros de processamento que aferem o estado do corpo. Esse estado do corpo é reproduzido sob a forma de uma consciência básica do indivíduo, a consciência de si próprio. São alterações neste estado que provocam estados de EMOÇÃO, reações básicas e inatas, que têm papel fundamental na sobrevivência do indivíduo. Estas EMOÇÕES podem parecer conscientes ou inconscientes para o indivíduo, ser processadas, memorizadas e usadas a qualquer momento, sob a forma de SENTIMENTO, existindo este já independentemente do estímulo original. Exemplo: quando sofremos uma queimadura, produz-se uma EMOÇÃO que nos leva a reagir instintivamente; essa EMOÇÃO será armazenada sob uma forma de consciência estendida, o SENTIMENTO, que poderá ser ativado sempre que pensarmos em queimadura. Esse SENTIMENTO poderá futuramente ser ativado de forma voluntária ou involuntária. Damásio mostra-nos como essas consciência básica e estendida são o fundamento de uma estrutura de consciência superior, que compreende a razão, inteligência e criatividade. Que sendo fundamental à consciencia de si, essa EMOÇÃO e SENTIMENTO estão sempre presentes nas manifestações da consciência superior.

Mallebranche, como outros antes e depois dele, parecia já intuir que embora o ser humano tome consciência superior do mundo através de sistemas de armazenamento e organização de informação e do seu processamento criativo e racional, a consciência, a razão e a criatividade são co-adjuvadas e guiadas pela emoção, como forma primeira de percepção, e pelo sentimento como forma mais avançada de processamento, mimético ou criativo, da memória das emoções. Onde isto me leva? A estabelecer uma analogia que me conduz ao conceito de DEUS, e à conclusão da sua existência.


O conceito de DEUS

DEUS existe? Estendendo livremente o pensamento de Mallebranche e a ciência de Damásio, DEUS existe como produto daquela visão mais esfumada da realidade, do seu processamento e transformação criativa. Como a ciência procura ser o produto mais representativo da consciência superior, razão e criatividade, DEUS e o seu sub-produto civilizacional, a religião, resultam da produção de um sentimento criativo de DEUS, talvez processamento da emoção com funções homeostáticas que Damásio tão bem descreve, transportadas para um contexto coletivo de construção civilizacional. Qual a sua origem? Por complexo que seja desvendar a história, algumas pistas podem ser buscadas no processo de construção de coletivos humanos gradualmente mais alargados. Deixo Damásio e procuro agora inspiração em Jared Diamond (de "Germs, guns and Steel" – Norton & Co. 1999; no Brasil, "Armas, germes e aço" – Record 2001).

Diamond apresenta-nos a ideia de como a religião organizada (diferente da espiritualidade típica de indivíduos ou de pequenos grupos, que precede a religião) acompanhou o crescimento e estruturação das sociedades humanas, desde o bando, tribo, 'régulados' até às grandes civilizações-estado. O título do capítulo onde o tema é abordado é interessante e revelador: "From egalitarianism to kleptocracy". A hipótese discutida é a de que o poder secular de reis e o divino dos sacerdotes foram no início formas de transferência de poder do indivíduo, integrado em pequenos grupos aparentados (bando, tribo), para entidades representativas do interesse coletivo (?) para resolução de disputas em grupos grandes de indivíduos largamente não-aparentados e desconhecidos ('régulados' e estados). E isto porque no início da nossa existência como espécie, não éramos socialmente muito diferentes de chimpanzés, vivendo em pequenos grupos cujos indivíduos não hesitavam em matar qualquer indivíduo estranho ao grupo. Diamond discute evidências (baseadas em populações da Nova Guiné) de que, no início da formação de sociedades mais abrangentes, seria comum encontrar indivíduos desconhecidos tentando encontrar laços de parentesco entre si, mesmo que afastados. Poderiam demorar horas, até decidirem se deviam matar-se ou não! Conseguem imaginar? Bárbaro, mas delicioso! Bom, resumindo, existe uma tendência apoiada por fatos históricos de que quanto maior a organização política e religiosa de uma sociedade, levando a uma maior identificação do indivíduo com o coletivo, maior o sucesso dessas sociedades ao longo da história da humanidade. Daí se poder pôr a hipótese de as tendências à religião ou outras formas de poder organizado terem resultado de um processo seletivo. Faz sentido embora, como qualquer outro fato histórico, seja difícil de provar de forma completamente científica.

Onde entraria Damásio nesta história? A ciência e religião como corpos de conhecimento humano têm necessariamente uma génese comum, mas talvez com objetivos distintos, num contexto evolutivo. São transposições para uma esfera coletiva de algo que já se manifesta no indivíduo. O conceito de DEUS seria análogo à emoção, que desempenha um papel homeostático, que nem sequer precisa ser notado conscientemente pelo indivíduo. A religião representaria então a transposição do SENTIMENTO de DEUS, advindo da EMOÇÃO, para a esfera coletiva de organização associada à ordem social. Para isso teria sido necessário inscrever o conceito de DEUS na cultura, representando-o na linguagem simbólica, dando-lhe forma, doutrina, corpo e espírito. Nesse sentido, DEUS e a religião tornaram-se omnipresentes na maior parte das civilizações humanas, de forma que até quem rejeita o conceito e as suas manifestações reais não se liberta da sua influência. A cultura como forma de memorização coletiva, um cérebro que complementa o indivíduo, e o enforma, de forma a que ele se crie sob a memória da história das civilizações. É desta forma eficiente que nos podemos transformar e evoluir mais rápido que qualquer outra forma de vida no planeta. Mesmo que as bactérias, se tivermos em conta a evolução cultural.

DEUS existe como o AMOR e o MEDO, as ESPÉCIES e sua origem pela EVOLUÇÃO ou a RELATIVIDADE. Isto é, como conceito, como forma de compreender e produzir o mundo em que vivemos. Tal como a emoção e o sentimento são essenciais para e evolução da inteligência superior, evoluida apenas nos humanos, DEUS e a religião têm acompanhado a ciência na evolução construída das civilizações humanas. Podemos argumentar sobre as diversas origens materiais deste conceitos, mas seria ilusório apoiar a imaterialidade de apenas alguns deles. Como Damásio nos ensina, não há como fugir da materialidade na produção de CONSCIÊNCIA.

DEUS existe para além da nossa consciência coletiva histórica? Não sei, como o Freud do texto do Rogério Silva, não penso nisso. Decidi que a minha consciência, seja básica, estendida ou superior, não pode debruçar-se seriamente sobre o assunto. No entanto, tenho aprendido a respeitar, e até admirar, aquelas consciências iluminadas (no sentido de Mallebranche) que o conseguem. Desde que todos tenhamos plena consciência de que a humanidade ultrapassou, em alguns lugares mais que noutros, um certo ponto da sua ainda jovem história. Assim, devemos aceitar e aprofundar a pluralidade de formas de consciência humana, entender os seus mecanismos e contextos de funcionamento, compreender que embora indissociáveis na construção da natureza humana, não devem ser confundidas. Penso que esta visão leva ao pluralismo de Isaiah Berlin, mantendo a clareza tantos dos conceitos como do entendimento da sua função.

As religiões têm capacidade de evoluir, acompanhando a ciência na sua busca de falsificação/corroboração da matéria. Isso tem-se verificado em alguns casos, como a aceitação da teoria da Evolução por parte da Igreja de Roma. Esse processo é lento porque existe uma inércia inata na evolução dos paradigmas, que também é comum à ciência. A religião deveria voltar às suas origens, buscando aquilo que ainda não pode ser abordado pela ciência da matéria, e aí procurar e satisfazer a necessidade do conceito de DEUS.


Apophenia

...
Vejo luz. Um caminho com atalhos e desvios que desemboca num outro que ladeia um vale apertado, onde se acoita um rio estrondoso. À luz da lua plena, noto pequenas criaturas deslizando pelas bermas dos caminhos em direção às margens húmidas dos riachos e do rio. Umas de um lado, outras do outro, daquele rio, assim separadas, se juntam aquelas e aqueloutras em orgias nupciais, apartadas. O tempo passa, as paisagens ligeiramente alteradas, pelos climas mudantes, às vezes aquelas se juntam àqueloutras em um grande bacanal. Enevoada, a visão daquele espectáculo assombroso de caudas entrelaçadas em extase não me deixa perceber exatamente por onde atravessam umas e outras, nem onde se encontram. Apenas vejo que o rio corre mais estrondosamente sobre aquele vale, às vezes. Vejo a luz, mas não consigo ver nitidamente o passado, entender a sucessão dos tempos na vida daquelas criaturas de assombração.

A luz esvai-se. Estou num quarto escuro, talvez da próxima vez dure mais tempo e consiga ver algo mais. Não desisto... A minha pesquisa encontra-se num momento chave, um monte de indícios permitem-me pintar um cenário provável, mas uma questão ainda me incomoda. Temo que dependa daquelas visões de sonho para encontrar uma solução. Sei que as emoções resultantes são uma forma de concentrar e expelir tensão acumulada, reforçando a minha paixão e perseverança no tema. Metafísica, uma certa religiosidade incidindo na forma como um dia (e até hoje!) transmitirei a minha percepção daquele mundo, real e imaginário, ao meu semelhante. Isso não transparecerá nunca nos artigos científicos que publiquei desde então. O equilíbrio, sanidade e discernimento mantêm-se intatos...

...
As vozes ecoam no auditório. Gospel, cânticos em Brooklyn, Nova Iorque. Algo de simples mas revelador se passa ali. Não sei a que propósito, penso que a Ciência como corpo de percepção e organização de conhecimento não é capaz de produzir aquele tipo de significados, de sentido, de reunião e pacificação das almas. Histórias religiosas são ali partilhadas, mas isso não me incomoda como nalgumas celebrações católicas me incomodara desde a infância.
“Yeah baby, Alleluiah!” Toco na sua mão, entrelaçando-a na minha. É negra, enrugada pela idade, bela e reconfortante, produz um efeito em mim como só a beleza africana é capaz. Ecos da marimbada de negros indivíduos em êxtase que presenciei aos três anos de idade. Existem ali mãos de todas as cores que se entrelaçam, mas aquela foi, por uns instantes, só minha!

...
Os batuques de Adnan e Stuart, ressoam na noite de Berkeley, California. Não há nenhum negro ali, exceto eu. Sem necessitar de aditivos químicos, entro em transe, imitando o que ficou gravado no corpo-mente dos meus três anos de idade. As endorfinas produzidas pelos limites físicos da exaustão fazem ver que posso ser ou sentir qualquer coisa, sempre que quiser. É só voltar às minhas origens africanas.

...
O sol estende o seu ardor sobre montanhas de pedregulhos fumegantes. O Lada do nosso guia e motorista Sacha desloca-se com seus pneus gastos, ao longo da estrada deserta e da canícula. No final da nossa expedição, ainda uma viagem agora aos desertos daquele país estranho e empobrecido pelos filhos de Estaline, mas ainda muito, muito belo. Os monges não nos querem deixar entrar no mosteiro cravado na rocha, daquelas terras desérticas do sul da Geórgia, próximo da fronteira com o Azerbaijão. Entramos depois de alguma insistência dos nossos amigos, e de alguns laris para ajudar a vida simples e austera do mosteiro.... Esculpidos na rocha, mal se notando que o são, os aposentos para os hóspedes em retiro religioso, alguns em isolamento total, remetem-nos para outros tempos pouco representados no meu imaginário. Penso nos primórdios da busca por um sentido para o mundo e para vida, a génese da busca pelo conceito de Deus e, em última análise, do poder da ciência. Estes homens representam-se apenas a eles próprios, com ou sem religião, voluntários numa viagem de busca de si próprios e da natureza humana. Que filosóficas visões resultarão de tão prazerosa jornada, penosa aos olhos do homem comum. Artes de criação, como terão sido um dia as diversas criações humanas de DEUS. Percebo pela primeira vez que, também eu, sou um religioso sem religião.

...
V. afirmou que acredita em duendes... “V.!!!” - retorqui-lhe eu - “Olha que assim não chegas ao mestrado, pelo menos sob a minha orientação!”. Rimos todos! Por mais firme que seja, e serei[!], com a necessidade de rigor, clareza e concisão, na produção de conhecimento científico, espero que a V. continue a acreditar em duendes ou em qualquer outra entidade que, embora não tão nítida, lhe proporcione uma vida inspirada e um pouco mais iluminada. Sinceramente!

...
O neurocientista António Damásio mudou-se recentemente da universidade do estado de Iowa para a Califórnia para dirigir o Instituto do Cérebro e da Criatividade da University of Southern Califórnia. Se quiserem podem ouvir uma das suas últimas conferências (Princeton University, 16/10/2006) aqui.


Deixe o seu comentário no Roda de Ciência.


19 fevereiro 2007

É carnaval

A foto acima, de Tuca Vieira, eu surrupiei da galeria de musas do UOL

Adoro carnaval.
Adoro o surreal das notícias, discussões sobre o que é afinal a nudez total, volumes de silicone, o drama dos carros alegóricos pifados, a filosofia que encontra voz nos samba-enredos. E os clichês - a alegria, o dia em que a faxineira é rainha, naqueles dias tudo pode etc.
Tendo a ficar caseira, preguiça de enfrentar congestionamentos e coisa e tal. Mas faço planos, desta vez é pra valer: ano que vem vou agitar um programa carnavalesco.
Então fico em casa, vejo desfiles, leio jornal, armo um carnaval particular com um sambinha na vitrola (perdoem a palavra anacrônica, mas tão mais bonita que os equivalentes modernos).
Meu amigo Rafa outro dia me lembrou de uma experiência carnavalesca que tive na Califórnia, se não me engano em 2000. Ele viveu a aventura pela minha descrição e guardou na memória até hoje. Fui procurar meu texto e eis, abaixo.
Ler me deu vontade de pular carnaval, para celebrar ser esta a minha terra.


Carnaval de primeiro mundo

A juventude de Monterey se concentrava numa esquina, em plena celebração de Mardi gras. Moças escassamente vestidas, todos com colares de contas coloridas de plástico. Parecia ser o acontecimento do ano.

A programação incluía eventos diversos: desfiles, danças, música. Chegamos por volta das dez da noite e encontramos os dois bares com música ao vivo lotados, com filas na entrada. A maior parte dos foliões estava simplesmente de pé na rua, jovens pelo visto satisfeitos por estarem apinhados. Como regem as leis locais, não bebiam nem ouviam música. Só estavam ali, compartilhavam animação. Acima das cabeças surgiam filmadoras, tudo era registrado.

Um dos bares — campeão de fila — ficava no segundo andar, com uns janelões-vitrines que davam para a tal esquina. De lá surgiu a grande sensação: moças celebravam a vitória de ter conseguido entrar e na vitrine levantavam camiseta e sutiã. O público na rua delirava com a peitaria e atirava seus colares de contas (pagamento?), que elas tentavam pegar debruçando-se pra fora da janela já com os peitos guardados. As câmeras de vídeo todas acionadas.

A atração durou quem sabe uns vinte minutos. Enquanto todos admiravam o espetáculo, uma tropa de choque esperava, na beira da multidão. Dois carros de polícia um atrás do outro, de cada lado um policial a pé com seu cachorro, ladeados por policiais a cavalo. Atrás, um carro de bombeiros. Posicionados, prontos para impedir maiores manifestações da população desvairada.

Com certeza influenciadas pela presença da lei, duas moças acharam por bem resolver suas diferenças no tapa. Sobrou bota prum lado, jaqueta pro outro. Formou-se uma roda em volta, igualzinho acontecia na escola. Elas se puxavam os cabelos, trocavam sopapos. Os policiais, finalmente com motivo para ação, intervieram e recolheram as desordeiras. Com os alto-falantes do carro de polícia avisaram para a multidão retirar-se, liberar a rua. A turba ignorou, embevecida ainda com o show da vitrine; grande decepção quando as moças foram substituídas por um policial de costas para a janela, com sua lanterna apoiada no ombro apontando pra dentro.

A tropa da rua então avançou. Com o fim do show erótico, a atração passou a ser a ação policial. O clima ficou tenso e quando começaram a chover garrafas sobre a coluna da ordem, meus amigos decidiram pela retirada.

Eu corria sério risco de ficar ali boquiaberta, até me cair uma garrafa na cabeça ou ser detida como desordeira.


18 fevereiro 2007

Onde está Monbiot?

Tell people something they know already and they will thank you for it.
Tell them something new and they will hate you for it.

George Monbiot


Tenho verificado ultimamente que as afirmações acima são largamente verdadeiras. Elas servem para introduzir George Monbiot, britânico, activista, ambientalista, jornalista e professor universitário. Venho seguindo a sua coluna semanal do The Guardian, desde que li “Manifesto for a new world order” (The New Press, 2003). Os seus textos são admiráveis pela riqueza e clareza informativas, de fontes diversas, compondo artigos de opinião bem fundamentados que considero exemplos do tipo de jornalismo reflexivo que me interessa ler e ouvir. Podem ser lidos aqui.

Acabo de ler “Heat: how to stop the planet burning”, (Penguin Books, 2006) o mais recente livro de Monbiot sobre o que podemos e devemos fazer para evitar as consequências mais catastróficas do aquecimento global.

Hoje, após anos de dúvida e negação, parece consensual que o aquecimento global por ação humana é um fato real e mensurável. Mesmo alguém muito distraído terá notado a reverberação pela imprensa do último relatório do Painel Intergovernamental para as Mudanças Climáticas (IPCC), que pode ser consultado aqui.


Heat
é um manifesto para a mudança baseado numa pesquisa bibliográfica sólida. A pesquisa mais recente sugere que se a concentração de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera se mantiver nos níveis atuais, a temperatura global aumentará cerca de 2 graus centígrados (relativamente ao séc.
XIX). Este é o limiar acima do qual se prevê a ruptura do equilíbrio nos grandes ecossistemas: em vez de absorver CO2, a moribunda floresta amazónica começará a libertar milhões de toneladas do composto. Longe dali, à medida que gelos imemoriais começarem a derreter, o solo libertará gases que aumentarão o efeito de estufa. As alterações climáticas terão entrado num processo de retro-alimentaçao positiva que conduzirá ao descontrolo do clima que hoje conhecemos.

Para evitá-lo, Monbiot afirma que devemos evitar que o aquecimento global ultrapasse aquele “limiar crítico”. É possível que já tenhamos ultrapassado o ponto de não retorno. Mas Monbiot escreve-nos “com um espítito otimista”.

E a ameaça é tão óbvia que não vale mais perder tempo combatendo os argumentos dos mais cépticos!

Após dois capítulos introdutórios, Monbiot começa a desenrolar aquele que é o primeiro e único documento, até ao momento, que avança propostas concretas sobre como mudar as nossas vidas para salvar o clima do planeta. Isto, sem esquecer os custos de tamanha tarefa, claro! Só por este motivo, já teria valido a pena ter lido o livro.

O que fazer então?

Necessitamos de uma redução global de 60% nas emissões para evitar atingir o limiar crítico. O que significa que, em média, as nações mais ricas terão de cortar as emissões em 90%. No Reino Unido, será necessário passar de 2.6 toneladas de CO2 emitidas anualmente per capita para 0.33 toneladas. Se à primeira vista parece impossível, Monbiot trata de convencer-nos que uma nação industrial de tamanho médio como o Reino Unido “pode ser descarbonizada e permanecer uma economia moderna ". Como? Primeiro, todos os cidadãos do planeta devem ter o mesmo direito a emitir de gases que produzem efeito de estufa, o que equivale a adotar um racionamento global per capita em conjunto com um mercado de emissões de carbono. Para tornar o sistema de racionamento realizável, os governos precisam investir pesadamente em infraestruturas energéticas alternativas. Isso significa redesenhar sistemas de transporte para nos curar da nossa (tóxico-)dependência do uso individualista do automóvel, promover a transição para sistemas de energia renovável e centrais de gás natural com tecnologias de captura e armazenamento de carbono, e uma nova rede de energia que permita aproveitar a energia produzida por turbinas eólicas instaladas nas plataformas continentais marinhas e energia solar produzida no... Sahara! Monbiot explica-nos como tudo isto será tecnologicamente e economicamente possível, desde que os governos estejam dispostos a fazer a sua parte. Mas não existem governos sem seus eleitores. NÓS!

Além de alterações na matriz energética, é preciso melhorar a eficiência do uso da energia a vários níveis. Uma área com grande espaço para ganhos de eficiência é a da construção de edifícios e habitações. Quem já não ouviu falar de edifícios inteligentes? Pois é necessário investir para os construir e Monbiot faz propostas concretas que mais uma vez se aplicam ao Reino Unido, onde a demanda de energia residencial entre 1990 e 2003 subiu mais do dobro da média nacional. Monbiot apresenta soluções engenhosas para cortar as emissões de carbono, mas preservando, em grande parte, o confortável estilo de vida ocidental. Com a importante excepção de uma extravagância bem carbonada de que tanto gostamos: VOAR! Um vôo Nova Iorque–Londres produz mais gás com efeito de estufa por passageiro que a totalidade da quota anual individual do sistema de racionamento de emissões de carbono. "O crescimento na aviação e a necessidade de combater o aquecimento global não são compatíveis." Um corte nas emissões de 90% significa o fim das viagens para fazer compras em Nova Iorque ou safaris no Quénia. A alternativa é acreditarmos "que estas atividades se justificam apesar do sacrifício da biosfera e das vidas dos mais pobres". Sim, porque os primeiros que sofrerão com o aquecimento global (e já sofrem!) são as populações do Bangladesh ou de muitas regiões de África. Será que a fome e a guerra de etíopes e sudaneses valem o sacrifício do nosso confortável desperdício de energia?

O problema é que parece que vivemos num estado de negação da catástrofe que poderá um dia cair-nos em cima. Apesar de toda a informação que circula, quem se preocupa? Onde estão as grandes manifestações de ativistas? Monbiot afirma que a juventude, filha daquela que vivia em manifestações nos anos 70 e 80, vive hoje demasiado...endividada! Apesar disso Monbiot pretende acordar-nos e persuadir-nos de que vale a pena combater o aquecimento global. Ou, pelo menos, que “todos fiquemos de cama, de tão deprimidos, reduzindo assim o consumo de combustíveis fósseis".

Heat é ao mesmo tempo um “manifesto e um exercício intelectual”. Pela impressionante combinação de detalhes práticos e pensamento criativo, é um documento único e é o único documento do momento que pode servir de guia para a ação. Monbiot conclui que “é possível salvar a biosfera” mas temos de estar preparados para aceitar que limitar a nossa liberdade de poluir significa uma mudança nas nossas vidas.

Mas atenção, a receita de Monbiot não é diretamente transponível para países em desenvolvimento ou emergentes como o Brasil. Esses necessitam de encontrar as suas próprias soluções, com certeza baseadas nos princípios gerais encontrados em Heat. Onde está o Monbiot brasileiro?

Heat: leitura agradável e acessível ao público em geral. Obrigatório neste ano de 2007. Para ler, reflectir e AGIR, com coerência!


17 fevereiro 2007

Procura-se!

Esta semana descobri um livro lindo, que recomendo a quem queira presentear crianças. Procura-se - Galeria de animais ameaçados de extinção é uma coletânea, produzida pela Companhia das Letrinhas, de textos sobre animais brasileiros em perigo, inicialmente publicados na Ciência Hoje das Crianças.

Cada texto é de um autor diferente, e traz uma ficha técnica sobre o animal e um texto com curiosidades e informações diversas - além de uma foto e uma lindíssima ilustração de Mario Bag.

15 fevereiro 2007

Bacilo na tribo

Apesar do extenso alcance do Programa Nacional de Imunizações, a tuberculose ainda impera em populações indígenas brasileiras.

Leia matéria na Pesquisa Fapesp.


As moças suruí ao lado foram fotografadas pelo médico Paulo César Basta, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

11 fevereiro 2007

Cada um faz, cada um conta

Respondo aqui à proposta da Lucia Malla, de refletir sobre o que cada um de nós faz para contribuir para que este mundo se sustente - conosco e nossos conterrâneos (no sentido amplo de Terra) animais e vegetais em cima dele.

Aqui vão três manias minhas que, espero, são uma pequena contribuição.

- Evito desperdícios. De comida, de energia, de água... A sociedade consumista infunde nas pessoas um descaso pelo uso de recursos. Deixar a luz do quarto ligada enquanto vê novela na sala, afinal que diferença faz na conta que virá no fim do mês? Tratar objetos como descartáveis. Deixar a água correndo enquanto escova os dentes andando pela casa. Tudo pequenas bobagens, mas que multiplicadas pelos milhões e milhões de pessoas com os quais dividimos o planeta, têm dimensões incomensuráveis. Refleti um pouco sobre isso no
primeiro texto que pus neste blogue, lá se vai mais de um ano.

- Papel, como a gente gasta! Na verdade tem a ver com o item anterior, mas como desperdiçamos muito sem nem pensar, opto por mais destaque. No meu trabalho a impressora imprime dos dois lados do papel, basta a gente "pedir". Foi a primeira coisa que verifiquei quando cheguei, e imprimo sempre dos dois lados. Para espanto dos colegas, que nunca viram tal coisa - e grande parte reclama que não gosta de ler em papel impresso dos dois lados. Não sou de fazer campanhas e manifestos, então fico na minha. Finalmente, semana passada duas pessoas me pediram que mostrasse como fazer. Uma pequena vitória, mas tão pequena.


- Sempre que possível, uso transporte público. Em algumas situações considero mais fácil, embora tenha seus desconfortos. Claro que não é bom tomar chuva no ponto de ônibus, não ter onde sentar, ter que carregar minhas coisas... mas pelo menos não me preocupo se vão roubar meu carro, nem noto o trânsito, posso ler no caminho... e poluo menos, e gasto menos combustível, e contribuo menos para o caos urbano! Claro que tem horas que não dá, que transporte público causa transtornos incontornáveis em nossas vidas ocupadas. Aí é usar discernimento. Este é mais um tema de que tenho mania e já causou muito debate neste blogue, veja
aqui, aqui e aqui.


10 fevereiro 2007

Farejadores de perigo

Fã de ratos, Bart Weetjens resolveu ensiná-los farejar minas em Moçambique. Mas não ratos quaisquer: são ratos gigantes do Gâmbia, Cricetomys gambianus. Treiná-los leva de 6 a 8 meses, muito mais rápido e barato que um cachorro. Quando encontram alguma mina, que infestam o solo moçambicano desde a guerra civil, dão uma cavadinha no chão - mas são leves demais para detoná-las. É a vez dos companheiros humanos, que removem o perigo explosivo.

O problema é que falta verbas para remoção de minas moçambicanas, então eles estão sendo treinados para outros farejamentos: são mais eficazes em detectar tuberculose em escarros do que um técnico munido de microscópio. Como a tuberculose causa estragos sérios na África, os ratos prometem. Seus treinadores pretendem levá-los para escolas, prisões e bairros pobres. Segundo Weetjens, com mais um ou dois anos de trabalho os ratos estarão bem escolados para essa nova função.

O site http://www.herorat.org/ traz mais informações, e permite até adotar um rato e financiar sua formação por 5 euros por mês!

Veja este e outros assuntos na seção Laboratório da Pesquisa Fapesp de fevereiro.


08 fevereiro 2007

Folha fantástica!

Títulos para a posteridade, da Folha de S.Paulo, de quinta-feira, 8 de Fevereiro de 2007:

Comissão em SP reconhece um feto como preso político. (capa)
Reconhecido como vítima de tortura, feto busca reparação. (A10)

Aquecimento global...? Neotenia? Não, não, sossegue, hum... não comece já a imaginar o feto no tribunal, ou buscando seu torturador nas ruas de S.Paulo. Hum...mas leia a explicação aqui.

You might say that - I couldn't possibly comment.

Gripe das aves levanta vôo!


The British outbreak, on a large turkey farm in eastern England, follows repeated insistence by British officials that the nation's wild birds do not have the virus, even though an infected dead swan turned up in Scotland last April. But there is a chance that surveillance is missing the virus.

Pequeno excerto de um artigo da revista britânica New Scientist, a propósito do surto de gripe das aves detectado numa exploração aviária no Reino Unido. Ler a matéria completa aqui.

Em relação à última frase do excerto, Francis Urquhart, o político britânico da genial e renomada série da BBC, House of Cards, diria:

"You might say that - I couldn't possibly comment."