07 fevereiro 2007

Aqui vai o poema blind men and the elephant, que mencionei nos comentários do roda de ciência. as guerras teológicas são cegas e a guerra entre a ciência e a teologia também me parece seguir o mesmo rumo!

THE BLIND MEN AND THE ELEPHANT

John Godfrey Saxe's ( 1816-1887) version of the famous Indian legend,

It was six men of Indostan,
To learning much inclined,
Who went to see the Elephant
(Though all of them were blind),
That each by observation
Might satisfy his mind.

The First approach'd the Elephant,
And happening to fall
Against his broad and sturdy side,
At once began to bawl:
"God bless me! but the Elephant
Is very like a wall!"

The Second, feeling of the tusk,
Cried, -"Ho! what have we here
So very round and smooth and sharp?
To me 'tis mighty clear,
This wonder of an Elephant
Is very like a spear!"

The Third approach'd the animal,
And happening to take
The squirming trunk within his hands,
Thus boldly up and spake:
"I see," -quoth he- "the Elephant
Is very like a snake!"

The Fourth reached out an eager hand,
And felt about the knee:
"What most this wondrous beast is like
Is mighty plain," -quoth he,-
"'Tis clear enough the Elephant
Is very like a tree!

"The Fifth, who chanced to touch the ear,
Said- "E'en the blindest man
Can tell what this resembles most;
Deny the fact who can,
This marvel of an Elephant
Is very like a fan!"

The Sixth no sooner had begun
About the beast to grope,
Then, seizing on the swinging tail
That fell within his scope,
"I see," -quoth he,- "the Elephant
Is very like a rope!"

And so these men of Indostan
Disputed loud and long,
Each in his own opinion
Exceeding stiff and strong,
Though each was partly in the right,
And all were in the wrong!

MORAL,
So, oft in theologic wars
The disputants, I ween,
Rail on in utter ignorance
Of what each other mean;
And prate about an Elephant
Not one of them has seen!

05 fevereiro 2007

Dia de Darwin

No próximo fim de semana (10 e 11 de fevereiro), o Museu de Zoologia da USP comemora o aniversário de Charles Darwin.

O evento tem como objetivo divulgar a teoria da evolução para o público leigo e oferece palestras, oficinas para crianças e a leitura de uma peça de teatro que deve estimular debate sobre criacionismo versus evolucionismo. Veja aqui o programa.

Para outros eventos de comemoração do dia de Darwin, veja aqui.

Animais em perigo

Tigres, orangotangos, bacalhaus, tartarugas marinhas... são alguns dos animais que correm sério risco de extinção pelo mundo afora. Perdê-los pode ter importância estética, ecológica, afetiva ou culinária - conforme o caso e o ponto de vista.

O jornal britânico The Guardian acaba de publicar uma lista de animais com um resumo do que os ameaça. O que me chamou a atenção é que a matéria traz, a cada caso, dicas do que cada um de nós pode fazer para ajudar na preservação de cada uma das espécies.

Confesso que ainda não li tudo - ponho aqui como lembrete para mim mesma (assim que tiver um tempinho...), que compartilho com quem quiser.

27 janeiro 2007

Que tal, o altruísta punitivo ?

Por que e com quem, somos ou não altruístas? Haverá forma de sermos humanamente mais altruístas e cooperativos? Pois é, grandes questões na tragicomédia que é a natureza humana, que alguns pesquisadores das ciências sociais tentam abordar através de modelos matemáticos, como o que divulgo a seguir.

A evolução e persistência do altruísmo e da cooperação no mundo natural tornam-se compreensíveis à luz das teorias de seleção de grupo do biólogo William Donald Hamilton (para conhecer Hamilton e suas teorias clique aqui), que postulam que a cooperação seria uma boa estratégia para elevar a probabilidade de sobrevivência e do sucesso reprodutivo em indivíduos aparentados. A teoria poderia ser estendida,
seguindo a mesma perspectiva darwiniana, para explicar a cooperação em grupos sociais humanos, entre indivíduos aparentados ou não.

Mas o que esperar de interações entre indivíduos não organizados em famílias ou outro tipo de grupos sociais? Esse é exatamente o tema do artigo que notei na PNAS de Maio de 2005. A pergunta específica do artigo é como a cooperação se pode originar e manter entre indivíduos não aparentados e com interações casuais que não contribuem para a reputação dos indivíduos envolvidos. O contexto conceitual do artigo é a teoria de jogos aplicada a bens públicos (se desconhece a teoria de jogos clique aqui).

O autor do artigo, James Fowler, propõe um modelo em que considera diferentes tipos comportamentais individuais, "numa população que tem a oportunidade de criar um bem público que é igualmente distribuído a todos os indivíduos na população". Um exemplo clássico, usado por Fowler, é a organização de batidas de caça cujos recursos serão posteriormente distribuídos pelos indivíduos da população. Imagine qual a sua atitude nessa empreitada coletiva! Com certeza, você decidiria ou não participar segundo a previsão de lucro [benefício (porção de caça) – custo (esforço dispendido na atividade)] obtido caçando em grupo por oposição a caçar sozinho. Optando por ser um participante, você poderia ainda escolher entre ser contribuinte ou não-contribuinte para o esforço coletivo que originaria o pecúlio a ser distribuído por todos os participantes. Assim, um não-contribuinte beneficiaria do esforço coletivo sem ter para ele contribuído. Já o não-participante não beneficiaria desse esforço porque empreenderia a sua própria batida de caça ou outras atividades.

Então, qual estratégia você escolheria? A resposta lógica é: depende. Dependeria de qual estratégia garantisse um lucro mais elevado, que garantisse uma maior aptidão [fitness] darwiniana na luta pela sobrevivência e reprodução. Por exemplo, a decisão de participar ou não dependeria da quantidade de caça com que você seria beneficiado adotando uma ou outra estratégia. A caça resultante do esforço coletivo e que seria dividida por todos os participantes dependeria da soma dos esforços de todos esses indivíduos. Se dentre eles houvesse uma grande proporção de não-contribuintes, a porção que caberia a cada um seria previsivelmente menor e talvez fosse mais aconselhável, do ponto de vista darwiniano, não participar e caçar sozinho ou empreender outras atividades.

A evolução de um sistema deste tipo pode ser simulada através de modelos matemáticos que tentam prever o lucro de cada uma das estratégias individuais bem como a evolução dessas estratégias de acordo com a previsão de lucro ao longo de vários ciclos (ex: várias caçadas). Vários modelos deste tipo mostraram recentemente que existe uma tendência para uma alternância cíclica entre as três estratégias consideradas. Na primeira fase do ciclo, os não-participantes são maioritários na população, mas se os contribuintes produzem um lucro líquido que excede o lucro obtido com outras atividades individuais, rapidamente os não-participantes se tornam participantes contribuintes. No entanto, esta situação é efémera pois a generalização do tipo contribuinte estimula o aparecimento de participantes não-contribuintes que procuram o benefício sem custos. Por fim, à medida que o sistema cooperativo colapsa, o benefício público diminui e os não-participantes, que conseguem garantir um lucro mínimo, de novo se tornam predominantes na população.

A novidade do trabalho de Fowler foi a introdução de um quarto tipo de estratégia individual, contribuintes que têm uma atitude punitiva altruísta tanto para com os não-contribuintes como para com os contribuintes que não são punitivos. Esta atitude punitiva é altruísta pois visa o bem comum e acarreta um custo determinado. O altruísta punitivo ignora no entanto os não-participantes pois estes não contribuem nem beneficiam do bem público. Simulando a evolução de uma população, agora com as quatro estratégias, Fowler verificou que a maioria da população tende sempre para uma maioria de altruístas punitivos. Portanto, uma estabilização do sistema cooperativo que não seria conseguido sem a atitude punitiva.

É claro que tudo isto é apresentado no mundo dos modelos matemáticos. Ainda nesse mundo, é da boa prática científica criticar os modelos pela sua adequação à realidade ou ao objetivo a que se propõem. No caso de Fowler, a crítica está embutida no artigo que tece várias considerações sobre variações às condições do modelo como por exemplo a capacidade dos indivíduos detectarem os não-contribuintes e a variação no grau de punição como dissuasora de atitudes não contributivas ou não punitivas. Tudo isto é considerado por Fowler para chegar à conclusão que uma estratégia pró-cooperação como o altruísmo punitivo tende a ter sucesso darwiniano porque simultaneamente possibilita obter mais benefícios que uma estratégia não-participante e mantém os não-contribuintes sob controle.

Fowler conclui que o modelo mostra como a punição altruísta se pode tornar dominante numa população em que exista um incentivo para a não-contribuição aliada a um incentivo de não-punição dos não-contribuintes. Este tipo de dinâmica pró-social tinha sido anteriormente demonstrado apenas para sistemas de indivíduos integrados em grupos sociais em vez de indivíduos não aparentados com contatos fortuitos. Finalmente, demonstra que a origem e a persistência de um sistema de cooperação generalizada se tornam possíveis quando indivíduos promovem a sua obrigatoriedade de forma voluntária, descentralizada e anónima, mesmo em populações grandes e numa variedade de circunstâncias.

Bom, mas isso é num modelo matemático! E na vida real, onde os indivíduos estão normalmente inseridos em grupos de parentesco ou socio-culturais, que se tornam eles próprios os atores nas interações sociais? Existem um sem número de outros modelos em teoria de jogos que tentam aproximar-se de outros tipos de situações mais realistas, em que os indivíduos não são anónimos e cujas interações têm efeito na sua reputação. No entanto, o modelo de Fowler de jogos de bens públicos é para mim interessante por que leva à reflexão sobre como sistemas de globalização e aleatorização de contatos individuais podem originar um sistema mais cooperativo do que o que vivemos hoje. Um exemplo é o sistema através do qual me comunico neste exato momento, o éter electrónico!

E agora que sabe como ele é em teoria, que tal ser um altruísta punitivo na vida real?


25 janeiro 2007

Ciência no dia-a-dia

O forno de microondas não serve só para esquentar comida: ele é utilíssimo para desinfetar esponjas de cozinha. Basta pôr sua esponja úmida no microondas e ligar por 2 minutos. Mata 99% das bactérias!

Eu faço isso quase que diariamente há uns anos, desde que li uma matéria no New York Times que dizia isso. Segundo a matéria, tinham feito um levantamento de bactérias em cozinhas de donas de casa cuidadosas e de estudantes que moravam em república e nunca limpavam suas cozinhas. As cozinhas dos solteirões, cheias de louça suja na pia, tinham menos bactérias espalhadas. Parece que passar um pano de um lado para outro, mesmo que limpinho, só espalha as bactérias (eu ponho meu paninho no microondas também).

Esta semana vi no Eurekalert uma notícia sobre uma pesquisa (outra) de uns pesquisadores da universidade da Flórida. Eles examinaram com mais detalhe o efeito das microondas nas bactérias, e parece que funciona mesmo.

Fica aqui a dica.

P.S. O Osame, do Semciência, também gostou da história. Veja aqui.


22 janeiro 2007

Curso de especialização em Jornalismo Científico

Estão abertas, até 31 de janeiro, as inscrições para o curso de especialização do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo Científico (Labjor), na Unicamp.

O curso é gratuito e a inscrição depende de um processo de seleção. São três semestres de disciplinas práticas e teóricas, cobrindo áreas do jornalismo às ciências.

Fui aluna da turma anterior, que se formou no meio do ano passado. Tirei enorme proveito das aulas e da convivência, que me ensinaram muito sobre o modo jornalístico de escrever sobre ciência. Comecei o curso em seguida a terminar doutorado em biologia, e ele sem dúvida me abriu as portas desta nova carreira.

Não posso deixar de falar da riqueza de conviver com 50 colegas jornalistas e cientistas, com enormes diferenças em suas bagagens profissionais. Lá conheci pessoas que quero carregar comigo vida afora, como a Silvia Cléa do Pitáculos em Ciências.

17 janeiro 2007

Malária de volta à Europa?

Um especialista do Centro de Malária e Doenças Tropicais admitiu hoje que em Portugal, e noutros países europeus, existe o risco de ressurgimento de doenças tropicais, como a malária, devido às alterações climáticas.
...
Após a descoberta de mosquitos transmissores do parasita da malária na Baviera, no Sul da Alemanha, vários meios de comunicação social daquele país alertaram para a possível propagação de doenças tropicais [na Europa].

Leia o artigo completo na edição eletrónica do jornal Público.

Lá diz o sábio ditado popular que não há nada como um dia após o outro,
para ver o mundo rolar,
cima virar baixo,
Europa, África,
e os pólos, centro.

16 janeiro 2007

Fofo!

Imagem que representa bem o novo programa de conservação das criaturas mais estranhas ('weirdest'), lançado pela Sociedade Zoológica de Londres. Leia a notícia aqui na página da BBC.

Essa estranheza é explicada pelo fato destas destas criaturas estarem em ramos meio isolados da árvore da vida, ou seja, não terem parentes próximos com os quais se assemelhem a nível genético, e/ou estarem em declínio.


Foto: Loris tardigradus, Zoological Society of London

Fico feliz e emocionado, claro, mas preocupa-me um pouco que imagens deste tipo contribuam bem demais para cultivar um certo prazer mórbido de tentar preservar 'fofuras' candidatas ao prémio de
becos sem saída evolutivos ('evolutionary dead-ends'), sem desencadear na imprensa, logo no público, uma verdadeira reflexão sobre o que deveria ser conservar olhando para o passado e procurando assegurar o futuro dos processos evolutivos que, mesmo no presente, neste pequeno lapso de tempo que passa enquanto escrevo, vão criando biodiversidade (ver abaixo o texto da Maria Fixismo ambiental).

Desde que a conservação de 'fofuras' não seja apenas uma distração que nos afaste do verdadeiro, e mais sério desafio..., por mim tudo bem. Fofos sejam!

12 janeiro 2007

Embates na natureza

Aranha disfarçada de flor.
Abelha vai buscar pólen
e vira almoço


10 janeiro 2007

Ouro e prata por um fio

Quando uma finíssima placa de ouro e prata é esticada até o ponto de romper-se (ao lado), o inesperado acontece.

Para explicar o mundo atômico dos metais, uma equipe de físicos teóricos e experimentais, liderada por Douglas Galvão e Daniel Ugarte (Unicamp), reuniu mentes e esforços. As imagens ao lado resultam das simulações feitas por Galvão e seu doutorando Fernando Sato. Os resultados mais recentes eu conto na edição de janeiro da revista Pesquisa Fapesp, agora nas bancas.

Faz parte do esforço diário para explicar o complicado de forma simples, tema em discussão na roda de ciência.



07 janeiro 2007

"Não entendi nada, deve ser importante"

O tema em discussão na roda de ciência em dezembro e janeiro - falar e escrever simples - me faz pensar na prática comum de esconder ignorância atrás de palavrório rebuscado. Quantas vezes isso não aparece em discursos de políticos que não querem mostrar o que pensam (ou, pior, que não pensam). Ou em textos de quem quer parecer mais sabido do que é.

Já me mortifiquei por não conseguir entender discursos - orais ou escritos. É duro se sentir burro.

Mas há textos difíceis que convidam o leitor a perder-se em seus meandros e decifrar o que der. Penso em Guimarães Rosa, cujo Grande sertão acabo de reler e sei que a cada releitura se revelarão coisas que me tinham escapado.

E há oradores que mergulham em temas profundos e conseguem transmitir diversos níveis de complexidade. Penso nas aulas de evolução do professor David Wake na universidade de Berkeley - todos saíam encantados e enriquecidos da aula, mas cada aluno aprendera coisas diferentes conforme seu nível de conhecimento. Ninguém era excluído porque o discurso era claro.

Acabei concluindo que, se não entendo nada, talvez o tema não me interesse a ponto de captar minha atenção. Uma variação da fábula da raposa e das uvas. Ou está mal comunicado. Talvez seja prepotência, mas tendo a achar que a boa comunicação deve atingir a qualquer pessoa de inteligência e cultura medianas que esteja disposta a entender.

Bom exemplo da complexidade que oculta o nada a dizer está nas guerras pós-modernas, que Richard Dawkins relata no divertido ensaio "O pós-modernismo desnudado", que integra a coletânea O capelão do diabo (2003, Companhia das Letras). Lá estão fórmulas de Lacan, com as quais Dawkins é impiedoso ("Não é necessário conhecimento matemático [...] para nos assegurar de que o leitor dessa tolice é um tapeador"), e o relato da peça pregada por Alan Sokal no pós-modernismo. Em 1996 ele teve um artigo sem pé nem cabeça, mas construído conforme a sintaxe das ciências sociais, aceito no periódico especializado Social Text. Não precisa fazer sentido, basta ser complicado!

A brincadeira ganhou novo corpo com o
gerador pós-modernista, um site que produz, a cada visita, um novo texto pós-moderno. Absolutamente correto do ponto de vista gramatical e sem sentido nenhum. Divirtam-se.

Leia mais sobre o tema na roda de ciência
Comentários aqui.


Fixismo ambiental

Serra da Mantiqueira, foto de Célio Haddad

Preocupar-se com a degradação do meio ambiente e temer um mundo árido para nossos descendentes deixou de ser privilégio dos "ecochatos". Extinções, descobertas, desmatamentos e leis de proteção aparecem quase diariamente no noticiário nacional e internacional, impresso e neste meio virtual, como o texto recente de João Giovanelli no Biodiverso.

No Brasil temos uma diversidade biológica para deixar qualquer um boquiaberto, como aconteceu com Marcelo Leite do Ciência em dia (saiu hoje no caderno "Mais" da Folha de São Paulo, ainda não está no blogue neste momento em que escrevo), durante suas férias. Mas como fazer para que essa riqueza toda não escoe pelo ralo da civilização? Parece óbvio, elaborar listas vermelhas de fauna e flora ameaçadas, e delimitar áreas de preservação que as protejam.

Não duvido da importância dessas iniciativas, mas não basta. Para conservar a natureza de forma coerente é preciso dar mais tratos à bola. É com esse intuito que eu, João Alexandrino e Célio Haddad escrevemos um artigo que foi publicado na revista Ciência Hoje de dezembro, agora nas bancas (não está disponível na internet).

Nossa visão de preservação muitas vezes corresponde a anseios estéticos e saudosistas. Animais carismáticos como o panda suscitam grande interesse de ecologistas. Não tenho nada contra pandas, mas fico curiosa em saber quanto duraria, num mundo imaginário intocado por "intrusos" humanos, um animal que só come broto de bambu. Do ponto de vista evolutivo, os organismos que se espalharam e deixaram mais descendentes são em geral aqueles com mais jogo de cintura, capazes de adaptar-se a situações diversas - e adversas.

Talvez o panda durasse eternidades a mais sem a nossa interferência, mas o que me interessa é pensar como decidir o que deve ser preservado. Nesse cômputo é raro incluir-se a mutabilidade inerente à natureza - se os homens das cavernas fossem bons preservacionistas, quem sabe teríamos agora dinossauros em nossos quintais e nada dos mamíferos, passarinhos e outros animais que conhecemos.

A natureza muda, ela é um processo e não um objeto fixo. Como preservar, então? Melhor do que escolher quais espécies devem continuar a existir, é manter áreas naturais nas quais o processo evolutivo possa continuar, livremente. O desafio passa então a ser como definir essas áreas. Está brotando no Brasil o fértil campo da filogeografia, que busca compreender a trajetória das espécies no tempo e no espaço estudando a geografia da diversidade genética. Em conjunção com a modelagem ecológica, que computa parâmetros ambientais para prever onde espécies existem e existirão, a filogeografia pode indicar áreas que persistiram a milênios de alterações climáticas e têm maiores chances de continuar a abrigar diversidade biológica.

O assunto é complexo e requer uma abordagem multidisciplinar. Biólogos com especialidades diversas, ecologistas e políticos têm que manter todos os canais de comunicação abertos para chegar a conclusões frutíferas.
(Na verdade, terminei este texto assim só como pretexto para indicar o artigo de Carl Zimmer sobre a falta de comunicação entre pesquisadores.)


Mais: "Conservação da biodiversidade", Ciência Hoje 39 (dezembro 2006), seção "Ensaio", pp. 60-63.


21 dezembro 2006

Falar simples na roda de ciência

Simples,

o quê? para quem?

...para o leigo,

informado?
intelectual?

conformado?
alienado?

digital?

operário?

eficiente?

suficiente?

camponês?

sem-terra?

transgénico?

clonado?

eleito?

povo?

néscio?

o leigo? [agora de baixo para cima,e para baixo outra vez!]


Simples para muitos,

e ainda complexo para a maioria.

Para este, duas frases cifradas

para aquele, o cosmos,

ou o caos.

Àqueloutro, simplificar a história da
grande explosão,

ou do grande salto em frente,

do camarada Mao,
e do bom Adolfo.
Haverá sempre aqueles que,
uma, outra vez, e sempre,
quererão ouvir a história da criação

deus salva, é fiel e fala simples,
ao coração,
É bom de concluir,

quem ganhará a parada!?
Mas então,
não haverá salvação,
do destino traçado na escritura fatal?
Mas sim, mas sim,
curiosamente,
anunciada de forma simples,
em várias escrituras fatais,
bíblias, origens das espécies,
e outras que tais:
procriai-vos, replicai-vos!
No vosso rebanho,
induzí a fala simples,
do pensamento complexo,
e o inverso como exercício lúdico,
o culto ao símbolo,
e seus propágulos,
sentidos múltiplos,
múltiplos leitores,
multi-formato,
leitor múltiplo,
verso e reverso,
evoluído,
de Alexandria para Thistledown,
pois está na boa tradução,
a alma da solução.

Excerto do manifesto do Movimento pelo Bolsa-Ciência do Brasil (MCBC).

Para fazer algum comentário ou para ler outros textos do debate "Falar e escrever simples...", rebole-se aqui na
Roda de ciência.


15 dezembro 2006

Mamíferos descobertos

Extinções são uma grande preocupação hoje em dia, com as cidades tomando o lugar das florestas em boa parte do mundo.
Muitas vezes perdemos animais e plantas que nem chegamos a conhecer, ainda há muito a descobrir.
Novas espécies são descobertas o tempo todo, notícia boa mas alarmante também - é difícil proteger o desconhecido.
Acaba de sair um novo número da revista Pesquisa Fapesp, que traz um texto meu sobre novas espécies de mamíferos. Ele pode ser lido aqui, mas vale a pena dar uma olhada na revista impressa - é mais gostoso de ler e o tratamento gráfico é de primeira.

10 dezembro 2006

DNA e sensacionalismo

Não canso de me impressionar como tudo o que diz respeito ao material genético - o humano, sobretudo - ganha proporções exageradas, vira manchete de jornal, assunto para a hora do café no trabalho. "Você viu? Descobriram que o DNA não é nada como se pensava!", e por aí vai. É muito fácil afastar-se rapidamente do que realmente dizem os artigos científicos.

O assunto do mês passado, que deu origem à capa ao lado no jornal britânico The Independent, foi a descoberta de uma variação inesperada no DNA de humanos. A informação vem de dois artigos, um deles na Nature de 23 de novembro.

Os pesquisadores responsáveis pelos artigos reanalisaram as seqüências obtidas no Projeto Genoma Humano e encontraram uma variação imensa que não vem de substituições na seqüência do DNA, mas de repetições ou deleções de partes do material genético. Uma mutação do tipo "clássico" transformaria um gene com seqüência AATGCCTGACTGAGGGTT em
AATGCCTGTCTGAGGGTT, por exemplo. O que se viu, ao contrário, foi algo do tipo AATGCCTGACGACGACGACTGAGGGTT. Esse tipo de alteração foi detectado em 12% dos genes, e pode representar uma diferença de milhares de bases (cada uma dessas letras) entre uma pessoa e outra. Os geneticistas sugerem que, como vários dos genes com esse tipo de variação estão ligados a doenças, talvez venha a se verificar que o número de repetições tenha algo a ver com propensão a desenvolver tais enfermidades. Pus o itálico para chamar atenção para a cautela expressa nos artigos científicos, que parafraseei livremente.

A revista Pesquisa Fapesp de dezembro traz na seção "Laboratório" de sua edição de dezembro um resumo para lá de sumário do artigo da Nature. A decisão por apresentar o achado numa pequena nota foi consciente. Afinal, a descoberta é importantíssima, pois abre caminho para vasculhar o material genético com mais discernimento e tentar compreender como ele funciona, mas passa muito longe de representar "o livro da vida reescrito", como apresentou o Independent.

A culpa pelo sensacionalismo não é totalmente da imprensa. A Nature e outros organismos de apoio a jornalistas produzem textos já mastigados, muitas vezes simplesmente reproduzidos em meios de comunicação. No mínimo servem de guia. Esses releases destacavam a diferença entre pessoas, que pode ser maior do que se esperava, e a importância para manifestação de doenças. A imprensa repetiu esses destaques, às vezes com certo exagero como no caso do Independent.

Procurei nos artigos originais qual seria então a semelhança entre eu e você, se não é 99,9%. Não encontrei. Porque não era mesmo o ponto central. Esse número é ainda mais interessante porque na semana anterior as revistas Science e Nature tinham publicado artigos sobre o genoma seqüenciado do homem de Neandertal, a espécie extinta mais aparentada à nossa. Aí sim, um dos pontos centrais era a semelhança entre eles e nós, 99,5%. Segundo o Estado de São Paulo, o artigo da Nature de 23 de novembro estabelece essa mesma semelhança entre dois humanos atuais. Será então que o neandertal era a mesma espécie, na verdade? O espaço para especulações é imenso. Na brincadeira com os números, a diferença entre eu e você chegou a 12% em algum jornal - uma transposição selvagem da variação que foi encontrada em 12% dos genes.

Quanto à questão da propensão a doenças, ela ainda é mera especulação. Aposto que se passará muito tempo ainda até que se descubra como - e se - essa variação se manifesta no funcionamento do genoma, e mais ainda até que se avalie seu impacto na saúde das pessoas. Marcelo Leite, em sua coluna na Folha de São Paulo (reproduzida no blogue Ciência em dia - texto "Bíblia de araque", 3 de dezembro de 2006), aproveitou o assunto para reforçar sua cruzada anti-determinismo. Claro, ainda temos muito a descobrir sobre o que há entre a seqüência do DNA e suas manifestações no organismo; mas não há aí nenhuma munição para dizer que o genoma na verdade não tem tanta influência assim sobre nós.

É preciso mais cuidado, ao escrever sobre genes e afins. É muito fácil desinformar. Não consigo deixar de comentar uma notinha na Folha de São Paulo de hoje. Uma análise do DNA em uma amostra de sangue teria provado que o motorista responsável pela morte da princesa Diana tinha bebido muito mais do que o permitido pela lei francesa. Fiquei fascinada: de onde tiraram uma amostra de sangue a esta altura?!?!? E acima de tudo, desde quando o DNA traz informações etílicas?!!! Ufa, o João achou a notícia na BBC: a análise foi feita na época, mas contestou-se que o sangue seria do motorista. Parece que foi isso que a análise mostrou, o sangue era dele mesmo. Já estava preocupada com a cervejinha de ontem à noite escrita nos meus genes...


07 dezembro 2006

Aves da Mata Atlântica


Será lançado hoje em São Paulo o livro acima, na livraria Cultura do Shopping Villa Lobos. Ainda não vi o livro, mas as fotos de Edson Endrigo são sempre lindas e revelam aos olhos esses animais que encantam tanta gente mas são tão difíceis de ver... A riqueza da Mata Atlântica é imensa e merece ser explorada.


05 novembro 2006

Ciência e Saúde com poesia

Quem lê as colunas de Drauzio Varella na Folha de São Paulo já sabe o que esperar desta coletânea de ensaios que acaba de sair pela Companhia das Letras. Quem não lê, terá o prazer adicional da surpresa.

A maravilha desses textos é que eles são absolutamente informativos a respeito de temas científicos e médicos, mas são também muitas vezes de um lirismo que embala a alma.

"A vida na Terra é um rio que começou a correr há quase 4 bilhões de anos, e chegou até você e eu no meio de uma diversidade espetacular: leões, mosquitos, coqueiros, bactérias, algas marinhas e dezenas de milhões de outras espécies". Assim começa o livro, e é por esse rio que Drauzio Varella nos conduz ao longo das mais de trezentas páginas que se seguem.

Alguns textos são cheios de poesia, outros mais pragmáticos descrevem mazelas de saúde e afins. Todos aumentam nosso conhecimento sobre o mundo, sobre o nosso dia-a-dia, sobre o funcionamento do corpo humano. E muito mais.

Tive a sorte de organizar o volume, o que quer dizer que li e reli todos os textos. O mundo ficou mais claro, e seus mistérios mais bonitos. Junto minha voz à do autor: "Com todo o respeito pelos que acreditam ter sido o homem criado por um sopro transcendental, a visão de que a vida surgiu aleatoriamente, há quase 4 bilhões de anos, a partir de moléculas capazes de fazer cópias de si mesmas e que, através da seleção natural, formaram seres tão díspares quanto bactérias, árvores e mamíferos encerra mais mistério e poesia."

Como este texto tem a ver com o tema em discussão na Roda de Ciência, por favor deixe comentários aqui.

01 novembro 2006

1421

Finalmente foi publicado no Brasil o livro 1421 – O ano em que a China descobriu o mundo (Ed. Bertrand Brasil). Da autoria de um oficial reformado da marinha britânica, Gavin Menzies, a obra revoluciona o que se pensava saber sobre as viagens marítimas do séc XV. Para aguçar o apetite basta dizer que talvez não tenha sido james Cook o primeiro a chegar até à Austrália, nem Pedro Álvares Cabral o primeiro a navegar até ao Brasil e muito menos Colombo até...onde mesmo? É muito provável que os chineses tenham chegado primeiro, nas suas viagens de exploração e descoberta ao redor do mundo, entre 1421 e 1423. A Revista Época poupa-me o trabalho de vos contar mais detalhes da investigação detetivesca de Gavin Menzies, publicando este mês uma excelente matéria sobre o livro que pode ser lida aqui.

Já tinha lido o livro há algum tempo, na sua edição lusitana (Dom Quixote, 2004) e é pena que apenas agora esteja disponível no Brasil, sendo o tema relevante para a sua história. O livro poderá ser polémico, mas com certeza fascinante. No final, aceitando a hipótese de 1421, fica a pergunta de como o mundo teria sido diferente se a China não tivesse resolvido abandonar as Viagens devido a várias fatalidades que atingiram o império logo após a armada ter zarpado.

É que a China do então imperador Zhu Di não parecia ter intenção de colonizar, o seu fim era o conhecimento do mundo à sua volta e o estabelecimento de uma rede de comércio mundial mais ou menos “livre”. Pois eu diria que já vamos com quase seis séculos de atraso!

21 outubro 2006

Arte e ciência na roda

Este texto faz parte da discussão de outubro na Roda de ciência: a relação entre ciência e arte.

Entre as muitas abordagens possíveis, acabei chegando ao que busco no meu caminho profissional: falar de ciência com arte, e quem sabe até mesmo falar de arte com ciência.

Me lembrei de um dia de trabalho de campo, quando eu era bióloga em tempo integral. Estava na Patagônia, andando de um lado para o outro com uma antena que captava sinais de coleirinhas instaladas em tuco-tucos - uns roedores subterrâneos de charme inigualável. De vez em quando um deles espiava para fora da toca, dava um grito pra me avisar que estavam de olho em mim. Aquela paisagem fantástica, os bichos que rondavam - lebres, cavalos, guanacos, raposas... e eu ali tentando entender a relação dos tuco-tucos com a natureza. Me ocorreu que o que me fazia ser bióloga era a poesia embutida na vida. Descobri que vinha daí uma certa sensação de peixe fora d'água, não chega a ser um motivo muito acadêmico pra se fazer ciência. Acho que começou aí a estrada que me fez continuar perto da biologia, mas olhando de fora o fazer científico.

Li um texto que adorei na revista piauí, cujo primeiro número está nas bancas. Se chama "A primeira menina do mundo" e conta a história de Salem, que morreu aos três anos de idade há mais de 3 milhões de anos, e teve seu esqueleto encontrado recentemente. O texto é literário. E o texto é científico. É saboroso, conta como se fosse ficção. Mas está tudo ali, todo o contexto e significado científico da descoberta. Fiquei extasiada, pensando que é por aí que quero caminhar.

Não é caminho fácil. Quando me embrenho num assunto científico, volta e meia o texto fica seco e acadêmico. E se tento fugir disso, tem logo ali o precipício da imprecisão. Não é fácil. Mas é delicioso.


Mais sobre o tema no Roda de Ciência
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15 outubro 2006

II Mostra de Ciência no Cinema em Campinas

O Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor), a Faculdade de Educação (FE) e o Museu Exploratório de Ciências da Unicamp convidam para a II Mostra de Ciência no Cinema, entre os dias 16 e 22 de outubro. Neste ano, a Mostra acontecerá em três locais na cidade de Campinas, cada qual com suas sessões: no Museu de Imagem e do Som (MIS), na NanoAventura e no Planetário do Parque Taquaral. A mostra faz parte das atividades da III Semana Nacional de Ciência e Tecnologia e vai abordar questões ligadas à biotecnologia como clonagem humana, melhoramentos genéticos, da transformação do corpo, entre outros. Após cada sessão, haverá um espaço para discussão, com um palestrante convidado. Contamos com a sua participação!

Confira a programação:

Museu de Imagem e do Som (MIS)
De 17 a 19 de outubro
Rua Regente Feijó, 859 - Centro
Sessões às 16h30

*Dia 17 (Terça-feira): Tudo sobre minha mãe. Palestrante convidada: Carolina Cantarino (Labjor-Unicamp).
*Dia 18 (Quarta-feira): A batalha dos vegetais. Palestrante convidada: Susana Dias (Olho/Labjor-Unicamp).
*Dia 19 (Quinta-feira): Código 46. Palestrante convidada: Germana Barata (Labjor- Unicamp).

NanoAventura
De 16 a 20 de outubro
Localizada no antigo Observatório a Olho Nu (Obonu)/ Unicamp
Sessões às 17hs
*Dia 16 (Segunda-feira): Curandeiro da Selva. Palestrante convidada: Senilde Guanaes (Faculdade de Jaguariúna)
*Dia 17 (Terça-feira): Código 46. Palestrante convidada: Marta Kanashiro (CteMe/Labjor-Unicamp).
*Dia 18 (Quarta-feira): Os doze macacos. Palestrantes convidados: Wagner Geribello (PUC-Campinas) e Cristina Bruzzo (Olho/FE-Unicamp).
*Dia 19 (Quinta-feira): A batalha dos vegetais. Palestrante convidada: Flávia Natércia (Labjor-Unicamp).
*Dia 20 (Sexta-feira): Tudo sobre minha mãe. Palestrante convidado: Wencesláo Machado de Oliveira Júnior (Olho/FE-Unicamp).

Planetário/Taquaral
De 21 e 22 de outubro
*Dia 21 (Sábado):
14hs - X-Men 2. Palestrante convidado: Gazy Andraus (ECA-USP).
17hs - A mosca. Palestrante convidado: Edgar Franco (PUC-Minas Gerais).
*Dia 22 (Domingo):
14hs - A batalha dos vegetais. Palestrante convidado: Elenise Andrade (Olho/FEUnicamp).
17hs - Código 46. Palestrante convidado: Antonio Carlos Amorim (Olho/FE-Unicamp).

13 outubro 2006

Visite o passado na Fazenda Pinhal

"A Fazenda Pinhal é um milagre de beleza", me disse Helena Carvalhosa. É verdade, o lugar é mágico. Helena é bisneta do conde e da condessa do Pinhal, que fizeram da fazenda o que ela foi e o que ainda é, e tem a sorte de poder passar lá o tempo que quiser.

Mas a fazenda é também um hotel, onde vale a pena passar nem que seja um fim de semana. O pomar é sensacional, com suas aléias de jabuticabeiras centenárias. A comida deliciosa, com ingredientes em grande parte produzidos ali mesmo. O cuidado com receber se assemelha ao que um livro (disponível nos quartos, para deleite do hóspede) descreve a respeito dos tempos da condessa: travesseiros "optimos", lençóis bordados do melhor algodão. Nada ostensivo, mas um luxo total. No bom sentido.

Enfim, mas não é esse o assunto. A fazenda Pinhal está na origem da fundação de São Carlos, dali saiu a procissão que fundou a cidade. O conde foi quem estabeleceu a ferrovia que passa por ali e foi fundamental para o progresso do interior de São Paulo. É patrimônio histórico tombado pelo Iphan, e faz isso muito bem. Com o intuito de preservar a memória viva para fins de pesquisa e ensino, a fazenda tem associação com diversas universidades e pesquisadores.

Escrevi uma reportagem sobre a maquinaria de beneficiar café, que foi restaurada este ano. Ver funcionar aquela gigantesca máquina do século XIX, feita de madeira e ferro, é emocionante. Tive que ir atrás de saber um pouco mais.

Leia a matéria na Ciência e Cultura.

06 outubro 2006

Olha o passarinho!


Reprodução: Aves brasileiras, Tomas Sigrist

Os amantes de aves estão bem servidos. Há nas livrarias uma proliferação de guias com os quais podem deleitar-se e reconhecer os emplumados que encontram rua afora.

Veja mais no novo número da revista Ciência e Cultura.

18 setembro 2006

As cidades do século XXI

Faz um tempo escrevi sobre transporte sustentável, o que causou uma discussão acalorada com o João Carlos do "Chi vó, non pó".

Estou de férias (daí o sumiço, mas voltaremos), e pelo visto o assunto está muito em pauta aqui na Europa. Fica aqui só um comentariozinho.

Paris está toda em obras. Grande parte delas visa aumentar a área para pedestres em detrimento das ruas, num conceito similar ao defendido por Enrique Peñalosa para Bogotá. Para desespero dos motoristas - o trânsito não está fácil, mesmo. Foram instaladas ciclovias em alguns eixos da cidade, tenho amigos que fazem praticamente tudo de bicicleta. Áreas verdes, corredores de ônibus e um bonde fazem parte do grande projeto de reurbanização.

Li que nos próximos meses 500 voluntários parisienses serão divididos em grupos de trabalho para discutir opções de sustentabilidade para a cidade. Envolve transporte, moradia, uso de energia, reciclagem e tratamento do lixo. No início do ano que vem as propostas surgidas desses fóruns de cidadãos serão analisadas e integradas no plano de ação.

Portugal está estudando formas de impor custos maiores ao uso de carros particulares. Se houver mais pedágios urbanos ou impostos, o deslocamento individual deve tornar-se mais comedido.

O João Carlos achou que eu estava sendo maniqueísta quando escrevi sobre isso, e essas medidas podem parecer autoritárias e inviáveis. Eu mesma tenho um carro e muitas vezes ando nele sozinha. Mas acredito que inviável mesmo é o imenso desperdício (o que é diferente de uso, necessidade) de energia e recursos por parte de cada um de nós. A modernidade possibilita a individualização, que por sua vez virá a tornar nossa vida neste planeta insustentável.

Não sei qual é a solução, mas vou ficar de olho nessas iniciativas. Com certeza haverá algo a aprender com as experiências dos outros países.

20 agosto 2006

Calder no Brasil

Adoro móbiles.

Agora, os do Calder... são um deleite total. São delicados, flutuam de uma forma que parece mágica. Giram, espiam, envolvem. Posso ficar muito tempo olhando, uma conversa.

Como não sou entendida em arte, nas vezes em que vi esses móbiles me limitei a olhar extasiada. E empurrar com a pontinha do dedo nas ocasiões mais especiais, contribuir praquele movimento. Nunca questionei, será arte ou será brinquedo? Quem era esse homem que ganhava a vida fazendo isso?

Agora tenho uma nova perspectiva graças ao livro Calder no Brasil, organizado por Roberta Saraiva e publicado pela Cosac Naify, que será lançado na Pinacoteca de Estado de São Paulo no próximo sábado, dia 26 de agosto. Mas o livro não vem sozinho. A ocasião marca também a abertura de uma exposição de obras de Calder elaborada a partir do trabalho da organizadora do livro.

O livro reúne um texto escrito por Roberta, que pesquisou as passagens de Calder pelo Brasil. O contato do artista norte-americano com este país durou de 1939 a 1975. Adorou o Rio de Janeiro, sobretudo o samba. Fez exposições, fez amigos, foi bem recebido, foi a festas, vendeu trabalhos. Influenciou e foi influenciado.

Essas influências e as discussões que rodearam aquela inusitada expressão artística aparecem em textos da época recolhidos por Roberta. Há diversos, deliciosos, escritos pelo crítico de arte Mário Pedrosa. Aparecem também, entre outros, Jean-Paul Sartre, Henrique Mindlin, Fernando Sabino, Carlos Drummond de Andrade e Ferreira Gullar.

Vale a pena ler o livro antes de ir à exposição. Ou, melhor, sentar nalgum banco da Pinacoteca para ler. Nada mais delicioso do que acompanhar as análises de como Calder utilizava o espaço e inventou uma arte que envolve também o tempo, podendo espiar para fora do livro e ver um móbile flutuar logo ali. Contando sua história também.

O lançamento do livro e abertura da exposição são no dia 26 de agosto, das 11 às 14h.
A exposição fica na Pinacoteca até 15 de outubro.
De terça a domingo, das 10 às 18h.
Praça da Luz, 2 - São Paulo

17 agosto 2006

É possível fazer bom jornalismo de ciência?

O tempo anda escasso, mas a roda tem que girar! E essa pergunta anda como pedra no sapato, queria recolher opiniões sobre ela.

Não tenho dúvidas quanto à importância de se divulgar ciência para o grande público. É muito comum as pessoas, ao saber o que faço (agora jornalismo de ciência, mas era igual quando fazia pesquisa em biologia), me fazerem alguma pergunta sobre uma profunda curiosidade. Algo que viram, algo que pensaram, algo que leram e deixou uma pulga atrás da orelha. As pessoas querem sim saber sobre ciência.

Este ano assisti a uma palestra do biólogo (aposentado) da USP José Mariano Amabis, que falou lindamente (como sempre faz) sobre "O papel do biólogo na educação científica da população". Ele citou Jacob Bronowski, no livro Ciência e valores humanos (1979, Editora Itatiaia): "Qualquer pessoa que abdique do interesse [pela ciência] caminha de olhos abertos para a escravatura".

Segundo Amabis, o biólogo tem papel fundamental em dar acesso ao conhecimento científico e derrubar estereótipos falsos sobre o funcionamento da ciência e sobre a imagem do cientista. Esse papel é desempenhado sobretudo por professores do ensino médio e fundamental. Ele mencionou três ganhadores do prêmio Nobel - Arthur Kornberg (medicina em 1959), Paul Berg (química em 1980) e Jerome Karle (química em 1985), que tinham um ponto comum em sua biografia: uma professora no colégio secundário!

Fora da escola, muito da transmissão do conhecimento científico se dá através de jornais, revistas e televisão. O papel fundamental aí é do jornalista de ciência, seja qual for sua formação.

A meu ver, a formação não é o que mais importa. A maior parte dos jornalistas de ciência em atividade no Brasil se formaram em jornalismo. Por interesse ou circunstâncias, foram atrás de cursos ou leituras para obter embasamento que permitisse escrever sobre ciência. Hoje em dia há cursos de especialização em jornalismo científico, que acolhem pessoas com as formações mais diversas para produzir profissionais capazes de divulgar ciência. Eu acabo de terminar o curso do Labjor, na Unicamp, onde comecei a aprender essa nova profissão. Ainda há muito a aprender, como sempre na vida.

Mas o que é um bom jornalista de ciência? A meu ver, um bom texto é aquele em que a gente bate o olho e precisa ler, os olhos correm e a mente devora aquela informação; que traz idéias e fatos que acrescentem algo ao conhecimento do leitor; que faz o leitor pensar, ter idéias, questionar; com conteúdo equilibrado entre os diversos lados de uma questão. Com certeza pensarei em outros aspectos, mas estes são os que me ocorrem como mais essenciais.

Agora, quantas vezes a gente lê um texto assim? É mais freqüente sermos atraídos pelo título e depois ver no corpo do texto que não era bem assim; ou pior ainda, ir atrás do artigo original e perceber que a mensagem principal foi alterada,
de uma forma ou doutra; ou não passar da terceira linha.

E fico pensando nos erros que eu mesma fatalmente cometi e cometerei. Me entusiasmar por um aspecto da pesquisa e não enxergar o todo; ser convencida por um pesquisador persuasivo e não ver que a discussão envolve outros lados, quem sabe mais corretos; dar mais ênfase do que deveria a algo. Por aí vai. Tá, todo mundo erra. O Marcelo Leite é um dos jornalistas de ciência mais competentes do Brasil, e vez e outra estou eu (e outros) lá no blogue dele protestando porque acho que ele escreveu algo incorreto. Como fazer?

Os blogues têm essa vantagem de permitir a participação de outros, leigos e especialistas. Por isso acredito que tenham um valor imenso em divulgação de ciência - é um espaço onde podemos aprender uns com os outros, e onde leigos vêem através das discussões que não há necessariamente uma verdade única em ciência. Que o conhecimento avança às custas de muitas discussões, de erros e de busca incessante.

Mas não basta. Os leitores de blogues representam uma fração ínfima da população. E mesmo neles, é preciso escrever algo que tenha credibilidade, senão melhor calar-se. Ser bióloga me dá a vantagem de entender com mais facilidade o que leio ou escuto de pesquisadores, dentro da minha área. Por outro lado, quando conheço o tema é difícil não ter opinião - o que pode me levar a ser parcial quando não deveria.

Todos os dias aprendo e busco me aproximar de um bom trabalho. Tenho que acreditar que é possível fazer um bom jornalismo de ciência. Mas tem dias em que o caminho parece tão pedregoso!

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Evolução a sério

Uma dica para quem está em São Paulo. Hoje, entre 4 e 6 da tarde, uma mesa redonda discutirá os "Caminhos da teoria da evolução ontem e hoje: conhecimento científico e expectativa social".

Os palestrantes serão Aldo Mellender de Araújo (UFRGS), Charbel Niño El-Hani (UFBA) e Nelio Bizzo (USP). Não conheço todos, mas promete ser interessante. Confira no convite o tema de cada apresentação.

O debate será na Universidade Presbiteriana Mackenzie: Rua da Consolação, 930.

16 agosto 2006

História da Aids no Brasil

Nos anos 1980 surgiu uma nova epidemia, que veio a ser considerada a maior do século XX. Era a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, ou Aids.

A mídia teve a função de apresentar a doença à população num momento em que ainda se conhecia muito pouco sobre suas formas de transmissão e características. A bióloga, jornalista de ciência e historiadora Germana Barata estudou 26 programas em que o "Fantástico" expõe a Aids a seus espectadores.

Germana mostra que o programa refletiu preconceitos e medos que já prevaleciam no inconsciente coletivo, postos em palavras muitas vezes pelos próprios médicos entrevistados. Declarações e imagens reforçaram o preconceito contra a doença que atacava homossexuais e dependentes de drogas, além de exacerbar o medo quanto à transmissão da doença.

A dissertação "A primeira década da Aids no Brasil: o Fantástico apresenta a doença ao público (1983 a 1992) está disponível no banco digital de teses da USP.

08 agosto 2006

Mesa à brasileira

Agora é possível saber a composição nutricional da comida brasileira. A informação está na tabela produzida sob a coordenação do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Alimentação da Unicamp.

Foto: Miguel Boyayan
Mais na reportagem que acaba de sair na revista Pesquisa Fapesp.

05 agosto 2006

Ciência e raças humanas

Comento o artigo de opinião do médico, geneticista e professor titular da Universidade Federal de Minas Gerais Sérgio Danilo Pena, sobre “Ciência, bruxas e raças”, na Folha de São Paulo (com acesso aberto no Jornal da Ciência) da passada quarta-feira 2 de agosto.

Interessou-me especialmente a ciência prometida pelo título, mas o seu peso no texto era frustrante: 56 de um total de 716 palavras! Esclareço previamente que li com prazer a quase totalidade das restantes 660 palavras do artigo que não concernem à ciência, e que não comentarei. O artigo começa assim:

“Do ponto de vista biológico, raças humanas não existem. Essa constatação, já evidenciada pela genética clássica, hoje se tornou um fato científico irrefutável com os espetaculares avanços do Projeto Genoma Humano. É impossível separar a humanidade em categorias biologicamente significativas, independentemente do critério usado e da definição de "raça" adotada. Há apenas uma raça, a humana.”

Verifiquei, lendo o resto do texto, que Sérgio Pena pretendeu usar uma verdade científica para “instruir a esfera social”, estabelecendo uma analogia com a perseguição da bruxaria nos sécs. 16 e 17. Lê-se no sétimo parágrafo da edição impressa:

“Analogamente [à revolução científica no séc. 17, que tornou impossível a crença continuada em bruxaria], o fato cientificamente comprovado da inexistência das "raças" deve ser absorvido pela sociedade e incorporado às suas convicções e atitudes morais.”

Penso que esta afirmação encerra uma armadilha perigosa que tento revelar com a pergunta que deixo no final do texto.

O tema da realidade biológica das raças humanas é complexo e, ao contrário do que Sérgio Pena afirma, não existe uma opinião consensual sobre a questão na comunidade científica. O debate está longe de estar encerrado. O facto concreto que consubstancia a minha afirmação é sumariamente relatado abaixo.

Em 2003, realizou-se um encontro no National Genome Center at the Howard University em Washington D.C. com o título “Human Genome variation and ‘Race’: The State of the Science”, congregando peritos nas áreas de sociologia, antropologia, história e genética, para quebrar um ciclo de décadas de discussões emocionais e pouco científicas sobre a conexão entre genética e raças humanas.

Francis Collins assinou em 2004 um artigo na revista Nature Genetics 36, Supplement com algumas conclusões resumidas desse encontro em 2003. Todos os outros artigos deste suplemento especial da revista são interessantes e estão acessíveis no link acima. Transcrevi um excerto do artigo de Collins entitulado “What we do and don’t know about ‘race’, ‘ethnicity’, genetics and health at the dawn of the genome era”. Transcrevo os seguintes trechos:

"Is race biologically meaningless?

First, it is essential to point out that ‘race’ and ‘ethnicity’ are terms without generally agreed-upon definitions. Both terms carry complex connotations that reflect culture, history, socioeconomics and political status, as well as a variably important connection to ancestral geographic origins. Well-intentioned statements over the past few years, some coming from geneticists, might lead one to believe there is no connection whatsoever between self-identified race or ethnicity and the frequency of particular genetic variants [1,2]. Increasing scientific evidence, however, indicates that genetic variation can be used to make a reasonably accurate prediction of geographic origins of an individual, at least if that individual’s grandparents all came from the same part of the world [3]. As those ancestral origins in many cases have a correlation, albeit often imprecise, with self-identified race or ethnicity, it is not strictly true that race or ethnicity has no biological connection. It must be emphasized, however, that the connection is generally quite blurry bacause of multiple other nongenetic connotation of race, the lack of defined boundaries between populations and the fact that many individuals have ancestors from multiple regions of the world.

In that vein, the National Human Genome Research Institute convened a Roundtable on Race, Ethnicity, and Genetics on 8-10 March 2004, which was attended by a wide range of thought leaders in genetics, anthropology, sociology, history, law and medicine. A report of that meeting is being prepared for publication. The National Human Genome Research Institute is also sponsoring a consortium of funded investigators, known as the Human Genetic Variation Consortium, which is striving to address many of these unanswered questions.
"

Recentemente fui convidado por uma jornalista a expressar a minha opinião de especialista (biologia evolutiva) sobre a realidade biológica das raças humanas. Hesitei porque a diversidade biológica das populações humanas não é o meu objeto de estudo. O meu conhecimento científico dessa realidade resulta mais da leitura crítica de bibliografia científica e material de divulgação sobre a matéria. Por outro lado, a minha especialidade é exatamente o estudo da diversidade biológica (genética e fenotípica) e da sua distribuição (filo)geográfica, das interações genéticas e ecológicas entre populações diferenciadas (hibridação sensu lato e miscigenação), e de processos de especiação. Aceitei o convite.

Decidi aplicar os mesmos critérios de análise biológica que tenho aplicado a outros objetos biológicos (anfíbios) a dados de diversidade genética e fenotípica conhecidos para populações humanas. Explicitarei o meu pensamento detalhado noutra altura. Aqui apenas quero afirmar que não foi fácil chegar a uma conclusão dada a complexidade da realidade biológica. Os dados tanto podem ser usados para apoiar a realidade biológica de raças humanas como usados para concluir que a divisão da humanidade em raças não é a melhor forma de descrever a distribuição da sua diversidade genética. No final, escolhi este último caminho como aquele que é mais coerente com o meu percurso científico conceptual. Só que o meu percurso, a minha forma de ver o mundo como um conjunto de continuidades mais ou menos descontínuas está apenas a um passo de outra forma de ver o mundo, como um conjunto de descontinuidades mais ou menos contínuas. É um simples problema de iluminação de gradientes e de fractais. Lembram-se do fractal? Pois aí está, essa minha visão de mundo resulta da análise de gradientes espaço-tempo em realidades quasi-fractais.

A minha frustração com a comunicação de ciência do cientista Sérgio Pena resulta da aparente leveza da sua abordagem, dando a entender que a verdade anunciada é natural e insofismável perante os dados disponíveis. Mas a análise dos dados disponíveis sobre a diversidade genética humana levanta mais questões do ponto de vista biológico do que aquelas que permite responder. Claramente é necessária mais informação para iluminar os vários debates que se desenham no futuro. Estamos longe ainda de qualquer verdade científica! Assim sendo, penso que a comunicação da ciência à sociedade deveria ser, ou pelo menos parecer, mais rigorosa e cuidadosa.

Termino com uma pergunta a Sérgio Pena. Se surgisse algum dado novo que fizesse pesar o prato da balança em favor da realidade biológica das raças humanas, de que modo deveria essa verdade científica “instruir a esfera social”? Ou não deveria?

Proponho que se debata este tema um dia na(o) Roda de ciência.


Os desenhos do Mazen

Beirute não chorará

Outro dia mencionei o Kerblog, que a cada dia me impressiona. Ontem (que lá já era hoje) ele escreveu um texto que me deixou sem fôlego - sua resposta a um jornalista israelense que queria entrevistá-lo.

Nos comentários, dezenas e dezenas de pessoas do mundo todo manifestam carinho e desejo de fazer algo. Parece que há mensagens de ódio também, que ele apaga. Não vi.

Achei linda uma iniciativa que vi nos comentários. Paul Keller, do blogue "meanwhile...", imprimiu os desenhos de Mazen em folhas A4 e saiu colando por Amsterdam. Veja aqui as fotografias.

Imagino as pessoas em sua vida normal, dando de cara com as imagens no caixa eletrônico. Deve surtir algum efeito. Keller tem em seu blog um linque para quem quiser baixar os desenhos e seguir seu exemplo.

04 agosto 2006

Está no ar o roda de ciência!

Caros amigos, membros ou não do "Roda de ciência" - o novo blogue já está no ar e pronto para começarmos. Para quem chegou agora e não sabe do que se trata, veja aqui.

Está lá um texto de apresentação, temos agora que decidir qual será nosso primeiro tema. Cabeças e mãos à obra!

03 agosto 2006

Roda de ciência

É interessante como a possibilidade de juntar mentes gera novas idéias. É o que acontece com a pequena mas crescente comunidade bloguística lusófona (eu ia pôr brasileira, mas tem o Caio de Gaia que freqüenta estas paragens) para assuntos científicos e afins.

Há um tempo atrás, a Ana Cláudia do Via Gene deu uma sugestão que achei interessantíssima, mas que até onde sei ficou esquecida. Vou copiar o que ela escreveu numa janela de comentário de seu blogue:

…enquanto o tal “super-blog” não é uma realidade, poderíamos combinar alguns “dias temáticos”, tipo assim: a gente elege um tema (“fuga de cérebros” por exemplo) e cada um “viagene”, “semciência”, “ciência&idéias”, “its equal but…”, “gluon”, “pordentrodaciência”, etc) publica um “post-livre” sobre o assunto (experiência própria, opinião, entrevista, perspectiva, prós e contras (estilo SIM e NÃO - da Folha de SP), crítica de algum artigo/opinião, etc.). Parecido com seus fóruns (era em referência ao Osame), mas um formato diferente: poderia ser 1 tema por semana ou a cada 15 dias (de quarta-feira, por ser o dia de maior acessos de blogs/internet). Imagino que isso seria uma inovação (eu acho, se bem que já devem ter feito de tudo em termos de internet e blog…) e ao mesmo tempo uma maneira de aproximar nossos blogs de ciências elegendo um dia-temático.

A idéia ficou no ar. Hoje a Silvia do Pitáculos em Ciências me sugeriu que eu escolhesse um tema e levasse adiante o projeto da Ana. Conversei então com o João, o deste blogue, e ele lapidou ainda mais a idéia.

Seria assim: a gente faz um outro blogue, que sugerimos que se chame "Roda de ciência". Ele concentrará o simpósio da semana, da quinzena, do mês ou o que decidirmos. Cada um dos participantes porá nesse blogue
uma chamada (um resuminho) com linque para seu próprio blogue, onde estará o texto completo sobre o tema escolhido. Assim organizamos o simpósio e ao mesmo tempo reunimos essa rede blogueira.

O que vocês acham - Ana Cláudia, S
ilvia, Osame (que anda misteriosamente sumido), João Carlos, Daniel, Suzana, João Giovanelli, Caio... e outros blogueiros que eu tenha esquecido ou que freqüentam esta praia sem se identificar?

Vamos fazer assim: ponham nos comentários o que acham da idéia, além de sugestões para o primeiro tema de debate. E vamos lá!
(A imagem eu peguei aqui)

Imagens do Líbano

Imagens de guerra estão todos os dias nos jornais.
Estas imagens são outras. Mazen Kerbaj, do Kerblog, põe em desenhos seus sentimentos. E põe os desenhos em seu blogue
, diretamente de Beirute - quando há luz.
O primeiro texto é de 14 de julho. Diz que há dois anos enrolava para começar seu blogue. Quando Israel começou a bombardear seu país, restou pouco além de blogar.
Os desenhos são fortes, o (pouco) texto também. Os comentários, inúmeros.
Ele diz que seu blogue não é político, mas sua intenção é acordar o mundo, para que mais e mais de nós digamos não à guerra.